Aquém do Bem e do Mal ou Póslúdio da falta de Filosofia na atual Juventude Brasileira

NOTA: Este texto foi originalmente produzido inspirado em texto de Arthur Rizzi Ribeiro, amigo do blog “Tartaruga Democrática”, no finado “Pensamentos Avulsos”. Também foi produzido antes do anúncio da terceira das séries do meu antigo blog, série esta à qual ainda não dei prosseguimento. Ainda assim, será possível ao leitor compreender o que falo perfeitamente, apesar de o contexto não mais ser conhecido. Creio ser esse o momento mais adequado para revivê-lo pois meu amigo Roger, do blog EnDireitando, publicou um artigo muito interessante no mesmo sentido deste texto, apesar de usar argumentos diferentes e de ser de uma época bem diferente (o meu é pré-manifestações, o dele é pós-manifestações).

PS: Porra, Arthur, por que não manteve o antigo blog para registro?

PS2: O poema era para ser um soneto. Pelo visto, ainda precisarei de tempo para lidar melhor com o WordPress.

PS3: Arthur, na verdade, havia publicado o texto todo aqui. Eu é que não havia visto. Caso consigam abrir os ensaios, o primeiro deles (ou o primeiro trecho) foi o que me inspirou.

Enfim, ao texto:

Olá, amigos leitores, já é hora de conversarmos de novo, não concordam?

Bom, esse era para ser o terceiro post Merchandising, desta vez com a explicação da série sobre o Pondé, mas, como vocês sabem, quase sempre consigo achar, no Facebook, temas para discutir com vocês ou besteiras para demolir.

Desta vez, ao contrário da maioria das ocasiões, o que li foi um texto (link no fim do post) interessantíssimo do filósofo da educação (e meu grande colega) Arthur Rizzi Ribeiro que, sem papas na língua nem economia de palavras, pôs a nu a imaturidade de uma parcela considerável da juventude brasileira atual. Inspirado por ele, resolvi dar também a minha bronca nesses despudorados e frouxos “imbecis juvenis”, termo apropriadíssimo frequentemente usado (e provavelmente criado) pelo filósofo e jornalista campinense Olavo de Carvalho.

O leitor, a cada dia mais perspicaz, e herdeiro de minha impaciência, pode olhar para o título do post e acertadamente perguntar: “Mas ora, Octavius, virou um garrafão de pinga antes de fazer esse título? Misturou maconha com ecstasy? Por que, ao invés dessa merda de título, você não coloca simplesmente Bronca na Juventude Brasileira e fim de papo? E que merda é um poslúdio?”.

Ao apressado porém fidelíssimo leitor, peço calma. Mesmo assim, entendo sua angústia . Afinal, “Aquém”, “Bem”, “Mal”, “Poslúdio”… o que é isso tudo?

A explicação é bem simples. Como notaram por meio de alguns dos meus últimos posts, comecei, há alguns meses, a adentrar no fascinante terreno da Filosofia, em especial na parte que lida com questões existenciais. Spinoza, Roterdã, Sartre e Nietzsche, além de alguns outros, foram os meus guias nestes estudos iniciais que, além de me esclarecerem alguns de meus questionamentos intrapessoais, ajudando assim em minha busca pelo autoconhecimento, me ensinaram também o valor da diversidade e da divergência de pensamento, sem as quais não se vive democrática nem filosoficamente.

Enfim, o pertinente para este artigo, no entanto, não é minha nova experiência filosófica, mas sim como aplicá-la para falar sobre a Juventude. Ocorre que, entre tantas leituras, foi justamente uma do filósofo antiteísta alemão  que me inspirou. Falo de Além do Bem e do Mal ou Prelúdio de uma Filosofia do Futuro, obra em que F. Nietzsche, como sempre, critica venenosamente a moral vigente enquanto esboça para o leitor como seria a filosofia do futuro, que tresvaloraria todos os valores vigentes.

