Eu, Apolítico – “How to get away with Matei o presidente”: o Pensador e a Guerra Política

Semanas atrás, o famoso cantor de hip-hop e rap, Gabriel, o Pensador (um de meus favoritos, se não o favorito), completou 25 anos de carreira e, assim como na Era Collor, resolveu novamente matar o presidente em seus versos, o que naturalmente causou reações das mais diversas, desde aplausos à esquerda até vaias à direita.

Falando, aliás, em direita, vários adeptos desse lado do espectro político-ideológico enfureceram-se de tal forma com o lançamento dessa parte 2 da canção só após o fim da Era PT (2003-2016) que passaram a acusá-lo, internet afora, de “hipócrita”, “vendido”, “petista”, “petralha”, entre outras acusações que, por terem sido disparadas até contra Reinaldo Azevedo (!) e Diogo Mainardi (!!), podem estar com os dias contados em termos de força retórica.

A análise política, todavia, dessa polêmica do rapper brasileiro independe de saber se é eleitor do PT, do PSOL ou de algum partido similar. Independe, aliás, até mesmo de ouvir a música, também porque há várias outras bem melhores do próprio Gabriel para ouvir: a interessante “Pátria que me pariu”, as divertidíssimas “En la casa”, “Festa da música tupiniquim” e “2345meia78”, a crítica política em “Sem Saúde”, a icônica (na falta de melhor termo) “Cachimbo da Paz”, etc.

O caso é que, para uma análise política adulta, deve-se começar pela verdade integral dos fatos: não só Gabriel matou o presidente poeticamente e provavelmente escapará ileso, mas também teve e terá tido a ajuda da direita brasileira tanto para o homicídio poético como para escapar das consequências políticas desse ato.

Primeiro, sobre o homicídio poético praticado pelo cantor carioca, Gabriel, o Pensador, só precisaria de um clima político em que Temer fosse tão ou mais odiado do que seus antecessores para compor esse tipo de canção. Seria excelente, por exemplo, que imperasse na mente do brasileiro médio a mentalidade “fora todos, pois são todos igualmente corruptos”, o que daria a qualquer artista o aval (e a licença poética, claro) para atacar com palavras quem quer que fosse o presidente e se sentir moralmente justificado e perdoado para isso.

Creio que nem preciso contar ao leitor, sagaz como sói, o que nossa direita fez: depois do impeachment de Dilma e da ascensão de Temer, a maior parte desses paladinos da moral e justiceiros dos bons costumes entrou de gaiato no navio do discurso “fora todos”, mas não foi ainda expulsa porque vem servindo como bucha de canhão para a militância esquerdista atacar Temer sem dó nem piedade.

Penso ser suficientes, pois, as evidências do porquê de a direita ter ajudado no “assassinato artístico” do atual chefe do Poder Executivo. Ainda assim, por que digo que Gabriel, o Pensador, terá tido a ajuda dessa mesma direita para escapar das consequências de seu crime poético?

É simples, leitor amigo: se “todos são iguais”, mas se é Temer que está no poder justamente no ano em que um cantor completa 25 anos de carreira (marca alcançada por poucos até hoje), qual seria a razão de alguém reclamar por Gabriel escrever especificamente contra Temer? Não seriam, então, esses ataques um ótimo pretexto para o réu (o rapper) tornar a si próprio ao mesmo tempo a pobre vítima dos defensores do presidente, esses hipócritas que têm bandido de estimação (reconhecem isso de algum lugar, amigos de direita?), e o impiedoso juiz da hipocrisia alheia?

Mesmo que o Pensador não tenha qualquer interesse ideológico e que só tenha se aproveitado para voltar ao hall da fama, quem tem mais chance de sair ganhando politicamente: o rapper que pode posar de injustiçado ou os direitistas “apolíticos” que adoram posar de justiceiros dos bons costumes e paladinos da coerência?

Em suma, se Gabriel não honrou seu codinome e de fato escreveu a canção sem fins de guerra política, imaginem o que fará se resolver pensar. Já a direita, se estava pensando quando atacou o rapper após tanto apoiar o “fora todos”, imaginem o que fará se resolver deixar de pensar.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Nunca imaginou que encararia Gabriel, o Pensador, como um exemplo de G-U-E-R-R-A (GUERRA!) política.

