A Copa de 2018 e as lições, futebolísticas ou não, que o brasileiro insiste em não aprender

É fato por todos conhecido a essa altura, até mesmo pelos odiadores, com ou sem boas razões, do futebol, a eliminação da seleção brasileira ontem, 06 de julho de 2018, contra a forte seleção belga – injustamente ironizada e tripudiada por alguns tolos sedizentes defensores do “futebol raiz”, o que quer que isso signifique – nas quartas de final da Copa do Mundo de 2018.

Assim como em qualquer derrota, também em 2018 podemos já ver uma  clara divisão entre os amantes de clichês os mais ocos, isto é, aqueles que acreditam na vitória em 2022 por causa do “peso da camisa”, do fato de o Brasil ser um “celeiro de craques” ou qualquer outra platitude futebolística do tipo, e os adoradores do caos e da desordem, isto é, aqueles que nada veem de bom no trabalho feito por Adenor Leonardo Bacchi à frente da seleção brasileira até agora, querendo mudanças súbitas e impactantes as quais, segundo eles, levariam o Brasil a novas taças independente dos adversários a serem encarados.

Este blogueiro, no entanto, pertence a um terceiro grupo, o dos que não creem ser necessário jogar tudo o que foi feito até o momento fora, mas que veem a necessidade mais do que urgente de se tirar lições não apenas da derrota para a Bélgica de Lukaku, De Bruyne e Hazard, mas também dos 7 a 1 contra a Alemanha de Neuer e cia em 2014, dos 2 a 1 de virada contra a Holanda de Robben e seus “blue caps” em 2010 (ou, neste caso, “orange caps”) e do 1 a 0 vergonhoso contra a França de Zidane e Henry em 2006.

Essas lições, é claro, são majoritariamente futebolísticas, mas, ao discuti-las, perceberemos que boa parte delas envolvem muito mais do que apenas futebol, se é que falar em “apenas futebol” é possível para qualquer fã de futebol que se preze. Vamos a elas.

O clima de já ganhou é sempre um erro. SEMPRE.

Tal como ocorreu em outras Copas do Mundo, houve quem acreditasse piamente no título da seleção brasileira antes mesmo de qualquer jogo, o que gerou comentários os mais estapafúrdios internet afora.

A então campeã Alemanha, com uma nova geração e com ótimos remanescentes de 2014 e dos históricos 7 a 1, como Toni Kroos, Khedira e Thomas Muller? Que venha nas oitavas mesmo, pois “queremos revanche”! A perigosa França de craques como Mbappé e Griezmann? Não dá nem para o cheiro contra o “menino Ney” e nossos “heróis”! A Inglaterra do matador Harry Kane? Ora, mas essa só pipoca, não passa nem da fase de grupos! A Bélgica de Lukaku e cia? Obviamente, nada mais é do que uma “fantástica geração belga” superestimadíssima por gente que só assiste aos programas da ESPN e que nada entende do futebol como este realmente funciona.

Como quase sempre, no entanto, o brasileiro médio viu sua seleção não jogar tanto quanto se esperava, apesar de ter jogado um futebol razoável durante a Copa, sendo um conjunto bem melhor do que o de quatro anos antes, e, simultaneamente, via outras seleções mostrando a fome de vencer, mesmo tendo passado por alguns apertos em jogos específicos.

No fim, apesar de a Alemanha de fato ter decepcionado nesta Copa os amantes do futebol bem praticado, em especial pela derrota e subsequente eliminação vexatória contra a esforçada Coreia do Sul, todas as outras seleções, mesmo as que pararam em fases anteriores ao Brasil, mas em especial as supracitadas (que já superaram o Brasil nesta Copa independente do que lhes aconteça nos próximos jogos), legaram a nós a seguinte lição importantíssima: não existe mais bobo no futebol, a não ser pelo torcedor brasileiro que, prepotente, arrogante e iludido em relação às reais possibilidades da sua seleção e das outras envolvidas no certame, cai no clima de “já ganhou!” e se surpreende quando o resultado é outro.

Foi assim em 1950, na primeira Copa sediada em terras brasileiras, quando o exímio goleiro Barbosa, um dos maiores injustiçados da história do esporte mundial, carregou praticamente sozinho a culpa por “ter feito o Brasil perder” para uma seleção uruguaia que ainda é tida por muitos como bem inferior ao que de fato era, mesmo não sendo superior ao escrete brasileiro de 1950.

Foi assim em 1982, quando milhões de brasileiros e de brasileiras ficaram em choque quando o bem organizado e cascudo time italiano de Gentile, Paolo Rossi, Dino Zoff e outros tirou a amplamente favorita seleção brasileira da Copa do Mundo de 1982, na Espanha, aplicando 3 a 2 em um time que, se exibia virtudes ofensivas praticamente inigualáveis no período posterior àquela competição, pagou o preço por ter sobrecarregado o setor defensivo, deixando-o excessivamente exposto a Paolo Rossi em um dia inspirado.

Foi assim, até mais intensamente, em 2014, na segunda Copa sediada em terras brasileiras, quando, entre os que acreditavam em “Copa comprada” e os que realmente acreditavam na capacidade do time (?) montado (??) por Luiz Felipe Scolari (e nesse grupo, confesso, eu estava incluso), todos deram como líquida e certa a sexta taça na galeria brasileira, mas o que viram foi o hexa…o hexa +1 aplicado pelos cirúrgicos alemães, esses sim uma seleção na melhor acepção da palavra.

A pergunta que resta, pois, é: até quando continuará sendo assim? Quando o torcedor brasileiro, quer o fanático por futebol, quer o que só acompanha os jogos da Copa mesmo, no mínimo tentará enxergar valor nos adversários e desconfiará que, talvez, mas só talvez, o “já ganhou” seja sempre uma furada?

Já passou da hora de a imprensa esportiva ser devidamente cobrada

Deve-se frisar, porém, que o torcedor brasileiro em si não foi o único a cantar em verso e prosa como vencedora e imbatível uma seleção bem organizada e talentosa, mas razoável dentro do campo. Aliás, mais ainda: perto do que fez a imprensa esportiva, o clima de “já ganhou” entre os torcedores brasileiros é brincadeira de criança, no máximo.

Sim, meus amigos, falo daqueles mesmos que, em vez de fazerem o trabalho sério de procurarem as vulnerabilidades da seleção e os possíveis erros de escalação de Tite, preferiram adotar a cobertura mais chapa-branca possível na história recente da seleção brasileira em Copas. Houve, por exemplo, comentaristas defendendo, entre o humor barato e o pachequismo imprudente (*cof cof*, Esporte Interativo, *cof cof*), que quaisquer críticas a Neymar, a Tite ou ao time em si deveriam ser reservadas para depois da competição, pois “papel do torcedor é apoiar os 90 minutos”, como se críticas não pudessem também ser uma forma de mostrar justamente a vontade do torcedor de ver sua seleção triunfando.

Falando, aliás, dos prometidos protagonistas dessa Copa, a cobertura dada pela imprensa em geral a Tite e a Neymar chegava a um servilismo vergonhoso, sendo que até mesmo comentaristas com uma visão tática privilegiada, melhor que a de vários técnicos por aí, passaram a encontrar desculpas as mais variadas para justificar as bizarras teimosias de Tite, tentando nos persuadir com argumentos os mais indignos possíveis a aceitarmos tudo como se obra de um gênio incompreendido fosse.

