Bolsominions x Facebook: um convite… à reflexão política

Nos últimos dias, não é raro ler, Facebook afora, reclamações de seguidores do deputado federal do RJ e possível presidenciável em 2018, Jair Bolsonaro, sobre o fato de que, aparentemente, não seria mais possível convidar, nessa rede social, pessoas para curtirem a página do deputado, enquanto os convites às páginas de outros políticos, em especial à de certo candidato com só nove dedos, estariam completamente liberados.

Os chamados “bolsominions”, então, não tiveram dúvidas: depois de terem espalhado a narrativa de que haveria uma espécie de acordo entre Mark Zuckerberg e a extrema-esquerda brasileira para que o Facebook privilegiasse a visualização, por parte de seus usuários brasileiros, de posts de páginas com caráter esquerdista ou ultraesquerdista, os autodeclarados conservadores passaram a acusar a rede social não só de privilegiar certos candidatos, mas principalmente de censuras contra outros, ou, melhor dizendo, contra outro, que é justamente Bolsonaro.

Para rebater essas críticas, e temendo que a esquerda se utilizasse de um possível engano da direita para rotular os direitistas novamente como “fake news”, algumas pessoas de dentro da própria direita explicaram que, na realidade, é bastante possível que não se trate de censura a qualquer candidato, e sim de alguns fãs de Bolsonaro terem se utilizado do mecanismo do convite inadequadamente ou de a própria página ter postado algum tipo de conteúdo inadequado, quebrando algumas regras estabelecidas pelo Facebook, o que impediria, por algum tempo, novos convites para mais pessoas curtirem a página do deputado.

O caso, no entanto, é que ninguém ainda falou sobre a real questão desse impedimento de convites para a página de Jair Bolsonaro, que é a seguinte: ainda que toda a narrativa da direita brasileira esteja certa e que de fato haja o tal acordo supracitado, a censura a Bolsonaro até é possível, mas é bastante improvável.

Digo isso porque, como todos sabem, censurar o outro lado de maneira tão explícita pode trazer consequências bastante indesejáveis para o censor, ainda que não houvesse qualquer tipo de rede social para a divulgação mais veloz de informações. Caso voltemos a episódios recentes da história brasileira, a própria extrema-esquerda sofreu censura, de diversas formas, tanto explícitas como implícitas, entre o período que compreende o regime militar brasileiro pré-Sarney (1964-1985).

Mesmo que um militante mais fanático do militarismo considere que essa censura tenha sido justificada e justa, o fato inegável é que, após o fim da ditadura militar, não só a esquerda brasileira não sumiu do mapa como também voltou ao cenário político e cultural com igual ou maior força do que antes por diversas razões, sendo que uma delas certamente foi o fato de, até hoje, a extrema-esquerda brasileira se vitimizar, com e sem razão, por ter sofrido essa censura.

Em outras palavras, os esquerdistas brasileiros hoje, por causa do que seus antecessores passaram em termos de censura, carregam uma arma política poderosíssima para usarem sempre que necessário ou sempre que útil: a narrativa, independentemente do grau de verdade que carregue consigo, do mártir, daquele adepto de uma ideologia que, ao espalhar ideais divergentes daqueles dos donos do poder em uma determinada época, foi censurada de várias maneiras, inclusive tendo vários de seus fiéis mortos, o que só fortalece a narrativa da transformação em mártir e da vitimização.

Para ilustrar, analise-se o caso da Inconfidência Mineira e de Tiradentes: mesmo que o movimento tivesse um caráter duvidoso, com objetivos políticos escusos, o simples fato de um de seus membros ter se transformado em símbolo de uma repressão injusta já tornaria até hoje o movimento da elite cultural mineira da época, na visão de várias pessoas, praticamente imune a qualquer tipo de crítica, mesmo às críticas justas. Imagine, então, quando esse movimento luta por causas aparentemente legítimas. É o baú da felicidade de qualquer marqueteiro político profissional ou não.

Além disso, leitor amigo, até mesmo uma criança de 3 anos conhece o poder da vitimização, quer quando estiver certa, quer quando estiver errada, quem dirá adeptos de uma ideologia (no caso, o ultraesquerdismo) cujo único propósito é a obtenção de poder político estatal justamente por meio de narrativas que levem os seus membros aos cargos mais altos de uma nação. Se consideramos tudo isso, qual seria a lógica de os esquerdistas arriscarem entregar de bandeja uma narrativa poderosíssima justamente para um inimigo político cujo potencial de crescimento eleitoral ainda aparenta ser alto?

Mais ainda: com a possibilidade de os esquerdistas espalharem notícias de teor negativo, verdadeiras ou não, sobre Bolsonaro em qualquer rede social em questão de segundos, ou seja, de assassinarem até com certa facilidade a reputação do possível presidenciável, por que arriscar tudo com uma estratégia que daria armas ao deputado do RJ? Por que adotar a censura quando se pode adotar uma estratégia política talvez ainda mais imoral, mas certamente mais segura, que é o assassinato de reputações?

Resumindo, como queríamos demonstrar, é lógico que todo esse problema com os convites pode ser na verdade uma tentativa de censura a Bolsonaro, mas é improvável que a extrema-esquerda brasileira cometesse um erro tático tão primário. Afinal, no espectro político do Brasil, não são os esquerdistas que abertamente desprezam a estratégia política a ponto de se recusarem terminantemente sequer a analisar as posturas do outro lado, quem dirá a adotá-las se necessário, certo?

Octavius é graduado em Letras, professor e polemista medíocre. Apesar de não levar ditados populares a ferro e fogo, ainda mantém a mínima esperança de que “água mole em pedra dura tanto bate até que fura” seja válido.

