Eu, Apolítico – As Olimpíadas do “mimimi”? Muita hora nessa calma, conservadores

Não é segredo para ninguém, a não ser para alguém extremamente alienado em relação aos fatos do dia, que, no dia de hoje, se encerraram os jogos olímpicos de 2016, sediados no Rio de Janeiro. Em termos desportivos, houve alguns destaques já previstos por todos, como o corredor jamaicano Usain Bolt, o ginasta japonês Ushimura e o nadador americano Michael Phelps, e houve alguns que, por seu ineditismo, surpreenderam até o mais otimista dos brasileiros, sendo dois fortes candidatos o ouro do futebol olímpico masculino e o desempenho do Brasil na canoagem com o jovem Isaquias Queiroz e suas três medalhas (duas pratas e um bronze).

Em termos políticos, porém, é que aconteceram os destaques que mais captaram a atenção deste articulista. Do caso de um garoto fã de futebol instrumentalizado pelas feministas para seus discursos políticos à implicância contra a faixa 100% Jesus exibida por Neymar ao comemorar o ouro olímpico, o fato é que tivemos, talvez, as Olimpíadas mais politizadas da história recente, superando e muito qualquer politização que tenhamos visto em Atlanta, Sidney, Atenas, Pequim e até mesmo em Londres, sendo que a politização já havia sido relativamente alta na capital inglesa.

Em face disso, alguns dos direitistas, quer conservadores, quer liberais, que não têm vergonha de declarar seu asco quanto a esse mundo superpolitizado criado pela esquerda foram rápidos e taxativos. Segundo eles, as Olimpíadas Rio 2016 entrarão para a história como “As Olimpíadas do mimimi”, já que a esquerda não hesitou por um minuto e reclamou abundantemente sobre qualquer conduta dos atletas que fugisse aos desejos totalitários e fascistas dessa mesma esquerda que finge se preocupar com oprimidos, mas que, na verdade, como qualquer ser humano mais ou menos racional já está careca de saber, só quer saber do poder pelo poder.

O caso, na verdade, é que o direitista que for inteligente enxergará, nos presentes jogos olímpicos, não “As Olimpíadas do mimimi”, e sim “As Olímpiadas da oportunidade”. Oras, se formos francos e se tivermos visão suficiente para ver para além das aparências, o fato é que, depois dessas Olimpíadas, a direita, independente de a que matiz religioso ou ideológico se filie, acabou de ganhar não só uma, mas várias oportunidades para começar a derrota de vez a esquerda em termos culturais.

A esquerda, por exemplo, desdenhou de e execrou sem dó os atletas militares, desde o atirador Felipe Wu até a dupla de vôlei de praia Alison e Bruno, que prestaram continência à bandeira nacional quando subiram ao pódio. O problema para a esquerda, no entanto, foi que, nos esportes individuais ou em dupla, foram justamente esses atletas os maiores responsáveis por, além de evitar um completo vexame brasileiro, também levar o Brasil, junto com os esportes coletivos, ao seu melhor desempenho em Olimpíadas.

Ficou claro para todos os que queiram ver, então, que, para a nossa esquerda canalha e fascista, suas fantasias ideológicas perversas são tão importantes que nem mesmo um momento de felicidade que seja é permitido se tudo não for feito de acordo com os delírios esquerdistas.

O brasileiro, pois, que se sentisse humilhado e ainda mais deprimido do que de costume ao assistir às Olimpíadas por semanas e ao ver, no quadro final, só as medalhas dos esportes coletivos e dos atletas civis: o que importa é que a ideologia dita protetora de oprimidos não seja desafiada, não é mesmo? Será que tamanha falta de empatia com os sentimentos dos outros passará impune e que os direitistas militaristas não tentarão lembrar o povo de tamanha crueldade constantemente?

Outro exemplo destacado é, sem dúvida, a implicância com a já citada faixa de cunho cristão na cabeça de Neymar. Contra ela, esquerdistas usam os erros passados de católicos e evangélicos (Cruzadas, Inquisição e tudo o mais que já conhecemos), alegando que um atleta utilizar esse adereço seria propaganda religiosa e que, mais ainda,  o próprio Neymar, além de vários outros que querem ser como Neymar, só professam certa religião porque foram doutrinados por seus pais ou responsáveis a fazê-lo.

Que moral tem para falar de qualquer tipo de doutrinação ideológica ou religiosa de crianças, porém, uma esquerda que usa despudoradamente um garoto inocente para fazer propaganda de feminismo às custas da seleção feminina de futebol, em quem caiu, também, uma pressão gigantesca que quase certamente atrapalhou  o bom time montado por Vadão na busca pelo inédito ouro olímpico?

Pior ainda: como uma esquerda podre como a nossa quer falar com autoridade moral sobre qualquer tipo de doutrinação ou sobre uso da imagem de  crianças para angariar simpatizantes a uma causa quando não tem a menor vergonha de se utilizar de crianças, de idosos, de gestantes e de qualquer outra figura pela qual o brasileiro médio sente empatia para divulgar mentiras totalitárias por meio das asquerosas fanfics de esquerda, cujo claro objetivo sempre foi aumentar a soberania psicológica dos esquerdistas sobre a cultura e sobre a sociedade?

Será, porém, que os direitistas cristãos (os mais diretamente ofendidos pela crítica à faixa de Neymar) e mesmo quaisquer direitistas seculares de bom senso deixarão sair impune uma esquerda que não perderá tempo e que apelará para canalhices dessa natureza para continuar a ganhar poder sobre todos, quer direitistas, quer não? Ou será, na verdade, que finalmente partirão de vez para a guerra política, isto é, para a alternativa mais moral e mais pacífica para derrotar a esquerda?