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Eu, Apolítico – William Waack e a privacidade: Orwell explica

Nesta semana, o jornalista da Rede Globo, William Waack, não só foi o centro de uma grande polêmica, mas também teve seu nome estampado em várias manchetes na internet após o vazamento de um vídeo em que, segundo seus acusadores, teria proferido comentários racistas sobre um motorista que buzinava na rua em frente à Casa Branca segundos antes de o jornalista iniciar sua cobertura ao vivo das eleições americanas do ano passado.

Partindo dessa polêmica, alguns debatedores internet afora levantaram a seguinte questão: por mais que o que Waack disse seja repulsivo, não é preocupante que, no mundo em que vivemos, até mesmo o que falamos em privado possa ser alvo do escrutínio do público? Mais ainda: será que essas mesmas pessoas que hoje estão achando maravilhoso Waack ser o alvo da ira pública não pensam que podem ser as próximas?

A primeira pergunta, confesso, parece-me bem coerente, mas não creio ter nada a acrescentar à discussão fora o que já tem sido dito redes sociais afora: de fato é preocupante, pois a fluidez da noção de privacidade acarreta medo, insegurança, falta de confiança no outro, etc.

A segunda questão, por sua vez, é certamente bem mais interessante, pois até mesmo aceitar as duas respostas possíveis requer, por razões diferentes, uma maturidade (ou talvez um cinismo, como prefiram) à qual o debatedor brasileiro ainda não se acostumou, já que, também por várias razões, recusa-se a aceitar a vida como ela é e, principalmente, as pessoas como elas são.

A primeira resposta é: não, de fato essas pessoas não pensam que podem ser as próximas, quer porque superestimam demais a própria “esperteza” e pensam que nunca serão pegas, quer porque se consideram tão virtuosas que nunca sequer passariam perto de pensar nas palavras erradas, quanto mais de dizê-las. Ou seja, em outros termos, são hipócritas, por mais cruel que isso possa parecer.

Já a segunda resposta só pode ser bem entendida com uma analogia com o genial romance distópico 1984, de George Orwell. No final do livro, após ser capturado junto com sua amante, Júlia, o protagonista Winston, então membro do Partido, confronta seu torturador, O’Brien, membro de um escalão mais alto do que o seu, e lhe pergunta o porquê de ele apoiar o partido incondicionalmente se sabia (como dissera antes a Winston) que um dia seria ele o torturado.

As palavras de O’Brien são devastadoras para o leitor, mas não deixam de fazer sentido: o importante, em resumo, não era o indivíduo, por maior que fosse seu posto, e sim a busca pelo poder e pelo controle do pensamento alheio, que eram os ideais reais do Partido. Qualquer sacrifício em nome da causa seria, pois, uma honra, e não um motivo de desespero.

Guardadas as devidas proporções, o mesmo se aplica ao caso Waack: sim, os que hoje lincham Waack publicamente por algo detestável que disse em privado têm plena consciência de que podem ser os próximos, mas o que importa é que a causa que defendem prospere no fim das contas, não importando quantos deverão ser sacrificados para isso acontecer.

Não é, pois, que essas pessoas não entendam que esse tipo de abalo à noção de privacidade tende a levar a uma sociedade de controle do pensamento, e sim que esses linchadores virtuais querem que isso ocorra. Ou seja, em outros termos, são militantes, por mais cruel que isso possa parecer. Orwell explica.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Já achava a expressão “coisa de preto” abominável bem antes de isso virar militância política massificada.

Algumas palavras sobre o ENEM 2017

Geralmente, prefiro deixar meus comentários sobre o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) para o Facebook, mas conto que o amigo leitor compreenda que, neste ano, há uma série de questões que poderiam ser abordadas em um texto junto com comentários mais gerais que sempre são válidos para a semana dessa prova que tanto mexe com a vida de milhões e milhões de alunos, professores, pais e familiares.

Falando em questões mais gerais, abro um parêntese para deixar um conselho ao leitor um pouco mais jovem que porventura esteja prestando o ENEM pela primeira vez e que, por causa da pressão que tem sofrido na escola ou em casa, esteja se sentindo pilhado para fazer a prova. O que direi pode parecer conversa de professor que deseja ver alunos pagando um ano (a mais) de um caro cursinho pré-vestibular, mas asseguro que não tenho nada a ganhar quando afirmo que não passar no ENEM não acabará com a sua vida, mesmo que você não tenha condições de ir para uma universidade privada se você estiver dependendo só do ENEM para poder ingressar em uma pública.