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As cinco maiores injustiças futebolísticas que vi

Recentemente, estive assistindo ao documentário “1982 – Aos nossos campeões”, produzido pelo grupo ESPN. Nesse documentário, tanto comentaristas dos canais ESPN (como Arnaldo Ribeiro, Gian Oddi e Eduardo Tironi) como celebridades e jornalistas (Dan Stulbach, Ivete Sangalo e outros) comentam sobre e homenageiam uma das seleções mundiais que mais jogou bola em Copas do Mundo, mas que foi eliminada de forma surpreendente, não levando a taça.

Apenas para contextualizar um pouco melhor para o leitor que desconheça o fato, como a grande maioria dos fãs de futebol sabe, há pouco mais de 35 anos ocorria a chamada “Tragédia do Sarriá“, isto é, a eliminação da lendária seleção brasileira de 1982 para uma Itália que, apesar de suas qualidades e de grandes jogadores como Gentile e Dino Zoff, nem de longe era a favorita naquele 3 a 2 contra o Brasil de Zico, Éder, Falcão, Júnior e outros craques. Após isso, a Itália iria para a semifinal com a Polônia, para a final com a Alemanha e levantaria o caneco.

Ao se referirem a esse Brasil x Itália, muitos dos que assistiram a essa Copa definem a “Tragédia do Sarriá” como uma das maiores, se não a maior, injustiça futebolística de todos os tempos. Como, porém, não pude assistir a essa competição por nem estar perto de nascer, não posso inclui-la na lista das maiores injustiças futebolísticas que já presenciei, mas posso inspirar-me e, a seguir, conversar com o amigo leitor sobre as cinco maiores injustiças futebolísticas a que assisti e de que me lembro bem no futebol brasileiro e internacional:

5º lugar: Palmeiras 2 x 1 Santos – Final da Copa do Brasil 2015 – Palmeiras campeão

Em quinto lugar, um jogo envolvendo dois rivais de meu time. No caso, o segundo jogo da final da Copa do Brasil 2015, tendo o primeiro terminado em 1 a 0 para o Santos na Vila Belmiro, sendo este um placar que não representava o que havia sido o jogo, já que o Santos dominou a partida de ponta a ponta e perdeu no mínimo duas ótimas chances.

De novo para contextualizar para o leitor, após um 2014 catastrófico com um time para esquecer, o Palmeiras firmou a atual parceria com a Crefisa e foi às compras, montando um time que, apesar de algumas deficiências em posições específicas, tinha se tornado uma das maiores forças do Brasil, acumulando triunfos em clássicos estaduais (mais notavelmente, contra São Paulo e Corinthians) como ainda não tinha feito no século 21.

Mesmo assim, um problema antigo persistia no alviverde paulistano, e este era a falta de um técnico confiável, tanto que o time começou o ano com o Oswaldo de Oliveira e, após um vice paulista para o próprio Santos e um início de Brasileirão no mínimo questionável, trocou para Marcelo Oliveira, técnico então bicampeão nacional, mas que, no momento em que se dava aquela final, tinha seu trabalho contestado e sua cabeça sendo pedida por boa parte da torcida por causa do nível de atuação pouco satisfatório do time tanto no Brasileirão como na Copa do Brasil, ainda assim conseguindo chegar, aos trancos e barrancos, à final desta.

O Santos, por sua vez, após um frustrante ano de 2014 em que perdeu o Paulistão para o Ituano e em que passou bem longe de disputar de fato qualquer caneco nacional, arrumou a casa com o que tinha e trouxe um questionado Ricardo Oliveira para ser o centroavante do time e um dos líderes do elenco que já contava com nomes como Renato, Lucas Lima e Vanderlei.

Ainda com o treinador Marcelo Fernandes, hoje auxiliar técnico no próprio Santos, o alvinegro praiano conquistou o Paulistão para cima do poderoso Palmeiras, mas vinha de um início no mínimo preocupante no Brasileirão até contratar Dorival Júnior, treinador que, apesar de ter boas ideias, vinha de trabalhos questionáveis em times como Palmeiras e Fluminense e carregava consigo o entrevero com Neymar em 2011, fato que causou sua demissão no mesmo ano por “insubordinação”.

Com Dorival, não só a crise foi espantada como também o Santos começou a jogar o melhor futebol do Brasil, passando sem problemas na Copa do Brasil inclusive pelo futuro campeão brasileiro Corinthians e pelo rival histórico São Paulo, vencendo tanto na ida como na volta e contando com ótimas atuações de jovens como Gabriel Barbosa e Geuvânio.

Era o Santos, pois, que chegava como favorito para a final, apesar de o Palmeiras ter um elenco mais recheado e tecnicamente igual ou melhor do que o elenco santista, e esse favoritismo foi parcialmente confirmado no primeiro confronto, na Vila Belmiro, no já citado 1 a 0 em que o alviverde não viu a cor da bola, mesmo com Lucas Lima não jogando o melhor que sabia.

O Palmeiras, porém, tinha se tornado um especialista em usar o mando de campo em competições mata-mata, além de contar com um jogador que viria a ser fundamental para o time tanto ao fazer os dois gols alviverdes que levariam o jogo às penalidades como posteriormente no Brasileirão de 2016: Dudu. Tinha, também, em Fernando Prass um goleiro que, à época, vinha se consagrando como um dos maiores pegadores de pênalti do Brasil.