Da mesma maneira, também outros comentaristas, estes mais conhecedores de como a vida em si funciona, não hesitaram um segundo sequer para acusar quem cobrava de Neymar um jogo mais voltado ao coletivo, e não às próprias vaidades futebolísticas, de estar querendo ensinar um craque a jogar bola, como se “craque” e “perfeito” fossem sinônimos, como se até mesmo os maiores gênios do futebol (bem maiores do que Neymar, aliás) não tivessem tomado decisões visivelmente equivocadas dentro das quatro linhas durante a carreira e como se o camisa 10 do PSG fosse uma espécie de símbolo sagrado do futebol, tornando-o imune às críticas dos que não tenham praticado esse esporte profissionalmente.

Faltou, pois, a coragem que só vi (e o elogio aqui deve ser feito) na ESPN, emissora cujos comentaristas desde sempre elogiaram as virtudes de Tite e a habilidade de Neymar e de outros jogadores, mas igualmente desde sempre apontaram o que consideravam errado no caminho canarinho em 2018. Se suas análises são mais ou menos válidas, essa é outra discussão, mas fato é que fizeram o que boa parte da imprensa esportiva brasileira, seja por medo, seja por empolgação quase ufanista, recusou-se a fazer: jornalismo futebolístico de real qualidade.

Quando assisto a meus programas esportivos favoritos, mesmo os mais bem humorados, quero não uma análise sempre agradável aos cartolas, ao técnico e aos jogadores de meu time, e sim críticas bem embasadas, quer para o positivo, quer para o negativo. Se penso assim em relação a meu time, nada mais coerente do que exigir o mesmo em relação à seleção de meu país, em especial quando esta vem de vergonhosos 7 a 1 e de um jejum de 16 anos sem sequer ir à final de uma Copa. Se a imprensa nos oferece isso em ambos os casos, deve ser elogiada. Se não oferece, precisa ser cobrada, e, no caso da seleção brasileira, essa cobrança já passou da hora de ser feita.

A Bélgica foi superior ao Brasil, e sermos maiores do que eles em termos de títulos é irrelevante atualmente

Sim, o Brasil foi eliminado por uma seleção superior à nossa, se não em absoluto, pelo menos nos 90 minutos mais importantes, e admitir isso é o primeiro passo para a maturidade em termos futebolísticos.

Cansei de ler indivíduos afirmando que a Bélgica “não jogou bola”, que os belgas renunciaram ao jogo no segundo tempo, que Fernandinho eliminou o Brasil, pois a Bélgica não teria time para isso, entre outros absurdos que só mesmo o torcedor brasileiro, quer o homem comum, quer  até mesmo alguns membros da imprensa, poderia proferir.

Essas falas só provam, porém, os óbvios ululantes de que pouco entendemos do futebol como ele de fato funciona, de que somos excessivamente hipócritas ao analisarmos os resultados (pois, tivesse o Brasil ganhado adotando a estratégia belga, teria sido uma tacada de mestre de Tite, e não uma retranca inaceitável) e, principalmente, de que qualquer coisa nos servirá como desculpa para não admitirmos termos sido superados por qualquer outra seleção pelas vias pertencentes ao futebol.

Por exemplo, em 1982, não houve mérito da Itália, e sim retranca italiana e erros inaceitáveis e insuperáveis do árbitro. Em 1986, não era a França superior, mas Zico perdeu um pênalti imperdível, e Carlos, o goleiro daquela seleção brasileira, era azarado. Em 1990, Lazaroni convocou errado e montou mal o time. Em 1998, a França comprou a Copa. Em 2006, era a falta de pulso de Parreira. Em 2010, a teimosia de Dunga e a “absurda” não convocação de Neymar e Ganso. Em 2014, foi um “acidente histórico”, como diria o grande craque, mas péssimo comentarista, Rivaldo. Em 2018, faltou Casemiro e sobrou Fernandinho.

Em face disso, pergunto-vos: o que será em 2022? Alguma seleção comprará a Copa? O fato de a Copa ser em dezembro impossibilitará o Brasil de jogar seu melhor futebol? A arbitragem estará contra? Haverá complô da FIFA para impedir o Brasil de levantar mais um Mundial? O grande craque da seleção será pipoqueiro ou será contundido antes do jogo decisivo? Qual será a nossa desculpa para não admitirmos o óbvio, isto é, que uma seleção pode ser superior à nossa e que com ela podemos ter algo a aprender?

Além disso, até quando usaremos como consolo e muleta o fato de sermos “os únicos penta” e, portanto, “os maiores de todos”? Até quando nos contentaremos a poucas taças na galeria de nossa seleção, a uma Copa das Enganações, ops, digo, das Confederações aqui, outra seleção jogando futebol razoável ali? Até quando nos conformaremos com a derrota sem explicitamente dizê-lo?

O futebol é coletivo, mas passar vergonha, em geral, é individual

Por fim, não faltaram, nesta Copa, motivos de vergonha para o Brasil fora de campo. Não falo nem dos mentecaptos que ficaram constrangendo russos a falarem palavras de baixo calão para o mundo ver e ouvir na internet, pois esses, para merecerem um tapa na cara que seja, precisam melhorar muito ainda.

Falo, na política, tanto dos lamentáveis esquerdistas que, como sempre, aproveitaram para fingir mostrar algum apreço por futebol feminino e por outras modalidades esportivas sobre as quais eles provavelmente nada entendem, pois desprezam o esporte em geral como uma agremiação inútil de celerados, como dos conservadores que, também como sempre, aproveitaram para passar vergonha ao escreverem artigos parabenizando a Islândia por derrotar a “poderosa seleção argentina” – mostrando como também sequer ligam para futebol, esporte tão adorado pelo povo brasileiro que dizem defender dos “esquerdistas malvados”, pois qualquer um que ligue no mínimo hesitaria em rotular o escrete argentino de 2018 como algo além de um bando em campo, quem dirá como “seleção poderosa que certamente alcançará resultados expressivos contra as potências do futebol mundial” – ou ao lançarem “tweets”  politizados raivosos contra os belgas, ou, como disseram, contra “o epicentro do globalismo no mundo”, como se competência futebolística fosse anulável por problemas políticos.

Falo, no âmbito do futebol, dos milhares de canalhas que, após a derrota brasileira, encontraram no bom meio-campista Fernandinho o alvo perfeito para liberarem suas frustrações e suas sandices, culpando-o pela derrota, como se o futebol não fosse um esporte coletivo no qual os 11 jogadores e os outros integrantes de um time são todos responsáveis, ainda que alguns em medida um tanto maior, quer pelas vitórias, quer pelas derrotas.

Esses sujeitos, para não usar termos mais forte, certamente acreditam na papagaiada de não termos levado a Copa de 1950 por culpa de Barbosa. Esses sujeitos certamente culpam Cerezo pelo fracasso de 1982, como se o Brasil não tivesse feito um gol após uma falha comum possível de ser cometida mesmo por um ótimo volante. Esses sujeitos certamente acham que, fosse outro o goleiro em 2010 que não Júlio César, o então melhor do mundo na posição, o burocrático Brasil de Dunga levantaria a taça, ou no mínimo não teria saído nas quartas.