Reafirmo, em suma, a tese inicial deste artigo: só mesmo um direitista com pouca visão poderá notar apenas “mimimi” em tudo o que ocorreu nessas Olimpíadas. O direitista esperto, na verdade, notará oportunidades, sendo a principal delas, na realidade, a oportunidade de fazer que a esquerda não mais saia impune, politicamente falando, das totalitarices que prega. Ou é isso, ou continuarão a provar que ainda não entenderam como o mundo de fato funciona.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera francamente estar errado quando pensa que a direita, mais uma vez, irá comer bola politicamente.

Uma solução parcial para o dilema da direita quanto à guerra política

Vejo muitos amigos de direita incomodados quando eu, o Luciano Henrique Ayan ou o Roger Roberto dizemos que a direita precisa passar a jogar a guerra política ou continuará à mercê dos canalhas da esquerda, podendo inclusive ser jogada na lata de lixo da história se a esquerda continuar ganhando mais e mais poder.
Confesso que entendo o incômodo. De certa forma, afinal, algumas vezes nós três (principalmente eu, bem mais do que o Luciano e o Roger) acabamos sendo um pouco inflexíveis demais e, do jeito que colocamos as coisas, fica parecendo que tudo o que queremos é uma direita que seja, na verdade, uma “esquerda de sinal inverso”, ou, como diria o amigo Marcos Aurelio Lannes Jr. em recente artigo, parece que queremos que os direitistas tratem a guerra política como um fim em si mesmo.
Lógico que acusar qualquer um de nós de sugerir que a guerra política deva ser um fim por si própria é uma objeção ridícula, já que, por definição, só se faz a guerra política em prol de algum objetivo exterior à guerra política, mas o fato é que, realmente, algumas pessoas simplesmente não vão conseguir aplicar a maior parte dos princípios da guerra política.
Isso não se dá, ao contrário do que muitos pensam, porém, por elas serem católicas, ateístas, muçulmanas, evangélicas, ex-esquerdistas ou o que quer que queiram ser. Isso se dá, muitas vezes, porque essas pessoas simplesmente partem de premissas diferentes daquelas adotadas pelos adeptos da guerra política, quer sejam liberais, como Luciano Ayan, quer sejam libertários como Roger.
Poucos conservadores que eu conheço, por exemplo, conseguiriam tratar todo tipo de militante de esquerda como um canalha consciente da aberração moral representada pelo esquerdismo, preferindo tratá-lo como um “utópico”, um “pobre iludido” que foi enganado, aí sim, por canalhas com objetivos totalitários na cabeça.
É óbvio que eu enxergo o tratamento como “canalha” como muito mais eficiente do que o tratamento como “utópico”, mas o fato é um só: ao menos nos próximos anos, boa parte dos direitistas simplesmente não vai conseguir tratar como canalha quem eles acreditam ser um mero iludido, e isto porque eles ainda não conseguem entender que nem sempre, principalmente em política, nossas crenças devem ser enunciadas como verdades para todos e em qualquer circunstância.
O problema, porém, é que, ao mesmo tempo que essas pessoas não conseguirão ir ao modo mais “hardcore” de combate político, aqueles que conseguem continuarão precisando da ajuda dessas pessoas para combater a esquerda exatamente porque, no presente momento, o que os direitistas mais precisam é de aliados, ainda que temporários e ainda que não perfeitos. Como, então, conseguir fazer que essas pessoas ajudem mais do que atrapalhem a esquerda na guerra política?
A resposta é até bem simples. Ora, antes mesmo de fazer os direitistas enxergarem os esquerdistas como bem mais do que meros ingênuos, bem mais importante é fazer a direita perceber que, à mulher de César, não basta ser honesta, esta também deve parecer honesta, ou, trocando em miúdos para o nosso assunto, não basta um sujeito estar com a verdade, este também precisa fazer que essa verdade ganhe a simpatia das pessoas, ou estas simplesmente se recusarão a segui-la, ainda que os fatos a corroborem de maneira inexorável.
Em resumo, não é necessário o direitista abdicar de suas verdades, mas sim saber quando dizê-las e, mais urgentemente, saber como torná-las mais simpáticas, mais didáticas e mais atraentes não para os já convertidos, mas principalmente para os neutros que andam tendendo mais à esquerda exatamente pelo fato de a esquerda ter percebido, há muito tempo, o princípio enunciado acima.
Para isso, é, claro, preciso aplicar pelo menos um princípio da guerra política, o de falar ao coração das pessoas para ganhar apoio (ou para, pelo menos, fazer o inimigo perder apoio), mas que é, antes de tudo, um princípio de convívio social que muitos desses direitistas já usam. Afinal, quando se quer, por qualquer motivo que seja, ganhar a simpatia e até a amizade de uma pessoa, mentiras não são necessárias nem úteis, sendo necessário, na verdade, mostrar a essa pessoa que não somos monstros ou insensíveis, mas sim pessoas compreensivas com as quais se poderá contar em momentos mais difíceis da vida.
Se a direita mais resistente à adesão à guerra política não conseguir aplicar esse princípio, aí perceberemos que o problema não é negação da política, e sim negação da vida social em si, o que, aí sim, será ainda mais preocupante do que as negações que a direita já faz.
Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre.  Sabe que empatia tem limite, mas acha que a direita não está nem perto dele ainda.

Eu, Apolítico – Um conselho rodriguiano para a direita trapalhona: ENVELHEÇAM!

Se há um escritor com o qual mantenho uma relação de amor e ódio, ou melhor, de admiração e repúdio, este é, sem dúvida, o dramaturgo, cronista esportivo, jornalista e escritor pernambucano Nelson Rodrigues, mais conhecido por ser citado por direitistas em frases de efeito (algumas das quais talvez nem sejam de sua autoria, diga-se de passagem), e menos conhecido, infelizmente, por sua genialidade artística enquanto autor de peças que conseguem ser, ao mesmo tempo, tão cariocas e tão universais.

