Defendendo a Indefensável (Ou: A esquerda que deveria temer dizer seu nome) (Ou ainda: Nota de defesa a Rachel Sheherazade)

Após um comentário sobre o recente caso de justiçamento ocorrido no Rio de Janeiro, a jornalista sbtana Rachel Sheherazade (sobre a qual já falei nestas bandas em outras oportunidades), além de ser vítima do repúdio do relevantíssimo e socialmente utilíssimo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio de Janeiro e da Comissão de Ética deste, angariou também contra si os comentários de sempre daqueles que desejam, a todo custo, o “mundo melhor”, mas que sequer conseguem entender o valor da dignidade humana do cidadão comum: Os progressistas.

Ocorre, porém, que, ao contrário das várias outras vezes, a distorção foi tão grande que se tornou inaceitável que não se interviesse em favor da jornalista – o que, para os progressistas, já é um crime em si, já que Rachel é, segundo eles, apenas obstáculo a ser eliminado em prol do “mundo melhor”, o que quer que isto signifique. Apesar, entretanto, das intervenções cirúrgicas de Flávio Morgenstern e de outros, pouco se fez para, de fato, mostrar como Rachel pode ser inocentada e como, mais uma vez, seus detratores mostram as garras da desonestidade intelectual. Bialmente falando, vamos, então, aos trabalhos. Hora de defender Rachel Sheherazade e ensinar seus detratores a exercerem a frieza e a racionalidade acima de tudo.

O compreensível, o correto e o Socioconstrutivismo

Na primeira parte de seu comentário, a jornalista sbtana, após utilizar a palavra-gatilho para a raiva esquerdista (ou, trocando em miúdos, após chamar um criminoso com ficha já considerável de marginal) e após pôr na mesa os mais de 50 mil homicídios anuais ocorridos no Brasil durante o governo petista, fora a quase total ineficiência do sistema jurídico-penal brasileiro, sela com chave de ouro ao dizer o óbvio: Que “a atitude dos “vingadores” é até compreensível.”.

Querendo demonstrar, então, a mais completa ausência deliberada de senso de valor das palavras – o que, como relembra constantemente o filósofo campinense Olavo de Carvalho, é uma herança legada pela educação socioconstrutivista no Brasil – e também um grande mau-caratismo, os detratores de Sheherazade fingiram não entender que compreensível significa, antes de tudo e no discurso de Sheherazade (até que se prove o contrário), “o que se pode compreender” (ou seja, quase qualquer fenômeno natural ou cultural existente) e resolveram, em um gigantesco salto metafísico, igualar o significado de “compreensível” com o de “correto” por meio de nada mais do que leitura mental para, assim, provar que Rachel Sheherazade estaria fazendo “incitação à violência”, “ferindo os direitos humanos” ou qualquer baboseira do tipo.

Isto, porém, ainda não significa que a jornalista esteja totalmente a salvo. Afinal, existe, ainda, a parte que de fato poderia comprometê-la. Vamos, então, a ela.

O Brasil anárquico e os analistas de discurso desatentos

Logo depois de ter acionado o segundo termo gatilho para o ataque das esquerdas (ou seja, o “compreensível”, que até o momento não foi provado ser sinônimo de “correto”), Rachel vem, então, com o epicentro de seu comentário:

“O Estado é omisso. A polícia, desmoralizada. A Justiça é falha. O que resta ao cidadão de bem, que, ainda por cima, foi desarmado? Se defender, claro! O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite.”

E com a parte que é usada pelos progressistas para justificar que “compreensível” foi usado como sinônimo de “correto”. Afinal, segundo a versão criada ex nihilo por eles, o que Rachel disse foi que, independentemente de qualquer condição, o justiçamento seria legítimo e, portanto, correto.

