O preconceito do Pragmatismo Político (et caterva) contra Danilo Gentili (1)

Que há muito tempo venho criticando órgãos de mídia e “intelectuais” de esquerda, não é nenhuma novidade para o sempre fiel amigo leitor. Há algo, porém, que pode, de fato, ser-lhe novidade: o mais completo mau-caratismo por parte de blogs progressistas na hora de falar sobre humor, associando toda e qualquer piada da qual esses articulistas não gostam à palavra “preconceito”, tentando, com isso, censurar o humorista que a profere.

Desta vez, a vítima foi o humorista Danilo Gentili, ex-repórter do CQC e agora comandante da tripulação do Agora é Tarde (AET), composta também por Roger, vocalista do Ultraje a Rigor e também vítima frequente desse tipo de ataque e deste ataque em específico, feito pelo site Pragmatismo Político, já criticado neste blog em outras oportunidades.

Danilo Gentili, o “preconceituoso” apresentador da BAND

Para não ficarmos na enrolação, vamos ao enredo deste drama comunista, porque, como se sabe, o drama burguês é para “miguxos reaças” (o que quer que isso signifique) e para manés como Anton Tchekhov e Luigi Pirandello – apesar de eu duvidar muito de que nossos amigos progressistas tenham a capacidade para compreender este tipo de peça.

Danilo Gentili e o inexplicado preconceito

Indo sem mais pestanejar aos fatos, o ocorrido foi que Gentili tocou em um ponto caro a esse tipo de gente: os médicos cubanos recém-chegados ao Brasil pelo programa Mais Médicos. Sim, caro leitor, ao contrário do que falaram, isso não tem nada a ver com mais ou menos nordestinos, mas sim com a sacralidade inquestionável de todos os atos da ditadura marxista dos Castro, que vem destruindo a ilha há mais de 50 anos.

No caso, Gentili fez a seguinte piada…

e cometeu um grave erro, pois deu brecha para o discurso vitimista dos progressistas ao falar apenas uma palavra: NORDESTE. Quando citou esta palavra e colocou, em seguida, palavras como “fome” e “trio elétrico”, Danilo virou prato cheio para a autopromoção dos novos heróis da pátria. No subtítulo da reportagem do Pragmatismo Político, lemos, já de início, que:

Apresentador da TV Bandeirantes destila preconceito contra nordestinos e cubanos. Para Gentili, o Nordeste é um lugar sem energia elétrica, sem água e sem comida.

Para ver como este trecho é mentiroso, é só ouvir o primeiro pedaço da piada de Gentili:

Um apagão afetou boa parte do Nordeste. Digo “boa parte” porque nem todas as cidades lá têm energia elétrica… (destaque meu)

Como vemos no trecho destacado, nem de longe o apresentador do AET afirma que “O Nordeste não tem energia elétrica, água e comida”. O que ele diz é que algumas cidades no Nordeste não tem energia elétrica, e isso, por mais que doa aos ouvidos frágeis dos progressistas, é fato, pois se aplica não só ao Nordeste, como a todo o Brasil, em que, em vários lugares, realmente falta o acesso à eletricidade e mesmo a comida e a água, citadas ao longo da piada.

O mais grave, porém, não é essa ridícula distorção da fala do apresentador, mas o que vem na reportagem que se segue a esse subtítulo. Lá, e em muitos dos comentários a ela, acusa-se Danilo Gentili do crime de, OH, preconceito! Mas, como quase toda a acusação dirigida de um progressista a seu alvo, falta algo básico, que é definir claramente do que o réu está sendo acusado, uma das coisas mais elementares quando o assunto é a lei. 

Entretanto, para os progressistas do Pragmatismo Político (e para todos os outros que comentaram ou não), preconceito parece ser não o que de fato é, ou seja, um julgamento apressado – e normalmente negativo, apesar de o termo poder ser usado tanto para o bem quanto para o mal – de um fato ou de um indivíduo sobre o qual nada se conhece ainda. 

Seria preconceito, por exemplo, chamar Olavo de Carvalho de “astrólogo conspiracionista maluco” sem sequer ler seus textos e suas obras, acusar Reinaldo Azevedo de “defensor da teocracia” sem ver sobre o que realmente fala em seus artigos na revista e no site da VEJA ou mesmo dizer que o livre-mercado é a causa da fome no mundo sem sequer entender o que significa “livre-mercado”. Mesmo assim, raras vezes vi algum progressista reclamando publicamente da ação de seus colegas e avisando-os de que estão sendo preconceituosos. 

Reinaldo Azevedo defendendo energicamente a “teocracia”…sqn

Ao invés disso, preferem manter o termo indefinido e usá-lo ao bel prazer contra humoristas ou contra qualquer um que defenda ideias opostas às desses heróis do terceiro milênio. “Preconceito”, então, passa a ser um termo plástico demais e, portanto, além de ser banalizado, torna-se inexplicável e inexplicado.

“Piada” por quê?

Isso, no entanto, ainda não é tudo, amigo leitor. Vejamos o relato do repórter sobre a piada de Danilo Gentili. Segundo ele…

Na ‘piada’, o humorista afirmou que os médicos cubanos, contratados pelo governo federal por meio do programa Mais Médicos, agora estão se sentindo em casa na região, sem água e sem luz.

Para completar a ‘piada’, o vocalista da banda Ultraje a Rigor (banda do talk show apresentado por Gentili), Roger Moreira, afirmou que no Nordeste ‘tem papel higiênico ainda’. O apresentador respondeu que ‘tem comida também’. (destaques meus)

Há alguma coisa de estranho aí, certo? Pois é, foi o uso da palavra “piada” entre aspas, para inferir que o que Danilo faz não é, realmente, humor, mas sim outra coisa, como o já inexplicado e cada vez mais inexplicável “preconceito”. Um recado parecido pode ser visto abaixo, mas, desta vez, com uma explicação, quase miraculosamente, explicitíssima: É do “opressor” que se deve rir, e não do “oprimido”.