O caso, leitor, é que muitas vezes só depois de iniciar a faculdade ou de terminá-la é que percebemos que existe vida além de um diploma universitário, ou seja, que, por mais que um desses diplomas possa ajudar e muito, não é necessário ser graduado no que quer que seja para se obter sucesso profissional em determinadas áreas ou mesmo para se ter uma vida digna. Digo sem medo, aliás, que, principalmente em vendas ou em áreas relacionadas ao empreendedorismo, o que mais conta não é a formação, pois esta pode ser dada pela empresa, e sim o chamado “jogo de cintura”, que muitas vezes é adquirido/lapidado justamente fora da burocracia acadêmica.

Fechando o parêntese, volto às duas questões que me interessam neste texto. A primeira delas, talvez a mais polemizada redes sociais afora, é a do projeto de lei que derrubou a regra de que redações deveriam ser zeradas quando houvesse desrespeito aos direitos humanos. A isso, vários professores e esquerdistas em geral responderam com um desespero descabido, considerando a aprovação dessa lei uma espécie de vitória simbólica do obscurantismo, do conservadorismo, da direita ou de coisa que o valha.

O problema, porém, é que, ao contrário do que nossa esquerda imagina ou finge imaginar, vitórias simbólicas são simplesmente inúteis quando não se seguem a elas vitórias concretas. É necessário lembrar que, na esmagadora maioria dos casos, as redações desses participantes que desrespeitam os direitos humanos (com e sem aspas) são as mesmas que, por falta de aptidão por parte dos escreventes, sucumbiriam na avaliação do ENEM independente da existência desse critério, pois são redações mal escritas no sentido acadêmico do termo, ou seja, redações com argumentação frágil e, mais grave ainda para o candidato, com problemas de coesão e de coerência que já o eliminam ou o prejudicam de cara.

Além disso, por mais bizarro que possa parecer, quer suponhamos que os corretores de redação do ENEM sejam ideologicamente guiados, quer suponhamos o contrário, a não-existência desse critério facilita a vida dos corretores e dos próprios elaboradores do exame, pois todo vestibulando perderá uma possível justificativa para culpar o exame por sua reprovação ou por sua classificação geral ter caído. Em outras palavras, seja o processo honesto ou não, será bem mais fácil justificar aceitavelmente a nota de determinado candidato caso seja preciso, pois os outros critérios já serão suficientes para evidenciar a inaptidão escrita do redator.

Por fim, é lógico que sempre haverá um ou outro candidato que se beneficiará dessa medida. Ainda assim, o número será tão irrelevante que quem deverá se preocupar é, na verdade, o próprio candidato, pois quem conhece o ambiente universitário brasileiro sabe que, em certos lugares, se até mesmo o sujeito se dizer despolitizado já é motivo para ser isolado socialmente, quem dirá para os sincericidas que quiserem dizer tudo o que pensam sobre o que quer que seja.

A verdadeira polêmica deveria ser, entretanto, outra questão, esta deixada completamente de escanteio por candidatos, professores, pais e simpatizantes, que é justamente a mudança nos dias de prova de dois dias consecutivos (sábado e domingo) para dois domingos consecutivos.

O caso é que existe uma gama de potenciais acontecimentos com essa mudança para que não tivesse sido amplamente discutida. Por exemplo, a parte ansiosa dos prestantes da prova pode entrar em parafuso com a espera de uma semana e sequer ir fazer o segundo caderno, ou ainda ir muito mal neste, jogando por água abaixo um trabalho de um, dois ou mesmo três anos.

Outra hipótese é que, como todos que fizeram o ENEM sabemos, pode-se ter um gabarito extraoficial da prova com facilidade menos de um dia depois de ela ter sido aplicada, o que pode levar alguém a saber em menos de 24 horas se suas chances ainda estão altas (i.e., se acertou um bom número de questões) ou se nem compensa fazer a segunda parte. Com isso, podemos ter ou uma massiva ausência de candidatos no segundo dia de prova, ou um número de redações “receitas de miojo” fora do cabo.

Uma terceira hipótese também válida de examinar é a de que um sujeito pode chegar na hora no dia 5, mas perder a hora ou mesmo não ter condições de ir fazer a prova no dia 12. Com isso, mais uma parte dos candidatos tenderá a ser filtrada.