Tinha, por fim, Matheus Sales, jovem volante que, naquela noite, faria talvez a melhor partida de sua carreira até o momento, anulando sem piedade o armador santista, gerando, inclusive, uma série de memes com os quais os palmeirenses atormentavam Lucas Lima até este trocar a Vila pelo Allianz Parque em 2017.

Com isso, o Palmeiras, usando o mando de campo como poucos sabem usar, venceu o Santos. Sim, eu sei que o Palmeiras tinha um elenco com mais opções. Sim, eu sei que o Santos foi encurralado e não conseguiu desempenhar o bom futebol que vinha desempenhando. Sim, eu sei que, naquele jogo, o Santos não merecia o caneco. Mesmo assim, parece-me um pecado o escrete santista de 2015 ter acabado só com um Paulistão no ano.

Eles mereciam mais. O bom futebol merecia mais. No entanto, nem sempre o melhor vence, em especial quando o outro time sabe usar o mando de campo, como também veremos a seguir.

4º lugar: Sport 2 x 0 Corinthians – Final da Copa do Brasil 2008 – Sport campeão

Sim, eu sei que isso pode parecer clubista, leitor, mas não posso deixar de considerar injusto o Sport ter levado o caneco da Copa do Brasil em 2008 contra o meu time de coração.

Para quem não lembra, Sport e Corinthians encontravam-se em situações opostas. Enquanto o Sport vinha desde 2007 na Série A e parecia consolidar sua presença nessa divisão (mas só parecia, pois cairia já em 2009), o Corinthians passava pela maior reformulação de sua história após a queda para a Série B em 2007, contratando vários novos nomes (e futuros ídolos, como Alessandro, Chicão, Cristian, Elias e Douglas) para disputar esse campeonato em 2008 e voltar à elite em 2009, o que de fato ocorreria sem maiores problemas.

Já na Copa do Brasil, o quadro era bem diferente. Apesar de alguns tropeços, o Corinthians só tinha enfrentado reais problemas contra o Botafogo (time que, historicamente, causa problemas ao alvinegro paulistano) na semifinal, tendo passado sem tanto drama por outros adversários historicamente problemáticos, como Goiás e São Caetano. Além disso, o futebol apresentado pela equipe treinada por Mano Menezes, mesmo sem estar em seu melhor momento de apuração, já era consideravelmente melhor do que o do elenco que caíra para a Série B no ano anterior.

O Sport, por sua vez, não apresentava tanto em campo, dependendo várias vezes do mando de campo na Ilha do Retiro para avançar na competição, como na primeira fase contra o Imperatriz-MA, nas oitavas contra o Palmeiras-SP (mesmo com o placar elástico) e nas quartas contra o Internacional-RS, além de ter passado na semifinal nos pênaltis contra um Vasco que viria a sofrer seu primeiro rebaixamento no mesmo ano de 2008.

Houve, porém, um jogador que, ao fazer o gol de honra do Sport nos 3 a 1 no primeiro jogo no Morumbi, mudaria completamente o cenário da volta na Ilha do Retiro, jogo em que o Sport, contando com uma brilhante atuação do lendário Carlinhos Bala,  acuou o time alvinegro. Esse jogador era Enílton, o mesmo que ajudaria Luciano Henrique a marcar o segundo gol após cobrar uma falta que enganou o bom goleiro Felipe.

Se houve algum jogo em que quase chorei por futebol, foi esse. Sim, eu sei que o time de 2008 ainda não era tão forte como o de 2009, para o qual os reforços de Jorge Henrique e Ronaldo Fenômeno foram um achado e tanto. Sim, eu sei que o Corinthians poderia ter feito mais gols no primeiro jogo e matado a parada ali mesmo. Mesmo assim, a perda do título doeu-me muito naquela hora e nos dias seguintes, tanto que é, para mim, a derrota mais amarga que eu me lembre do Corinthians, superando até mesmo os 4 a 1 para o Atlético-MG em 2014 e os 5 a 1 para o São Paulo em 2005.

Penso até hoje que, se fosse campeão da Copa do Brasil em 2008, o Corinthians de 2009 teria tido uma ótima chance de conquistar a Libertadores pela primeira vez, pois o futebol demonstrado por aquele time de Ronaldo, Jorge Henrique e Dentinho no primeiro semestre, que era quando ocorria o torneio continental, pareceu-me bem maior do que o do campeão Estudiantes e do que o do vice Cruzeiro.

No entanto, não há como mudar o passado, inclusive em outra competição continental, desta vez na Europa em 2010.

3º lugar: Barcelona 1 x 0 Inter de Milão – Semifinal da Champions League 2009/2010 – Barcelona eliminado

Camp Nou. O lendário esquadrão de Messi e cia, representando o Barcelona, é eliminado nas semifinais da Champions League após perder fora por 3 a 1 e ganhar em casa só por 1 a 0 mesmo com um a mais. O motivo? O adversário era a Inter de Milão, com uma retranca montada pelo maior especialista no assunto: o superestimadíssimo José Mourinho.

Se eu achei Palmeiras 2 x 1 Santos uma injustiça, nem preciso explicar mais nada ao leitor, até porque o próximo jogo demandará bem mais explicações.

2º lugar: Brasil 1 x 2 Holanda – Quartas de final  da Copa do Mundo de 2010

Se você, assim como eu, não apreciou o trabalho de Dunga com a seleção em 2015 e 2016, peço que respire fundo e me acompanhe, pois o que falarei pode parecer loucura agora, mas fará sentido: não, o Brasil não mereceu perder para a Holanda de Robben e Sneijder em 2010, por mais que ambos os carequinhas tenham jogado sobrenaturalmente naquela partida.