Ainda assim, o que tem isso a ver com a atual juventude do Brasil? Simples. Uma parcela desta, assim como Nietzsche, deseja revolucionar o modo de pensar do mundo e mudar, com isso, “o sistema”. O que colocaria o filósofo de Rocken, então, (tantos) degraus acima de nossos jovens intelectualmente falando?

Primeiro, e mais importante, é a relação entre “subversor” e “sistema”. Enquanto alguns imbecis juvenis colocam o modus operandi do mundo como “malvado porco capitalista opressor” (e a falta de pontuação neste trecho é intencional, leitor normativista, não se assuste), pondo-se, obviamente, na posição de vítimas da sociedade, o pitbull anti-marxista coloca-o em uma posição patética, apotando, sem piedade e até com certo exagero, como a união entre o Cristianismo e o Segundo Reich Alemão (lembrando sempre que o de Hitler é o Terceiro), este com uma educação emburrecedora e aquele com a “moral de escravos”, conseguiu nivelar por baixo a sociedade alemã, considerada por ele, salvo raras exceções, incapaz de produzir verdadeira arte, cultura ou intelectualidade.

Inclusive, Nietzsche nos fala que é justamente o baixo nível intelecto-artístico-cultural dos alemães a ele contemporâneos a causa de estes comprarem com tanta facilidade todo tipo de igualitarismo. Curiosamente, o que a alta quantidade de jovens ditos adeptos de ideologias “igualitárias” e “progressistas” mostra é que, além de Nietzsche dar conta de superar intelecto-cognitivamente pessoas mesmo mais de 100 anos mais novas que ele e seus livros (o próprio Além do Bem e do Mal é de 1886, para o leitor ter uma ideia), pelo visto ou todos descendem diretamente dos alemães do Segundo Reich e herdaram sua mentalidade, ou, ao contrário do que os progressistas de boutique querem dar a entender, de fato, a humanidade pouco mudou.

Aliás, minto, uma coisa sim mudou: a razão pela qual se critica um sistema vigente. Afinal, em Ecce Homo (e faço aqui mera paráfrase, pois não tenho o livro em mãos nem lembro da citação completa), Nietzsche nos explica que critica o Cristianismo não por ressentimento, mas sim por pura questão de divergência  quantos aos ensinamentos dessa religião, afinal, como ele mesmo diz, sempre foi bem tratado pelos cristãos que conhecera e com quem debatera. Já  se analisarmos o discurso da “juventude crítica”, poderemos perceber vários traços não só de ressentimento, mas também de uma ignorância atroz quanto ao objeto criticado. Mais uma vez, o anticristão (e Anti-Cristo) alemão, apesar de todas as controvérsias, se sobressai intelectualmente.

Digo “apesar de todas as controvérsias” porque, sendo Nietzsche extremamente misterioso e irônico em seus escritos, é difícil saber quando está sendo totalmente sincero em suas obras. Ainda assim, isso não muda o fato de que nossos jovens têm muito a aprender com as obras do alemão.

Devo admitir, não vou me arriscar a afirmar se Nietzsche conseguiu ou não seu empreendimento de superar Bem e Mal, mas não precisa ser um grande intelectual para perceber que a parte “crítica” de nossa juventude, com certeza, está bem Aquém (abaixo) do Bem e do Mal. Afinal, apesar de colocarem o filósofo antiteísta como um símbolo do Individualismo, são esses imbecis juvenis os verdadeiros representantes de um paradoxal “individualismo coletivista”: coletivista por declarar preocupação com problemas sociais, mas predominantemente individualista quando se percebe que, como bem disse o Arthur Ribeiro, citado no começo do post, aquilo com que se preocupam esses púberes adolescentes e jovens adultos não é a sociedade, mas sim os seus próprios interesses.