A quarta hipótese, talvez a mais sombria, é a de que, juntando as outras hipóteses, pode ser que várias pessoas que não levaram o estudo a sério o ano inteiro tomem vagas de quem levou por terem um psicológico mais forte ou por terem sido pontuais em ambos os dias, por exemplo. Pode-se, é claro, sempre argumentar que “a vida é assim” e que esses alunos precisam se acostumar à pressão caso queiram viver em sociedade, mas o questionamento continua válido, pois uma sociedade que só valoriza ou admite fortalezas psicológicas não é uma civilização, é uma barbárie por outros meios.

As possibilidades para ambas as discussões, em especial para a segunda, é claro, são quase infinitas. Espero, pois, poder ter acrescentado alguns centavos interessantes ao cofre de ideias do leitor sobre o ENEM.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre. Prestou o ENEM em 2010 e 2011 e sentiu a diferença entre comer os salgadinhos oferecidos pelas escolas no portão da prova e não os comer. Dica ao leitor: comer uma pedra seria mais saudável.

A tragédia do Colégio Goyases, os treze porquês e o Setembro Amarelo: para além da sociedade dos equivocados

Na sexta feira (20/10/2017), um estudante de 14 anos do colégio Goyases, localizado em Goiânia, efetuou disparos com uma arma .40 contra vários colegas de escola, matando dois, ferindo quatro e causando comoção e espanto nacionalmente. Filho de policiais, o atirador teria cometido o crime, segundo vários veículos de comunicação e segundo alguns colegas, por causa do bullying do qual vinha sendo vítima.

Além de ser espantoso e terrível, o caso também pode ser destacado pelos comentários que gerou redes sociais afora. Ainda que o motivo alegado não proceda de fato, o fato é que, enquanto alguns mostraram um desprezo horrendo pelas vítimas e não só absolveram simbolicamente o agora assassino como também fizeram uso da tragédia para reforçar a agenda desarmamentista, outros não pestanejaram e não só culparam (corretamente) o réu por ser crime injustificável, mas também passaram a fazer campanha contra a discussão sobre o bullying, vociferando ser este nada mais do que “frescura de uma geração de bananas” ou coisa que o valha.

A mesma ocorreu no auge do debate sobre a série “13 Reasons Why” (os 13 porquês, em português): enquanto uma parcela dos contendores quase santificava a protagonista Hannah Baker e admoestava qualquer um que questionasse a moralidade de seu suicídio, a outra face da moeda chamava a personagem de “vagabunda” para baixo e defendia que a adolescente apenas encontrou o que procurava por ter tomado as decisões que tomou.

Temos, ainda, o exemplo do “Setembro Amarelo”, iniciativa dedicada à discussão e prevenção do suicídio. Enquanto alguns veem nessa iniciativa uma espécie de chance de revanche contra aqueles que ignoraram de alguma forma o sofrimento psicológico alheio e/ou praticaram violência psicológica contra outras pessoas, outros encaram a campanha, novamente, como mera “perda de tempo” e “frescura de gente que não tem o que fazer e que precisa ir trabalhar”.

Os três casos, no entanto, e em especial o de Goiás, só podem ser entendidos adequadamente via uma posição moderada. É insofismável que o que o atirador de Goiânia perpetrou foi um crime medonho e deve ser rotulado como tal, mas não se pode negar que as pessoas são diferentes entre si nem que o que pode nos parecer “zoeira” inofensiva pode ser, por uma série de circunstâncias, de uma violência psicológica (conceito cuja existência só irresponsáveis negam) terrível para o outro, sem que isso torne a prática de crimes menos injustificável.

Do mesmo modo, é claro que as hoje vítimas, supondo procedente o bullying, erraram ao serem os agressores ou os omissos de ontem em relação ao atirador de 14 anos, mas sequer sugerir, por exemplo, que serem assassinadas foi “legítima defesa” é de uma falta de razoabilidade inadmissível para qualquer pessoa adulta que se julga apta ao convívio social.

Traçando paralelos com os dois casos já citados, tanto o atirador como Hannah Baker fizeram uma escolha, mas reduzir essa escolha a “frescurite” ou “falta de trabalho/ cinta” é uma tolice do ponto de vista moral e uma estupidez contraproducente do ponto de vista político (este articulista, por exemplo, afastar-se-ia a priori das outras ideias desse tipo de pessoas), assim como é claro que muitos dos que hoje postam fotos de apoio ao “Setembro Amarelo” são simplesmente hipócritas que ignoram ou mesmo praticam violência psicológica diariamente sem o menor remorso, mas agir como se nossas fragilidades emocionais fossem e devessem ser facilmente entendidas e aceitas pelos outros também é um péssimo modo de angariar apoio verdadeiro à causa dos psicologicamente frágeis.