Primeiro, é importante lembrar que, apesar de Dunga ter montado um time excessivamente reativo e de ter feito escolhas no mínimo duvidosas já à época, a seleção brasileira em 2010 tinha se classificado na fase de grupos sem maiores problemas. Pode-se dizer, é claro, que o empate com Portugal no último jogo era um indício de que aquele time não iria longe, mas o fato é que, mesmo nesse jogo, o Brasil não teve grandes sustos, ao contrário da Copa seguinte, a de 2014, em que a seleção passaria apertado nos três jogos da primeira fase,  mesmo com o placar elástico contra a fraquíssima Camarões 2014.

A Holanda, por sua vez, também passou com tranquilidade na fase de grupos, mas em um grupo sem qualquer seleção de maior peso. Curiosamente, tanto Holanda como Brasil chegaram às oitavas com cinco gols marcados, sendo que, enquanto a Holanda ganhou da Eslováquia por 2 a 1 na marra, o Brasil fez 3 a 0 no Chile (que vinha melhorando seu nível técnico em relação às copas anteriores) sem muito suar, apesar da ausência de Elano, jogador que, após uma lesão, faria bastante falta ao time justamente nas quartas contra a Holanda.

Óbvio que, ainda assim, não seria possível para qualquer um que tenha visto os jogos da seleção de Dunga em 2010 concordar comigo que essa eliminação para a Holanda foi uma grande injustiça, principalmente porque não se trata de alguma zebra, mas o que me deixa inconformado até hoje é: o Brasil foi eliminado no seu melhor jogo na Copa por uma Holanda que fez, talvez, o seu pior jogo naquela Copa.

Se o que eu acabei de dizer pode parecer ousado, peço que se lembrem do primeiro tempo: um verdadeiro massacre brasileiro, com a Holanda acuada, em especial após o 1 a 0 (gol de Robinho após passe magistral de Felipe Melo), resistindo como podia às investidas brasileiras, com Robben e Sneijder praticamente ausentes do jogo.

Algo, porém, aconteceu no intervalo, pois, no segundo tempo, o Brasil diminuiu o ritmo e foi aí que a Holanda achou, ou melhor, que Robben e Sneijder acharam dois gols, primeiro em um momento de rara infelicidade de Júlio César (que havia sido eleito o melhor goleiro da Europa e do mundo na temporada 2009-2010), depois em um momento de infelicidade conjunta de Júlio César e Felipe Melo (que foi alvo de críticas imerecidas pós-jogo, pois vinha sendo um dos destaques daquela seleção). Falando no volante brasileiro, infelizmente sua expulsão após pisão em Robben foi a pá de cal definitiva.

Sim, eu sei que, se chegasse à final, o Brasil provavelmente não ganharia da Espanha. Sim, eu sei que um possível triunfo contra a Holanda naquelas quartas de final só adiariam a inevitável eliminação. Sim, eu sei que nem de longe o Brasil mereceria a final da Copa em 2010 até aquele jogo. O problema é que, justamente no jogo em que mereceu, caiu. Mais ainda, caiu e praticamente sepultou a carreira de um dos maiores injustiçados que já vi no futebol: Júlio César.

1º lugar: Fluminense 3 x 1 LDU – Final da Copa Libertadores de 2008 – LDU campeã nos pênaltis

Nenhum desses jogos, porém, passa sequer perto da maior injustiça que já vi no futebol. Diria mais: o que aconteceu naquela noite de 02 de julho de 2008 no Maracanã foi um crime cometido contra o bom futebol principalmente porque, pelo que vemos nos últimos anos, o Fluminense dificilmente terá uma nova chance de conquistar essa taça nos próximos anos.

Não me arriscarei, aqui, a contextualizar ou a narrar em detalhes o jogo em si, pois o excelente site Imortais do Futebol tem um texto melhor do que qualquer um que eu poderia escrever sobre esse jogo. Ainda assim, se digo ser esta a maior injustiça que vi, devo no mínimo descrever um pouco o jogo.

O jogo dos três gols de Thiago Neves, incluindo uma cobrança de falta magistral. O jogo em que a arbitragem esqueceu-se de que times equatorianos também podem ter seus jogadores amarelados quando cometem faltas brutais. O jogo em que um time ofensivo e bem organizado pelo então mais falastrão do que técnico Renato Gaúcho foi superado pela retranca de Edgardo Bauza, técnico que, futuramente, após ganhar nova Libertadores em 2014 com um novo time retrancado (San Lorenzo), se tornaria extremamente superestimado, vindo a comandar o São Paulo (!) e a seleção argentina (!!), nos quais provou que Libertadores não dá camisa para ninguém.

O jogo, enfim, em que um Fluminense titânico, que havia eliminado na raça e na bola Atlético Nacional-COL, São Paulo e Boca Juniors, sucumbiu nos pênaltis a um goleiro mediano em noite sobrenatural (Cevallos) e a um time que só havia chegado à final por ter tido cruzamentos mais fáceis no mata-mata, tendo, mesmo assim, que jogar com o regulamento embaixo do braço várias e várias vezes na competição.

Como corintiano desde 2000, confesso: se houve um jogo na minha vida em que torci para algum time além do Corinthians, foi aquele Fluminense x LDU. Como jogavam Thiago Neves, Conca e companhia. Aquele time merecia a América, mas, felizmente ou infelizmente, o futebol tem dessas. Se eu dissesse que aquele jogo não foi a maior injustiça que vi, seria eu mais injusto ainda.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não quer nem imaginar como seria um jogo entre um time de Mourinho e um time de Bauza. Não responde a pergunta “Guardiola ou Mourinho?” porque não sabe nem se Mourinho é equiparável a Rafa Benítez, quem dirá a Guardiola.

