Guia Politicamente Incorreto da Filosofia (Luiz Felipe Pondé) – Um Resumo

Olá, amigos leitores, como vão vocês? Vamos começar outro daqueles nossos papos?

Hoje, vou falar brevemente com vocês sobre o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ensaio de Ironia, do filósofo e professor da FAAP e da PUC-SP Luiz Felipe Pondé.

Como já adiantei no último post, eu achei esse livro de uma clareza e de uma maestria tão grandes que resolvi não só fazer esse resumo com os pontos principais como também usar esse e outros escritos do Pondé nos meus futuros posts, incluindo aquele que será o segundo post da minha série sobre religião, sobre Agnosticismo.

Neste post, porém, vou, basicamente, contar, com mais detalhes do que fiz no último post (Espírito Natalino), sobre o que se trata o livro. Como eu já disse lá, esse livro, ao contrário do que o nome pode acabar sugerindo, não é um livro sobre história da filosofia, ou sobre sociologia da filosofia (se isso existe, rs), ou enfim. Como o próprio Pondé diz, o objetivo desse livro (genial) é o de fazer uma crítica voraz aos valores que estão sendo incluídos na nossa sociedade pelo Politicamente Correto, que o Pondé chama “carinhosamente” de Praga PC (ou Praga Politicamente Correta).

Como o livro tem, basicamente, 25 crônicas do filósofo (contando com o Apêndice), contarei apenas as histórias das que mais me chamaram a atenção e listarei as outras ao final deste texto. Ainda assim, insisto, como quase sempre faço nos meus posts, que o leitor não só pode como tem uma visão diferente da minha, o que significa que ele talvez ache outros pontos interessantes do livro que eu não percebi. Portanto, se lerem o livro e gostarem de outra coisa, não hesitem em conversar comigo pelo blog ou por outro meio, pois é possível que eu faça um post com as impressões dos leitores sobre o livro. Também há algumas crônicas sobre as quais falarei apenas no segundo “Dialeticando com Luiz Felipe Pondé”, por uma questão de propósito, mas isso vocês entenderão logo que verem o estilo que terá esse post.

Enfim, hora de começar. Antes disso, porém, quero fazer uma ressalva IMPORTANTÍSSIMA. Se você é o tipo de cara que tem a mente tão infectada pelas ideias de “esquerda” (frise-se as aspas) a ponto de achar que simplesmente discordar do modus operandi do movimento LGBT é ser homofóbico, por exemplo, por favor, não perca seu tempo lendo esse livro nem perca o meu tempo comentando comigo que o Pondé é racista, antissemita, anti-islâmico, homofóbico, ateofóbico ou todo esse mimimi, porque ele não é. Inclusive, ele reafirma seu completo asco a piadinhas de cunho racista ao longo do livro, sempre dizendo que elas são a maior prova de “falta de educação doméstica”.

O primeiro escrito sobre o qual quero falar é o segundo na ordem do livro e se chama Aristocracia – Os poucos melhores carregam o mundo nas costas (lembrando que cada um desses títulos que vou listar são os dos capítulos, não dos textos especificamente). Aqui, o filósofo nos presenteia com a concepção original do termo “aristocracia”, que seria o governo não dos mais ricos, mas sim dos melhores, dos mais virtuosos, e que, na verdade, a culpa de esse tipo de governo não dar certo foi exatamente a persistência dos mais ricos em corromper esse ciclo da virtuosidade.

Apesar de eu achar essa ideia um pouco utópica, ela é importante para entender o fatality que o Pondé dá nos “democratas” no terceiro escrito, chamado A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas. Nesse texto, Pondé, ao mesmo tempo em que admite ser a democracia a forma “menos pior” de se governar, pois é a que traz um certo equilíbrio que deixa a busca pela virtude mais acirrada, critica duramente não só o “espírito democrático” e esquerdista criado por marxistas e roussenianos para colocar o povo como santo e digno de toda a glória, mas também a ideia de que todos são absolutamente iguais e que, portanto, têm as mesmas capacidades de opinar sobre as coisas com autonomia, o que, ao falar que a democracia, ao invés de criar conhecimento, criou a opinião pública, Pondé mostra ser uma mentira deslavada.

