“Dialeticando” com Luiz Felipe Pondé

NOTA: Este post foi publicado ainda antes de minha saída do Comunismo e do Neo-ateísmo (que eu julgava ser “deísmo”). Algumas posições aqui, então, parecerão, ao meu leitor habitual, um tanto estranhas e vergonhosas. Sim, tenho, hoje, vergonha deste texto, mas ele será essencial para entender uma série que iniciei ano passado e ainda pretendo continuar. Mas, enfim, quem quiser pode e deve lê-lo.

PS: Sim, quando digo que fui comunista dos 16 aos 18 anos, falo sério, como os que lerem isto até o fim (se tiverem estômago) verão.

Caros leitores, fãs e até mesmo apreciadores intermitentes deste blog. Vou dar uma explicação sobre o título deste post já de antemão. Meses atrás, tive a oportunidade de ler nas Páginas Amarelas da revista VEJA uma entrevista com Luiz Felipe Pondé, filósofo brasileiro, colunista do jornal Folha de São Paulo e professor da Faap e da PUC- SP. Porém, mesmo com pontos de vista interessantes, ouso discordar desse filósofo. Por isso, o título desta postagem. Farei uma dialética (oposição de ideias) com esse pensador por meio de respostas a alguns dos vieses dele e até mesmo a algumas partes da introdução dada por VEJA. Enfim, boa leitura.

VEJA- “Seja na sua coluna semanal da Folha de S.Paulo, seja em livros como o recém-lançado “O Catolicismo Hoje (Benvirá)”, ele sabe se comunicar com o grande público sem baratear suas ideias”

RESPOSTA- Justos os elogios desprendidos a esse filósofo pela revista. Todavia, há uma ideia um tanto vaga no excerto: Para essa mídia, o que seria um “barateamento de ideias?”. Todos sabemos das opiniões de VEJA. Porém, falar em “barateamento de ideias” torna-se até mesmo sofismático quando não se define parâmetros para tal.

VEJA- “Pondé é um crítico da dominância burra que a esquerda assumiu sobre a cultura brasileira”

RESPOSTA- Absolvam-me os críticos capitalistas a esse suposto regime de esquerda, mas devo discordar e afirmar categoricamente que a cultura brasileira não tende para a esquerda, e sim para a direita. Uma das maiores preocupações da esquerda relaciona-se com o acesso à cultura para todos. Afinal, parafraseando uma música de Gilberto Gil, os proletários têm direito à educação e cultura, o que é uma pregação esquerdista.

Enquanto isso, a cultura (ou a negligência exercida por alguns governos para com a mesma) quando transformada em instrumento de dominação (o caso brasileiro) e de segregação social, torna-se direitista.

O máximo que se pode alegar sobre a cultura brasileira é que a mesma é populista. Porém, por mais que alguns sofistas teimem com essa ideia, o Populismo representa muito pouco da verdadeira esquerda. Seria uma pseudo-esquerda.

E, além disso, é muito difícil ter uma dominância cultural esquerdista em um país que tem asco à esquerda, mesmo sem conhecê-la.

LUIZ FELIPE PONDÉ- “*Um jantar inteligente* É uma reunião na qual há uma adesão geral a pacotes de ideias e comportamentos. Pode ser visto como a versão contemporânea das festas luteranas na Dinamarca do século XIX, que o filósofo Soren Kierkegaard criticava por sua hipocrisia. Esse vício migrou de um cenário no qual o cristianismo era a base da hipocrisia para uma falsa espiritualidade de esquerda. Como a esquerda não tem a tensão do pecado, é pior do que o cristianismo”

RESPOSTA- Até a parte em Itálico, uma resposta muito informativa. Porém, a partir do ponto em itálico, essa resposta virou uma falácia completa.

Primeiro: Espiritualidade de esquerda? Caro filósofo, existe grande diferença entre a esquerda genuína e a demagogia. Apontar que a hipocrisia migrou do cristianismo (alegação que para alguns é uma meia verdade) para uma falsa espiritualidade de esquerda sem argumentação é um sofisma completo.

Segundo: Pondé, colocar o cristianismo acima da esquerda por causa da tensão do pecado sem fazer ponderações necessárias é uma inverdade, para dizer o mínimo. Afinal, o pecado pode tanto ajudar quanto atrapalhar. Lembre-se que vivemos em um mundo o qual precisa urgentemente de ações, e não de pregações. E pondere também que, enquanto a esquerda propõe mudanças radicais que se executadas podem beneficiar a muitos, o cristianismo propõe paciência e esperança, algo dificílimo em um mundo tão desigual e pobre para muitos.

LUIZ FELIPE PONDÉ- “A esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca todo o mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta”

RESPOSTA- Lembre primeiro, caro professor, que a espiritualidade deve ficar a cargo de religiões e (principalmente) de doutrinas filosóficas. Apesar de religião e política terem uma intrínseca relação por serem duas das coisas mais importantes para o ser, a mistura das duas (seja em governos teocráticos ou quando as religiões são usadas para justificar guerras e outros atos) sempre trouxe resultados catastróficos. Não é preciso voltar muito tempo na história para presenciar tal fato. (Exemplo: O Tribunal do Santo Ofício, apoiado por vários reis durante a era medieval e moderna).