Admiração, é claro, tenho pelo Nelson dramaturgo, aquele que, em Álbum de Família, por exemplo, se utiliza de um speaker hipócrita e superficial, além de outros variados recursos estilísticos, para desnudar o quão diferentes podem ser as relações familiares vistas de fora das reais relações familiares, ou que, em Vestido de Noiva, mistura realidade, ilusão e memória como poucos e produz um drama digno da reputação do cronista.

Repúdio, todavia, é tudo o que sinto pelo Nelson nacionalista, aquele mesmo que precisa ser colocado algum dia no banco dos réus da história por ser o inventor, ou, no mínimo, o marqueteiro maior, por meio de suas já citadas frases famosas, de babaquices do naipe de “pátria de chuteiras” e “complexo de vira-lata”, este último reverberado aos quatro cantos da terra brasileira tanto por nacionalistas teimosos e bregas como por esquerdistas totalitários, ainda que por motivações um tanto diferentes.

O Nelson frasista, ainda assim, continua com bem mais méritos do que deméritos, sendo que, inclusive, pode ser desconstruído e reconstruído linguisticamente para ajudar a fazer que nossa direita, a mesma que se diz sua tributária intelectual, passe a ser menos cega, mais sábia e, principalmente, ao menos em termos do mundo das aparências, mais empática.

O dramaturgo, por exemplo, quando perguntado pelo jornalista Otto Lara Rezende sobre que conselho gostaria de dar aos jovens, respondeu sem pestanejar: “Envelheçam! Envelheçam depressa, com urgência, envelheçam!”.

Ora, não é preciso ser qualquer tipo de luminar conservador sedizente conhecedor de como o mundo reage para perceber que, por mais que haja muitas desvantagens fisiológicas em envelhecer, há alguns ganhos psicológicos no idoso típico que podem ser muito úteis não só na vida cotidiana em si de um indivíduo, mas também na política.

Via de regra, um ganho é, definitivamente, na sabedoria, que advém da maturidade cognitiva adquirida pelo adulto unida às experiências pelas quais esse mesmo indivíduo passa até chegar à terceira idade. É de posse dessa sabedoria que um senhor ou uma senhora acabam por tomar, muitas vezes, decisões melhores e bem mais seguras do que as de pessoas mais jovens que tenham até mesmo mais recursos financeiros disponíveis.

Outro ganho é, sem dúvida, uma cegueira bem menor, em geral, às segundas intenções dos outros. Afinal, a não ser em casos de alienação tremenda ou de cegueira intencional, um idoso tende, justamente por ter sido enganado em várias ocasiões, a ser mais desconfiado em relação a fantasias e a captar nas entrelinhas certos ganchos a partir dos quais é possível descobrir o caráter de alguém, ou ao menos ter uma boa ideia em relação a isso.

Por fim, e talvez mais importante, poucos contestariam a ideia de que, quando nos tornamos mais velhos, as experiências por que passamos nos deixam mais capazes de entender e de simpatizar, ainda que não externemos essa simpatia, com os problemas alheios.

Ganhamos, portanto, em empatia, isto é, na capacidade de nos colocarmos no lugar do outro e de ao menos tentarmos enxergar o mundo por outra perspectiva. O que, porém, tudo isso tem a ver com política e, mais ainda, com algum tipo de conselho à direita brasileira?

A resposta é terrivelmente simples. Afinal, não é difícil encontrar nas redes sociais um adepto, ainda que inconsciente, do que chamarei aqui (e em alguns textos futuros) de direita trapalhona, isto é, aquele grupo de pessoas declaradas liberais ou conservadoras que gastam uma quantidade de tempo considerável reclamando da chatice do mundo, pois, segundo eles, um programa como Os Trapalhões (que, na real, tem mais fama de engraçado do que de fato o era) ou uma banda como Mamonas Assassinas seriam acusados de ofender minorias e censurados pela militância do politicamente correto, ou melhor, dos fascistas de nossa era.

Por menos que eu discorde dessa perspectiva, o fato é que, politicamente falando, o que ela significa é justamente que temos setores de direita juvenis demais para perceberem que tamanha sinceridade não só pode ser como de fato é contraproducente, já que faz parecer que o defensor do “politicamente incorreto” é alguém sem a capacidade de se solidarizar com os dramas alheios, ou seja, alguém sem justamente a empatia dos que de fato envelheceram.

Óbvio que o leitor pode replicar que “esse negócio de reclamar de racismo quando alguém se julga ofendido ao ser chamado de macaco é coitadismo e vitimismo, já que o Mussum era chamado assim pelo Didi lá nos anos 80 e ninguém reclamava”. O que eu respondo? “Envelheça, leitor da direita trapalhona. Envelheça depressa, com urgência, envelheça”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que os direitistas trapalhões consigam entender uma generalização quando a veem na ponta de seus narizes.

Eu, Apolítico – A guerra política e a Geração Z: afinal, o que fazer?

Muito se tem falado, na internet e fora dela (em especial, aliás, em programas chatos do sempre tedioso Canal Livre), sobre a chamada “Geração Z”, isto é, justamente essa galera que, dos debates sobre religião em 2011/2012 até a celeuma envolvendo o uso de shorts curtos dentro do ambiente escolar, tem sido parte relevante, em termos numéricos, do debate político no Brasil.

Conservadores são, talvez, os críticos mais assíduos desses jovens, chamando-os, corretamente, de hipócritas, de viciados em política (no mau sentido), de desocupados, de sedentos pelo poder e até mesmo de oportunistas, no sentido de que, ao perceberem a possibilidade de ganharem poder político ao se dizerem ofendidos com o que quer que seja, passam a fazê-lo sem pestanejar por um segundo sequer.

