Manifesto Jaaviano contra Olavo de Carvalho e outros arrogantes, inconsistentes, desonestos intelectuais e “fechados à diversidade da experiência humana e da realidade que nos constitui”

Caros amigos leitores, tenho um anúncio a fazer. Após ver o vídeo sobre o jornalista campinense Olavo de Carvalho feito pelo doutor em Psicologia Adriano Facioli (mais conhecido como Frank Jaava), membro da Tropa Lanterna Verde, resolvi seguir seu conselho e não mais considerar como filósofo ou como referência filosófica em qualquer assunto ou para qualquer abordagem séria de qualquer assunto os ditos filósofos que não possuírem consistência, humildade e honestidade intelectual, assim como não considerarei os que não forem, como ele disse mesmo?, “abertos para diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui”.

Frank Jaava explicando ao telespectador sobre “conservadores extremos e rancorosos”

Vejamos, então, quem seria excluído desse grupo. O primeiro, sem dúvida, seria Friedrich Nietzsche, autor com importantes contribuições principalmente no que se refere ao estudo do mundo clássico (em especial grego) e da estética como um todo. Afinal, além de sua obra ser muito dispersa em termos filosóficos, que história é essa de, em Ecce Homo, escrever um capítulo intitulado Por que escrevo livros tão bons? E quanta falta de educação ele teve ao chamar Kant de imbecil em O Anticristo, não é? Fora o que fala dos cristãos em Crepúsculo dos Ídolos e Além do Bem e do Mal, um absurdo total! E mesmo que sejam artifícios de retórica e (segundo Jaava) “sofística”, um homem desses jamais pode ser considerado um filósofo. Apenas “conservadores extremos e rancorosos” podem considerar um cara desses filósofo mesmo!

Já o segundo, sem dúvida, é ainda mais fraquinho e, com certeza, não deve ter contribuído muito para o estudo da retórica clássica, da estética e da moral de um ponto de vista ateu. Falo de ninguém mais do que Arthur Schopenhauer, pessimista alemão. Afinal, que história é essa de crer na teoria da conspiração de que só não entrou para a Academia na Alemanha porque a maioria (senão todos) os acadêmicos influentes da época eram partidários de Hegel, a quem Schopenhauer se opunha ferrenhamente? E esse negócio de passar metade do A arte de conhecer a si mesmo falando sobre como sua obra, por não se pautar no querer puro e simples, será eternizada? É muita falta de humildade!

Caramba, já ia até me esquecendo: E quando esse pessimista, em A arte de envelhecer, escreve que Hegel, Fichte e Schelling, seus contemporâneos, tinham sido o que de pior aconteceu para a Filosofia até então? E em A arte de escrever, então, quando ele fala que tudo o que Hegel consegue fazer são apenas floreios e mais floreios para que sua escrita pareça menos medíocre? Mas esse homem, além de não ter uma visão aberta “para a diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui”, só xinga seus opositores! Como assim ele é considerado filósofo por alguém? Esses “conservadores extremos e rancorosos” só podem estar de brincadeira!

Schopenhauer: “Eu paguei net para ouvir essas porra?”

O que dizer, então, de gente como Sartre, um dos que mais contribuíram, em sua época, para a mudança de paradigma do estudo das artes em geral, que, ao apoiar o Stalinismo, mesmo que por pouco tempo e mesmo se arrependendo depois, e ao afirmar que poesia não é gênero literário para engajamento político, não percebe “a diversidade da experiência humana” e deseja apequenar o leitor ante os fatos? De Kant, que, arrogantemente, quis fazer excursões pela Biologia e pela Física mesmo sem manjar nada de nenhuma dessas áreas e depois nem teve a honestidade intelectual de reconhecer seu erro e pedir desculpas? De Foucault, que acreditava, como demonstra em A Ordem do Discurso, obra indispensável para quem quer entender como até mesmo a ciência pode se reduzir a um simples discurso em que o que vale é a vaidade dos cientistas e não a verdade, nesse conspiracionismo maluco de que cientistas podem, sim, excluir o que vá contra as suas ideias pessoais do rol das verdades científicas? De Rousseau, que, em Do Contrato Social, ao se pronunciar favorável à Pena Capital, desconsidera “a riqueza da realidade que nos constitui”?

