Esquizofrenia no País dos Petralhas – As novas do esquerdismo nacional

Confesso que não gosto de falar em “inversão de valores”, “fim dos tempos”, “fim da família” e todos esses blá-blá-blás de conservas medrosos que não manjam porra nenhuma de militância política, mas, sinceramente, leitores e amigos meus, vocês não acham meio estranho que, na mesma quinzena em que Tuma Jr. faz denúncias, em rede nacional, de abalar qualquer República (não, uma fábrica de dossiês dentro de um governo NÃO É aceitável), e em que explode uma guerra civil na Venezuela contra a ditadura maduro-chavista-comunista (e aliada do governo brasileiro, ainda por cima) que lá impera, o assunto mais discutido seja uma declaração de uma jornalista de uma rede de televisão aberta que ostenta, apenas, a terceira maior audiência do país?

Esta, entre outras, é uma das novas do esquerdismo nacional, que foi, em menos de 30 anos, de Drummond a Marcelo Rubens Paiva, de Antônio Cândido a Marcos Bagno, de Ferreira Gullar a Marilena Chauí, Emir Sader, Cynara Menezes, Leonardo Sakamoto, Fernando Gallo, entre outros, ou seja, que foi de intelectuais e literatos de renome e de respeito ao tipo mais escroque possível de seguidor de qualquer ideologia: O militante cultural que se faz de moderado e, principalmente, de “democrata tolerante” para, na verdade, mostrar que a única tolerância que realmente tem é com aqueles que concordem com seus ideais irrestritamente.

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Intelectual da esquerda midiática, Fernando Gallo, fazendo “cara de coerência”

Ocorre, porém, que não é apenas na mídia e na literatura que temos dados interessantíssimos a serem analisados. Tomemos, por exemplo, as universidades brasileiras (e, logicamente, seus universitários), hoje comprovadamente dominadas por uma grande maioria, como diria o jornalista campinense Olavo de Carvalho, de “comunistas ou companheiros de viagem”, id est, de comunistas e de pessoas com tendências fortes ao esquerdismo.

O mais interessante caso para análise, nesse sentido, é o do conceito de família, um dos conceitos-base sobre os quais se assenta o que se convencionou chamar de “civilização ocidental”. Um dos argumentos mais utilizados pela esquerda universitária para defender que se mude o conceito de família é o de que as palavras, naturalmente, têm a tendência a terem seus significados alterados com o passar do tempo, como se pode ver, por exemplo, com o caso de termos como “ideologia” (apesar de eu mesmo ter minhas ressalvas quanto às mudanças de significado desse termo) e com palavras como “saber”, entre outras.

Este, naturalmente, seria um argumento, se colocado de maneira isolada, muito respeitável e coerente. Muito curiosamente, a mesmíssima esquerda universitária, porém, chia contra qualquer um que use a expressão “cidadão de bem” para designar os que deveriam ser protegidos do Lumpenproletariat afirmando que, na Alemanha nazista (ou seja, há quase 70 anos) e em um obscuríssimo jornal da KKK nos EUA (isso quando a KKK ainda tinha alguma força, o que, suponho, seja há mais de 30 anos), a expressão “cidadão de bem” era usada apenas para brancos e que, portanto, qualquer um que a utilize hoje, depois de passado todo esse tempo e de terem acontecido diversas mudanças no panorama mundial, com certeza tem os mesmos objetivos do NSDAP e da KKK. A mudança semântica, então, só é válida para algumas expressões? Ou será que, apesar de quase todos acabarem usando essa expressão para designar também os proletários, a esquerda não consegue  reconhecer a primazia da língua viva sobre uma tradição que, neste caso, sequer se pode provar que nos tenha influenciado e com isso manter um mínimo de coerência e de lógica dentro de seu próprio pensamento?

Por fim, é também interessante notar que tanto a esquerda midiática quanto a universitária – apesar de esta fingir, com todas as suas forças, odiar aquela, chamando-a de, como se diz?, “ultraconservadora” – fazem um esforço mental impressionante para colocar as difusas e obscuras manifestações brasileiras como mais legítimas do que as venezuelanas ao rotular estas como golpismo puro e simples, e não como o grito legítimo de um povo que, dizem “as más línguas e a boca pequena” (citando Gabriel, o Pensador, um dos poucos ícones ainda tragáveis da esquerda brasileira), sequer tinha, para si, comida e papel higiênico. Muito mais estranhamente, porém, do que nos outros casos, os mesmos que acusam os civis venezuelanos de “golpistas” louvam, por meio do uso do vocábulo “revolução” (e de seu derivado “revolucionário”), elites intelectuais extremamente minoritárias de Rússia, China, Vietnã e Coreia do Norte et cetera que deram, às viagens de Marx, terrenos férteis e pilhas de cadáveres.

É, meus amigos, eis a vida, a intelectualidade, a coerência e a “tolerância ao pensamento divergente” no País dos Petralhas.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e amante diletante da Filosofia e da Política. Chamaria a mídia brasileira de ultraconservadora, mas já consegue comer com garfo e faca há alguns anos. Apesar de odiar a direita tanto quanto a esquerda, concorda com aquela quando diz que “socialismo” e “liberdade” são intrinsecamente opostos entre si.

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