E eis o erro de todo esse raciocínio: “Opressor” e “oprimido” são categorias que, para serem aceitas, dependem de uma série de premissas que nos levam, basicamente, a dois principais caminhos: marxismo revolucionário ou marxismo heterodoxo (progressismo). Ou seja, para aceitar que haja um grupo “opressor” e outro “oprimido” na sociedade, além de praticamente banir a categoria “indivíduo” das análises, precisaríamos pressupor que existem classes sociais homogêneas compostas por pessoas com interesses e necessidades rigorosamente iguais e que é sempre quem tem o poder aquisitivo ou as propriedades que está no lado mais forte do conflito (2)

Enfim, trocando em miúdos, por Danilo ter feito a piada “com o grupo errado”, o escrevente deu a si mesmo a permissão de desqualificar todo o processo criativo do apresentador e dos roteiristas do AET. Ora, progressistas, mas isso não é a “coisificação do homem”? Afinal, não foi Danilo, tecnicamente, reduzido a mero objeto usado pela ideologia progressista para ganhar adeptos na luta contra “a opressão”? (termo esse que, também, permanece obscuro).

O leitor, como de praxe, ainda pode fazer, pelo menos, mais uma pergunta: Tem como ficar pior?

Racionamento (cubano) e burrice (brasileira)

A resposta, amigo leitor, é sim. Voltando à reportagem, lemos que:

Além do preconceito direcionado à Cuba e ao nordeste brasileiro, Gentili revelou na “piada” o seu desconhecimento sobre a atual realidade cubana em relação à segurança alimentar da sua população.

Eis que chegamos no ponto para o qual toda a discussão se direcionava, e sobre o qual já falei brevemente no início de toda esta querela: a “empáfia” – e uso aspas pois, para pessoas normais, ou seja, aquelas que acreditam na necessidade de haver a liberdade de expressão, não há nenhuma ousadia por parte do ex-CQC – de Danilo ao criticar o Sacro-Império Comuno-Cubânico, comandado pelo guru espiritual-materialista Fidel Castro (e seu irmão, o atual presidente Raul Castro) e mais conhecido como Cuba.

“Daí vocês gritam: FASCISTA! PRECONCEITUOSO!”

Normalmente, seus defensores por aqui são aqueles que, fora o fato de não ativarem mais do que um neurônio de todo o cérebro, simplesmente não conseguem conceber sequer que existam pessoas como Yoani Sanchez, as chamadas “oposições permitidas”, quanto mais reais opositores àquilo que, apesar de todas as evidências em contrário, insistem em chamar de “o paraíso na terra”. Os falsos pragmáticos da política, por sua vez, não fogem à regra, e, para defender os ditadores Castros, alegam que:

Em visita a ilha governada por Raul Castro, o diretor-geral da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura, José Graziano da Silva, reconheceu os esforços do governo cubano para garantir a segurança alimentar da população. Cuba hoje possui uma situação de segurança alimentar próxima a de países desenvolvidos, com um índice de desnutrição menor que 5% da população.

“Cuba é um dos 16 países do mundo que já atingiram a meta da Cúpula Mundial da Alimentação de reduzir pela metade o número absoluto de pessoas com fome. Isso tem sido possível graças à prioridade que o governo tem dado para garantir o direito à alimentação e as políticas que implementou”, afirmou o representante da ONU em maio deste ano.”

O detalhe, amigo leitor, é que o repórter se esquece de mencionar que a única razão pela qual os índices de desnutrição em Cuba são tão baixos é que há o famoso racionamento de comida, um dos milhares de ônus (uma lista interminável de ônus, aliás) do sistema socialista-comunista de governo. Para os que não sabem (ou que preferem ficar sem saber), isto significa que, enquanto no sistema capitalista ou em um sistema não-socialista, filas são formadas, na maioria das vezes, durante o lançamento de algum filme ou de uma novidade tecnológica que todos desejam adquirir, no sistema socialista, formam-se filas e filas de pessoas para pegar a comida para o dia ou para o mês, sem direito à reposição ou a qualquer quantidade a mais de comida, não importa em que circunstâncias.

Analisando, então, a situação com esses dados, pode-se dizer mesmo que, para uma população tão pequena e tão regulada, o governo de Cuba vem sendo, de certo modo, até incompetente, pois sequer consegue manter o controle quando já tem o monopólio de tudo.

Enfim, fica transparente mais uma vez, portanto, o amadorismo do site dos maiores lunaticamente teóricos “pragmáticos” brasileiros, que me levaram ao ponto de defender Danilo Gentili, cujo trabalho como humorista eu aprecio, mas de cujas opiniões, na maioria das vezes, discordo (como quando falou sobre Impostos e sobre Carnaval). Espero que o amigo leitor tenha gostado e que eu não tenha cometido o mesmo “erro” de Danilo, o de ter sido “preconceituoso” contra nordestinos e cubanos.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e frequentemente gosta de se meter em Política. Achava Danilo Gentili uma besta quadrada, mas conheceu, a tempo, o humor dos “oprimidos” da esquerda nacional.

(1) et caterva: Termo em latim que equivale a “e companhia”, “e comparsas”. Normalmente usado com conotação negativa.

(2) Esse erro marxista também se faz presente (e macula) a concepção de “preconceito linguístico”, mas isso explicarei mais claramente quando postar sobre o tema.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 05/09/2013

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