Eu, Apolítico – A imbecilidade do Desarmamentismo Civil (Ou: O “filósofo” da cidade de São Paulo, o pai da Psicanálise e as estatísticas de mesa de bar)

Já há um bom tempo, venho observando e relatando, por estas bandas, as “genialidades” pronunciadas e/ou escritas pelo ilustríssimo “filósofo da cidade de São Paulo” (e isso porque outros muito mais ilustres, como Miguel Reale e Mário Ferreira dos Santos, também lá viveram e filosofaram), Paulo Ghiraldelli Jr., dentre elas a de que se deve ler um conservador sem considerá-lo conservador, ou seja, sem se atentar, justamente, às premissas filosóficas de que parte para dizer A ou B, a de que um filósofo de verdade só pode ser assim considerado se apoiar todo tipo de manifestação por mais imatura e provavelmente infrutífera que seja, e, finalmente, e talvez a maior de todas, a genialidade de dizer que todo o problema da escola pública se resume a dinheiro, e não, também, ao óbvio erro, inerente a toda e qualquer pedagogia progressista, de, ao invés de querer formar um cidadão capaz de  exercer alguma função técnica que lhe permita, então, não se tornar refém do acaso e de qualquer patrão, digamos, menos “generoso”, querer que o cidadão saia da escola “crítico”, ou, em linguagem de pessoas normais, desejoso de transformar a realidade e a sociedade sem nem mesmo conhecê-las (e muito menos entendê-las) a fundo.

Mário Ferreira tentando achar a “filosofia da cidade de São Paulo” de Ghiraldelli

Quando acho, porém, que a vastíssima erudição do ilustre “filósofo” chegou ao seu limite, eis que ele me surpreende e escreve um artigo sobre a questão do Desarmamento Civil, intitulado, por ele, de A arma faz xixi na mão de criança, em que coloca, dentro e fora de seu artigo, uma série de pontos interessantes para o crivo de um cético, ou pelo menos de um cético em formação, como este que vos fala. Então, como diria o grande poeta pós-moderno brasileiro Pedro Bial, “aos trabalhos”. Hora de analisar a posição de Guiraldelli¹ sobre a questão das armas no Brasil.

O complexo de Freud e a deslegitimação preventiva do oponente

Antes, porém, de irmos à análise do artigo em si, cabe a mim explicar porque havia dito que há pontos interessantes a serem analisados mesmo fora do artigo de Ghiraldelli. Para isso, recorro ao já citado por estas bandas blog Ceticismo Político, cujo dono, Luciano Henrique Ayan, é, reconhecidamente, um especialista em desnudar estratégias de propaganda política, fraudes e muitas outros elementos mais que estão inseridos no contexto das disputas políticas como as conhecemos (e até como não as conhecemos).

Lá, há, no mínimo, dois posts que descrevem, com precisão, duas das táticas usadas pelo “filósofo” são-paulino paulistano não só no artigo aqui analisado como também em outros, entre eles o Onze tópicos sobre o energúmeno, em que o professor da UFRRJ (por enquanto), antes de começar, nos avisa, sobre o energúmeno, que:

Você pode encontrá-lo em vários lugares. Mas sei que se vier me ofender, é porque o encontrou no espelho.

Da mesma forma, no fim do artigo sobre desarmamento, Ghiraldelli nos alerta, com um Post Scriptum sucedido apenas por um ponto, e não por dois-pontos, como se esperaria de qualquer pessoa que dominasse as regras de pontuação do próprio idioma, que:

essa questão da posse de arma irá fazer alguns virem aqui apenas para agredir.

Eis, então, o momento para a primeira entrada de Ayan. Em um seu post do início de Abril do ano passado, o investigador de fraudes conversa com o leitor sobre a “deslegitimação do oponente de forma preventiva”, técnica em que, segundo Ayan, o que se faz é “um ataque duplo, em que o primeiro ataque é baseado em rotinas para infligir dano ao outro lado, e o segundo ataque, em paralelo, para atacar e tirar a legitimidade de um possível revide.”, ou seja, em que se diz, como no caso dos artigos de Ghiraldelli, que quem vier a “ofendê-lo” – o que, para Paulo, parece significar apenas expressar qualquer discordância, dada a maneira como modera, a seu bel-prazer e com um critério que, no mínimo, faz a balança pesar a seu favor sempre, os comentários dos leitores que vão contrapor o que ele diz – não o fará por causa do tom jocoso com que o “filósofo” se dirige a seus adversários (e veremos isso mais adiante), mas sim porque é “energúmeno”, incivilizado, barbaresco, inculto, sem bom ensino médio, “autodidata” (o que, para Ghiraldelli, é uma ofensa pior do que o comportamento de Maria do Rosário quanto à violência, sobre o qual ele, até agora, nada disse), etc.