Certo autor e blogueiro conservador nomeia e descreve este último fenômeno em podcast recente – no qual, aliás, finalmente tem a decência de se assumir católico, como se ninguém tivesse percebido – de maneira meritória como a “mimimicracia”, que é justamente o governo dos ofendidos que se utilizam dessa prerrogativa de ofendidos para censurar outras pessoas enquanto, orwellianamente, pagam de libertários e de desprendidos.

O que todos os reclamantes esquecem, entretanto, é que, like it or not, é justamente essa Geração Z que terão de aturar por ainda muito tempo, além do fato de que pelo menos a geração que venha a sucedê-la muito provavelmente será igual ou até pior.

Apenas reclamar, portanto, será pouco útil a longo prazo, apesar de ser uma técnica útil para tirar um ou dois do sono dogmático e fazê-los verem as canalhices que defendiam. Esperá-los sair de cena, então, é arriscado demais, já que essas pessoas podem causar sérios estragos, inclusive sendo responsáveis por ou cúmplices de genocídios em nome da política – ou, pior ainda, de cretinices como o multiculturalismo.

Isso posto, resta a pergunta que não quer calar: afinal, o que fazer com essa geração de pessoas que, pelas mais diferentes e ao mesmo tempo mais parecidas razões, se entregaram à luta megalomaníaca pelo poder político acima de tudo?

A resposta, na verdade, parece complexa, mas é satisfatoriamente simples: aplicar, contra eles, alguns princípios da guerra política, o método mais moral e mais pacífico para vencer e, em alguns casos, até humilhar a esquerda.

É uma obviedade incomensurável que, assim como há os superpolitizados canalhas, há as pessoas normais que simplesmente entraram na onda por inércia ou por algum tipo de pressão social. Para estas, explicações pacientes, um ombro amigo e muita paciência devem ser mais do que suficientes. Lembrem-se, afinal, de que estamos lidando com pessoas que talvez só tenham ido por esse caminho ou se omitido em relação aos que se enveredaram por essas vias porque lhes parecia a única forma de manter um círculo estável de amizades.

Para os politizados canalhas e totalitários da esquerda, porém, o tratamento é, literalmente, de guerra. Você, direitista que diz temer e repudiar esses totalitários, deve tratá-los como oponentes, como os adversários a serem batidos ou, em última análise (para os casos mais perigosos de fato), até mesmo como um inimigo com o qual a possibilidade de um debate respeitoso de ideias é zero. É preciso, então, reservar-lhe tudo o que vier nas linhas abaixo.

Primeiro, uma das melhores formas de se pensar a guerra política é pensar não necessariamente no oponente, mas na plateia que pode vir a acompanhar sua contenda (na internet, via de regra, seu número é muitíssimo expressivo). Deve-se, pois, procurar convencer a plateia não tanto de que as suas ideias são as melhores, mas de que o mundo a ser criado pelas ideias de seu oponente é insuportável para qualquer pessoa que se diga civilizada e pacífica, ou, parafraseando Saul Allinsky e Luciano Ayan, a questão não é as suas ideias serem as melhores, mas as de seu inimigo serem tidas como desumanas.

Para isso, nada melhor do que praticar, sem medo de errar, a rotulação, que consiste, como o próprio nome já revela, em colar no oponente os rótulos certos para que o público passe a temer suas ideias ou, melhor ainda, achá-las intoleráveis.

Se você acha que as pessoas não entenderão o rótulo “totalitário”, passe a rótulos do mesmo campo semântico, como “autoritário”, “fascista”, “ditatorial” ou mesmo “nazista”. Já se acha que “sem vergonha” é um rótulo de baixo calão demais, use “canalha”, “assassino”, “genocida” ou algo do gênero, enquanto rotula a si mesmo não apenas como “honesto”, mas principalmente como “defensor da razão”, “defensor da liberdade” ou de algum outro valor que mexa com as emoções do público tanto a seu favor como (e principalmente) contra o inimigo.

Rótulos como “extrema” e “ultra”, aliás, também vem bem a calhar, como nos prova a esquerda brasileira nos últimos anos, que está cada vez mais torcendo o debate à esquerda enquanto, daqui a pouco, até mesmo o ato respirar pelo nariz e não pela boca será  considerado como de “extrema-direita” por ser “preconceito contra asmáticos”, ou algo do tipo.

E, sim, eu sei que parece difícil acreditar, mas, em política, via de regra, Futebol Total ganha de Catenaccio – em outras palavras, quem vence é quem ataca. Ficar se defendendo de rótulos, portanto, pode até ser bem intencionado, mas não funciona, e não funcionará justamente contra a geração politizada até o mais amargo fim.

Segundo, outra prática allinskyana será de grande valia para fazer a Geração Z chorar lágrimas de arrependimento: utilizar o livro de regras do adversário para derrotá-lo.

Não são eles, por exemplo, que adoram falar de leis contra o assédio moral ou coisa do tipo? Processem-nos, então, quando sofrerem algo do tipo por parte de um deles, ou, no mínimo, exponham sem medo a canalhice dessas mesmas pessoas quando as virem assediando alguém moralmente.

Não são eles que adoram processar humoristas por piadas? Mandem esses processos de volta quando eles fizerem das suas piadas contra a classe média paulistana, por exemplo. E as ameaças de processo por injúria, então? Outro tipo de atitude que pode ser voltada contra eles, em especial contra os figurões dessa geração, que podem servir de exemplo para seus seguidores.

Sim, eu sei que a possibilidade de perda de processo nesse tipo de caso é grande, mas, como inclusive ensina o guru de boa parte da direita, Olavo de Carvalho, é assim que se vai pressionando o adversário pelas vias judiciais e, por tabela, se vai desgastando, ainda que a passos lentos, a sua imagem perante o público, que é o que de fato importa na política.