Para esses sujeitos, meus amigos, eu só digo uma coisa: o futebol é coletivo, mas passar vergonha é individual e é uma escolha. Não sejamos nós, pois, batedores de palma para essas pessoas dançarem. Não sejamos nós, pois, os defensores do atraso em que se encontra o futebol brasileiro, apesar de a seleção de 2018 ser obviamente superior à de 2014. Não sejamos nós, pois, mais merecedores de 7 a 1 do que viemos sendo.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não havia dito, mas sempre achou o novo grito da torcida brasileira (o do Romáriô e do Fenomenô) e o novo mascote (o tal Canarinho Pistola) mais valorizados do que deveriam. Ainda é um bobo que espera ver bom futebol na seleção brasileira em 2022, mas não sabe até quando persistirá na bobice.

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Eu, Apolítico – O que poderá significar a decisão de Bolsonaro de não participar de debates no primeiro turno das Eleições 2018?

Não é segredo para alguém minimamente consciente sobre o atual panorama político brasileiro (ou mesmo para alguém com acesso às redes sociais e aos “memes” nestas abundantes) que, há alguns dias, o presidenciável Jair Bolsonaro anunciou sua decisão de não participar dos debates do primeiro turno, promovendo, no horário desses debates, bate-papos via internet com seus eleitores.

A reação da internet, após essa declaração, foi até um tanto boba, pois tudo o que foi feito, em grande parte das páginas e dos sites sobre política, foi criar os famigerados “memes” sobre essa situação, como se o humor barato da “zueira” fosse a melhor forma de fazer análise política. No mais famoso deles, acusa-se Bolsonaro de incoerência, pois, apesar de o deputado federal do Rio de Janeiro constantemente afirmar que “o soldado que vai à guerra e tem medo de morrer é um covarde”, ele próprio teria sido pusilânime ao fugir de debates, ou seja, dos equivalentes políticos às batalhas em uma guerra.

Fora o fato de esse tipo de incoerência não necessariamente ser o fator a impedir um presidenciável de ganhar eleições, vide a campanha de Dilma, em 2010, quando esta, mesmo sendo notoriamente favorável à legalização do Aborto (tema muito mais caro aos brasileiros do que os debates eleitorais), renunciou publicamente a esse posicionamento em nome de uma politicamente lucrativa parceria com a chamada “bancada evangélica”, o problema é que qualquer análise baseada puramente em “memes” de internet tende a ser tola, infantil, bizarra e incompleta, o que é totalmente inadequado para questões de relevância nacional a curto, médio e longo prazos.

Para evitar, pois, tamanha falta de seriedade e de responsabilidade na análise política, cabe-nos colocar em pauta a seguinte questão: o que poderá significar essa decisão do deputado federal do Rio de Janeiro de não participar dos debates do primeiro turno das Eleições 2018?

Primeiro, é possível afirmar que toda a análise desse caso depende de uma espécie de tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples. Muitos eleitores de Bolsonaro, afinal, para defender esse movimento político do “mito”, vêm alegando que Lula, em 2006, e Dilma, em 2010, também não teriam participado de debates no primeiro turno (Dilma, na verdade, chegou a participar de alguns), o que os leva a pensar que adotar esse mesmo movimento, independente de o que mais seja feito durante a campanha, levaria o presidenciável automaticamente ao posto executivo mais importante do Brasil em janeiro de 2019.

O caso, no entanto, é que, ao contrário do que pensam os eleitores de Bolsonaro, evitar os debates não foi sequer o principal elemento da estratégia política do PT para as eleições de 2006 e 2010, e sim uma parte integrante, mas talvez não essencial (no caso de Lula), dessa estratégia.

Ora, amigo leitor, pensemos em conjunto: fôssemos nós os responsáveis pela campanha de algum candidato considerado favorito em todas as pesquisas eleitorais, ou mesmo em grande parte delas, por que o forçaríamos a se expor a diversos debates com candidatos com 1% das intenções de voto, em especial se sabemos que nosso candidato defende pessoalmente ideias consideradas polêmicas (Lula e Bolsonaro) ou não tem habilidades retóricas as melhores (Dilma e Bolsonaro), arriscando-nos a perder alguns votos em algum golpe de mestre de outro candidato? Não seria melhor, neste cenário, deixar os outros candidatos se digladiando enquanto preparamos nosso presidenciável para debater com um candidato em específico, já conhecendo profundamente suas estratégias e até sua linguagem corporal?

Mais ainda: por que deixaríamos nosso candidato, por melhor que seja seu desempenho nesses debates do primeiro turno, fornecer qualquer material a nossos adversários, posto que é prática comum na democracia a exposição distorcida ou não dos discursos de um candidato em um debate pela campanha de outro candidato? Por que igualaríamos a disputa ao invés de dar à nossa campanha a vantagem de usar contra os candidatos mais próximos ao nosso o material que eles nos forneceriam em debate?

Em suma, por que perderíamos a chance de, pelo menos nos primeiros debates do segundo turno, termos uma espécie de “elemento-surpresa” a nosso favor, em especial se a postura de nosso candidato em debates for absolutamente desconhecida pelos outros comitês de campanha? Por que não usar o tempo que perderíamos preparando nosso candidato para debates inócuos e possivelmente pouco influentes no resultado final das eleições (se nenhuma anormalidade ocorrer) para preparar, na verdade, uma campanha capaz de desconstruir os outros candidatos eficientemente?

Se for esse o pensamento de campanha de Bolsonaro, um pensamento bastante estratégico, focado em resultados e não em “mitadas”, ainda que a estratégia seja muito arriscada (pois a vantagem real do presidenciável do PSL pode ser menor do que a das pesquisas, sendo até possível que ele nem sequer seja realmente amplo favorito como pode parecer), sua possível eficiência parece compensar, e muito, os riscos, pois o hoje deputado teria amplas possibilidades de colher bons frutos políticos no futuro.

Como mencionado anteriormente, no entanto, toda essa análise depende da tensão entre a estratégia política e a superstição pura e simples, e é necessário relembrarmo-nos disso à medida que, pelo menos nos últimos anos, Bolsonaro e seus “blue caps” não têm demonstrado grande preocupação com estratégia política efetiva, pois, em diversas ocasiões, o deputado não se esquivou de polêmicas desnecessárias que, de uma forma ou de outra, acabaram por queimar sua imagem com uma parte considerável do eleitorado.

É lógica a possibilidade de essa parcela do eleitorado já ter pouca boa vontade com o deputado federal do Rio de Janeiro, mas fato é que, dos atos políticos de Bolsonaro, podemos extrair não a disciplina tática e a coerência estratégica esperadas para o bom uso da tática do esquivo de debates no primeiro turno, mas sim uma espécie de confiança supersticiosa justamente na força de suas famosas “mitadas” (ou “lacradas de direita”, diriam alguns) como elemento mais do que suficiente para ganhar uma eleição, o que tornaria essa “fuga” aos debates não parte de uma sofisticada estratégia, mas mais uma superstição completamente desconectada de qualquer ação politicamente bem orquestrada.

Nesse caso, o elemento complicador para Bolsonaro não seria nem tanto a sua recusa em participar dos debates, e sim a capacidade política de seus adversários para desconstruí-lo usando também essa recusa como um elemento de desconstrução e de assassinato de sua reputação enquanto político. Nesse sentido, o deputado e seus correligionários devem lembrar-se do mais importante: se subestimarem os oponentes e não agirem estrategicamente, seus adversários agirão e poderão reverter, mesmo com dificuldade, a aparente vantagem considerável de Bolsonaro no período pré-eleitoral.