Outro fator reside na típica falácia das supostas pregações de esquerda. Primeiro: a esquerda prega realmente que o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Porém, a mesma corrente ideológica também prega que os trabalhadores não devem ser omissos com relação a esse mal, e por isso devem unir-se e agir politicamente para mudar tal quadro.

E, não, a esquerda ainda não tem pregações relacionadas ao meio ambiente.

PONDÉ- “Não há um pensamento alternativo à tradição de Rousseau, Hegel e Marx. Tenho um amigo que é dono de uma grande indústria e cuja filha estuda em um colégio de São Paulo que nem é desses chiques de esquerda. É uma escola bastante tradicional. Um dia, uma professora falava da Revolução Cubana, como se esse fosse um grande tema. Ela citou Che Guevara, e a menina perguntou: “Ele não matou muita gente?”. A professora se vira para a menina e responde: “ O seu pai também mata muita gente de fome”. O que autoriza um professor a usar esse tipo de argumento é o status quo que se instalou também nas escolas, e não só na universidade. O infantilismo político dá vazão e legitima esse tipo de julgamento moral sumário”

RESPOSTA- Tchê, tchê, tchê, quanta falácia junta.

Pondé, não sei se vivemos na mesma sociedade sinceramente. O que possibilitou tal julgamento não foi qualquer tipo de “infantilismo político”. O que possibilita esse e outros julgamentos é a sociedade em si. Ora, como você mesmo disse, uma menina estuda em um colégio tradicional e de boa qualidade. Quantos outros desejariam a mesma sorte, mas não podem tê-la, já que a sociedade e o sistema exigem demais de quem mal tem o que comer e pouco recompensam a exigência?

Ainda que involuntariamente, você culpa o próprio brasileiro pela situação do país. O grande problema do pensamento brasileiro é a recusa por revoluções. Durante o período Joanino, e até mesmo em outros, só ouvi falar em duas verdadeiras revoluções que ganharam adesão popular, mesmo que insuficiente: A Conjuração Baiana de 1798 e a Insurreição Pernambucana de 1817. Esse é o problema. Seja por piedade, desesperança ou misericórdia pela vida alheia, o povo brasileiro recusa-se a lutar pelos seus direitos, mesmo pacificamente. Por isso, muitos pensadores brasileiros não conseguem enxergar revolucionários como Che Guevara fora da visão de um mero criminoso. Che Guevara lutou… E o Brasil devia seguir o exemplo. Não falo de luta para instalar qualquer regime político. Falo de luta por mudanças, por maior seriedade e menor monopolização da política brasileira por algumas famílias.

A pobreza do povo dá vazão a esse tipo de julgamento. Então, não, infantilismo político pouco tem a ver com isso.

PONDÉ- “O mundo das ciências humanas, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muito corporativismo e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da historia, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígenes, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.”

RESPOSTA- Pergunto ao filósofo qual o erro do suposto “novo pensamento esquerdista”. A não ser que a lógica capitalista pregue a mulher sendo oprimida somente porque quer, índios e aborígenes como mais perigosos se comparados aos homens brancos e que todo imigrante ilegal faz-se ilegal por ser mau-caráter, devendo por tal motivo ser deportado de volta ao próprio país, no qual provavelmente ocorrem “regimes de esquerda” os quais deprivam seus habitantes de qualquer oportunidade.

PONDÉ- “O cristianismo, que é a religião hegemônica no Ocidente, fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. É uma espiritualidade riquíssima, pouco conhecida por causa do estrago feito pelo secularismo extremado”

RESPOSTA- Secularismo do qual os cristãos da Idade Média são culpados, e que até hoje infecta a mente de muitos.

Além disso, já que o senhor se manifesta contra a hipocrisia alheia, caro pensador, peço-lhe que responda, sem hipocrisia, se acha possível que o trabalhador, o qual trabalha muitas vezes 12 horas por dia, de segunda a sexta, correndo o risco de ser demitido por qualquer deslize e ao mesmo tempo pensando em como estão seus familiares em casa, possa ter motivação para se preocupar com qualquer espiritualidade.

O trabalhador, qualquer que seja sua área, merece mais. Antes de exigir intelectualidade e busca por espiritualidade, reformas trabalhistas são essenciais.

PONDÉ- “Ao lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é frágil, fraco”

RESPOSTA- Primeiro, L. Felipe Pondé, creio ser contraditório defender categoricamente a espiritualidade riquíssima de uma religião e ao mesmo tempo admitir a vocação repressora institucional da mesma. O espírito é ilimitado. Colocar barreiras institucionais a ele é prova de falta de espiritualidade.