Porém, é uma outra coisa que Pondé fala que faz esse capítulo digno de nota. A citação que vou colocar a seguir é, sem dúvida, a que marca o espírito não só desse capítulo como do livro todo. Segundo Pondé:

“Uma coisa que salta aos olhos é a tentativa de chamar qualquer um que critique a democracia de   antidemocrático. A sensibilidade democrática é ‘dolorida’, qualquer coisa ela grita. Mas não me engano com ela: esse ‘grito’ nada mais é do que a tentativa de impedir críticas que reduzam a vocação também tirânica que a democracia tem como regime ‘do povo’. O ‘povo’ é sempre opressor, Rousseau e Marx são dois mentirosos. […] Quando aparece politicamente, é para quebrar coisas. O povo adere fácil e descaradamente (como aderiu nos séculos 19 e 20) a toda forma de totalitarismo. Se der comida, casa e hospital, o povo faz qualquer coisa que você pedir. Confiar no povo como regulador da democracia é confiar nos bons modos de um leão à mesa. Só mentirosos e ignorantes têm orgasmos políticos com o ‘povo’.”

Vê-se, por aí, que os próximos capítulos do livro não serão nada “lights” nas críticas. Mas, é no oitavo capítulo, chamado Os funcionários da educação, do intelecto e da arte, que Pondé destila o máximo de sua crítica aos politicamente corretos. Além de chamar boa parte de seus pares (professores universitários) de pessoas com inteligência mediana (o que eu, como mero estudante, jamais consideraria fazer, a não ser em um caso MUITO extremo), Pondé diz que é por causa da covardia dos medíocres da democracia que o Politicamente Correto sobrevive, pois, por ser uma forma de totalitarismo, dependeria da covardia e da mediocridade, que se referem mais à censura à liberdade de pensamento do que à apatia política propriamente. O filósofo também escracha com quem fala com “propriedade” sobre a “ética”, que ele considera um dos assuntos in voga tanto no meio acadêmico quanto nos “jantares inteligentes” (sobre os quais falarei no próximo post Dialeticando que fizer).

Já no 11º capítulo, chamado Religiões, fundamentalismos e budismo light, o professor da PUC simplesmente “owna” o discurso politicamente correto contra as “religiões opressoras” (Judaísmo e Cristianismo) e anti-“anti-Islamismo”, mostrando que, na verdade, o Islamismo não é metade da beleza que os revolucionários da nova esquerda acham que é. Pondé também detona com os novos budistas de 1 semana, mostrando que o que eles querem, na verdade, não é uma religião, mas sim livrar-se da culpa cristã sem terem que se dizer ateus ou agnósticos, o que seria um “materialismo” extremamente grosseiro.

Alguns outros capítulos de destaque são o 12º (Natureza humana e felicidade), em que Pondé admite o pecado como a melhor forma de examinar o ser humano e critica os que são contrários a se fazer qualquer afirmação sobre a natureza humana, o 13º (A nova hipocrisia social), em que o filósofo critica duramente a infantilização do ser humano promovida pelo politicamente correto com seu discurso ético-moralista, o 16º (Injustiça social, mediocridade e banalidade), no qual Pondé renova suas críticas à ideia democrática de “todos são igualmente capazes de ser inteligentes”, e o 24º escrito (O comércio de ideias), em que o filósofo mostra o quão mau-caráter é o politicamente correto não pelos motivos que eles argumentam, mas sim por proibirem algo que o filósofo considera muito caro para si mesmo e para a humanidade, que é o comércio de ideias, o apresentar ideias que discordem do PC, pois não são “boas ideias”.

Para finalizar, reitero que não é o leitor intransigente que deve ler o livro de Pondé, pois dele nada entenderá a não ser um racismo e uma homofobia que, nos escritos do filósofo, INEXISTEM. Esse é livro para os leitores que pensam, assim como o genial escritor, professor e filósofo, que “ideias não são sempre coisas ‘boas’. Às vezes doem”.

Vou deixar aqui algumas citações interessantes do livro (e o index de capítulos) para aguçar-lhes mais ainda a curiosidade, e encerro por aqui este post. Ficam os meus agradecimentos e o meu forte abraço ao leitor que aguentar ler tudo isso e também ao que procurar tirar suas próprias conclusões sobre o livro, exercendo uma atividade da qual muitas vezes somos privados, seja pela “praga PC” ou por qualquer outra coisa, que é PENSAR.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e estudante autônomo de Filosofia.  Não gostava de Luiz Felipe Pondé por achá-lo excessivamente conservador. Ainda bem que essa fase passou.