Acontece que Rachel, no mesmo trecho, deixa claro que não é uma legítima defesa coletiva per se, mas a legítima defesa coletiva de uma SOCIEDADE SEM ESTADO CONTRA UM ESTADO DE VIOLÊNCIA SEM LIMITE. Mas, esperem um pouco, o Brasil não é um dos países mais estatizados do mundo? Pois é. Não fica difícil entender, então, que “sem Estado”, no discurso sheherazadeano, também pode ser interpretado como uma espécie de abreviação para “sem uma atuação eficiente do Estado no campo da criminalidade, coibindo-a e punindo adequadamente aqueles que transgridem a lei”, o que é um fato visível para qualquer um que tenha mais de 6 anos e/ou que já tenha frequentado as ruas dos bairros mais violentos mesmo das cidades interioranas (em minha terra natal e cidade atual, Rio Preto, por exemplo, alguns falam que, em certos lugares, “o filho chora e a mãe tem de fingir que não vê”).

Ocorre, porém, que, pelo visto, como lembrado na famosa entrevista de William Waack com Lamounier, Pondé e Reinaldo Azevedo no programa Painel da Globo News, alguns progressistas parecem pensar no criminoso não como alguém que comete um delito e que deve ser punido de acordo com sua culpabilidade, mas sim como uma espécie de protorrevolucionário que só está cometendo o crime porque não está inserido no Partido e nas atividades revolucionárias.

Eu diria, contudo, que esta análise sobre a mentalidade progressista está apenas parcialmente correta, e que o último trecho do comentário de Sheherazade é uma ótima forma de mostrá-lo.

Direitos Humanos até a página três, Comunismo até o mais amargo fim

Ao final de seu comentário, a jornalista sbtana lança, brilhantemente, um desafio aos chamados “defensores dos direitos humanos” (ironia que ela frisa, na verdade, ao mudar subitamente o tom de voz):

” E aos defensores dos Direitos Humanos, que se apiedaram do marginalzinho no poste, lanço uma campanha: Façam um favor ao Brasil. Adote um bandido!”

E o lança sabendo que, na verdade, esse desafio não será cumprido nunca. Entretanto, ao contrário do que podem pensar a própria jornalista e alguns direitistas incautos – lembrando sempre que eu não sei se Rachel é de direita e que eu desconfio muito de quem a rotula assim -, a recusa não acontece apenas por causa da hipocrisia do que Rodrigo Constantino chama de “esquerda caviar”, mas também, justamente, porque, na sua essência marxista, a esquerda não gosta do chamado “lumpenproletariat” (ou seja, aqueles que não servem à sociedade por meio do trabalho ou que podem servir aos interesses da burguesia, este último ponto já sendo babaquice marxista) e que, em seus regimes, o que ela costuma fazer é, ironicamente, combater, de todas as formas possíveis, o banditismo, principalmente por saber que uma sociedade refém deste banditismo é inviável.

Em suma, demonstra-se, com este comentário de menos de um minuto, muito mais do que a esperada desonestidade intelectual do totalitarismo progressista. Demonstra-se, também, a total incoerência entre a teoria e a práxis, algo, inclusive, curiosamente, anti-marxista por natureza, e, justamente, a essência totalitarista deste tipo de pensamento. Vale lembrar, por fim, que o que não se deve fazer é, exatamente, cair na bizarra mudança de valor de palavras imposta pelos apologistas da religião política (o que Rachel, nesse ponto, ao menos, não fez). Afinal, como lembra o já citado Olavo de Carvalho em outro artigo seu:

“Mudar o valor e o peso das palavras é determinar, de antemão, o curso dos pensamentos baseados nelas e, portanto, das ações que daí decorram. Quem quer que consinta em adaptar seu discurso às exigências do “politicamente correto”, seja sob o pretexto que for, cede a uma das chantagens morais mais perversas de todos os tempos e se torna cúmplice do jogo de poder que a inspirou. “

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas se apaixona, cada vez mais, pela Filosofia e pelo polemismo. Espera, até agora, as provas de que “correto” e “compreensível” significam a mesma coisa. Por defender Sheherazade nessa e em outras ocasiões, já foi chamado de “reacionário” e “olavette” ao menos 100 vezes and counting.

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12 comentários

  1. Acho que seu ódio a esquerda esta vc ficar um pouco tapado, a questão não e nem vi sendo tratada na maneira como vc falou. O problema é que a dona evolução mal feita de Charmander coloca assim aquele grupo de bandidos (Afinal exposição vexatória no Brasil é crime incluindo para os próprios cumpridores das leis) como defensores da sociedade, se essas pessoas menosprezam as ferramentes de direito como então elas podem prender uma pessoa por um crime? Sabe como vc vai ter um bandido sem lei?
    TAQUEPARIU EM! A questão dessa discussão não é moral nen mesmo de política tradicional, mais sim legal (Ou seja em relação ao direito), só um tapado não consegue ver isso.

