A Gaiola dos Loucos (Ou: A volta do preconceito do Pragmatismo Político) (Ou ainda: Rachel Sheherazade e o ceticismo seletivo progressista)

Quem acompanha este blogueiro há mais ou menos um ano deve se lembrar de um texto do mês de setembro do ano passado sobre o preconceito do Pragmatismo Político, site democrático até a página três e progressista até o mais amargo fim, contra o humorista Danilo Gentili. Naquela situação, relatei como um suposto preconceito contra nordestinos de Gentili seria, na verdade, inexistente e mero pretexto para que o site propusesse, para ele, a censura para que não mais falasse sobre o que realmente lhes incomodava, que era a situação de Cuba, ilha que, segundo o Pragmatismo e seus seguidores, não foi reduzida à mais absoluta miséria e sim elevada quase ao status de paraíso terrestre – isto porque, além de falar em paraíso ser “ateofobia”, o único país, para os falsos pragmatistas, que talvez pudesse chegar a esse status é, obviamente, a K.Oreia da Morte, ops, digo, a Coreia do Norte.

Na ocasião, imaginei, sinceramente, que aquele seria o limite de desonestidade a que poderia chegar o progressismo brasileiro (isto porque, óbvio, ainda não havia lido os artigos de Leonardo Sakamoto com maior afinco). Para minha surpresa, porém, eis que, graças a um amigo leitor, me chega um comentário do mesmíssimo site sobre um suposto resultado da recente declaração sheherazadiana sobre o caso de um jovem infrator amarrado a um poste. Após tê-lo lido, resolvi que deveria destrinchá-lo e demonstrar, mais uma vez, que ou os progressistas brasileiros são bestas quadradas, ou são pura e simplesmente desonestos intelectuais.

Bialmente falando (aliás, como sempre), vamos, então, aos trabalhos.

Rachel Sheherazade, a Batman da cidade de São Paulo… Ou será que não?

Já antes do começo de sua reportagem – escrita, aliás, pelo jornalista neo-ateísta Paulo Lopes, que, pelo visto, tem péssima noção do paragrafar na língua portuguesa -, abaixo do título, os pragmáticos de botequim colocam algo interessante ao dizerem que o discurso sheherazadiano surtiu efeito e que os linchamentos com as próprias mãos se proliferaram. Não é difícil, para qualquer um que conheça previamente as posições do site sobre a própria jornalista (e sobre qualquer um que tenha a empáfia de discordar das posições dos “pragmáticos”), perceber que, obviamente, houve, ali, uma atribuição direta de responsabilidade a Rachel Sheherazade pelo suposto aumento de linchamentos públicos, ou seja, que houve, até que se prove o contrário, imputação de crime à jornalista do SBT.

Ocorre, porém, que eu, ao contrário de boa parte da chamada “nova direita” (da qual, orgulhosamente, não faço parte), não curto muito brincar de processar pessoas, apesar de isto estar dentro dos trâmites democráticos. Prefiro, como sabem, brincar com e ironizar o meu interlocutor, ainda mais quando se mostra inepto.

Digo isto porque, já na imagem que usam de Rachel, há uma legenda interessantíssima em que é dito que “Jornalista Rachel Sheherazade defendeu em horário nobre a justiça feita pelas próprias mãos”. Para delírio dos nossos sofistas do progressismo, entretanto, sua interpretação da fala de Sheherazade não é única, muito menos a mais provável. Como já dito por estas bandas, essa interpretação seria até crível e digna de respeito, não fosse o fato de que a jornalista do SBT disse claramente que a legítima defesa se dá apenas porque (ou, matematicamente falando, se e somente se) estamos em uma sociedade SEM Estado e com estado de violência endêmico. Não é preciso ser gênio para saber, contudo, que nossa sociedade, ao contrário da fala de Sheherazade, não  é sem Estado, mas sim com um Estado omisso, que foi do que Rachel reclamou. Afinal, se ela realmente quisesse defender pura e simplesmente justiça com as próprias mãos, por que teria citado, em tom de clara apreensão, a negligência e a ausência do Estado na questão da criminalidade? Seria Rachel, então, sádica de querer, ao mesmo tempo e mesmo que a segunda fosse desnecessária, a justiça estatal e a justiça com as próprias mãos?

Aliás, muito curiosamente, é justamente uma frase da reportagem que pode ser usada para defender Sheherazade e para mostrar, de fato, que o que disse não era uma defesa aos justiçamentos, mas uma reclamação contra a falta de eficiência estatal. Segundo o próprio Pragmatismo Político, “Em entrevistas, Sheherazade confirmou o que dissera em rede nacional, afirmando que, diante da falência das instituições oficiais de segurança, é legítima a reação das pessoas”. Estaria mesmo Sheherazade desejosa, então, da falência das instituições para que a muito menos eficiente (e muito mais suscetível a enganos) “justiça com as próprias mãos” tomasse conta?

Isto, no entanto, ainda nem é o mais interessante. Prossigamos com a defesa.