Afinal, como Bolsonaro e qualquer militar que se preze devem saber, subestimar o inimigo é, muitas vezes, o primeiro passo para a derrota, em especial se este inimigo for um partido que tenha vencido as últimas quatro eleições, em especial as últimas duas, em grande parte graças a seus movimentos táticos magistralmente organizados, ainda que moralmente questionáveis.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Tem consciência de que suas análises políticas podem ser mais furadas do que queijo suíço, mas pelo menos nunca foi pego chamando a Seleção Argentina de 2018 de “poderosa” e “perigosíssima” em textos por aí, muito menos fazendo torcida no lugar de análise política.

Algumas considerações (iniciais) sobre o estudo de Adolfo Sachsida e Thaís Waideman sobre os efeitos da Lei 11684/2008 no Ensino Médio no Brasil

Vem causando muita polêmica nas redes sociais um estudo, ainda a ser divulgado, sobre os efeitos da Lei 11684/2008, a que tornou Filosofia e Sociologia disciplinas obrigatórias no currículo do Ensino Médio brasileiro, na aprendizagem de Matemática e de outras disciplinas por parte dos estudantes desse ciclo de ensino. Escrito por Adolfo Sachsida e por Thaís Waideman Niquito, ambos pesquisadores do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), e repercutido pela Folha de São Paulo, o artigo defende a inclusão dessas disciplinas no rol das obrigatórias como um fator para explicar a queda de desempenho dos alunos, em especial daqueles de escolas com menos recursos, nas disciplinas de Exatas, sendo as provas do ENEM de 2012 o corpus adotado pelos autores para essa pesquisa.

Mais interessante para a análise do que a reportagem do sempre sonífero periódico paulistano, até porque qualquer coisa é, quase sempre, mais interessante do que as reportagens da Folha de São Paulo, no entanto, é um texto postado no Facebook pelo próprio professor Sachsida com esclarecimentos sobre sua pesquisa, explicando melhor as premissas do estudo, os métodos utilizados na produção deste e as conclusões alcançadas pelos pesquisadores.

Convém, antes de tudo, esclarecer que, até por não ser esquerdista ou ultraesquerdista, não partirei aqui da premissa de qualquer dos autores nutrir ódio pela Filosofia e pela Sociologia ou desejar o fim da obrigatoriedade dessas disciplinas porque elas conscientizariam os alunos sobre os males de nossa sociedade ou alguma justificativa demagógica do tipo.

Os motivos dessa minha escolha são simples: além de eu não ter provas cabais de ser essa a real motivação do estudo – ou seja, para mim, qualquer especulação dessa natureza não passaria de desonestidade intelectual com fins políticos e de irresponsabilidade no tratamento de questões educacionais, o que me parece inadmissível para qualquer profissional dessa área -, considero a defesa à Filosofia e à Sociologia com base nas justificativas apontadas acima um tanto infantil, até porque, mesmo se fosse totalmente verdadeira essa conscientização, ainda me incomodaria muito esse viés da educação como redentora dos pecados e dos defeitos de uma sociedade ou de um indivíduo, até porque alguns dos maiores canalhas da história humana não eram necessariamente desconhecedores das obras de grandes pensadores de todos os tempos e até porque conhecer um problema não necessariamente leva a tentar lutar contra ele, menos ainda a combatê-lo corretamente.

Aliás, voltando ao estudo em si, é interessante notar como, em um dos pontos finais de sua explicação, Sachsida critica também os defensores da inclusão de Educação Moral e Cívica no currículo dos alunos, pois, segundo o economista, meu estudo sugere que essa não é uma boa ideia, meu estudo sugere que incluir novas disciplinas sem aumentar a carga horária total na escola tem o potencial de prejudicar o desempenho dos alunos.*

Até prova em contrário, portanto, tudo o que se pode alegar concretamente, quer para atacar, quer para defender a pesquisa e os autores, é que a ideia defendida é a necessidade de aumentar a carga horária geral das escolas principalmente se o desejo for fornecer ao estudante o contato de maior qualidade com novas disciplinas, e é justamente esse o meu primeiro problema com esse estudo.

Obviamente, não seria eu tolo a ponto de cravar a possibilidade de uma boa aprendizagem de qualquer disciplina deixando-lhe apenas uma aula semanal de 45 ou 50 minutos (ou seja, de o aluno poder ter tantas disciplinas quantas aulas tem na semana), até porque, como profissional da educação, eu mesmo já senti muita falta de mais tempo de aula em determinadas situações, e até porque sei da necessidade de um tempo mínimo maior para certas disciplinas.

O problema, porém, não só no estudo de Sachsida e Waideman, mas também na defesa de alguns da integralidade do ensino como necessidade para o avanço da educação brasileira, é o fato de qualquer professor com mais de duas horas de experiência de sala de aula saber muito bem que mais importante do que o número de horas do aluno dentro da escola é o tempo de foco e de comprometimento desse aluno com o próprio ato de aprender.

Explico: pouco adianta legar mais horas à Matemática, à Língua Portuguesa, à Filosofia, às Línguas Estrangeiras Modernas ou a qualquer outro conteúdo escolar se, seja por inaptidão do docente, seja por falta de interesse dos discentes, seja por ambos simultaneamente, não se conseguir aproveitar o máximo possível dessa carga horária. Muitas vezes, ficar uma hora com um aluno em sala em uma determinada disciplina trará muito mais resultado para o desempenho deste do que três horas seguidas de aula sem troca de disciplina, pois até mesmo o professor pode, por uma série de motivos, acabar oscilando o seu desempenho em sala de aula.

Há, também, como problema nesse estudo, a questão de ser uma análise que, aparentemente, não contempla outras perguntas bastante relevantes antes de chegar a qualquer conclusão. Por exemplo, até que ponto esse desempenho cadente em disciplinas de Exatas no Ensino Médio não estaria relacionado, também, a uma possível queda de qualidade nos anos anteriores do ensino escolar formal (Ensino Fundamental e Ensino Infantil)? Será mesmo que excluir certas disciplinas (das quais o professor partiria do zero nos primeiros anos) para aumentar a carga horária de outras (nas quais partir do zero seria inviável) melhoraria tanto assim esse desempenho?

Outro ponto importante: qualquer um que já tenha participado de uma atribuição de aulas sabe que, muitas vezes, por uma série de questões, estudantes de determinadas escolas, em especial as das comunidades mais carentes tão frisadas pelos pesquisadores, passam dias, semanas e até meses sem um professor para determinada disciplina, inclusive para as consideradas essenciais ao aprendizado de outras (Língua Portuguesa e Matemática). Nesse caso, de que adiantaria mais aulas para disciplinas em que o aluno muitas vezes sequer sabe quem será o docente, ou mesmo se terá professor, na semana seguinte?