Em suma, parece-me possível descrever os debates sobre os três casos da mesma forma: são equivocados de ambos os lados que deveriam adotar um pouco mais de moderação e de respeito ao debater sobre fatos que dizem respeito à vida e à integridade humanas. São esses os valores que, no fim das contas, precisam ser inegociáveis até o último caso.

Já aos “equivocados” politizadores, os pilantras intelectuais de sempre que usam esse tipo de caso para reforçar suas agendas, quaisquer que sejam, a lata de lixo da história é o único lugar apropriado.

Octavius é professor, graduado em Letras e polemista medíocre nas horas vagas. Poderia citar Roberto Carlos e dizer “eu voltei”, mas sabe que não deve prometer o que talvez não possa cumprir.

“13 Reasons Why”: as várias faces de uma série que explica mais do que pensávamos

Professor de inglês que sou, seria inevitável ter de começar a assistir séries para melhor estabelecer um relacionamento de companheirismo com meus alunos, conversando com eles sobre assuntos que de fato lhes interessem.

Decidi, por óbvio, começar pela série do momento: 13 Reasons Why (em português, Os Treze Porquês), em que nos é contada, por meio de 13 fitas e de correspondentes 13 capítulos, a melancólica história de Hannah Baker e de seu suicídio, tudo isso pelos olhos do personagem Clay Jensen, amigo de Hannah que não teve tempo nem coragem para declarar que queria algo além da amizade.

Com uma história bem contada e uma produção notável, não resisti e terminei em poucos dias essa série que, creio, pode ser útil para entender muito sobre como o mundo moderno tardio e seus cidadãos funcionam, ainda que não possa afirmar com 100% de garantia que todos os pontos foram intencionais por parte dos produtores.

Vamos, então, aos pontos que mais me chamaram a atenção:

1- O EFEITO BOLA DE NEVE DA IMPOTÊNCIA

No início da fita 3 ou 4, a jovem Baker explica aos que a ouvem sobre o famoso “Efeito-Borboleta”, segundo o qual mesmo as menores ações podem levar às mudanças mais significativas em um sistema. O telespectador que acompanhar os 13 episódios verá, claramente, um encadeamento de fatos, alguns deles considerados por muitos de nós em nossas vidas como não tão relevantes, que levaram a outros fatos, que levaram ao suicídio por parte de Hannah.

No caso de 13 Reasons Why, no entanto, também vejo em ação outro efeito, um que chamo aqui de “Efeito Bola de Neve da Impotência”, que pode ser resumido da seguinte maneira: quanto mais impotente alguém pensa ser, mais deixa de tomar atitudes e, consequentemente, mais impotente fica.

Não é difícil ver como se dá esse efeito na vida de Hannah, pois é possível defender que, a partir do momento em que se sente impotente, já no primeiro episódio, em relação aos rumores sobre si produzidos por Justin Foley e Brice Walker, a vida da jovem começa a ser uma coleção de impotências que acabam por levá-la ao desespero, já que todos que a cercam e em que ela confia falham de várias formas e, na imensa maioria dos casos, a culpam pelo ocorrido, o que leva a, posteriormente, considerarem (ou fingirem considerar) ser impossível que o que fizeram tenha influenciado na decisão de Hannah de findar a própria vida.

2- NÃO É FÁCIL JULGAR O DRAMA DO OUTRO

Sou dos que acreditam que, no mundo, há coisas objetivamente mais e menos graves. Não penso, por exemplo, e ao contrário da maior parte da chamada “elite intelectual” de nossos tempos, que algumas piadas sobre a aparência física, por mais grotescas que sejam, possam ser colocadas em pé de igualdade com uma agressão física gratuita, com um assédio sexual ou com um assassinato.

Ainda assim, a série fez-me relembrar de algo que eu já sabia, só que estava prestes a esquecer: dramas pessoais são, justamente, pessoais, e é extremamente difícil prever o que se passará na cabeça de outra pessoa quando lhe dissermos o que, a nós, parece ser insignificante, ainda mais se estivermos falando de pessoas com tendência à depressão, à paranoia e/ou ao isolamento social autoimposto.

É lógico, também, que creio que ficar controlando o que as pessoas podem ou não dizer por vias legais é só uma forma de autoritarismo, quiçá totalitarismo, moderno, mas fato é que, em termos morais, a diferença entre ser escroque involuntariamente e sê-lo voluntariamente não só é como também precisa ser nítida. E aí é que chegamos ao próximo ponto.