E é isso aí! Como sou um homem que sabe reconhecer a “diversidade da experiência humana e para a riqueza da realidade que nos constitui”, não posso levar a sério esse tipo de gente tão pouco humilde, tão inconsistente e tão desonesta intelectualmente!

Epa, espera… Como é esse negócio de “eles estavam tentando entender a realidade que os cercava mesmo”? Ah, deve ser só besteira dos “conservadores extremos e rancorosos.”

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e caminha, mesmo que a passos tímidos, na trilha da Filosofia. Se ganhasse 1 centavo por cada vez que ouvisse a palavra diversidade empregada por psicólogos, sociólogos, antropólogos, sociolinguistas e afins, já teria feito, há pelo menos um ano, Gates e Slim parecerem pobretões.

*Originalmente publicando em “O Homem e a Crítica” em 15/01/2014

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6 comentários

  1. O que o vloger (por assim dizer) falou não foi que o cara não tem valor algum e sim, que o mesmo está utilizando de sua “vasta” inteligência para corroborar qualquer discurso contrário ao mesmo.
    O uso de palavrões excessivos é sim um pouco de arrogância do digníssimo Olavo, e que algumas de suas idéias são sim discurso antigo do partido Republicano.
    Algo que não posso deixar de citar é o uso excessivo da falácia do espantalho, usada pelo Olavo.

    1. Raul,

      Apesar de meu hoje pouco apreço pelo “maior filósofo brasileiro vivo”, não posso ser cego ao moralismo imbecil do Facioli, que parece muito preocupado em definir um filósofo mais por sua polidez do que por suas ideias. Como eu disse no texto, se arrogância fosse anti-filosófica, Schopenhauer e Nietzsche, por exemplo, estariam fora desse campo, e não estão.

      E as ideias dele serem parte do antigo discurso republicano não é relevante para defini-lo como filósofo ou não-filósofo, a não ser que você ache que um filósofo não pode se engajar ideologicamente, o que reduziria filosofia a, vejamos, filosofia grega clássica e um pouco da filosofia alemã moderna.

      Abraços,
      Octavius

  2. Amigo, primeiramente, se você realmente, um formado em Letras, pretende adentrar o mundo, vasto mundo da Filosofia, tente ao menos entrar com o pé direito: Nietzsche nunca se disse filósofo, Nietzsche se denomina um psicólogo. Ele nunca entendeu esse papo de tantos pensadores quererem arrastar para si a alcunha de filósofo, como se isso lhes desse mais seriedade. Nietzsche não é filósofo, é um grande pensador. E os dois termos, meu caro, não são sinônimos. E convenhamos, Olavo de Carvalho não é filósofo, nem tampouco um pensador brasileiro. É um mero senhor com ares de intelectual que berra seus palavrões e sonha em ser um mestre cheio de seguidores, como eram Platão e Aristóteles, esses sim filósofos.

    1. Matheus,

      Agradeço pelos conselhos, mas, por menor que seja meu respeito pelo ex-astrólogo, não vejo o porquê de ele não ser catalogado como um pensador, ao menos. Você disse que existe diferença entre filósofo e pensador (nisso concordamos) e que Olavón não se encaixa em qualquer das categorias. Em face disso, tenho duas perguntas:

      1- Como você define “filósofo” e “pensador”?
      2- Por que o ex-astrólogo não se encaixa nessas categorias? Lembre-se, por mais que concordemos em não gostar dos ares de Olavo, isso não faz dele mais ou menos filósofo ou pensador.

      Quanto a Nietzsche, já manjava dessa de ele não se considerar filósofo, mas adotei o rótulo “filósofo” porque ele é assim conhecido comumente. Se você for falar para a maior parte da galera que estuda o assunto que Nietzsche nunca se disse filósofo, não será relevante, porque vão continuar chamando o bigodudo dessa maneira.