São esses mesmos questionamentos, inclusive, que põem em dúvida a tese de Sachsida de que se você acha que meu estudo está errado, então sua hipótese é a de que a inclusão de Filosofia e Sociologia no ensino médio tem um efeito transbordamento, isto é, o ganho intelectual gerado por essas disciplinas mais do que compensa a redução na carga horária de outras disciplinas, porque é possível simplesmente defender que tirar essas disciplinas do currículo seria apenas impedir a obtenção pelo estudante de um ganho intelectual novo (já que em tese é quase impossível o aluno ficar no zero em que antes estava ao fim dos três anos de Ensino Médio) a fim de dar-lhe em troca pouquíssima ou nenhuma melhora no aprendizado das disciplinas já existentes

A questão, pois, antes de ser de carga horária, é cultural e estrutural. Em resumo, de nada adianta dar 5, 6, 8, 10 horas de aula para um professor mal ou bem preparado com uma sala interessada ou não no conteúdo a ser visto e preparada ou não para compreendê-lo: afinal, se a turma não estiver interessada e não tiver o preparo suficiente para entender determinado ponto do conteúdo, serão apenas 5, 6, 8, 10 horas de um tempo jogado fora por ambos os lados, mas, se houver esse interesse e esse preparo, mas o professor estiver mal preparado, serão 5, 6, 8, 10 horas de um tempo mal aproveitado, pois dificilmente a turma conseguirá chegar perto do seu melhor desempenho potencial, isso se houver professor em sala de aula.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não verá problema algum em se retratar se, ao ler o estudo quando divulgado, vir algumas respostas aos seus questionamentos. Não lhe parece até o momento, porém, que será esse o caso.

*PS: sim, eu sei que é possível chamar Adolfo Sachsida de isentão ou acusá-lo de, sub-repticiamente, tentar igualar os defensores da Filosofia e da Sociologia aos da Educação Moral e Cívica ao escrever que “o argumento usado pelos defensores da inclusão da disciplina Educação Moral e Cívica no currículo das escolas é bem parecido com o adotado pelos defensores do ensino de Filosofia e Sociologia: formar melhores cidadãos.”, mas mesmo essas acusações me pareceriam muito especulativas para este já longo artigo. Compensaria mais, na realidade, enumerar as diferenças entre os dois lados em um artigo futuro, mas mesmo isso não me pareceria prova cabal e irrefutável de más intenções por parte dos pesquisadores.

Macartismo à brasileira (não, não é o que você está pensando)

Mais de uma vez, li, redes sociais afora, a seguinte pergunta: se chamar alguém de nazista é ofensivo e se o regime comunista foi ainda mais letal do que o nazismo em número de mortos,  por que chamar alguém de comunista não soa tão ofensivo assim para a maioria das pessoas?

É óbvio que a falta de conhecimento histórico do brasileiro médio e a habilidade de propaganda política dos defensores da extrema-esquerda influem, e muito, para essa diferença na percepção do grande público, mas há uma ponderação a ser feita: a própria direita poderia ter evitado esse desnível, mas não o fez ou por falta de consciência política, ou por falta de vontade.

Explico: quantas pessoas vocês veem, diariamente, empreendendo discussões como “o sistema econômico nazista está ou não destinado ao fracasso?” ou “que mecanismos levam pessoas a acreditarem no possível sucesso do nazismo?”? Quantos memes vocês veem chamando um nazista de “ingênuo utópico” ou de “inocente útil”? Quantas piadas do tipo “ain, o nazismo dá certo, sim, você é que não aguenta a vida em um campo de concentração” vocês leem por aí?

Respondo: nenhuma, nenhuma, mil vezes nenhuma. Afinal, não é sem razão que, quando lidamos com um sujeito que defenda, ainda que de longe, o ideário nazista,  não o tratamos como um ignorante, como um inocente útil ou como um debatedor digno de nossos ouvidos e de nosso respeito, e sim como o que de fato é, ou seja, como o apologista de uma filosofia genocida, canalha, monstruosa, totalitária, imunda, abominável, nojenta e portadora de um discurso tão odioso que sequer pensar na possibilidade de debatê-lo já nos causa raiva e espanto. Parafraseando o sonífero, digo, o filósofo conservador Roger Scruton, não é que, para nós, o nazismo deu errado, é que o nazismo é errado.

Enquanto isso, até mesmo os comunistas mais extremistas, inclusive aqueles que defendem abertamente qualquer tipo de genocídio em favor da “revolução”  ou de alguma canalhice do gênero, são tratados como mera chacota ou, pior ainda, como interlocutores dignos de um debate respeitoso de ideias. Quando se faz isso, o resultado na mente das pessoas, mesmo que inconscientemente, é óbvio: ora, mas por que “comunista” deveria ser uma ofensa se, no máximo, um comunista é um ingênuo defensor de uma filosofia mais justa e igualitária impossível de ser aplicada na prática? Por que rejeitar o comunismo, de novo parafraseando Scruton, se esse sistema só deu errado, mas não é errado?

I rest my case.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Que comunista precisa de amigos com uma direita tão agradável assim?

Discurso sobre a servidão voluntária – Étienne de La Boétie – Uma resenha

Muito se debate nos dias atuais acerca da liberdade enquanto valor fundamental para a sociedade organizada e enquanto instrumento político e social a ser usado tanto a favor de boas ou úteis causas como a favor da irresponsabilidade e de um estilo de vida hedonista. Há, também, os que discutem os limites das mais variadas liberdades (de expressão, de imprensa, entre outras), enfatizando nesse debate a discussão sobre até que ponto é aceitável por parte do Estado intervir sobre a livre escolha dos indivíduos quanto ao que farão ou deixarão de fazer com suas vidas.

Poucos, no entanto, conseguem discutir esse conceito e suas implicações de forma tão profunda quanto o filósofo francês Étienne de La Boétie (1530-1563) em seu “Discurso sobre a servidão voluntária (1549), obra considerada por alguns como uma espécie de precursora de doutrinas libertárias e antiestatistas que surgiriam nos séculos seguintes.

Nessa obra, o pensador francês defende ideias como a de que o homem, apesar de naturalmente feito para exercer sua liberdade, adere de forma irrestrita e voluntária à servidão, em especial  por causa do hábito e por, ao longo do tempo, se tornar covarde e “efeminado” (ou, em termos mais contemporâneos, infantilizado) pela tirania.

Nesse sentido, uma das premissas fundamentais do livro é que a servidão é em grande parte autoimposta, pois, de acordo com o filósofo, um tirano só se mantém no poder enquanto houver súditos a lhe dar o que precisa para essa manutenção.

Considerando isso, o francês questiona o leitor sobre o porquê de tantos abdicarem voluntariamente de algo que, em suas palavras, é “um bem que deveria ser resgatado a preço de sangue” e que, “uma vez perdido, torna, para as pessoas honradas, a vida aborrecida e a morte salutar”.

O pensador, entre outras coisas, também recorre à antiguidade clássica para exemplificar como é possível destruir o desejo de liberdade de um povo sem sequer ceifar uma vida e explica, de modo bastante proveitoso, como os asseclas de um tirano (que, contemporaneamente, chamaríamos de “burocratas”) são até mais importantes do que as armas na manutenção do poder.

“Discurso sobre a servidão voluntária” é, pois, um livro tão essencial quanto desconhecido do grande público, em especial para um tempo em que se continua caindo tão fácil em uma armadilha para a qual Boétie nos alerta em sua obra: a de aceitar todo tipo de crueldade dos que dizem representar/defender os interesses do povo.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre.

Bolsominions x Facebook: um convite… à reflexão política

Nos últimos dias, não é raro ler, Facebook afora, reclamações de seguidores do deputado federal do RJ e possível presidenciável em 2018, Jair Bolsonaro, sobre o fato de que, aparentemente, não seria mais possível convidar, nessa rede social, pessoas para curtirem a página do deputado, enquanto os convites às páginas de outros políticos, em especial à de certo candidato com só nove dedos, estariam completamente liberados.