3- A DIREITA, EM ESPECIAL A BRASILEIRA, TENDE A CONTINUAR LEVANDO FERRO

É lógico que, em vários momentos, é possível criticarmos a ingenuidade da jovem Hannah Baker, em especial quando vai à festa na casa de certo canalha e quando confia seus segredos a um jornalista mirim sensacionalista, só que há modos e modos de se fazer isso.

Os direitistas em geral, como quase sempre, escolhem os piores deles: podem até não minimizar ou desprezar o caso, mas falam tanto dos equívocos da vítima que fazem parecer que a estão colocando como maior responsável pela tragédia que ocorreu. Pior ainda é quando minimizam o caso e o classificam meramente como “um triste acontecimento que não pôde ser evitado, já que há problemas maiores de que cuidar”, pois ficam parecendo meros calculistas que não tem o mínimo de empatia pelo outro.

Sim, eu sei que é complicado tentar ajudar às pessoas em dramas que, muitas vezes, nos podem parecer pequenezas. Sim, eu sei que muitas vezes não temos tempo para nos preocupar mais profundamente com aqueles que mais precisam de um ombro amigo. Sim, eu sei que a própria esquerda raramente se preocupa de verdade, e que, na realidade, só instrumentaliza grande parte dessas pessoas para fins políticos.

Mesmo assim, o problema, amigos, é um só e é de aparência: quando você sequer demonstra solidariedade a uma vítima e, pior, quando a chama de “frescurenta” por seu drama poder ser considerado “menor”, você já a perdeu tanto pessoalmente como politicamente. A falta de empatia, pois, pode ser ao mesmo tempo cruel e contraproducente.

Há, entretanto, uma explicação muito simples para o porquê de várias pessoas sofrerem de falta de empatia…

4- É EXTREMAMENTE DIFÍCIL ACEITAR O OUTRO PELO QUE ELE DE FATO É

Principalmente quando esse outro não é a fortaleza psicológica que tomamos como ideal de indivíduo. Principalmente quando sua aparência não nos dá indícios de que pode estar passando por uma situação de fragilidade emocional extrema. Principalmente quando só julgamos segundo a nossa própria régua, essa mesma que tem seus méritos, mas que sempre acabará pecando por ser um elemento da imperfeição humana.

Daí, conhecemos uma Hannah Baker e começamos a repensar certos aspectos de nossas vidas. Ou não, já que, por motivos os mais variados, pode ser ainda mais complicado aceitar a si próprio pelo que se é, já que até mesmo algumas crianças sabem que existem poucas coisas mais difíceis do que olhar a si próprio no espelho, figurativamente falando.

5- SIM, O SUICÍDIO É UMA ESCOLHA

Por fim, sim, o suicídio é uma escolha, independente de se aceitarmos que a série o defende como uma escolha ou como um resultado das circunstâncias.

Sim, a decisão final foi de Hannah Baker de fato. O problema, porém, é que a jovem Baker não era uma eremita e, portanto, tudo o que vivenciou inevitavelmente teve influência nessa escolha.

Muitos dirão, é claro, para colocar Hannah no banco dos réus, que vários passam por dramas iguais ou até piores, sobrevivem e são até pessoalmente bem resolvidos, o que nos leva de volta à aceitação do outro, em especial do mais fraco, como alguém que não merece a priori o mal e que é digno, enquanto não procurar fazer o mal a outras pessoas, do convívio social civilizado e do respeito.

Isso, amigos, é civilização. O resto é a sociedade dos milhares de Justins e Bryces, dos incontáveis canalhas sedizentes homens (ou mulheres) que tanto empesteiam os nossos arredores.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre.

De novo, o futebol. De novo, times paulistas e suas formações possíveis

O título explica tudo, leitores. Com as especulações sobre o possível desempenho de cada time ao longo de 2017 e sobre as mudanças a serem feitas, este que vos fala decidiu fazer as suas também, colocando duas possíveis escalações para cada grande de São Paulo.

Lembrando, claro, que são só palpites de um torcedor que tem procurado cada vez mais entender o esporte de que tanto gosta. Não tenho, pois, qualquer tipo de autoridade que torne meu palpite irrefutável ou inatacável.