Minha seleção do Brasileirão Série A 2017

Pretendo, hoje, inaugurar neste blog o costume de montar as minhas seleções dos campeonatos brasileiros de futebol, a menos quando concordar com os números do Prêmio Bola de Prata. O leitor, é claro, está convidado a discordar, mas peço que entenda, antes de tudo, os meus critérios.

Primeiro, ganhará pontos com este blogueiro o jogador que tenha jogado de modo “constante” no ano, ou seja, que não tenha passado 38 rodadas oscilando entre ótimos e péssimos jogos. Isso, inclusive, explicará algumas escolhas de atletas em detrimento de outros.

Segundo, o esquema a ser adotado é um 4-3-3 que possa ser adaptado para um 4-2-3-1 ou mesmo um 4-1-4-1. Em outras palavras, contará não só a habilidade de cada jogador individualmente, mas também o fato de como eu os imagino jogando juntos coletivamente. Por exemplo, um meio campo com Hernanes, Diego, Éverton Ribeiro, Luan e Thiago Neves seria ótimo individualmente, mas não funcionaria pelas características desses jogadores.

Terceiro, sim, os destaques de cada time têm boas chances de aparecer nessa seleção, mas ser destaque por si só não garantirá o lugar de ninguém aqui. Um destaque, por exemplo, que tenha mais sido poupado do que jogado, por melhor jogador que seja, não estará nesta seleção.

Quarto, sim, as outras competições em que os jogadores atuaram sempre contarão, mas apenas para critério de desempate, e não para escolher o jogador, a não ser em casos em que nenhum jogador tenha feito algo de tão notável assim no campeonato brasileiro.

Dito isto, vamos às posições:

No gol, há, é claro, a cruel dúvida entre o santista Vanderlei e o corintiano Cássio. Mesmo sendo corintiano, no entanto, não posso fechar os olhos para o fato que chamo de “Vanderlei-dependência”: enquanto Cássio foi peça importante em um esquema bem montado por Fábio Carille, Vanderlei foi vítima da desorganização que imperou na Vila Belmiro o ano inteiro, sendo o craque de fato do time após um ano fraquíssimo de ícones como Lucas Lima e Ricardo Oliveira. Cássio, pois, apesar de o time santista ser superior em termos de bola ao escrete corintiano, tinha leve vantagem, o que desempata o confronto a favor de Vanderlei.

Na lateral no lado direito, Fágner reinou absoluto, apesar de ter oscilado no segundo turno, assim como todo o time do Corinthians. Fágner, porém, não teve concorrência, que foi justamente o que tirou de Guilherme Arana o lugar de lateral-esquerdo do meu time do ano, por mais que me agrade muito enquanto lateral. Enquanto Arana oscilou, Diogo Barbosa, o lateral cruzeirense, foi constante e decisivo tanto no Brasileirão como na Copa do Brasil, e levou a vaga.

Na zaga, parece-me óbvio que Pablo merece um lugar nesse time, também por ter sido decisivo e por não ter oscilado tanto quanto o resto do time alvinegro. Minha outra escolha, porém, pode surpreender: o flamenguista Juan, ex-seleção brasileira.

Sim, eu sei que ele está velho. Sim, eu sei que Geromel, do Grêmio, chegou a jogar melhor em vários momentos. Ainda assim, o que o torna minha escolha no lugar do bom zagueiro gremista é que Juan conseguiu o que ninguém imaginaria: foi, talvez, o único jogador que passou o ano inteiro no Flamengo e que, justamente por sua constância, por sua habilidade e por sua alma rubro-negra, não foi contestado praticamente em momento algum, nem poderia. Para um atleta veterano, essa façanha não pode ser deixada de lado.

Passando ao meio campo, opto por Gabriel (Corinthians), o melhor e mais constante primeiro volante do Brasileirão, ao lado de Hernanes, o responsável pela virada tricolor de um turno patético (o primeiro) para um turno heroico e respeitável (o segundo), e Thiago Neves, o icônico meia do Cruzeiro que, apesar de subestimado pela mídia em geral, jogou muita bola e, em determinados momentos do campeonato, foi vital para o time de Mano Menezes sair com a vitória. Passou, enfim, de contestado a respeitado, podendo se tornar ídolo caso permaneça no clube mineiro.

No ataque, pela ponta esquerda, por motivos óbvios para quem assistiu jogos do Santos, Bruno Henrique é o nome, enquanto a ponta direita será ocupada por ninguém menos do que Luan, do Grêmio? Não, pois seria incoerente com o critério de ser um destaque que mais foi poupado do que levado a campo. Na ponta direita, coloco Cueva, que, apesar de um primeiro turno questionável e de contestações por parte de imprensa e torcida, levou o São Paulo e a seleção peruana adiante como protagonista ao lado de Hernanes (no São Paulo) e de Guerrero e Farfan (na seleção peruana).

Por fim, o centroavante, claro, não poderia ser outro: , um dos que ajudou o Corinthians a aposentar críticos (incluindo este que vos fala) em 2017.

Quanto ao técnico, confesso minha dúvida entre Fábio Carille e Jair Ventura. Enquanto Carille tem a seu favor o caneco incontestável, Jair levou um Botafogo ainda mais questionado e contestado a grandes feitos. Com isso, creio ser justo dizer o seguinte: Carille é meu técnico no Brasileirão, mas Ventura, por pouco, é meu técnico no ano.