Segundo, você não aponta uma virtude cristã com a última frase. Aponta sim um problema. Até hoje, nem as religiões nem as ciências conseguiram provas perenes dos verdadeiros limites do homem. Só é frágil e fraco o homem que quer ser frágil e fraco. Discordarei de uma frase do escritor português Fernando Pessoa parcialmente. Todo homem é sim uma ilha. Afinal, toda ilha tem seus mistérios. Um dos mistérios do homem reside em suas capacidades.

Logo, falar em homem frágil e fraco é pensar de modo obsoleto e falacioso.

PONDÉ- “As redenções políticas não tem isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que acho brega. Essa visão do homem sem responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder”

RESPOSTA- A esquerda nunca afirmou que o homem não tem responsabilidades morais. Existe diferença entre culpar instituições e livrar os homens de qualquer responsabilidade, seja social, política ou até mesmo moral.

PONDÉ- “Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. É um conceito complexo e fugidio”

RESPOSTA- Claro, um conceito complexo e fugidio o qual desmerece completamente os esforços humanos e seus progressos e que foi usado como uma fonte de motivação para a repressão cristã aos pensamentos divergentes, a qual durou mais de 1000 anos.

PONDÉ- “Não se sabe se alguém é capaz de ganhar a graça por seus próprios méritos, ou se é Deus na sua perfeição que concede a graça”

RESPOSTA- Meu caro, falar em méritos em uma época medieval na qual meros questionamentos tornavam-se razões para a morte é um pouco contraditório. Ter mérito não é se omitir. Ter mérito é lutar. Afinal, como diriam alguns dos versos da Canção dos Tamoios, de Gonçalves Dias: “Não chores meu filho, que a vida, a vida é luta renhida. Viver é lutar”

PONDÉ- “Em qualquer hipótese, a graça não depende de um movimento positivo de um grupo. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século XX nos mostrou, é sempre opressivo”

RESPOSTA- Se esse for realmente o pensamento cristão da época, eles entraram então em uma contradição sem precedentes quando se adota hipocrisia como o critério. Movimentos políticos não são válidos, mas prometer “vagas no céu” era válido?

Além disso, os grupos do século XX quase nunca pegaram países em franca expansão. Adicionalmente, generalizações são extremamente perigosas. Afinal, existem vários tipos de opressão, não é, Pondé?

PONDÉ- “Ninguém, em nenhuma teologia da tradição cristã – nem da judaica ou islâmica -, pode dizer-se santo. Nunca. Isso na verdade vem desde Aristóteles: ninguém pode enunciar a própria virtude. A virtude de um homem é enunciada pelos outros homens”

RESPOSTA- Então… O seu argumento teológico tende a ser falacioso para muitas situações, Pondé. Ora, usar um dos pensamentos de Aristóteles, misógino famoso por seu desprezo para com os seres supostamente inferiores (como escravos, mulheres, entre outros), para defender qualquer coisa é muito arriscado. Além disso, ser virtuoso não se iguala a santidade. Existem várias virtudes. Um homem que não enuncia suas virtudes pode perder grandes chances em sua vida por ter se subestimado demais por muito tempo.

Autopromoção de virtudes? Claro, mas com sabedoria.

PONDÉ- “O clero da esquerda, ao contrário, é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês…

Não há contradição interior na moral esquerdista. As pessoas se autointitulam santas e ficam indignadas com o mal dos outros”

RESPOSTA- As razões da esquerda não são tão óbvias, L. Felipe Pondé. Os esquerdistas querem mudanças. Entretanto, recordemos: Os verdadeiros esquerdistas tentam lutar por mudanças. Os outros simplesmente fogem da luta, e esses são na verdade os que se intitulam santos.

PONDÉ- “*Sobre acreditar em Deus* Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo”

RESPOSTA- Perdoe-me, mas acreditar em Deus por mera questão de “elegância” da hipótese de existência do mesmo é um pouco fútil, algo que o senhor tanto critica.

CLARIFICAÇÃO NECESSÁRIA- O autor deste blog é teísta/deísta. Logo, acredito sim em Deus, mas em um Deus diferente daquele das tradições religiosas

PONDÉ- “Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo”

RESPOSTA- Como acreditar em qualquer coisa ou pessoa sem acreditar em si mesmo?

PONDÉ- “Para mim, a religião é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média- querer se meter na vida moral das pessoas.”

RESPOSTA- Uma fonte de hábitos morais que:

A-    Já cometeu vários crimes contra a humanidade

B-    Usou-se da fé humana para construir obras faraônicas

C-    Já guerreou por mais de 2000 anos, sacrificando muitos fiéis, pela causa mundana de expansão religiosa

D-    Impede o laicismo pleno em muitas nações até os dias atuais

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, hoje, um leitor de Filosofia. Agradece a certo amigo físico e católico por ter-lhe puxado a orelha neste post. Também, depois disso, deixou de acreditar tanto em si mesmo, além de entender, mais tarde, o significado filosófico dessa frase pondé-chestertoniana.

 *Publicado originalmente em “O Homem e a Crítica” em 11/11/2011

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