Os chamados “bolsominions”, então, não tiveram dúvidas: depois de terem espalhado a narrativa de que haveria uma espécie de acordo entre Mark Zuckerberg e a extrema-esquerda brasileira para que o Facebook privilegiasse a visualização, por parte de seus usuários brasileiros, de posts de páginas com caráter esquerdista ou ultraesquerdista, os autodeclarados conservadores passaram a acusar a rede social não só de privilegiar certos candidatos, mas principalmente de censuras contra outros, ou, melhor dizendo, contra outro, que é justamente Bolsonaro.

Para rebater essas críticas, e temendo que a esquerda se utilizasse de um possível engano da direita para rotular os direitistas novamente como “fake news”, algumas pessoas de dentro da própria direita explicaram que, na realidade, é bastante possível que não se trate de censura a qualquer candidato, e sim de alguns fãs de Bolsonaro terem se utilizado do mecanismo do convite inadequadamente ou de a própria página ter postado algum tipo de conteúdo inadequado, quebrando algumas regras estabelecidas pelo Facebook, o que impediria, por algum tempo, novos convites para mais pessoas curtirem a página do deputado.

O caso, no entanto, é que ninguém ainda falou sobre a real questão desse impedimento de convites para a página de Jair Bolsonaro, que é a seguinte: ainda que toda a narrativa da direita brasileira esteja certa e que de fato haja o tal acordo supracitado, a censura a Bolsonaro até é possível, mas é bastante improvável.

Digo isso porque, como todos sabem, censurar o outro lado de maneira tão explícita pode trazer consequências bastante indesejáveis para o censor, ainda que não houvesse qualquer tipo de rede social para a divulgação mais veloz de informações. Caso voltemos a episódios recentes da história brasileira, a própria extrema-esquerda sofreu censura, de diversas formas, tanto explícitas como implícitas, entre o período que compreende o regime militar brasileiro pré-Sarney (1964-1985).

Mesmo que um militante mais fanático do militarismo considere que essa censura tenha sido justificada e justa, o fato inegável é que, após o fim da ditadura militar, não só a esquerda brasileira não sumiu do mapa como também voltou ao cenário político e cultural com igual ou maior força do que antes por diversas razões, sendo que uma delas certamente foi o fato de, até hoje, a extrema-esquerda brasileira se vitimizar, com e sem razão, por ter sofrido essa censura.

Em outras palavras, os esquerdistas brasileiros hoje, por causa do que seus antecessores passaram em termos de censura, carregam uma arma política poderosíssima para usarem sempre que necessário ou sempre que útil: a narrativa, independentemente do grau de verdade que carregue consigo, do mártir, daquele adepto de uma ideologia que, ao espalhar ideais divergentes daqueles dos donos do poder em uma determinada época, foi censurada de várias maneiras, inclusive tendo vários de seus fiéis mortos, o que só fortalece a narrativa da transformação em mártir e da vitimização.

Para ilustrar, analise-se o caso da Inconfidência Mineira e de Tiradentes: mesmo que o movimento tivesse um caráter duvidoso, com objetivos políticos escusos, o simples fato de um de seus membros ter se transformado em símbolo de uma repressão injusta já tornaria até hoje o movimento da elite cultural mineira da época, na visão de várias pessoas, praticamente imune a qualquer tipo de crítica, mesmo às críticas justas. Imagine, então, quando esse movimento luta por causas aparentemente legítimas. É o baú da felicidade de qualquer marqueteiro político profissional ou não.

Além disso, leitor amigo, até mesmo uma criança de 3 anos conhece o poder da vitimização, quer quando estiver certa, quer quando estiver errada, quem dirá adeptos de uma ideologia (no caso, o ultraesquerdismo) cujo único propósito é a obtenção de poder político estatal justamente por meio de narrativas que levem os seus membros aos cargos mais altos de uma nação. Se consideramos tudo isso, qual seria a lógica de os esquerdistas arriscarem entregar de bandeja uma narrativa poderosíssima justamente para um inimigo político cujo potencial de crescimento eleitoral ainda aparenta ser alto?

Mais ainda: com a possibilidade de os esquerdistas espalharem notícias de teor negativo, verdadeiras ou não, sobre Bolsonaro em qualquer rede social em questão de segundos, ou seja, de assassinarem até com certa facilidade a reputação do possível presidenciável, por que arriscar tudo com uma estratégia que daria armas ao deputado do RJ? Por que adotar a censura quando se pode adotar uma estratégia política talvez ainda mais imoral, mas certamente mais segura, que é o assassinato de reputações?

Resumindo, como queríamos demonstrar, é lógico que todo esse problema com os convites pode ser na verdade uma tentativa de censura a Bolsonaro, mas é improvável que a extrema-esquerda brasileira cometesse um erro tático tão primário. Afinal, no espectro político do Brasil, não são os esquerdistas que abertamente desprezam a estratégia política a ponto de se recusarem terminantemente sequer a analisar as posturas do outro lado, quem dirá a adotá-las se necessário, certo?

Octavius é graduado em Letras, professor e polemista medíocre. Apesar de não levar ditados populares a ferro e fogo, ainda mantém a mínima esperança de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” seja válido.

As cinco maiores injustiças futebolísticas que vi

Recentemente, estive assistindo ao documentário “1982 – Aos nossos campeões”, produzido pelo grupo ESPN. Nesse documentário, tanto comentaristas dos canais ESPN (como Arnaldo Ribeiro, Gian Oddi e Eduardo Tironi) como celebridades e jornalistas (Dan Stulbach, Ivete Sangalo e outros) comentam sobre e homenageiam uma das seleções mundiais que mais jogou bola em Copas do Mundo, mas que foi eliminada de forma surpreendente, não levando a taça.

Apenas para contextualizar um pouco melhor para o leitor que desconheça o fato, como a grande maioria dos fãs de futebol sabe, há pouco mais de 35 anos ocorria a chamada “Tragédia do Sarriá“, isto é, a eliminação da lendária seleção brasileira de 1982 para uma Itália que, apesar de suas qualidades e de grandes jogadores como Gentile e Dino Zoff, nem de longe era a favorita naquele 3 a 2 contra o Brasil de Zico, Éder, Falcão, Júnior e outros craques. Após isso, a Itália iria para a semifinal com a Polônia, para a final com a Alemanha e levantaria o caneco.

Ao se referirem a esse Brasil x Itália, muitos dos que assistiram a essa Copa definem a “Tragédia do Sarriá” como uma das maiores, se não a maior, injustiça futebolística de todos os tempos. Como, porém, não pude assistir a essa competição por nem estar perto de nascer, não posso inclui-la na lista das maiores injustiças futebolísticas que já presenciei, mas posso inspirar-me e, a seguir, conversar com o amigo leitor sobre as cinco maiores injustiças futebolísticas a que assisti e de que me lembro bem no futebol brasileiro e internacional:

5º lugar: Palmeiras 2 x 1 Santos – Final da Copa do Brasil 2015 – Palmeiras campeão

Em quinto lugar, um jogo envolvendo dois rivais de meu time. No caso, o segundo jogo da final da Copa do Brasil 2015, tendo o primeiro terminado em 1 a 0 para o Santos na Vila Belmiro, sendo este um placar que não representava o que havia sido o jogo, já que o Santos dominou a partida de ponta a ponta e perdeu no mínimo duas ótimas chances.