Há várias outras táticas a serem executadas, mas essas eu deixo para o leitor, para quem dou, por fim, um conselho: se você estiver em dúvida sobre a inocência de seu alvo, trate-o como culpado de um modo mais indireto. Rotule-o por tabela ou faça que ele veja, de longe, o que acontece a quem segue a filosofia da Geração Z, por exemplo. Desse modo, você não se arrisca nem a ser piedosos com um malandro nem a ser duro demais com um verdadeiro ingênuo.

Se, porém, o sujeito der sinais de canalhice, passe aos passos descritos nos outros parágrafos e veja, lentamente, a mágica ocorrer.

That’s all for today, folks.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Do jeito que andam as coisas, anda pensando em chamar Guardiola para dar orientações políticas aos conservadores brasileiros.

A Mentalidade Anticapitalista, de Ludwig von Mises – Uma Resenha

*O texto abaixo é o resultado de uma compilação de uma série de notas tomadas por este blogueiro que vos fala enquanto este estudava um dos livros mais famosos da divindade de alguns liberais, Ludwig von Mises. Caso queiram reutilizá-lo para ajudar em seus próprios estudos dessa e de outras obras semelhantes, sintam-se livres para fazê-lo. Caso gostem e queiram outra obra resenhada, podem tentar pedir, mas não há garantias de que a resenha virá  a ser feita. Não me prendi a detalhes biográficos do autor, apenas ao que havia no livro em si, por uma questão de extensão textual (sendo que o texto já ficou bem longo). Boa leitura.

A Mentalidade Anticapitalista – Uma Resenha

É já na introdução de A Mentalidade Anticapitalista que podemos perceber os intentos e o ritmo da obra do economista austríaco Ludwig von Mises, mais conhecido por ser uma espécie de divindade entre setores dos liberais e dos libertários.

O primeiro dos dois aspectos a serem destacados nessa introdução é que Mises expõe em muito breves linhas um dos principais assuntos de seu livro, isto é, as visões comuns acerca do Capitalismo, ou, em outras palavras, os preconceitos de intelectuais e de pessoas comuns contra esse modo de produção, associando-o a todo o mal que há no mundo.

O segundo e último desses aspectos é o fato de que o economista austríaco revela também de modo sucinto os seus objetivos com A Mentalidade Anticapitalista, que são, nas palavras do próprio liberal, “analisar esse preconceito anticapitalista e divulgar suas raízes e consequências. ” (p. 24)

O livro se divide em cinco capítulos de extensões diferentes que se interligam de um modo bastante coerente, apesar de ser possível fazer sérias objeções a algumas de suas abordagens, o que pode ser, talvez, o tema de um de meus próximos textos.

No primeiro capítulo, intitulado As características sociais do capitalismo e as causas psicológicas de sua difamação, o economista liberal propõe que o capitalismo seja analisado pelo prisma do consumidor soberano, já que, de acordo com Mises, “a principal característica do capitalismo moderno é a produção em escala de bens destinados ao consumo das massas. ” (p. 27), estas mesmas que seriam responsáveis, então, pelo futuro dos negócios em geral, tendo passado de meros “subalternos” (no vocabulário misesiano) a “público comprador”, este que controla socialmente o que deve ou não ser produzido.

Em seguida, Mises critica o comportamento de seus contemporâneos e a este contrapõe o modo de melhorar de fato as condições materiais dos homens:

“O que está errado com a maioria dos nossos contemporâneos não é que eles estão sempre desejando apaixonadamente por maiores e melhores suprimentos de diferentes bens, mas sim pela sua escolha de meios inapropriados para atingir esse fim […] Há somente um meio disponível para melhorar as condições materiais da humanidade: acelerar o crescimento do capital acumulado em relação ao crescimento da população. Quanto maior a quantidade de capital investido por trabalhador, bens melhores e em maior quantidade podem ser produzidos e consumidos. Isso é o que o capitalismo, o sistema econômico mais insultado, produziu e produz novamente, todos os dias. ” (p. 32)

Para entender, porém, o motivo por que tantos têm asco ao capitalismo, o liberal começa por diferenciar aristocratas de empresários, postulando que, enquanto estes dependem do contentamento popular nas sociedades capitalistas, aqueles eram imunes a isso justamente por viverem em sociedades de casta. Em outras palavras, para Mises, seria muito mais fácil, sem interferências estatais no sistema capitalista, minar a renda de um empresário do que minar a de um aristocrata exatamente por causa das diferenças dos modelos sociais em que cada uma dessas figuras existe.

Mises, então, explica o porquê de haver essa diferença entre o que denomina “sociedades de status” (as sociedades feudais, por exemplo) e as sociedades capitalistas:

“O que faz um homem mais ou menos próspero não é a avaliação de sua contribuição do ponto de vista de um princípio ‘absoluto’ de justiça, mas a avaliação da parte de seus semelhantes, que simplesmente utilizam como padrão de medida suas próprias necessidades pessoas, seus desejos e finalidades. É precisamente isso que significa o sistema democrático de mercado. Os consumidores estão acima, ou seja, são soberanos. Eles querem ser satisfeitos. ” (p. 36)

Além disso, o economista pondera ao leitor que, enquanto o destino individual é predeterminado nas sociedades de castas, o exato oposto ocorre no capitalismo, em que o único refúgio ao indivíduo malsucedido seria travestir seu ressentimento na forma de uma amplamente popular filosofia anticapitalista.