    1. Antonio,

      Se você não a viu sendo tratada da maneira que eu falei, ou você anda cego ou não anda entrando no Facebook, meu amigo. A Sheherazade, nesse ínterim, sofreu ameaças de todos os tipos e de todas as direções da esquerda, indo desde o PSOL até o “Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Rio” (Relevantíssimo, aliás).

      E outra, preste atenção na interpretação que eu dei à fala dela. Meu trabalho foi mais de defesa à Rachel do que de ataque às esquerdas necessariamente. O que Rachel disse é que essa ação é legítima… em uma sociedade sem Estado. Ora, desde quando o Brasil não tem Estado, Antonio? É só ler o que eu escrevi mesmo e entender sem raivinha da Sheherazade.

      1. Bem Otávio para um cara que estuda letras confundir. “Em uma” com “de uma” é um grande problema, a Raquel defendeu que a ação deles é legítima hoje ou seja pouco se importando com a questão legal presente que dentre outras coisas torna o infrator passível de punição. Ou seja ela cagou e andou para o sistema legal que mesmo falho é melhor do que nenhum.

      2. Antonio,

        “Em uma” e “de uma” não mudam a questão de que o Brasil não é uma sociedade sem Estado, e que, até que se prove o contrário, a real preocupação de Sheherazade é, justamente, a ausência do Estado nesse quesito. Ela não disse palavra contra o sistema legal, meu amigo, disse contra o sistema penal, ou melhor, contra sua ineficiência. O que eu uso no texto é, aliás, justamente, um princípio do nosso direito: In dubia pro reo, conhece?

  2. Quando os arruaceiros metem fogo num ônibus e matam uma menina inocente, é uma explosão justa da cólera popular. Quando alguém dá um soco no nariz de um bandido, é a violência fascista assassina. Esse duplo pardrão me incomoda.

      1. Matheus,

        Por favor, não me faça mandá-lo ir zurrar no pasto, pois você sabe muito bem que:
        1- O Arthur está fazendo uma crítica a quem fala que o queimar dos ônibus é legítimo.
        2- Uma ironia com como as pessoas legitimam, às vezes e por motivos ideológicos, ações muito piores do que uma fala de um minuto de uma jornalista

  3. Ora, mas apenas essa frase “O contra-ataque aos bandidos é o que eu chamo de legítima defesa coletiva de uma sociedade sem Estado contra um estado de violência sem limite.” já invalida TODO O SEU TEXTO. Se em um momento, a jornalista se vale do eufêmico “compreensível”, nesse ela assume que esse tipo de atitude é LEGÍTIMA frente à impunidade e a dificuldade que o Sistema Penal tem, tantas vezes, em dar cabo a esse tipo de infrator.

    A “Charizad”, portanto, não quis estabelecer apenas um “outro olhar” sobre os justiceiros, mas considerar que esse tipo de ação popular, em se tratando da realidade brasileira, é legítimo e poderá ser utilizado novamente. Que pode ser positivo, inclusive!

    1. Matheus,

      Aqui é uma questão de interpretação diferente. No que você viu um grito pela legitimidade do justiçamento, o que eu vi foi um apelo até desesperado demais pela intervenção mais eficiente do Estado nesses casos. Afinal, se ela quisesse mesmo legitimar o justiçamento em si, não precisaria ter citado o “Estado ausente”, precisaria ter citado apenas o “estado de violência sem limite”. Vê como poucas palavras adicionadas ou retiradas podem, sim, ajudar-nos a defender ou atacar uma pessoa, e vê quantas interpretações diferentes uma mesma frase pode suscitar? Vamos, então, cassar o diploma de Sheherazade ou pô-la para fora da mídia à base de pontapés quando sequer temos um consenso sobre como seu texto deve ser interpretado?

      Lembre-se, meu amigo, de que meu texto aqui foi uma obra de defesa, porque existe muita coisa em jogo e muitas outras questões que precisam ser discutidas dentro desse contexto antes de se partir para a censura.

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