      Abraços,
      Octavius

      1. Primeiramente, fico lisonjeado de ter sido respondido tão rapidamente por ti, quando em muitos espaços virtuais a maioria dos comentários são ignorados. Vejo que você realmente está atento!
        Um filósofo se classifica por tratar de questões diversas, ou seja, o filósofo fala do todo, e não da parte, porque quem trata da parte são as mais variadas ciências, que recortam pedaços da realidade para se debruçar e estudar. Diferentemente das ciências, a filosofia e o filósofo não trabalham com objetos reais do mundo, isso quer dizer que eles não metem a mão na massa, o filósofo é um metafísico por assim dizer, metafísico no sentido em que trata de muitas questões do mundo, mas sem se particularizar. O filósofo fala da economia sem entrar no mérito dos cálculos, por exemplo, visto que as ciências que se particulariza nos cálculos são economia, matemática e ciências contábeis (esta última tida como ciências sociais aplicadas. E é isso mesmo, a ciência é primordialmente aplicada, enquanto que a filosofia trata de questões gerais de uma maneira geral. Enquanto o Direito trata das leis e normas que regem o social, a filosofia vai falar da Ética, que são as regras advindas da razão, que não são escritas, ou seja, são metafísicas. Portanto Olavo, nesse quesito, não é filósofo. Nietzsche não o quis ser por ser um ferrenho opositor da metafísica, e ele próprio não queria ser só mais um mero metafísico.
        Agora o pensador é aquele que pensa questões políticas, éticas, artísticas, mas que não necessita do rigor filosófico. Que rigor é esse? Estou dizendo que o pensador não tem coerência em seu discurso? Tem coerência. Mas o pensador não é obrigado a pensar de forma metafísica, ele pode pensar de um modo aplicado.
        Octavius, Olavo não é filósofo, mas analisando bem, já que ele tem uma obra escrita e discute assuntos diversos nos espaços virtuais, de fato não podemos negar que ele é um pensador. Mas o grande problema, e a grande denúncia do Jaava no seu canal é que as pessoas se limitam a seguir o Olavo como carneirinhos, como subservientes a tudo o que Olavo fala sem se porem a questionar. Engolem tudo. E Jaava quis dizer que as pessoas precisam acordar e ir atrás de informações, bibliografias, devem pesquisar por si só, e não aceitar tudo o que Olavo cospe, pronto e mastigado.

      2. Pertinentes os seus argumentos, Matheus, assim como sua definição de filósofo. Ainda assim, resta uma pergunta que preciso fazer: se um filósofo é aquele que não mete a mão na massa, e que é um metafísico por excelência, como separar o filósofo político de um simples pregador, sendo que a maior parte de nossos atos e de nossos discursos podem ser considerados políticos e, portanto, antimetafísicos, por excelência? Um filósofo político seria, então, uma contradição?

        Quanto a engolirem tudo o que Olavo fala, concordamos, mas ainda penso que esse não é um problema apenas dos seguidores do Olavo, mas da natureza humana em si. O homem-massa, afinal, não é um alienígena, certo?

        Quanto ao Jaava, meu problema com ele não é nem a denúncia que faz, mas que me parece fazê-la para se colocar como uma espécie de “superior a tudo isso que está aí”. Parece-me uma espécie de arrogância isentona, e não de busca sincera pela verdade, compreende? Parece-me, aliás, militância política travestida de campanha pró-razão, e isso não me agrada nem um pouco.

        Por fim, sim, costumo responder os comentários por vários motivos, sendo os dois principais que meu site não é muito comentado (ou seja, o tempo que gasto para responder comentários é ínfimo) e que, se não me sinto bem quando sou sumariamente ignorado pelos outros em seus sites, não acho justo fazer o mesmo com os meus leitores.

        Enfim, agradeço pela audiência e espero que continue neste espaço.

        Abraços,
        Octavius

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