De novo para contextualizar para o leitor, após um 2014 catastrófico com um time para esquecer, o Palmeiras firmou a atual parceria com a Crefisa e foi às compras, montando um time que, apesar de algumas deficiências em posições específicas, tinha se tornado uma das maiores forças do Brasil, acumulando triunfos em clássicos estaduais (mais notavelmente, contra São Paulo e Corinthians) como ainda não tinha feito no século 21.

Mesmo assim, um problema antigo persistia no alviverde paulistano, e este era a falta de um técnico confiável, tanto que o time começou o ano com o Oswaldo de Oliveira e, após um vice paulista para o próprio Santos e um início de Brasileirão no mínimo questionável, trocou para Marcelo Oliveira, técnico então bicampeão nacional, mas que, no momento em que se dava aquela final, tinha seu trabalho contestado e sua cabeça sendo pedida por boa parte da torcida por causa do nível de atuação pouco satisfatório do time tanto no Brasileirão como na Copa do Brasil, ainda assim conseguindo chegar, aos trancos e barrancos, à final desta.

O Santos, por sua vez, após um frustrante ano de 2014 em que perdeu o Paulistão para o Ituano e em que passou bem longe de disputar de fato qualquer caneco nacional, arrumou a casa com o que tinha e trouxe um questionado Ricardo Oliveira para ser o centroavante do time e um dos líderes do elenco que já contava com nomes como Renato, Lucas Lima e Vanderlei.

Ainda com o treinador Marcelo Fernandes, hoje auxiliar técnico no próprio Santos, o alvinegro praiano conquistou o Paulistão para cima do poderoso Palmeiras, mas vinha de um início no mínimo preocupante no Brasileirão até contratar Dorival Júnior, treinador que, apesar de ter boas ideias, vinha de trabalhos questionáveis em times como Palmeiras e Fluminense e carregava consigo o entrevero com Neymar em 2011, fato que causou sua demissão no mesmo ano por “insubordinação”.

Com Dorival, não só a crise foi espantada como também o Santos começou a jogar o melhor futebol do Brasil, passando sem problemas na Copa do Brasil inclusive pelo futuro campeão brasileiro Corinthians e pelo rival histórico São Paulo, vencendo tanto na ida como na volta e contando com ótimas atuações de jovens como Gabriel Barbosa e Geuvânio.

Era o Santos, pois, que chegava como favorito para a final, apesar de o Palmeiras ter um elenco mais recheado e tecnicamente igual ou melhor do que o elenco santista, e esse favoritismo foi parcialmente confirmado no primeiro confronto, na Vila Belmiro, no já citado 1 a 0 em que o alviverde não viu a cor da bola, mesmo com Lucas Lima não jogando o melhor que sabia.

O Palmeiras, porém, tinha se tornado um especialista em usar o mando de campo em competições mata-mata, além de contar com um jogador que viria a ser fundamental para o time tanto ao fazer os dois gols alviverdes que levariam o jogo às penalidades como posteriormente no Brasileirão de 2016: Dudu. Tinha, também, em Fernando Prass um goleiro que, à época, vinha se consagrando como um dos maiores pegadores de pênalti do Brasil.

Tinha, por fim, Matheus Sales, jovem volante que, naquela noite, faria talvez a melhor partida de sua carreira até o momento, anulando sem piedade o armador santista, gerando, inclusive, uma série de memes com os quais os palmeirenses atormentavam Lucas Lima até este trocar a Vila pelo Allianz Parque em 2017.

Com isso, o Palmeiras, usando o mando de campo como poucos sabem usar, venceu o Santos. Sim, eu sei que o Palmeiras tinha um elenco com mais opções. Sim, eu sei que o Santos foi encurralado e não conseguiu desempenhar o bom futebol que vinha desempenhando. Sim, eu sei que, naquele jogo, o Santos não merecia o caneco. Mesmo assim, parece-me um pecado o escrete santista de 2015 ter acabado só com um Paulistão no ano.

Eles mereciam mais. O bom futebol merecia mais. No entanto, nem sempre o melhor vence, em especial quando o outro time sabe usar o mando de campo, como também veremos a seguir.

4º lugar: Sport 2 x 0 Corinthians – Final da Copa do Brasil 2008 – Sport campeão

Sim, eu sei que isso pode parecer clubista, leitor, mas não posso deixar de considerar injusto o Sport ter levado o caneco da Copa do Brasil em 2008 contra o meu time de coração.

Para quem não lembra, Sport e Corinthians encontravam-se em situações opostas. Enquanto o Sport vinha desde 2007 na Série A e parecia consolidar sua presença nessa divisão (mas só parecia, pois cairia já em 2009), o Corinthians passava pela maior reformulação de sua história após a queda para a Série B em 2007, contratando vários novos nomes (e futuros ídolos, como Alessandro, Chicão, Cristian, Elias e Douglas) para disputar esse campeonato em 2008 e voltar à elite em 2009, o que de fato ocorreria sem maiores problemas.

Já na Copa do Brasil, o quadro era bem diferente. Apesar de alguns tropeços, o Corinthians só tinha enfrentado reais problemas contra o Botafogo (time que, historicamente, causa problemas ao alvinegro paulistano) na semifinal, tendo passado sem tanto drama por outros adversários historicamente problemáticos, como Goiás e São Caetano. Além disso, o futebol apresentado pela equipe treinada por Mano Menezes, mesmo sem estar em seu melhor momento de apuração, já era consideravelmente melhor do que o do elenco que caíra para a Série B no ano anterior.

O Sport, por sua vez, não apresentava tanto em campo, dependendo várias vezes do mando de campo na Ilha do Retiro para avançar na competição, como na primeira fase contra o Imperatriz-MA, nas oitavas contra o Palmeiras-SP (mesmo com o placar elástico) e nas quartas contra o Internacional-RS, além de ter passado na semifinal nos pênaltis contra um Vasco que viria a sofrer seu primeiro rebaixamento no mesmo ano de 2008.

Houve, porém, um jogador que, ao fazer o gol de honra do Sport nos 3 a 1 no primeiro jogo no Morumbi, mudaria completamente o cenário da volta na Ilha do Retiro, jogo em que o Sport, contando com uma brilhante atuação do lendário Carlinhos Bala,  acuou o time alvinegro. Esse jogador era Enílton, o mesmo que ajudaria Luciano Henrique a marcar o segundo gol após cobrar uma falta que enganou o bom goleiro Felipe.

Se houve algum jogo em que quase chorei por futebol, foi esse. Sim, eu sei que o time de 2008 ainda não era tão forte como o de 2009, para o qual os reforços de Jorge Henrique e Ronaldo Fenômeno foram um achado e tanto. Sim, eu sei que o Corinthians poderia ter feito mais gols no primeiro jogo e matado a parada ali mesmo. Mesmo assim, a perda do título doeu-me muito naquela hora e nos dias seguintes, tanto que é, para mim, a derrota mais amarga que eu me lembre do Corinthians, superando até mesmo os 4 a 1 para o Atlético-MG em 2014 e os 5 a 1 para o São Paulo em 2005.