Capítulos:

Introdução

O politicamente correto e o general Patton

Aristocracia – os poucos melhores carregam o mundo nas costas

A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas

O outro

Romantismo e a natureza

Sexualidade, mulheres e homens

A beleza e a inveja

Os funcionários da educação, do intelecto e da arte

Viajar jamais

A tragédia do keeper (o “bom partido”)

Religiões, fundamentalismos e budismo light

Natureza humana e felicidade

A nova hipocrisia social

Teologia de esquerda ou da libertação

A culpa

Injustiça social, mediocridade e banalidade

Hipocrisia em tempos de guera

Ditadura 

Leitor

Bovarismo

Canalhas cheios de amor

Baianidade

Os “sem iPads” do Reino Unido

O comércio de ideias

Apêndice 

Citações:

“Com a Revolução Francesa e a democracia (que a primeira não criou exatamente porque foi muito mais um regime de terror autoritário), os idiotas perceberam que são em maior número, e de lá para cá todo mundo passou a ter de agradá-los, a fim de ter a possibilidade de existir (principalmente intelectualmente). O nome disso é marketing. Todo mundo que pensa um pouco vive com medo da força democrática (numérica) dos idiotas. O politicamente correto é uma das faces iradas desses idiotas” (A democracia, sua sensibilidade e seus idiotas)

“Nada é mais temido por um covarde do que a liberdade de pensamento. Toda forma de totalitarismo (o politicamente correto é uma forma de totalitarismo, e essa forma está presente na palavra ‘correto’) sobrevive graças às hordas de inseguros, medíocres e covardes que povoam a educação e o mundo da cultura e da arte” (Os funcionários da educação, do intelecto e da arte)

“A mídia muitas vezes parece uma reunião de centro acadêmico de ciências sociais na forma de simplificar o mundo ao nível de uma menina de 12 anos” (Os funcionários da educação, do intelecto e da arte)

“Até golfinhos conseguem ser ateus, porque o ateísmo é a visão de mundo mais fácil de ter: a vida é fruto do acaso e não tem sentido além dos pequenos sentidos que ‘inventamos’.” (Religiões, fundamentalismos e budismo light)

“Se você quiser acertar numa análise que envolva seres humanos, continue a usar o pecado como ferramente para compreender o comportamento humano: orgulho, ganância, inveja e sexo continuam a mover o mundo (a luta de classes nada mais é do que um caso de ganância e inveja). O culto da ciência como conhecimento seguro do futuro humano sob controle das experiências ‘em laboratório’ degenerou no culto do ser humano como tendo controle do que ele é e do que pode vir a ser. O próprio nascimento do Estado moderno e sua burocracia de controle do cotidiano também marcaram esse processo, na medida em que a experiência da organização da vida carrega em si um sentimento de potência positiva” (Natureza humana e felicidade)

“Dizer coisas coisas como todo índio é legal, pobre é sempre gente boa, gay é sempre honesto, ‘eu não gosto de dinheiro’, quando na realidade todo mundo tem sua dose de miséria, além de vaidade barata, simplifica (como sempre, o pior efeito da praga PC é a burrice que ela cultiva) a natureza humana, nos impedindo de pensar em nós mesmo de modo adulto. […] Fingindo ser contra o mundo do mercado e do dinheiro, o politicamente correto é um dos seus produtos mais vagabundos em termos de qualidade. Entre a felicidade e a autoestima, prefiro o pecado” (Natureza humana e felicidade)

“Todo mundo sabe que a substância última da moral pública é a hipocrisia, por isso quem nega esse fato é em si o primeiro hipócrita” (A nova hipocrisia social)

“Não existe a possibilidade de associarmos ética ou moral aos princípios de marketing, como se faz hoje em dia. E o politicamente correto é uma forma de marketing político e ético”. (A nova hipocrisia social)

“Ninguém precisa de Nietzsche para matar Deus, basta chamar um teólogo da libertação.” (Teologia de esquerda ou da libertação)

“A canalhice sempre pagou bem nesse mundo, e o politicamente correto é uma das novas formas de canalhice que assolam o mundo da cultura, da academia e da mídia”. (Canalhas cheios de amor)

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 27/12/2012. O leitor entenderá com a republicação de outros posts.

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3 comentários

  1. Pondé escreveu que a primeira metade do termo “aristocracia” vem do grego “arete”, que significa o mesmo que “virtude”. Porém, na verdade, vem do grego “aristos”, que significa o mesmo que “melhor”.

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