Pena, para o “filósofo”, que todos esses xingamentos (ou não) que usa não são mais do que puras suposições sobre as vidas de seus comentaristas ou mesmo fruto de leitura mental, e que, no reino da lógica, ainda é permitido discordar de “filósofos”, pois não são os títulos de alguém que definem a veracidade do que este venha a dizer, mas sim a coerência de suas ideias não só internamente como também com o mundo exterior.

Há, porém, um segundo truque a ser desmascarado antes de partirmos para o exame das ideias do “filósofo da cidade de São Paulo”. Ainda no Post Scriptum sucedido de um ponto e não de dois-pontos, após começar a desqualificação preventiva de todos os que venham a discordar dele, Ghiraldelli completa:

É que quando eu ponho pingos nos “is”, os mais imaturos me veem como pai disciplinador, e ficam doidos para se comportarem como adolescentes rebeldes. O desejo de posse de arma talvez mostre um Édipo mal equacionado, pessimamente elaborado.

Aqui, então, além da desqualificação barata, vemos um típico caso do freudianismo, também relatado por Ayan, técnica esta em que as teorias do pai da Psicanálise são usadas, sem maiores provas, como argumentos para desqualificar o oponente. No caso, o que Ghiraldelli usa é a contestadíssima teoria do Complexo de Édipo para dizer não só que seus detratores não tiveram, como costuma afirmar, “o bom ensino médio”, mas também que sua psique, durante a infância, foi perturbada por alguma sorte de eventos envolvendo as figuras paterna e materna. Obviamente, só falta a Ghiraldelli lembrar que, ao contrário do que pode parecer ao retoricista incauto, a psicanálise, assim como qualquer teoria científica, psicológica, sociológica, literária, filosófica e o escambau a quatro, não prescinde de comprovação, ou seja, que é necessário, para que um argumento de fundo psicanalítico valha, que ou o argumentador a prove verdadeira, ou a plateia a aceite, previamente, como verdadeira, o que, considerando o número de opositores a Dr. Freud, não parece ser o caso.

“Porra, Ghira, não força, cara” – Dr. Freud sobre os psicanalismos histriônicos ghiraldellianos

Dito isto, encerro, por aqui, a parte dos truques extra-artigo usados por Ghiraldelli. É tempo, então, de passar à análise do artigo em si.

Enlouquecendo Ghiraldelli: Contra as estatísticas, não há argumentos… Será? E onde estão as estatísticas?

Na introdução de seu artigo, Ghiraldelli, de cara, já dá seu primeiro salto metafísico:

Algumas pessoas acreditam que de posse de uma arma de fogo elas estarão seguras diante da violência urbana. O problema que elas não percebem é que possuindo uma arma de fogo elas estarão logo integradas às estatísticas de aumento da violência urbana.

Ou seja, para Ghiraldelli, o simples fato de portar uma arma de fogo levará, necessariamente, uma pessoa para as estatísticas de aumento da violência urbana. Pena, porém, que não existe como saber se uma pessoa não só quererá usá-la – para quais fins, francamente, não sei, pois o “filósofo” nada explica sobre como pessoas sem motivos fortes para usar uma arma necessariamente irão usá-la – como se realmente precisará da arma em alguma situação. Afinal, não se pode prever, com exatidão total, se quem será assaltado necessariamente portará uma arma de fogo, visto que não é possível prever quem será vítima de assalto.

Ghiraldelli, porém, cita um dado interessante já nesse primeiro parágrafo: as estatísticas. É nelas que ele, então, confia no parágrafo seguinte, quando afirma que:

As melhores estatísticas brasileiras mostram correlações que, em resumo, nos dão quatro informações: a posse da arma de fogo não aumenta a segurança do cidadão; a arma de fogo do cidadão tem um caminho fácil, que é a mão de bandido; a arma de fogo nas mãos do cidadão, tendo ele dito que sabe atirar ou não, aumenta a probabilidade dele ferir pessoas inocentes; a posse da arma de fogo envolve quem a utiliza em situações jurídicas (e outras) tão terríveis que, não raro, muitos dos que fazem uso dela acabam por se arrepender.