O mistério das estatísticas e a transparência do óbvio ululante

Agora no começo da reportagem, para corroborar seu ponto de vista sobre como Rachel Sheherazade é totalmente culpada pela proliferação dos linchamentos,  os William James cegos, surdos, mudos e mancos de uma perna afirmam, categoricamente, que:

Desde que justiceiros agrediram a paulada um jovem negro acusado de assalto, amarrando-o nu a um poste, no Rio, há 20 dias, aumentaram no país o número de chacinas de pessoas suspeitas de terem cometido crime. Antes, havia quatro linchamentos por semana e, agora, a média é de um por dia.

Muito estranhamente (e de modo quase igual a certo “filósofo” por aí), o site não apresenta qualquer fonte direta dessas estatísticas, sendo a única referência indireta e vinda de uma reportagem da Folha de São Paulo (ué, mas esse não era um jornal de “extrema-direita”?) em que foi entrevistado um sociólogo (ao qual voltarei  em breve) segundo o qual houve esse aumento em relação às estatísticas anteriores. Mais estranhamente ainda, esse mesmo sociólogo, de nome José de Souza Martins, também não cita, ao menos segundo a própria reportagem da Folha, a origem dessa estatística e da estatística anterior, o que significa que a informação usada tanto pela FSP quanto pelo Pragmatismo Político é: a) De fonte duvidosa ou b) Sem fonte alguma.

Ainda mais esquisito, entretanto, é o fato de o próprio site se esquecer de que, além de estatísticas precisarem ser, de fato, atualizadas com frequência razoável (aliás, de quando eram as estatísticas anteriores mesmo?), nem tudo o que está nelas é confiável, porque, muitas vezes, até mesmo a coleta de estatísticas pode ser perturbada ou adulterada por motivos de força maior. Será mesmo, então, que havia tão poucos linchamentos ocorrendo Brasil afora? Será que esse aumento, também, foi tão grande assim? Não poderia, também, a divulgação desses linchamentos ter aumentado? Além disso, se, como dizem adiante, Martins cataloga linchamentos, qual é seu método e qual seu alcance e sua eficácia? Ou será, ainda, que o ceticismo que esses progressistas dizem defender perante as informações dadas pela “grande mídia” não é, na verdade, de uma seletividade que beira ao asqueroso?

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: "Pragmatismo teu cu".

A cara de William James ao ler o site exemplo de Pragmatismo no Brasil. Sobre o caso, a única declaração de James foi: “Pragmatismo teu cu”.

Para tentar, mesmo assim, ainda fazer um de seus supostos mestres (ou serão pragmáticos por algum outro motivo?), William James, parar de se revirar no túmulo, os pragmáticos vão ao ponto em que em tese são especialistas e tentam chegar ao lado prático de toda a questão. Citam, primeiro, uma fala do já citado sociólogo:

“O sociólogo José de Souza Martins, que documenta linchamentos há 20 anos, disse estar preocupado, porque “a sociedade civil está ficando progressivamente descontrolada”.”

Mas, ora, sociólogo, se o senhor não tivesse dito isto, eu juro, em absoluto, que nunca teria percebido. Imagine, a sociedade civil brasileira está perdendo o controle, mas que teoria da conspiração. Só por termos mais de 50 mil homicídios e de 50 mil estupros ao ano enquanto o governo tenta pôr a culpa nas armas que o cidadão não mais tem? Foi um exagero seu, sem dúvida.

Em seguida, os neo-pragmáticos de banheiro exageram, novamente, no óbvio ao citarem o presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio:

O presidente da OAB de Goiás, Henrique Tibúrcio, admitiu que a população se sente insegura, “mas ela não pode fazer Justiça com as próprias mãos”.

Também juro a vocês, amigos leitores, que, se não fosse o Pragmatismo Político ter colocado essa fala do presidente da OAB goiana, eu nunca saberia que justiçamentos não podem ser executados, sob pena de prisão, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo democrático. Sinceramente, desculpem, mas são muitas novidades para a minha pobre cabeça (ou, ao menos, assim aparenta pensar o site) digerir em um só dia.

Vou, então, acabar o artigo citando o deputado do PSOL Ivan Valente (que, em termos de amor a fundamentos da democracia, só deve perder mesmo para seu companheiro de partido Jean Wyllys) e destacando a parte em que o mesmo prova, ironicamente, a inocência até que se prove o contrário de Sheherazade:

Ivan Valente, líder do partido na Câmara dos Deputados, disse que a jornalista “simplesmente deu razão aos vingadores que fizeram justiça com as próprias mãos, em torturar, porque a polícia para ela está desmoralizada, a Justiça não opera e é necessário voltar ao velho Oeste”. (Inocentação prévia em azul, e para bom entendedor meia legenda e algumas linhas deste mesmo texto já bastam)

Só posso esperar, então, que eu não seja o próximo alvo de Valente, muito menos do Pragmatismo Político. Imaginem só se tivesse que “provar minha inocência” com a dificuldade imposta por estes dois. Com certeza, teria de pedir embargos infringentes ao Supremo, não acham?

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista não-remunerado e estudante não-sistemático da Filosofia. Desgastar-se-ia um pouco mais com a inépcia da nova direita, mas, pelo visto, ainda precisará de algum tempo exclusivamente para a inaptidão filosófica dos progressistas. Ao ler certos pragmáticos, porém, só pode ficar se perguntando: “Pirsi, Jeimes, pq fisero iso?”

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