Como menções honrosas, listo: Cássio, Balbuena, Geromel, Guilherme Arana, Bruno Silva, João Paulo (Botafogo), Romero (!!!), Luan (Grêmio),  Keno (que se mostrou um injustiçado pelos técnicos anteriores do escrete alviverde paulistano), Moisés e Lucas Barrios (que tiveram o azar de se machucarem, mas que foram bem nos jogos que disputaram), Jair Ventura e Renato Gaúcho.

Eis, pois, a seleção em campo, com Fábio Carille na área técnica:

Seleção Brasileirão 2017

Se curtiram, compartilhem. Se não curtiram, também compartilhem… e cornetem, é claro.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Não é Ademir Quintino do EI, mas terminará este texto com a #PRONTOFALEI.

Carta aberta aos elitistas que querem eleger Bolsonaro (e que não são quem você pensa)

Caros novos “bolsonetes”,

Confesso que fui pego de surpresa. Sempre encarei como possíveis eleitores ou apoiadores de Jair Bolsonaro à presidência um público que se declara conservador e que apoia publicamente causas como a total proibição do Aborto, a revogação do Estatuto do Desarmamento, a militarização das escolas públicas, a diminuição da maioridade penal ou outras que representassem ideais que causam pânico e/ou asco aos membros da extrema-esquerda brasileira.

Nunca imaginaria, entretanto, que a própria extrema-esquerda brasileira estaria tão determinada assim a alçar o deputado carioca conhecido por seus entreveros com figuras políticas de extrema-esquerda à presidência do Brasil. Seria alguma estratégia nova para mostrar que um representante da direita brasileira não conseguiria governabilidade ou que não teria as aptidões necessárias para exercer o mais alto cargo executivo no país? Ou teria sido um erro primário involuntário?

Afinal, só mesmo alguma estratégia política muito sofisticada ou um erro de estratégia política muito primário levariam uma revista tão politicamente hábil como a Carta Capital a dar espaço em um de seus blogs a uma fraquíssima distopia que narra alguns acontecimentos dos primeiros 25 dias de 2019 em um governo Bolsonaro e que serviria, segundo seu autor, para ajudar a evitar que Jair Bolsonaro chegasse ao cargo de presidente do Brasil.

“As distopias podem ajudar a prevenir tragédias. Espero que esta nos ajude a pensar e agir, preventivamente, sem menosprezar riscos que, hoje, talvez pareçam inexistentes pelo absurdo que representariam, mas cuja consequência por vezes surpreende”, alerta o “distopista” ao terminar seu texto, reafirmando o óbvio para qualquer um que já tenha lido um texto distópico ao menos uma vez na vida.

O problema, no entanto, é que, em sua distopia mais furada do que os canos do navio pelos quais o gaiato entrou, o autor a quem a Carta Capital deu espaço simplesmente se esqueceu dos requisitos mais básicos para um texto distópico conseguir causar no público as emoções necessárias para levá-lo no mínimo a repensar suas ideias preconcebidas e no máximo a tomar as atitudes necessárias para que o cenário distópico seja evitado.

Primeiro, cometeu um erro tão básico que seu texto poderia até servir para o capítulo 1 de um guia sobre como escrever distopias: em vez de fazer como George Orwell em “1984” e criar um Winston para chamar de seu e para servir de janela do leitor para o mundo distópico descrito, o escritor preferiu simplesmente descrever o mundo pós-eleição de Bolsonaro utilizando um ponto de vista totalmente impessoal.

O caso, caros elitistas neobolsonetes, é que qualquer um que tenha lido uma distopia (ou mesmo um texto alarmista de internet um pouquinho mais elaborado do ponto de vista estético) na vida sabe que é justamente o fato de ver um personagem sofrendo na pele as agruras de um mundo distópico que nos leva às mais diversas sensações, todas elas pouco agradáveis e muito realistas, enquanto lemos o texto literário.

Se Orwell, em sua genial distopia, resolvesse simplesmente narrar eventos que ocorreram no mundo de Winston e descrevê-los sem focalizar em algum personagem que sofresse nesse mundo distópico, bem menor teria sido o efeito de seu livro em gerações e gerações, isso se não tivesse caído no esquecimento depois de um ou dois anos. O autor de origem indiana, porém, sabia o que o autor dessa distopia fraquíssima anti-Bolsonaro esqueceu: que a narrativa personalizada é uma das mais importantes armas para comover pessoas a favor ou contra alguém ou alguma causa.

Em segundo lugar, não só as distopias, mas qualquer texto de caráter literário que se preze, deveria ter a verossimilhança como parâmetro ao ser escrito. Em outras palavras, ainda que se crie um universo totalmente ficcional, deve haver coerência interna de modo que o leitor consiga acreditar que, dentro daquele universo criado, os acontecimentos descritos pelo autor são logicamente aceitáveis. Por exemplo, se um determinado autor resolve criar um universo literário em que absolutamente nenhum pássaro pode voar, seria uma quebra de verossimilhança se, mais para frente, em um dos trechos de sua obra aparecesse algo como: “Tendo sido alimentado por sua dona, o pardal então voou suave e feliz”.

Em uma distopia, então, a verossimilhança assume um papel ainda mais vital, pois o ponto de partida são justamente os elementos que já existem em uma sociedade, as convenções que as pessoas já seguem. Descrever, por exemplo, um cenário em que Bolsonaro é eleito e consegue tranquilamente pôr um plano de banimento público da esquerda brasileira em ação em menos de 30 dias é simplesmente brincar de forma literariamente inaceitável com um conceito tão básico.