Primeiro, cabe perguntar: O que seriam “as melhores estatísticas”? Seriam aquelas que corroboram com o que afirma Ghiraldelli, ou aquelas levantadas por institutos com real credibilidade no assunto?

É com pesar que digo, porém, que não é Ghiraldelli que pode responder a essas perguntas, porque, infelizmente, em seu texto, ele não mostra nenhuma dessas estatísticas. Um leitor seu, então, lhe pede alguma estatística que possa usar para argumentar contra os armamentistas, mas Ghiraldelli apenas responde que “não faz artigos acadêmicos em blog”². Mas, ora, será que o ilustre “filósofo” não descobriu, até hoje, que é possível inserir links em um post das mais diversas maneiras? Caso leia este meu texto, por exemplo, poderá ver que, ao passar o mouse sobre algumas palavras ou frases (uma delas, inclusive, neste mesmo parágrafo), estas estarão destoando do restante do texto e poderão ser clicadas sobre para levá-lo a outras páginas web afora. Não é preciso, então, escrever qualquer artigo acadêmico para mostrar, ao seu leitor, estatísticas ou links externos. Ou será que, para nosso ilustre “filósofo” paulistano, essa tarefa demandaria excessivo esforço sináptico?

Enfim, deixemos que ele responda depois, pois, agora, Paulo Ghiraldelli continua, em seu texto, subestimando a capacidade de seus adversários e afirmando que:

Essas estatísticas são fáceis de entender, mas há gente que não pode entender estatística. Trata-se de uma matéria do campo matemático, uma área na qual o brasileiro médio sofre. Essa dificuldade com a matemática acoplada a um pensamento conservador, às vezes de forte tendência mágica, alimenta não só tradicionais direitistas, mas também muitos da esquerda.

Fora a citação bizarra do “pensamento mágico” – que, aliás, parece ser algo mais inerente à revolução do que à conservação, pois é aquela e não esta que acredita em mudança súbita da sociedade por meio da força – sem maiores esclarecimentos e a pressuposição de que todo armamentista é “um brasileiro médio” e que, portanto, “não entende  de matemática”, Ghiraldelli, então, chega ao ponto-chave: não basta ter as estatísticas, é preciso compreender as estatísticas. O problema é que, como já dito, NÃO TEMOS, por parte de Ghiraldelli, qualquer estatística para analisar – pergunto-me se seria por medo de que a análise “filosófica” não tenha sido tão bem construída assim, mas deixemos isto para outra ocasião.

Tomo, então, a liberdade de apresentar, eu mesmo, algumas estatísticas – que, aliás, a princípio, parecem corroborar as assertivas ghiraldellianas sobre armas – extraídas de um verdadeiro dossiê da revista VEJA sobre a questão³. , podemos ver que, de fato, a maioria das armas de fogo dos cidadãos caíram na mão de bandidos… no Rio de Janeiro entre 1999 e 2005. E também podemos ver, já no início da reportagem, que, ao contrário do que pressupõe Ghiraldelli ao se fiar nas estatísticas como argumento, “As estatísticas sobre porte e uso de arma de fogo no país são consideradas incompletas e pouco confiáveis por especialistas das áreas de criminalidade e segurança pública.”, havendo apenas pesquisas isoladas falando sobre o assunto e não havendo, sequer, um levantamento confiável de quantas armas existem circulando pelo país.

Isso significa que, até que o “filósofo” prove ao contrário, o que as estatísticas provam, por melhor que sejam interpretadas, é, a priori, nada. O detalhe é que, a posteriori, podemos esboçar algum tipo de interpretação para certos dados apresentados. Podemos perceber, por exemplo, que havendo armas em apenas 3,5% dos domicílios no Brasil, não há, nem de longe, como dizer que é a arma que o cidadão porta que impulsiona a criminalidade no Brasil (e dizer isto, aliás, seria de uma leviandade enorme, pois o tráfico, que financia boa parte das armas de criminosos, não teria sido posto em questão).