Comecemos, é lógico, pelo maior deles:

Corinthians

Pensei, para o time comandado por Carille e orquestrado até o momento por ele, Reusdriguinho, o Deus da bola, em dois esquemas táticos diferentes, mas que, a depender da escalação, poderiam ser utilizados no mesmo jogo, um para o momento ofensivo, outro para o momento defensivo, ou um para um tempo, outro para o outro:

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No primeiro caso, temos um 4-1-4-1 em que, com o recuo de Maycon ou de Rodriguinho para uma função de segundo volante, auxiliando Gabriel na marcação, Fágner e Guilherme Arana poderiam ser liberados para reforçarem o ataque pelas pontas e ajudarem Jádson e Kazim  a brilharem e/ou a municiarem o centroavante Jô (ou Léo Jabá) com bolas para que ele empurre para a rede como fez no clássico diante do Palmeiras.

No segundo caso, um 4-4-2 em que Rodriguinho faria função semelhante à de Renato Augusto no 4-2-3-1 (em alguns momentos, 4-1-4-1) de Tite de 2015, sendo o sustentáculo do meio-campo para que o veloz e criativo Jádson exerça suas melhores características, podendo inclusive atuar como um terceiro atacante para ajudar Kazim e Jô a infernizar as defesas alheias.

É possível, também, colocar, quando estiverem em melhor fase, Marlone ou Marquinhos Gabriel em alguma das pontas para aumentar a técnica e a velocidade. Não se deve abdicar, do mesmo modo, da experiência de Felipe Bastos e da versatilidade de Camacho, este último que, por ter se acostumado com o modo de jogar do Audax, pode cobrir várias ausências, talvez até mesmo a de Jadson ou a de Rodriguinho.

Outras mudanças que podem ser feitas são as entradas de Pedrinho, Léo Jabá, Moisés, Léo Príncipe, Pedro Henrique, Giovanni Augusto e, pasmem, até mesmo Guilherme poderia render bons frutos nesse esquema.

Palmeiras

Para o time até o momento comandado pelo filho de Nelsinho “se perde de um, perde de sete” Baptista, Eduardo, considerarei Moisés e Tchê Tchê como indisponíveis por um bom período, em especial Moisés, para diversificar os possíveis formatos que esse time poderia assumir com os mais diversos jogadores. Obviamente, o torcedor palmeirense, com as formações dadas, saberá melhor do que eu em que posição esses jogadores se encaixam. Aí vão:

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No segundo caso, mantive o esquema de Eduardo Baptista, apenas trocando os machucados por Veiga e Bastos, que me parecem as opções mais interessantes do time de verde no momento, apesar de haver Guerra, Arouca e vários outros a serem experimentados. Zé Roberto, inclusive, poderia deixar a lateral para Egídio ou M. Bastos e ir ao meio-campo.

No primeiro caso, pensei em um esquema, digamos, mutante. Como o leitor pode perceber, o que tentei fazer em minha prancheta foi um 3-4-3 com, aparentemente, apenas um volante (Melo), um meia armador (Veiga, Guerra ou algum outro que o palmeirense prefira) e dois meias laterais (Jean e Zé Roberto). Coloquei, também, Mina como um líbero nesse time por me parecer, de todos os zagueiros alviverdes, o mais habilidoso em saídas de bola.

O caso é que, na verdade, seria possível, nesse time, fazer diversas mudanças táticas entre partidas ou ao longo de uma partida. Jean e Zé Roberto poderiam recuar para a defesa, Dudu poderia recuar para ajudar Veiga na criação, e Mina poderia avançar como  volante, o que daria ao time alviverde um 4-4-2 em que Keno teria chances de fazer ainda mais sucesso do que fez com Grafite em um esquema parecido no Santa Cruz, mas sem tantas opções de alta qualidade no elenco.

Por óbvio, também seria possível apenas recuar Dudu para a criação de jogadas, formando um interessante 3-5-2 ofensivo, assim como tirar um dos atacantes e colocar mais um volante, formando um 3-5-2 tradicional. Além disso, poder-se-ia recuar Jean e Zé Roberto e avançar Mina, formando um 4-3-3 no mínimo ousado. Isso, é claro, fora os nomes que poderiam substituir, ao gosto do torcedor, Jean, Zé Roberto, Veiga, Dudu, Borja, Keno…

São Paulo

No tricolor comandado por Rogério Ceni, temos, também, várias opções com as quais especular:

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No primeiro caso, mesmo esquema do São Paulo do começo do ano: um 3-4-3 em que Rodrigo Caio funcionaria como uma espécie de líbero ou de terceiro volante, além de contar com uma defesa mais sólida, com um ataque mais potente e com um meio campo mais dinâmico. Cueva poderia ser recuado como meia de criação, formando um 3-5-2, assim como Rodrigo Caio poderia avançar enquanto os laterais recuam, formando, sem recuar Cueva, um ofensivo 4-3-3, e, como o recuo de Cueva, um 4-4-2 em que a dinamicidade de Luiz Araújo seria um diferencial para auxiliar Pratto no ataque.