Uma das classes em que esse ressentimento mais se faz presente, segundo o filósofo, é a classe dos intelectuais. De acordo com Mises, “para entender a aversão do intelectual ao capitalismo, é necessário perceber que, na sua mente, o sistema é a encarnação de um número definido de pares de cujo sucesso ele se ressente e a quem ele responsabiliza pela sua frustração decorrente das suas próprias ambições desmedidas. ” (p. 47)

Em seguida, é apontada a peculiaridade do caso americano e de seus intelectuais que, desprezados pela “sociedade” (os ricos), passam a odiá-la assim como ao capitalismo por tabela.

Os intelectuais, entretanto, não são os únicos ressentidos atacados por Mises. Trabalhadores de escritório e parentes de empresários bem-sucedidos também têm as razões de seus ressentimentos escrutinadas pelo economista, além de este também explicar a aliança entre o dinheiro dos parentes (os “primos”, segundo Mises) e os diversos tipos de protestos anticapitalistas que florescem América e mundo afora.

No final do capítulo, Mises analisa a aparentemente insólita relação de amor entre as estrelas de Hollywood e da Broadway e a ideologia comunista, afirmando inclusive que nenhum outro ambiente americano teria apoiado tanto a esquerda. Para o pensador, isto se dá porque “a essência da indústria do entretenimento é a variedade […]. Um magnata do teatro ou das telas deve sempre temer a perversidade do público. Ele pode acordar rico e famoso em uma manhã e no dia seguinte ser esquecido […]. ” (p. 64)

No segundo capítulo, A filosofia social do homem comum, Mises começa a contrapor a visão do homem comum sobre o capitalismo ao que este é ou não de fato. Dentre outros aspectos, Mises correlaciona a falta de compreensão dos mecanismos da Economia em sua relação com o progresso tecnológico com a crença nesse progresso como automático e mero fato da natureza, o que tornaria, segundo o senso comum, a melhoria das condições de vida também automática e natural.

O economista austríaco afirma o seguinte acerca das opiniões comuns sobre essa relação:

“No seu modo de ver, os desenvolvimentos tecnológicos sem precedentes dos últimos duzentos anos não foram causados ou favorecidos pelas políticas econômicas da época. Eles não foram uma realização do liberalismo clássico, do livre comércio, do laissez-faire e do capitalismo. Portanto, irão continuar sob qualquer outro sistema de organização social. ” (p. 71)

Segue-se a isso uma breve explicação acerca do que é capitalismo de fato, que começa com as palavras abaixo e termina com Mises ressaltando novamente a diferença entre as explicações do senso comum e o viés misesiano sobre o capitalismo:

“Os termos capitalismo, capital e capitalistas foram empregados por Marx e hoje são empregados pela maioria das pessoas – também pelas agências de propaganda oficial do governo dos Estados Unidos – com uma conotação ultrajante. Ainda assim, essas palavras apontam, de forma pertinente, ao fator principal cuja operação produziu todas as realizações maravilhosas dos últimos duzentos anos: o desenvolvimento sem precedentes do padrão médio de vida para uma população continuamente em crescimento. ” (p. 73)

Falando em término, aliás, Mises termina o capítulo discorrendo sobre como a junção de inveja, ódio, príncipes, aristocratas, religiosos e socialistas pôde formar o que denomina “frente anticapitalista”, a mesma frente que, de acordo com o filósofo, está fazendo que as novas gerações sejam educadas em ambientes permeados do ideário de esquerda.

No terceiro capítulo, A literatura sob o capitalismo, o economista austríaco exibe as relações entre literatura e capitalismo, mostrando como a crença de alguns liberais mais antigos de que um mercado literário evoluído traria um novo florescimento intelectual ao mundo estava equivocada, já que, segundo Mises, “o capitalismo pode tornar as massas tão prósperas que elas podem comprar livros e revistas. Mas ele não pode incutir nelas o discernimento de Mecenas ou de Cangrande I dela Scala. ” (p. 92)

Em seguida, além de teorizar sobre como o anticapitalismo pode influenciar que tipo de literatura terá ou não sucesso em determinado momento histórico, Mises também aponta para o fato de que, graças aos boicotes armados por sindicalistas e outros anticapitalistas, a liberdade de imprensa e, por extensão, a de literatura ficam comprometidas, já que, “hoje em dia, está fora de questão parodiar no palco os poderes constituídos […] Os dirigentes sindicais e os burocratas são sacrossantos. O que restou para a comédia são aqueles tópicos que tornaram a opereta e a farsa hollywoodiana abomináveis. ” (p. 99)

Há também a breve análise do que o liberal chama de “fanatismo dos literatos”, ou seja, de como os sedizentes progressistas de seu tempo só tinham a maledicência e, novamente, o boicote em sentido amplo como respostas ao que era exposto pelos defensores do capitalismo.

Por fim, há a análise da literatura socialista em si e de seus autores. Deixo, como provocação para os que, como eu, gostam desse tipo de análise, o início da última parte do terceiro capítulo:

“O público comprometido com as ideias socialistas pede por romances e peças ‘sociais’ (socialistas). Os autores, eles mesmos imbuídos com as ideias socialistas, estão prontos para entregar o material solicitado. Descrevem as condições insatisfatórias que, como eles insinuam, são as consequências inevitáveis do capitalismo. Eles retratam a pobreza e a privação, a ignorância, a sujeira e doenças das classes exploradas. Eles criticam severamente o luxo, a estupidez e a corrupção moral das classes exploradoras. A seu ver, tudo que é ruim e ridículo é burguês e tudo que é bom e sublime é proletário. ” (p. 109)

No quarto capítulo, As objeções não-econômicas ao capitalismo, Mises envida esforços para rebater, como no título do capítulo, qualquer crítica ao capitalismo que tenha bases que não sejam a economia, quer morais, quer filosóficas, quer sociológicas.