Voltando ao Individualismo, eu ainda diria que, ao contrário do que apregoa o senso comum sobre o bigodudo de Rocken, este representa não uma linha de pensamento do Individualismo, mas sim da Individualidade, pois, inegavelmente, o que Nietzsche queria era assegurar o seu direito a um pensar realmente divergente. Já os imbecis juvenis atuais, ao se associarem a todos os “-ismos” possíveis e mais alguns, acabam por descartar as duas mais importantes “-ades” além da Individualidade: a Sinceridade e a Honestidade Intelectual. Esse, meus amigos, é o Póslúdio (o resultado, considerando que um prelúdio é um precedente de algo) da falta de Filosofia de qualidade na vida da atual juventude brasileira.

Ainda falando sobre “-ismo” e “-ade”, deixo, para homenagear os imbecis juvenis, um soneto feito especialmente por mim para esta ocasião, metrificado com um quarteto e um terceto dodecassílabos e um quarteto e um terceto octossílabos e rimado apenas com palavras terminadas nos dois sufixos mencionados acima. O meu leitor que aprecia poesia poderá até, justamente, reclamar dessa mediocridade formal e do conteúdo agressivo, porém digo que não fiz essa poesia pensando nele, mas sim nos “jovens críticos”. Afinal, fazer um soneto com a métrica mais prestigiada nesse tipo de poesia, a dos versos decassílabos/ decassilábicos, seria inferir que os criticados neste post merecem essa qualidade e esse zelo todo (além do que, se contarem o número de sílabas métricas do meu soneto e de um soneto decassílabo, verão a mesma quantidade), e usar mais que dois sufixos para rimar para pessoas que  quase certamente mal utilizam dois dos neurônios de seus cérebros tornar-lhes-ia o entendimento da poesia praticamente impossível. Aqui vai:

Juventismo e Brasilidade – Muito individualismo, pouca individualidade

Dizei-me vós que nesta era de hedonismo

sobre a juventude desaba a tempestade.

Enquanto flerta-se com o individualismo

faz-se comédia com a individualidade

É quase um metafisicismo

perceber essa imaturidade

pois entra-se no ideologismo

com a maior facilidade

Encaremos a realidade:

debater contra progressismo

virou uma bestialidade

depois que um desestimulante juventismo

aliado a uma brochante brasilidade

desembocou em muito mais infantilismo

Bom, para finalizar, devo dizer duas coisas. Primeiro, discordo em partes do Arthur quando ele diz que a mentalidade revolucionária desses jovens é essencialmente perigosa. Em parte porque, apesar de reconhecer esse perigo, não veria nada de ruim em mudanças, mesmo que radicais, mas isso se dá simplesmente porque sou um fã delas. Para mim, então, o que me faz receoso dessa “revolução” não é ela em si, mas o modo como ela se dará, pois prefiro o ativista declarado ao ativista cultural velado (mas isso se dá por uma questão de covardia x coragem, que explicarei futuramente)

Segundo, sei que não se explica a própria poesia, mas, nesse caso, peço o perdão dos nobres leitores, pois, como bem sabem, não sou poeta (rsrsrs). Além do que, o fiz para evitar maiores transtornos. Peço perdão também pelo tom agressivo tanto deste texto quanto da poesia. O detalhe é que, apesar de já ter reconhecido em post anterior que existe sim uma discriminação exagerada sendo promovida contra os jovens, negar sua parcela de culpa e delegá-los ao papel de meras vítimas seria desonestidade intelectual. Por isso, apelo ao atual imbecil juvenil que deixe de lado os “-ismos” e que analise a vida com mais critério. Afinal, assim se entra no mundo adulto e se pode ser tratado com seriedade.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e faz trilha, com razoável frequência, no caminho da Filosofia. Reconhece que, como poeta, é um ótimo professor de língua inglesa, mas sabe que suas habilidades poéticas, ainda assim, são bem maiores do que os conhecimentos dos novos revolucionários que brotam Facebook afora.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 27/03/2013

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