Nos embalos de um ex-BBB intelectófobo – Jean Wyllys, o Rousseau brasileiro

Ontem à noite, enquanto navegava pelos canais de minha televisão, vi que, dentro de pouco tempo, haveria uma entrevista no programa Provocações, da TV Cultura, com o Deputado Federal e ex-BBB Jean Wyllys, que atualmente milita pelo PSOL e por todo tipo de causa que sirva para inchar o estado e praticar todo tipo de fascismo ideológico contra os grupos que não aprecia, incluídos todos aqueles que se apegam às suas tradições ou mesmo aos próprios ideais ao invés de louvar e propagandear as ideias do messias dos “por um mundo melhor”.

O fato foi que o linguista-deputado não decepcionou e, como sempre, nos presenteou com um show de afirmações no mínimo curiosas e interessantes de serem analisadas. Resolvi, então, promover uma reflexão sobre alguns desses pontos interessantes presentes na supracitada entrevista. Como, ao contrário do deputado, sou um democrata convicto (apesar de não tomar a Democracia como ideologia ou objeto de louvor), convido também o leitor a participar comigo e dar seu sempre precioso pitaco sobre minhas reflexões. Aproveitemos, então, antes que este tipo de reflexão descompromissada e sincera também seja considerado preconceito, termo cada vez mais vago e, em contrapartida, cada vez mais usado por aquelas pessoas que, como Wyllys, amam a humanidade, mas detestam seus semelhantes (e aqui copio descaradamente Luiz Felipe Pondé, Edmund Burke e muitos outros).

Enfim, vamos à análise. Poderia começar pela parte em que o deputado diz que “não está acostumado a ser chamado de Vossa Excelência”, mas prefiro, por pura e simples vontade, começar pela reclamação em parte justa de Sua Excelência quando este diz que um dos problemas da política brasileira é termos uma população pouco politizada, pouco participativa. Muito curiosamente, é esse mesmo Jean Wyllys que reclama em coro com neo-ateus e outros imbecis juvenis e senis contra a participação de pastores evangélicos na política sob a afirmação de preservar a laicidade do estado.

Mas, ora essa, do que eu saiba, um Estado Laico é justamente aquele em que todas as religiões, grupos religiosos e pessoas religiosas (ou não) podem ter voz – e podem ter certeza, quem diz que Estado Laico é estado sem religião, no sentido de participação dos religiosos, é ignorante, politicamente correto ou mau-caráter, apesar de estes dois últimos serem quase sempre sinônimos. Estariam, então, os evangélicos, um grupo numeroso e expressivo da população, proibidos, por algum tipo de moralismo wyllysiano, de votar em seus pastores para que eles tenham também seus representantes lá? Deveria, então, a população ser politizada apenas em prol dos ideias de esquerda defendidos por Wyllys?

Pergunto isso porque, muito curiosamente, o Papa dos LGBT cita, logo em seguida, o pensador italiano Antonio Gramsci, famoso por dizer, como repetido pelo próprio Jean Wyllys, que não se deve esperar por uma revolução, mas sim entrar no sistema e mudá-lo por dentro. Seria o objetivo de Sua Excelência, então, agir de modo a censurar todo o pensamento que não lhe agrade e impor sua agenda a todos, gays ou não?

Mais curiosa ainda foi a declaração do deputado sobre o agora finado e antes deputado Clodovil Hernandes, dizendo que este, ao não lutar “pelos direitos humanos dos LGBT” – o que quer que se deva entender por isto, visto que Sua Excelência não explicitou, na entrevista inteira, quais seriam esses direitos, que, pelo visto, deve diferir muito dos direitos humanos tradicionais, incluindo o direito de passar valores religiosos aos filhos, coisa que Wyllys parece não respeitar -, pareceu-lhe apresentar o grave caso de “homofobia internalizada”, mesmo sabendo que, quando se fala em Clodovil, uma das primeiras coisas que vêm à cabeça de quem conheceu esta figura é a homossexualidade em si. Pelo visto, não basta ser homossexual, é necessário ser da vertente radical-marxista-wyllysiana.

Aliás, é justamente pelo fato de nem todos os deputados o mimarem e o tratarem como ele acha que deveriam (ou seja, mais do que “Vossa Excelência”, um herói da nação e uma figura inquestionável) que o intelectófobo apela e acusa, sem o mínimo pudor, os congressistas (ou, em suas palavras, os “machos adultos brancos”) de terem se acostumado a colocar os homossexuais no lugar de subalterno e, consequentemente, de estarem descontentes com o fato de essa minoria ter ganhado voz. Além disso, também culpa o Congresso pelo “crime inafiançável” de nunca ter se habituado a dar espaços a todos os pontos de vista, incluindo o de homossexuais, mulheres e negros.