Penso até hoje que, se fosse campeão da Copa do Brasil em 2008, o Corinthians de 2009 teria tido uma ótima chance de conquistar a Libertadores pela primeira vez, pois o futebol demonstrado por aquele time de Ronaldo, Jorge Henrique e Dentinho no primeiro semestre, que era quando ocorria o torneio continental, pareceu-me bem maior do que o do campeão Estudiantes e do que o do vice Cruzeiro.

No entanto, não há como mudar o passado, inclusive em outra competição continental, desta vez na Europa em 2010.

3º lugar: Barcelona 1 x 0 Inter de Milão – Semifinal da Champions League 2009/2010 – Barcelona eliminado

Camp Nou. O lendário esquadrão de Messi e cia, representando o Barcelona, é eliminado nas semifinais da Champions League após perder fora por 3 a 1 e ganhar em casa só por 1 a 0 mesmo com um a mais. O motivo? O adversário era a Inter de Milão, com uma retranca montada pelo maior especialista no assunto: o superestimadíssimo José Mourinho.

Se eu achei Palmeiras 2 x 1 Santos uma injustiça, nem preciso explicar mais nada ao leitor, até porque o próximo jogo demandará bem mais explicações.

2º lugar: Brasil 1 x 2 Holanda – Quartas de final  da Copa do Mundo de 2010

Se você, assim como eu, não apreciou o trabalho de Dunga com a seleção em 2015 e 2016, peço que respire fundo e me acompanhe, pois o que falarei pode parecer loucura agora, mas fará sentido: não, o Brasil não mereceu perder para a Holanda de Robben e Sneijder em 2010, por mais que ambos os carequinhas tenham jogado sobrenaturalmente naquela partida.

Primeiro, é importante lembrar que, apesar de Dunga ter montado um time excessivamente reativo e de ter feito escolhas no mínimo duvidosas já à época, a seleção brasileira em 2010 tinha se classificado na fase de grupos sem maiores problemas. Pode-se dizer, é claro, que o empate com Portugal no último jogo era um indício de que aquele time não iria longe, mas o fato é que, mesmo nesse jogo, o Brasil não teve grandes sustos, ao contrário da Copa seguinte, a de 2014, em que a seleção passaria apertado nos três jogos da primeira fase,  mesmo com o placar elástico contra a fraquíssima Camarões 2014.

A Holanda, por sua vez, também passou com tranquilidade na fase de grupos, mas em um grupo sem qualquer seleção de maior peso. Curiosamente, tanto Holanda como Brasil chegaram às oitavas com cinco gols marcados, sendo que, enquanto a Holanda ganhou da Eslováquia por 2 a 1 na marra, o Brasil fez 3 a 0 no Chile (que vinha melhorando seu nível técnico em relação às copas anteriores) sem muito suar, apesar da ausência de Elano, jogador que, após uma lesão, faria bastante falta ao time justamente nas quartas contra a Holanda.

Óbvio que, ainda assim, não seria possível para qualquer um que tenha visto os jogos da seleção de Dunga em 2010 concordar comigo que essa eliminação para a Holanda foi uma grande injustiça, principalmente porque não se trata de alguma zebra, mas o que me deixa inconformado até hoje é: o Brasil foi eliminado no seu melhor jogo na Copa por uma Holanda que fez, talvez, o seu pior jogo naquela Copa.

Se o que eu acabei de dizer pode parecer ousado, peço que se lembrem do primeiro tempo: um verdadeiro massacre brasileiro, com a Holanda acuada, em especial após o 1 a 0 (gol de Robinho após passe magistral de Felipe Melo), resistindo como podia às investidas brasileiras, com Robben e Sneijder praticamente ausentes do jogo.

Algo, porém, aconteceu no intervalo, pois, no segundo tempo, o Brasil diminuiu o ritmo e foi aí que a Holanda achou, ou melhor, que Robben e Sneijder acharam dois gols, primeiro em um momento de rara infelicidade de Júlio César (que havia sido eleito o melhor goleiro da Europa e do mundo na temporada 2009-2010), depois em um momento de infelicidade conjunta de Júlio César e Felipe Melo (que foi alvo de críticas imerecidas pós-jogo, pois vinha sendo um dos destaques daquela seleção). Falando no volante brasileiro, infelizmente sua expulsão após pisão em Robben foi a pá de cal definitiva.

Sim, eu sei que, se chegasse à final, o Brasil provavelmente não ganharia da Espanha. Sim, eu sei que um possível triunfo contra a Holanda naquelas quartas de final só adiariam a inevitável eliminação. Sim, eu sei que nem de longe o Brasil mereceria a final da Copa em 2010 até aquele jogo. O problema é que, justamente no jogo em que mereceu, caiu. Mais ainda, caiu e praticamente sepultou a carreira de um dos maiores injustiçados que já vi no futebol: Júlio César.

1º lugar: Fluminense 3 x 1 LDU – Final da Copa Libertadores de 2008 – LDU campeã nos pênaltis

Nenhum desses jogos, porém, passa sequer perto da maior injustiça que já vi no futebol. Diria mais: o que aconteceu naquela noite de 02 de julho de 2008 no Maracanã foi um crime cometido contra o bom futebol principalmente porque, pelo que vemos nos últimos anos, o Fluminense dificilmente terá uma nova chance de conquistar essa taça nos próximos anos.

Não me arriscarei, aqui, a contextualizar ou a narrar em detalhes o jogo em si, pois o excelente site Imortais do Futebol tem um texto melhor do que qualquer um que eu poderia escrever sobre esse jogo. Ainda assim, se digo ser esta a maior injustiça que vi, devo no mínimo descrever um pouco o jogo.

O jogo dos três gols de Thiago Neves, incluindo uma cobrança de falta magistral. O jogo em que a arbitragem esqueceu-se de que times equatorianos também podem ter seus jogadores amarelados quando cometem faltas brutais. O jogo em que um time ofensivo e bem organizado pelo então mais falastrão do que técnico Renato Gaúcho foi superado pela retranca de Edgardo Bauza, técnico que, futuramente, após ganhar nova Libertadores em 2014 com um novo time retrancado (San Lorenzo), se tornaria extremamente superestimado, vindo a comandar o São Paulo (!) e a seleção argentina (!!), nos quais provou que Libertadores não dá camisa para ninguém.

O jogo, enfim, em que um Fluminense titânico, que havia eliminado na raça e na bola Atlético Nacional-COL, São Paulo e Boca Juniors, sucumbiu nos pênaltis a um goleiro mediano em noite sobrenatural (Cevallos) e a um time que só havia chegado à final por ter tido cruzamentos mais fáceis no mata-mata, tendo, mesmo assim, que jogar com o regulamento embaixo do braço várias e várias vezes na competição.

Como corintiano desde 2000, confesso: se houve um jogo na minha vida em que torci para algum time além do Corinthians, foi aquele Fluminense x LDU. Como jogavam Thiago Neves, Conca e companhia. Aquele time merecia a América, mas, felizmente ou infelizmente, o futebol tem dessas. Se eu dissesse que aquele jogo não foi a maior injustiça que vi, seria eu mais injusto ainda.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não quer nem imaginar como seria um jogo entre um time de Mourinho e um time de Bauza. Não responde a pergunta “Guardiola ou Mourinho?” porque não sabe nem se Mourinho é equiparável a Rafa Benítez, quem dirá a Guardiola.