Do mesmo modo, não se deve interpretar a grande perda de armas dos cidadãos para bandidos tão literalmente quanto Ghiraldelli fez, posto que é preciso considerar que, ao contrário dos bandidos, o cidadão comum NÃO TEM como desenvolver propriamente as habilidades com as armas nem como manter essas habilidades polidas, já que, fora o Tiro de Guerra, que se frequenta por, no máximo, dois anos, e alguns clubes de tiro que não existem em todos os lugares do Brasil – em minha cidade, por exemplo, talvez apenas os membros de famílias mais ricas saibam da existência de algum-, não existem lugares em que se possa aprimorar as habilidades com armas. Ou seja, não é preciso realmente das estatísticas… para perceber que o cidadão comum (para não falar em “cidadão de bem”, já que a turma progressista é alérgica a essa expressão mesmo quando usada englobando também o proletariado) está, no quesito treinamento, em óbvia desvantagem.

Para outros tópicos, porém, a estatística, de fato, não é necessária, como, por exemplo, no caso de sabermos que a arma de fogo, de fato, NÃO aumenta a segurança do cidadão, isto porque, estando nós em uma sociedade sob domínio de um Estado, a segurança não é algo que depende apenas da vontade e dos recursos de um indivíduo, mas sim da própria competência do Estado em usar o monopólio da violência (sobre o qual voltarei a falar mais no final do texto) para assegurar que seus cidadãos possam encostar a cabeça no travesseiro com o menor medo possível de serem assaltados e/ou mortos durante o sono.

Do mesmo modo, não é preciso de muito esforço sináptico nem de estatísticas para saber que, ao facilitarmos ao cidadão o acesso às armas, estaremos incorrendo no risco de ele ferir inocentes, pois esta é uma consequência mais do que óbvia do que acontece quando é permitido ao cidadão acessar com mais facilidade qualquer objeto que possa levar um ser humano ao óbito, mesmo que esta não seja sua função primordial. Explicando melhor e parafraseando Bene Barbosa, porta-voz do movimento armamentista Movimento Viva Brasil, se formos proibir os cidadãos de ter algo simplesmente porque este algo pode, em algum momento, levar o cidadão a ceifar vidas inocentes, teríamos de proibir, então, até mesmo os automóveis (e teríamos argumentos até melhores, visto que a imaturidade do brasileiro com automóveis é bem mais visível do que com armas, dado o número de mortes por imprudência no trânsito).

Bene Barbosa surpreso com a “filosofia” de Ghira

Também não é preciso de qualquer estatística para perceber que, fazendo ou não uso adequado das armas de fogo, o cidadão se verá envolvido em um imbróglio jurídico de proporções escatológicas, só que isto se dá não porque o problema esteja nas armas, mas sim porque a justiça brasileira, além de extremamente morosa, aparenta, nos últimos tempos, estar ficando cada vez mais bizarra, especialmente quando se vê que, em alguns casos, o literalismo jurídico manda, enquanto, em outros, o que vige é uma interpretação extremamente divergente do que a lei aparenta dizer sobre certo caso.

Vê-se, então, que, para alguém que se crê um grande intérprete não só das estatísticas como também da realidade em que elas se inserem, o “filósofo” está mais é para filodoxo do que para um filósofo propriamente dito. Mais adiante em seu texto, porém, levanta um ponto pertinente ao escrever que:

As coisas começam realmente a ficar preocupantes, especialmente para o filósofo, quando a questão da posse de arma em sociedades como a nossa se apresenta antes de tudo pelo desejo de realmente combater o crime.

Pena, porém, que a relevância não dura muito (isso sem contar o fato de a única prova de ser filósofo que Ghiraldelli deu até hoje é o título de doutor em Filosofia e algumas interpretações de Rorty e Paulo Freire), pois Ghiraldelli, então, se apoia, novamente, nas estatísticas “bem feitas”:

 Quando as pesquisas são bem feitas, elas assustadoramente exibem que a segurança não é tão prioridade quanto aparece à primeira vista. O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime […]

 Mas, como de costume, não apresenta qualquer uma dessas “pesquisas bem feitas” para que o seu leitor possa tirar suas próprias conclusões, o que, aliás, reforça minha tese inicial de que o que Ghiraldelli realmente quer é que concordem com as conclusões dele, apesar de se esforçar homericamente em provar o contrário.