O detalhe de que se esquece o ilustre congressista novato é que, além de os congressistas atuais não terem qualquer culpa pelo processo histórico de subalternação das minorias (e culpá-los por isso seria o mesmo que culpar todos os ateus pelos crimes de Stalin ou Mao, por exemplo), é necessário, especialmente no admirável mundo corporativista brasileiro, haver uma representação que traga para o debate os pontos de vista minoritários, especialmente porque, apesar de sermos uma nação com vários problemas histórico-sociais nesse sentido (e não assumir isso seria canalhice de minha parte), há outros temas um tanto mais prioritários a serem tratados, entre eles Economia, Saúde, Segurança, Saneamento Público e Educação.

Falando em educação, pouco após esse apelo despudorado à culpa alheia, totalmente típico dos politicamente corretos, Wyllys explica que, entre seus projetos, está um por uma educação “para a diversidade”. Porém, esse é o problema: Que diversidade? Apenas a “diversidade sexual” ou a diversidade de opiniões e de pensamentos? Afinal, se for esta última, o próprio deputado teria de ir a algumas aulas, já que, em mais de uma ocasião, inclusive na entrevista, demonstrou profundo desrespeito àqueles que pensavam diferente dele próprio, tachando-os de “preconceituosos” – ah, sempre essa vaga acusação que acarreta, curiosamente, uma claríssima punição, indo de isolamento social a limbo intelectual.

Mesmo assim, para justificar este e outros pontos de seu pensamento, Sua Excelência apela para o quase sempre falacioso, todavia sempre efetivo (em termos de propaganda de uma causa) truque de “somos o grupo mais odiado da história”. Falo isso porque me habituei não a encarar homossexuais como subalternos (pois isto seria pura ignorância), mas a ver tanto estes quanto ateus e outras minorias usarem o mesmo truque, quase todas as vezes tomando como provas pesquisas malfeitas e dados históricos mentirosos. Como Sua Excelência não trouxe nada além de retórica para provar sua alegação, descarto-a, pois, como diriam o neo-ateu Christopher Hitchens e muitos outros, o que pode ser afirmado sem evidências pode ser descartado sem evidências.

É também sem evidências e com uma retórica cada vez mais frágil que, logo em seguida, o sofista showman mostra sua mágoa pelo fato de pessoas ateias e não-religiosas  também demonstrarem “homofobia” ao preferirem ter filhos hétero a filhos homo. Pena que, para desespero do Papa do Marxismo-LGBT (apesar de o Marxismo ter fortes traços de Homofobia), a homofobia seja apenas repulsão ou ódio aos homossexuais, e não a preferência por ter filhos heterossexuais, algo que, de fato, não tem relação necessária com ódio ou com repulsão, exatamente por ser mera PREFERÊNCIA. Obviamente, não nego que possa haver alguns destes movidos pelo ódio, mas isso, até que se prove o contrário, é pura especulação e, pior, especulação difamatória.

Por falar em difamações, Jean Wyllys reclama, com justiça, de uma imagem compartilhada pelas redes sociais em que o próprio se dizia um “apoiador da pedofilia”, e diz, inclusive, que vai entrar com um processo contra os que fizeram e compartilharam a imagem. Curiosamente, o mesmo deputado PSOLista não teve vergonha de, na própria entrevista, chamar de “fundamentalistas opressores de minorias” – e o xingamento aqui está em fundamentalista, termo que se tornou pejorativo ao longo das últimas décadas – os religiosos que, segundo eles, compreendem mal a “liberdade religiosa”. Não deveriam, então, os religiosos também moverem processos contra o guru da moçadinha laica-gay?

Depois disso, além de chamar a Comissão de Direitos Humanos, comandada por Marco Feliciano, de “causa perdida”, ele e Abujamra quase têm um orgasmo conjunto ao falar de “teologias inclusivas” – que, aposto mas não sei se ganho, devem ser capitaneadas por pessoas tão cristãs quanto eu e tão entendedoras de Teologia quanto o próprio deputado –  e ao discutirem a relação entre religiões, preconceitos e bancos, discussão essa que incluiu uma frase de Jean Wyllys em que o deputado dispara, não sei com base em que premissas, que o fato de o Banco do Vaticano existir e ter sido ACUSADO (o que difere e muito de CULPADO) de ser um paraíso fiscal é prova mais do que suficiente de que religiões e bancos são uma união que estragam o mundo. Típico dos intelectófobos.