À primeira, a de que posses não trazem felicidade, o liberal objeta que o real objetivo do comprador é evitar o desprazer, e não necessariamente atingir o prazer em seu estado mais perfeito. Nos termos de Mises, o objetivo é, na realidade, que o comprador se torne mais feliz do que antes, que fique mais satisfeito e que, no geral, aumente o seu nível de bem-estar.

À segunda, a de um materialismo que faria que as aspirações mais nobres, entre elas a filosofia, a literatura e as outras formas de arte, ficassem em último lugar, Mises contrapõe toda a produção artística e filosófica do início do capitalismo até seus dias, citando grandes nomes da música, da literatura e da filosofia para fortalecer sua argumentação.

À terceira, a da injustiça inerente ao capitalismo, o economista austríaco opõe a vagueza, de acordo com as premissas misesianas, do conceito de justiça utilizado, além da incapacidade desses detratores do capitalismo de entenderem o capital em si, seu funcionamento e suas implicações nas sociedades.

Por derradeiro, Mises lida um pouco mais minuciosamente com o modo como a esquerda de sua época se apropriava do conceito de liberdade. Uma de suas exposições, aliás, parece manter sua relevância até mesmo quando falamos no Brasil contemporâneo:

“Nenhum homem inteligente deixará de reconhecer que o que os socialistas, comunistas e planejadores estão buscando é a abolição mais radical da liberdade individual e o estabelecimento da onipotência do governo. Apesar disso, a imensa maioria dos intelectuais socialistas estão convencidos de que, ao lutarem pelo socialismo, estão lutando pela liberdade. Eles se autodenominam esquerdistas e democratas e, atualmente, estão ainda reivindicando para si o epíteto ‘liberal’. ” (p. 139)

Last but not least, é no último capítulo, “Anticomunismo” versus Capitalismo, que Mises opõe capitalismo a “anticomunismo” e em que o austríaco ao mesmo tempo defende a liberdade denuncia seus falsos defensores, isto é, os comunistas que se travestem de anticomunistas e que são criticados ao longo desse curto capítulo.

É, aliás, com uma das razões de sua crítica que termina o livro e, por extensão, que termino esta resenha:

“Um movimento ‘anti alguma coisa’ mostra uma atitude puramente negativa. Não tem nenhuma chance de ser bem-sucedido. Suas críticas apaixonadas virtualmente fazem propaganda do programa que atacam. As pessoas devem lutar por algo que elas querem alcançar, não simplesmente rejeitar o mal, não importando quão ruim ele possa ser. Eles devem, sem qualquer reserva, endossar o programa da economia de mercado.

O comunismo teria hoje, depois da desilusão trazida pelos ‘feitos’ dos soviéticos e do lamentável fracasso de todos os experimentos socialistas, pouca chance de ser bem-sucedido no Ocidente, se não fosse esse falso anticomunismo.

A única coisa que pode evitar que as nações da Europa Ocidental, América e Austrália sejam escravizadas pelo barbarismo de Moscou é um apoio aberto e irrestrito ao capitalismo laissez-faire. ” (p. 158)

Referência Bibliográfica

MISES, Ludwig von. A Mentalidade Anticapitalista. 2. ed. Campinas: Vide Editorial, 2015. Tradução de: Adelice Godoy.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre

Filosofia para corajosos? Realmente, senhor Pondé

Que o filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé é, há algum tempo, uma voz tremendamente influente entre direitistas liberais e conservadores é um fato muito conhecido pelo grande público, ou ao menos pelo público que acompanha debates políticos internet afora. Não é raro, afinal, vermos adeptos da direita política compartilhando frases de Pondé, em especial citações encontradas em seus dois livros mais citados, sendo estes Contra um Mundo MelhorGuia Politicamente Incorreto da Filosofia (este, aliás, já até resenhado em meu antigo blog).

Há, porém, dois fatos, um deles bastante recente, outro nem tanto, que, creio, poucas pessoas conhecem, mas várias, em especial justamente os liberais e os conservadores sedizentes fãs de Pondé, necessitam conhecer. O primeiro é que já faz algumas semanas que o pernambucano lançou seu livro mais recente, Filosofia para corajosos (2016), em que afirma, já no subtítulo, ter a intenção de fazer que o leitor “pense com a própria cabeça”. O segundo, bem mais desalentador para um fã declarado de Pondé como este que vos escreve, é que, ao que parece, qualquer livro desse autor está se tornando, no pior sentido possível, uma obra apenas para os corajosos, posto que ler qualquer uma delas (ao menos entre as mais recentes) até o final vem sendo tarefa das mais hercúleas.

Nem é preciso resenhar esta obra em específico para que o leitor entenda porque faço tão ousadas críticas para um reles mortal. Afinal, os principais problemas das obras “comerciais” de Pondé, indo desde o razoável Contra um Mundo Melhor até o fraco Filosofia para Corajosos, passando, entre outros, pelo risível A Filosofia da Adúltera  – que, certamente, fez Nelson Rodrigues se revirar no túmulo ao ser citado como mestre inspirador dessa obra -, são um padrão que, pelo visto, continuará se repetindo por vários e vários anos.

Primeiro, para quem é conhecido como um mestre em estética no sentido artístico, Pondé parece desprezá-la no sentido linguístico, já que ou divide seus parágrafos de modo errado, deixando-os curtos demais (como em A Filosofia da Adúltera), ou esquece de dividi-los, deixando-os com um tamanho excessivo e com uma quantidade de assuntos diferentes absurda dentro de um mesmo parágrafo (como em seu livro mais recente).

Segundo, ainda no aspecto estético, o filósofo pernambucano tem aparentado cada vez mais desconhecer em absoluto os mecanismos de coesão e coerência que a língua pátria fornece a todos indiscriminadamente. Mesmo não sendo eu próprio qualquer grande exemplo disso, consigo perceber que, além de suas noções sobre pontuação (em especial, sobre o uso da vírgula) serem no mínimo questionáveis, Pondé parece crer que, para se distanciar dos “inteligentinhos” acadêmicos, só pode usar as conjunções “e”, “mas” e “que” para conectar suas orações, além de, é claro, também ter de utilizá-las de modo questionável.