Voltando ao texto, depois dessa ladainha sobre pesquisas, o “filósofo” paulistano tenta voltar à retórica por si própria e afirma, categoricamente, que:

O brasileiro realmente acredita que ele pode ser um agente de combate ao crime, que ele mata o bandido e pronto, está tudo resolvido, ou seja, que não haverá vingança de outros bandidos e que ele não sofrerá nada na própria justiça. 

Primeiro, sem mostrar qualquer pesquisa, como ele disse, “bem feita”, não é justo pedir ao leitor que acredite no que se fala, então, sobre o brasileiro. Segundo, mesmo que Ghiraldelli esteja certo sobre o brasileiro não saber das consequências na justiça, isto se dá porque, simplesmente, o brasileiro não procura, desde cedo, o conhecimento sobre seus direitos e deveres, isto porque NÃO PRECISA deles a não ser em raríssimas ocasiões em que, se for mais afortunado, poderá ter um advogado para tratar de seu caso e, se for pobre, já entrará para o julgamento sem ilusões, mesmo tendo garantidos pela Constituição os seus direitos*. Por fim, o cidadão não pensa que haverá vingança de outros bandidos:

1- Porque o bandido, mesmo que armado, pode não ter outros aliados

2- Porque não há como prever qual bandido é membro de quadrilha ou não.

E, lógico, um cidadão que não tem treinamento constante com armas certamente será presa fácil da possível quadrilha, podendo, então, como diz Ghiraldelli posteriormente, ser colocado, junto com sua família (que, curiosamente, está toda, necessariamente, desarmada, mesmo que haja pelo menos mais um adulto na família), em um inferno. Só que, caso se facilite o acesso às armas por parte do cidadão (visto que elas já são legalizadas, apesar da terrível burocracia necessária para adquirir e manter uma em posse), deve-se, também, facilitar o treinamento deste cidadão e instruí-lo, melhor e mais extensivamente do que fez Ghiraldelli, sobre os riscos e as responsabilidades de andar armado. Porém, aí caímos em outra questão, que é a do monopólio da violência por parte do Estado. Hora, então, de cumprir minha promessa e terminar este texto.

Ghiraldelli, o energúmeno?

Voltando brevemente aos onze tópicos sobre o energúmeno, que Ghiraldelli insiste em definir como todo aquele que não sabe que suas demandas e suas ideias podem se voltar contra ele próprio**, ao responder a um leitor que, pertinentemente, colocou em questão a auto-defesa, Ghiraldelli cita, sem pensar duas vezes, a discussão weberiana sobre o “monopólio da violência” pelo Estado, monopólio este derivado, justamente, do contrato social como descrito por Hobbes e Rousseau. Ou seja, isto significa, na prática, que, pressupondo a concordância de todos sobre a necessidade de regras comuns a todos e de um Estado que garanta a aplicação dessas regras (o que, aliás, pode ser quebrado ao se ver o crescimento até notável no número de libertários, alguns até exageradamente anti-Estado), este mesmo Estado também deveria, necessariamente, ser o único grande portador de todos os meios possíveis para coibir, entre outras coisas, a violência e a criminalidade dentro do seu território.

Ocorre, porém, que, apesar de nobre em princípio, esta ideia pode levar a uma grande falha, à qual o “filósofo da cidade de São Paulo”, pelo visto, não se atentou. Obviamente, por mais que se tente, é impossível que o Estado, sozinho, seja o único que tenha poder para matar ou prender todo aquele que interfira com suas políticas, e isto se dá tanto porque existe o comércio ilegal de armas, instrumentos usados para a violência, quanto porque há os criminosos, que fazem da violência suas principais armas.

Entretanto, existem alguns casos em que o que se forma ou o que se pretende obter não é um Estado Democrático de Direito, uma Monarquia Constitucional, uma República Federativa ou algum desses governos em que se privilegie a liberdade e o poder de escolha dos cidadãos sobre as suas vidas e sobre quem deve administrar os bens comuns por determinado período de tempo, mas sim um Leviatã, uma Monarquia Absoluta, uma República Nazista, um tipo de Estado em que a preocupação é, justamente, controlar o máximo possível a vida dos cidadãos (autoritarismo), quando não todos os aspectos da vida dos cidadãos, incluindo o que estes podem ou não pensar (totalitarismo).