Por fim, o metafísico de boutique, não satisfeito em já ter demonstrado seu amor à humanidade e ódio ao semelhante durante toda a entrevista, ainda fala, quando perguntado sobre “reencarnação”, que adoraria voltar em um “mundo justo”, em que não houvesse divisão do homem, exploração do planeta, preconceitos, guerras religiosas (o que raramente acontece, pois as religiões são mais pretextos do que guerreadoras de fato) e tantas outras mazelas sociais. Pena, para ele, que não há mundo justo, e que as últimas tentativas de fazer isso resultaram em bizarrices como o Comunismo Stalinista e o Nazismo Hitlerista.

Mas, esse não é o grande problema no pensamento de Sua Excelência. O problema é que Jean Wyllys, como todo membro de minoria, põe-se na posição do bom selvagem rousseauniano, aquele que, não fosse a sociedade, seria a melhor das pessoas. O engraçado é que, apesar de odiar a sociedade “homofóbica” em que vive e de não gostar das religiões que “oprimem minorias”, o Papa (e peço perdão por fazer essa comparação, pois nem o pior dos Papas mereceria isso)  LGBT latino-americano insiste em demonstrar publicamente seu religioso louvor e sua devoção digna do pior dos fanáticos não à religião tradicional – pois ele, como todo bom neo-ateu enrustido, não se assume assim e prefere dizer que tem uma “religiosidade composta” -, essa que busca a virtude metafísica antes de qualquer coisa, mas à religião política, aquela em que, em prol do “mundo melhor”, as vozes divergentes são caladas e os ídolos passam a ser os ditadores.

Algum Wyllysiete poderia vir aqui e falar que “só estou defendendo minha religião”. Errado. Não acredito no Deus das religiões, mas rejeito bem mais sistematicamente sequer a hipótese de louvar aos deuses Mercado e Estado. A real questão aqui é que Sua Excelência, apesar de não estar acostumado a ser chamado de “Vossa Excelência”, quer esse tipo de tratamento, o da submissão servil, às suas ideias, e isso, infelizmente, eu não posso oferecer, pois meu ceticismo, mesmo que não-absoluto, não permite.

É, amigo leitor, é como disse o próprio Abujamra, “o gesto é o suficiente para o ator”, especialmente quando ele decide interpretar Rousseau.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras, mas, confessa, anda preferindo a Filosofia. Sentia-se orgulhoso de ser um futuro diplomado em Letras até saber que um dos portadores desse diploma é, justamente, o ilustríssimo deputado. Faria gestos de Rousseau, mas prefere atuar como alguém com mais de dois neurônios ativos no cérebro.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 26/06/2013

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2 comentários

  1. NaTelinha – O pessoal mais de direita te defende. Até dizem que você é reacionária. Concorda?

    RS – Sou, de fato, uma pessoa com valores conservadores, muito mais à direita que à esquerda. Quero conservar o Estado democrático de Direito, a família, a propriedade privada, o voto livre, o parlamento forte, a Justiça independente, a liberdade religiosa, as garantias constitucionais, a paz social, a manutenção da ordem, o direito à vida… Se tenho atitudes reativas é porque reajo contra a corrupção, a violência, a impunidade, a falência do ensino, o desrespeito às nossas instituições e tudo o que põe em risco nossas maiores e mais importantes conquistas sociais.

    http://natelinha.ne10.uol.com.br/noticias/2014/02/08/sheherazade-fala-sobre-polemica-pt-e-psol-defendem-a-censura-71155.php

    1. Thiago,

      Imagino que tenha respondido ao texto errado, mas vamos lá: Eu nunca disse, no outro texto, que Sheherazade NÃO É de direita. Eu apenas questionei o grau de desespero de certos setores de direita que, ao primeiro comentário menos esquerdista de uma pessoa, já a vão chamando de “de direita”. Veja o caso Demétrio Magnoli e entenderá perfeitamente aquele texto.

      Ainda assim, uma das minhas perguntas persiste (e, aliás, minha dúvida principal): Será que, se tivesse confirmado que, na verdade, era de esquerda, Rachel iria ganhar tanto apoio e tantos puxa-sacos?

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