Tudo isso ocasiona que, no fundo, seus escritos fiquem muito parecidos com suas entrevistas ou palestras, isto é, até bastante didáticos, mas um tanto deficitários quando se trata de finalizar um assunto ou mesmo de fazer a transição entre um tema e outro. Se já não é agradável quando um filósofo conhecedor de sua língua faz isso conosco por opção, imaginem quando o que parece é que o autor sequer domina as nuances dos mecanismos de coesão de sua própria língua.

Por fim, mas definitivamente o mais importante, é necessário discorrer sobre o conteúdo de Pondé, que é, justamente, a parte mais perturbadora, também no mau sentido, de seus livros. Além de constantemente invocar Nelson Rodrigues e uma pancada de outros mestres da escrita para claramente justificar seus textos esteticamente ruins, apesar de dizer pouco se importar com o que o leitor pensará dele, Pondé também pegou o costume de, em prol das vendas (posto que não há outra explicação plausível), ficar repetindo as mesmas piadas, as mesmas ironias e até mesmo, em certa medida, as mesmas referências, o que faz que todos os seus livros possam ser resumidos em apenas um, sendo que este talvez nem precisasse passar de 100 ou 150 páginas.

Em Filosofia para corajosos, por exemplo, essa repetitividade chega a níveis estratosféricos. Só a famosa frase “de todos os piores regimes, a democracia é a melhor” deve ter aparecido no mínimo umas 4 vezes em um intervalo de 30 páginas, quanto mais em todas as 189 do livro. Reclamações sobre como as pessoas se utilizam mal de palavras como “ética”, “religião” e “valores”, então, consomem uma quantidade de papel que muito bem poderia ser aproveitada para fins melhores.

Fora, é claro, as referências ao desconhecimento feminista acerca das relações entre homem e mulher, o apelo ao evolucionismo, a afirmação “não acho que as pessoas precisem de Deus” e vários outros itens que só soariam originais ou engraçados a um sujeito que tenha começado a estudar sobre filosofia e política ontem e que, portanto, não conhecesse qualquer obra mais antiga de Pondé em que as mesmas coisas tenham sido escritas praticamente do mesmo jeito.

Parece-me, pois, que Pondé, além de esteticamente questionável, está se tornando uma espécie de escritor de autoajuda direitista em termos de conteúdo, repetindo sempre os mesmos mantras e fazendo piadas que, de tão manjadas, estão se tornando piores do que qualquer piada do pavê contada pela clássica figura do tiozão em pleno Natal. O problema, porém, é que o tiozão não tem milhares de fãs e de detratores como audiência.

Enfim, como leitor e fã, espero sinceramente que essa “vibe” de “não me importo com o que o leitor pensa” pare de contaminar Pondé pelo menos na questão estética. Até lá, talvez a solução seja procurar seus livros técnicos para ver se desse mato sai um coelho um pouquinho melhor.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pensa que Pondé só viria a ler esse texto se pensasse em parar de fazer referências às pessoas que se dizem preocupadas com as baleias na África, o que, parece, não acontecerá tão em breve.

O “Mineirazo” em 2034: 20 anos depois, o que terá mudado?

“O ano é 2034. Depois de uma série de fracassos em competições internacionais, incluindo uma eliminação nas eliminatórias para a Copa de 2018 na Rússia e um vergonhoso 6 a 0 para a Argentina nas quartas de final da Copa América de 2023, o Brasil, antes o país do futebol com suas cinco estrelas na amarelinha, pode agora ser considerado nada mais do que uma seleção mediana em declínio, tendo inclusive deixado de ser o maior campeão do mundo 4 anos atrás quando a Alemanha, depois de uma final surpreendente contra a sempre perigosa Itália, conquistou sua sexta Copa do Mundo de maneira brilhante e mostrou a força de seu futebol coletivo, leal, inteligente e tático.

Amanhã, os alemães tentarão seu sétimo título contra a poderosa Espanha, que, depois de alguns anos no limbo por causa da goleada sofrida para a Holanda em 2014, também se reinventou e voltou a ser uma das seleções que ditam as tendências no futebol.

Sobre isso, o coordenador de seleções, Carlos Alberto Parreira, chamado para o cargo para trazer a renovação ao Brasil, preferiu se abster de maiores declarações”

Não, amigos, isto não é qualquer tipo de previsão sobre as próximas Copas do Mundo e seus vencedores. É, na verdade, apenas uma distopia futebolística que, para este blogueiro, pode muito bem acontecer no ritmo que as coisas andam no futebol brasileiro. Afinal, o que mais esperar de um futebol em que a discussão sobre esquemas táticos é considerada algo desnecessário porque envolve muitos detalhes? Em que volantes, fora raras exceções, ainda são utilizados como meros brucutus para “liberar o lateral para o ataque”? Em que o que importa é o resultado, e não demonstrar um bom futebol? Em que “espetáculo” é não um futebol coletivo e inteligente, mas um futebol individualista, cheio de firulas e de craques que servem como salvadores da pátria que devem carregar o time nas costas?

Concordo com o amigo Marcos Lannes quando diz que, dois anos depois do “espetáculo alemão na partida da abertura de olhos” (entendam essa citação aqui), não aprendemos nada. O que me preocupa, porém, é saber que é bem possível que, daqui a 20 anos, não estejamos mais falando que nada mudou, mas sim que tudo piorou.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera sinceramente que Tite não tenha de ser o técnico quando o Brasil sofrer novo grande revés.