Acontece que, quando um Estado desses se forma, considerando que não se formará sem oposição e sem o mínimo de atritos, é muito perigoso para seus líderes que os cidadãos comuns ou mesmo seus opositores tenham como se defender das arbitrariedades que virão a perpetrar quando dentro do governo. É para evitar esses riscos, então, que esses estatistas procuram o monopólio absoluto de todo e qualquer tipo de instrumento que possa servir para, justamente, deflagrar a violência não apenas contra civis, mas contra o próprio Estado.

Percebe-se, então, que também o “filósofo” deveria repensar um pouco mais toda sua certeza sobre o quão bom é o desarmamento civil e, por corolário, o monopólio da violência por parte do Estado. Afinal, se, como ele disse, um tiro de um cidadão comum “é no mínimo três tiros. Um sai pelo cano, dois pela culatra. Os do cano tiram uma vida de uma vez, os outros dois funcionam como uma longa e tenebrosa tortura capaz de destruir não só o atirador, mas sua família e tudo o mais ao seu redor.”, posso dizer, então, que nenhum tiro também pode ser três tiros ou mais. Resta saber quantos desses tiros serão usados pelo crime e quantos serão usados pelo Estado.

Sobre o Autor: Octavius é graduando em Letras e percorre, ainda timidamente, os caminhos da Filosofia. Se, para ser filósofo, precisar se formar e analisar o mundo como o fazem Ghiraldelli e outros acadêmicos, morrerá feliz se for para sempre chamado de polemista medíocre.

¹ Escrevo o nome do “filósofo” com “u” porque ele, por sua vez, já chegou ao cúmulo de escrever o sobrenome de José Guilherme Merquior com “ch” e com “lch”, transformando o diplomata e ensaísta brasileiro (ou seja, alguém que deveria ser conhecido para um doutor em Filosofia a ponto de saber grafar seu nome sem maiores problemas), assim, em “José Guilherme MerCHior” e em “José Guilherme MeLCHior”, o que deveria fazer, então, até mesmo o leitor mais fanático do “filósofo da cidade de São Paulo” colocar em dúvida as capacidades cognitivas deste. 

² Muito curiosamente, um blog também não precisaria estar condicionado do mesmo modo que um jornal impresso, plataforma na qual, por questões óbvias (leia-se: o impresso), não se pode colocar links tão acessíveis quanto na rede, mas Ghiraldelli, pelo visto, parece pensar que deve escrever como se fosse para um jornal ou revista. Ainda mais curiosamente e, desta vez, ironicamente, é justamente um dos piores escribas da imprensa brasileira, o também “filósofo” Emir Sader, que dá um bom exemplo de como, sim, se pode colocar alguma referência externa em um artigo, quando, ao fim de alguns de seus artigos na Caros Amigos, coloca, bem ou mal, livros que o leitor possa consultar sobre as questões por ele abordadas. Será que nem Emir, então, o “filósofo da cidade de São Paulo” consegue imitar?

³ A você que demerita um artigo pela fonte, só posso mandar ir para a Conchinchina, para não falar algo pior.

* Curiosamente, a escola, tão louvada por Ghiraldelli em seus artigos mais recentes, quase nunca procura inserir o estudante na discussão sobre como procurar os próprios direitos, ou mesmo traz palestrantes que saibam do assunto para discuti-lo com os alunos, mesmo que tenha poder aquisitivo para isso. Ué, mas o problema da escola não era apenas dinheiro, senhor Paulo Ghiraldelli Jr.?


** Ainda sobre este tópico, aliás, é curioso que, em resposta a outro leitor, Ghiraldelli fala que “a civilização vai pelo caminho do desarmamento”, enquanto se esquece de que, como denunciado constantemente pelo jornalista britânico Pat Condell e por outros, a mesma civilização (Leia-se: Europa) também caminha para a islamização, o que, creio que Ghiraldelli saiba, não necessariamente trará apenas bons resultados, especialmente para as minorias que Ghiraldelli defende (porcamente, por sinal). E então, Dr. Paulo Ghiraldelli Jr., qual era aquela conversa sobre civilização e energúmenos mesmo?

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