No segundo caso, radical mudança: um 4-2-3-1 em que o meio-campo povoado de jogadores com bom equilíbrio ajudariam a tornar a defesa mais sólida. Em um jogo em casa, a linha de 3 poderia rodar, confundindo a marcação. Em um jogo mais complicado, Thiago Mendes poderia ser recuado ao posto de volante para auxiliar mais diretamente na marcação, formando um 4-3-2-1 sólido na defesa e letal nos contra-ataques pelas pontas.

Santos

Por fim, quanto ao alvinegro praiano, o segundo esquema nem precisará ser comentado, pois já é conhecido de 10 em cada 10 torcedores santistas. O primeiro, porém, pode parecer chocante:

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Já que Dorival Júnior, pelo visto, quer promover, beneficamente, uma mudança de esquema tático, por que não utilizar o esquema da moda?

No caso, aproveitei-me da habilidade de Renato e de Thiago Maia e, em um momento em que Lucas Lima não mostra o seu melhor futebol, coloquei ambos como os centrais da segunda linha de 4. Obviamente que Maia pode ocupar o lugar de Leandro Donizete, assim como Lucas Lima o de Maia, mas, em um jogo fora de casa, não me parece ruim colocar um volante mais marcador e acompanhá-lo de dois que sabem conduzir bem o jogo, solidificando a defesa e não enfraquecendo o ataque.

Neste esquema, coloco Bruno Henrique no lugar de Copete porque Bruno me parece melhor no papel de meia criativo do que Copete, mas, é claro, o torcedor santista sabe que, para as quatro posições da segunda linha de quatro, não faltam boas opções, entre elas Thiago Ribeiro, Hernández, Longuine, Léo Cittadini, o já citado Lucas Lima, entre outros.

C’est fini, amigo leitor. Espero que tenha gostado.

Octavius é professor, graduado em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Agradece à imprensa esportiva brasileira por lhe dar inspiração para escrever algo depois de um mês or so.

Por que não falo de libertarianismo?

O leitor atento deve ter notado, há muito, que, até hoje, 17 de janeiro de 2017, este blogueiro que vos digita, quer em “O Homem e a Crítica”, quer neste “Apoliticamente Incorreto”, pode ter até citado libertários em alguns textos, mas nunca se dignou a escrever um artigo sobre o tema.

Eu poderia dizer, é claro, que, apesar de achar livre-mercado uma patacoada sem tamanho, não tenho conhecimento suficiente para escrever sobre as ideias libertárias em geral por falta de interesse mesmo, tanto que, até hoje, só li A Desobediência Civil, As seis lições e A Anatomia do Estado entre livros considerados libertários.

O caso, porém, é outro. O que me impede em absoluto de falar de libertarianismo são frases como a que cito abaixo, que li em uma discussão de Facebook na página de certo analista político cuja maior característica é o olavismo:

“A união de 2 ou mais indivíduos é uma união socialista.”

Na mente de um sujeito desses, é óbvio que a relação entre pai e filho, entre namorado e namorada ou mesmo entre um par de amigos só pode ser, por lógica (!), uma relação socialista (!!). Para não ser um socialista, então, segundo esse grande pensador que precisa permanecer anônimo e intocado pelo bem da humanidade, é preciso livrar-se do instinto gregário (!!!) e, agregado a ele, das emoções e dos mecanismos biológicos que nos fazem querer criar vínculos com pessoas, pois todo vínculo com outrem é socialismo puro (!!!!).

Ainda bem que nenhum leitor me cobrou nem me criticou, ainda, por não escrever um texto sobre esse tema. Se a crítica vier, a única resposta que poderei dar é mostrar esse artigo e dizer-lhe: “É desse tipo de gente que você quer falar? Você deveria ter vergonha de sequer dar ouvidos a uma galera dessa.”

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Teme que, daqui a alguns anos, o Star Wars se torne um filme libertário e crie o lema “não venha para o lado anarcocapitalista da Força, senão viramos socialistas.”