Ora, qualquer brasileiro com o mínimo de percepção sobre o próprio país sabe que há bastidores da política que podem muito bem atravancar determinados projetos até que as mãos certas sejam molhadas, o que por si só já levaria um bom tempo, em especial se considerarmos que o próprio partido de extrema-esquerda mais destacado no Brasil (o PT) não tem como característica simplesmente permitir que seus oponentes levem quando ganham (alô, Collor, aquele abraço!).

Além disso, qualquer um que conheça minimamente a história dos personagens políticos mais relevantes do Brasil atual sabe que um trecho como “sem alarde, Lula pede asilo ao Uruguai” é impossível, já que o jogador político Lula não se caracterizou, até hoje, como alguém que pede asilo político e que faça qualquer coisa sem alarde, por exemplo, até porque poderia ter feito algo do tipo antes mesmo de ter ido depor para Sérgio Moro e não o fez.

Por fim, e mais importante, quando se escreve uma distopia, por mais ideologizada que seja, em especial sobre um país historicamente marcado pela pobreza de seu povo, não se pode deixar de descrever os problemas financeiros causados por uma ditadura impiedosa às pessoas. Quem não se solidariza, afinal, com o fato de que, no mundo distópico de 1984, até os sapatos estão em falta por causa da economia planificada imposta pelo Partido?

Até mesmo o economista liberal Rodrigo Constantino, que nem de longe pode ser  conhecido por ser um mestre da composição literária, ao escrever um texto distópico em seu blog em O GLOBO, lembrou-se dessa regra de ouro e, ainda que com imagens esteticamente simples, mostrou não o sofrimento questionável das elites do qual a própria extrema-esquerda faz troça, e sim o de um povo que seria vítima até de racionamento de um alimento básico como o pão, isso depois de muitos anos de políticas equivocadas (no caso de Constantino, a distopia ocorre em 2030, 17 anos depois da publicação original do texto), e não de 20 e poucos dias de um governo.

O que fez, por sua vez, o candidato a “distopista” a quem a Carta Capital deu espaço? Despejou elitismo, citando primeiro figuras e movimentos no mínimo controversos perante a opinião pública (Lula, Dilma, MST) e depois figuras francamente desconhecidas de grande parte do povo brasileiro (fora um ou outro mais bem informado, alguém saberia responder quem são Mário Sérgio Conti e Paula Lavigne se perguntado na rua amanhã?), só sendo conhecidas mesmo por uma elite que tem “nojinho” das ideias do povo e que tem tempo e dinheiro para ficar assistindo GloboNews, por exemplo.

O máximo que foi feito pelo autor foi uma breve linha em que se lê: “Nas favelas o bicho pega. Perde-se a conta das vítimas.”, como se essa situação não ocorresse antes da eleição de 2018 e, mais ainda, como se não ocorresse durante os governos Lula e Dilma, dois governantes (mais Lula do que Dilma) que, mesmo sob um ponto de vista de extrema-esquerda, tiveram a chance de ouro nas mãos para reverter a situação e nada fizeram.

Em resumo, se a intenção era alertar quem quer que fosse para a “ameaça Bolsonaro“, o aviso deveria ter sido composto com um mínimo de aparência de urgência, e não com afetações de um elitismo esnobe como em “senhoras e senhores erguem terços, bíblias e panelas, o novo símbolo nacional.” e em “O brado do planalto ecoa como uma sinfonia eufórica e metálica de panelas: ‘Para varrer o crime e a corrupção, não basta invadir favelas; é preciso limpar a política’.”, que só impressionariam mesmo o esquerdista mais fanático.

Concluo esta carta confessando que, até a publicação dessa distopia fraquíssima e elitista, não sentia o menor desejo de ler publicações da Carta Capital, pois pareciam de uma previsibilidade de causar sono. Creio, porém, que estive errado em minha posição e que talvez valha a pena ler algo dessa revista. Afinal, do jeito que vai, posso até me deparar com um post defendendo o MBL, Donald Trump ou até Marine Le Pen. Depois desse episódio, tudo é possível, não?

Octavius, antielitista e polemista medíocre

Eu, Apolítico – Os dois motivos por que Bolsonaro não ganhará para presidente em 2018

Desde antes mesmo do impeachment de Dilma Rousseff, ex-presidente do Brasil, muitos começavam a pensar nas eleições de 2018, especulando os futuros presidenciáveis possíveis e viáveis, indo de figuras como João Dória Jr., um então novato na política, até o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, cuja presença na política brasileira vem de longa data.

Um dos presidenciáveis, no entanto, obteve e continua obtendo o maior destaque, tornando-se uma das figuras mais debatidas Brasil afora: Jair Messias Bolsonaro, menos conhecido como deputado federal pelo Rio de Janeiro e mais conhecido pelos entreveros em que se envolve(u) com figuras como Maria do Rosário e Jean Wyllys.

Odiado por muitos e amado por tantos outros, o deputado federal do Rio passou até mesmo a ser chamado de “mito” internet afora, vendo, em pouco tempo, sua popularidade crescer como nunca antes em sua extensa carreira política como parlamentar.

Vários de seus adoradores, aproveitando-se do fato de Bolsonaro até o momento não ter sido implicado em escândalos de corrupção (em especial, nos mais destacados), cravaram: o “mito” ganhará em 2018 porque é honesto. Outros tantos, adoradores ou não, analisaram a figura de Bolsonaro e seus discursos e concluíram: Bolsonaro tem grandes chances em 2018, e provavelmente ganhará, porque representa o povo.

Por mais que eu concorde com a ideia de Bolsonaro de fato representar o povo bem mais do que nossos intelectuais de extrema esquerda (aliás, até uma pedra representaria melhor, mas essa é outra discussão) e que não tenha tido motivos, ainda, para duvidar da probidade do deputado, o caso é que, na realidade, Bolsonaro não ganhará em 2018 por ser honesto e por representar o povo.

Primeiro, afirmar que qualquer candidato ganhará ou perderá alguma eleição por ser honesto ou desonesto é confundir análise política com torcida e pressupor que, como em novelas mexicanas mequetrefes e em historietas da carochinha, o bem sempre vencerá o mal, quando qualquer um com o mínimo senso de observação sabe que, muitas vezes, o bem perde e o mal sai impune ou mesmo ganha, pois a realidade nua e crua vira e mexe não está nem aí para esses conceitos morais.

Segundo, é óbvio que se alinhar aos interesses do povo, até representando-o em termos de discurso, é uma ótima vantagem para um candidato à eleição que seja. O problema, porém, reside no fato de que afirmar “o candidato ‘fulano’ ganhará por representar o povo e seus ideais” pode deixar implícito que os concorrentes não sejam representantes do povo e de seus ideais, o que é pouco provável, já que todos os candidatos, de uma forma ou de outra, têm origem popular.

O fato é que, se ganhar em 2018, Bolsonaro não deverá isso a ser probo ou a representar o povo, mas sim a como se utilizará dessas características para obter o voto e o apoio pós-eleição (afinal, ganhar e levar são coisas diferentes, vide Collor) dos eleitores dos mais diversos estratos sociais.

Adicione-se a isso o fato de, como qualquer analista político minimamente atento à realidade sabe, política ser pouco mais do que um jogo de aparências e uma guerra por outros meios, e poderemos resumir o que foi dito até aqui da seguinte maneira: não basta à mulher de César ser honesta (e representar o povo), ela deve parecer honesta (e representante do povo) e, mais ainda, deve fazer que seus oponentes não destruam (ou desconstruam) sua aparente honestidade (e representatividade popular).

Em outras palavras, por analogia, o caso é que, para ganhar a eleição presidencial em 2018 ou em qualquer outro ano, é quase irrelevante se Bolsonaro é ou não honesto e representante do povo, sendo o mais importante para seus fins que o parlamentar consiga criar e manter, para o Brasil inteiro, a aparência de probidade e de representatividade popular.

Para isso, Bolsonaro deve fazer política. Se ganhar em 2018, será, pois, por um só motivo: fez política de modo mais eficaz do que seus adversários. O resto é maniqueísmo improvável e politicamente infantil, equívoco e confusão, intencional ou não, de análise política com torcida.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Queria ter terminado esse artigo na metáfora que tanto usa, mas preferiu não se arriscar.

A Mulher do Ano e de um futuro inevitável

Anitta foi eleita a “Mulher do Ano” por uma revista masculina da Globo. A reação foi rápida: “É um absurdo!”, “A professora que morreu salvando seus alunos é que deveria ser a mulher do ano!”, “Perguntei ao motorista do ônibus: a que ponto chegamos?”, entre outras frases esperadas vindas do brasileiro médio.
O caso é que, sobre Anitta ser eleita a mulher do ano, não, não é um absurdo. O grande problema é outro: é muito lindo e muito nobre querer que a professora Heley Batista, morta em um incêndio em uma creche para salvar alguns de seus alunos, fosse eleita a mulher do ano, mas é quase certo que pelo menos metade das pessoas que a estão querendo naquele prêmio sequer lembravam da sua existência antes desse anúncio, posto que, lamentavelmente, Heley tornou-se mais uma notícia trágica em um ano que, se torcido, expeliria um Mediterrâneo de sangue com tantas mortes e tragédias.
Já Anitta, bem ou mal, é uma celebridade que teve destaque em 2017 (inclusive por ter catapultado Pablo Vittar, outra figura que mobilizou todo tipo de paixões), que está sempre na boca do povo já faz alguns anos justamente por ser a cantora de um ritmo que, seja para ser adorado, seja para ser criticado, está na boca do povo, e que tem um apelo grande justamente com o público da revista que a elegeu, o público masculino.
O que me consola enquanto analista político é que ninguém que eu tenha visto criticou a cantora com termos como “vagabunda”, “puta”, entre outros, pois, aí sim, a situação ficaria muitíssimo desfavorável para os detratores, pois Anitta poderia simplesmente pegar esses comentários, fazer um vídeo com bons frames e posar de vítima e de heroína ao mesmo tempo, ganhando talvez defensores improváveis simplesmente pelo fato de ser ofendida com adjetivos os mais terríveis.
O que alegaram, e que não é mentira, é que o defeito de Anitta tem sido, em seus discursos, transitar em uma linha tênue entre o vazio típico das celebridades e o feminismo (modinha) dominante em termos discursivos redes sociais brasileiras e estrangeiras afora, enquanto tantas outras, incluindo Heley, representariam valores de uma mentalidade menos vazia porque mais elevada.
O problema, amigos, é justamente que pelo menos metade do Brasil transita entre isso. Anitta, ao fim e ao cabo, não é só a mulher do ano, mas também, talvez, a representação do presente e do futuro do Brasil. Ficar com demagogia barata invocando o nome dos que já morreram, por mais heroica que tenha sido a sua morte e por mais méritos que haja nas ações que a levaram a perder a vida, não mudará isso e, pior, se mal feito, poderá até agravar a situação. Poderíamos até ver Heley eleita este ano por qualquer revista, mas até quando conseguiríamos evitar o que, parece, é e será inevitável?
Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Até diria que Gustavo Nogy tem razão, mas ironia tem limite.

Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.