Eu, Apolítico – A farsa da “alienação” e da “doutrinação” – Uma breve reflexão muitíssimo inicial sobre a maior mentira auto-probante da história

Vendo um vídeo de Olavo de Carvalho, a mais nova vítima dos bons sentimentos da direita e da esquerda facebookianas, sobre o “historiador” Bertone, atento-me, subitamente, para uma fala de Olavo sobre como, para a mentalidade esquerdista, “concentração de renda no Capitalismo”, entre outras coisas, são auto-probantes, id est, dispensam quaisquer tipos de provas para serem consideradas corretas e, portanto, não poderiam, de forma alguma, ser contestadas sob qualquer pretexto.

Não quero, porém, falar, de novo, sobre a falta de caráter de socialistas e esquerdistas em geral ao acusarem o Capitalismo por tudo que eles próprios, esquerdistas, fazem. O que me motivou a escrever-lhes estas mal traçadas é, na verdade, a questão da “auto-probância” (um neologismo inventado para esta ocasião) em si. Lembro o leitor sobre um comentário facebookiano meu de semanas atrás sobre como a direita, ao não atacar a crença esquerdista aparentemente auto-provada de que é possível “alienar” alguém, estaria perdendo uma oportunidade de ouro para fazer ruir, de vez, a casa de Usher e uma das premissas mais fundamentais (e mais fundamentalisticamente defendidas) para todo pensamento esquerdista, o que, por corolário, colocaria a mesma direita em uma ótima posição e a esquerda em um posição de que não gosta, que é a defensiva.

Ocorre, porém, que não me atinei a um detalhe muito importante: Na raiz do pensamento da direita, ou, pelo menos, falando mais “cientificamente”, da “nova direita brasileira e facebookiana”, existe nada mais nada menos do que exatamente a mesma premissa, só que com um nome diferente. Enquanto a esquerda usa de analogias comportamentalistas – aqueles experimentos com macacos tomando choques e com pessoas submetidas a circunstâncias degradantes adaptando-se a essas circunstâncias – pouquíssimo confiáveis para dizer, por exemplo, que “a mídia imperialista-racista-homofóbica-conservadora aliena a população”, a direita segue seus passos e inventa que “a escola e a universidade são centros de doutrinação marxista” com base no fato puro e simples de que existe, claramente, uma predominância do pensamento de esquerda dentro desses lugares.¹

Caros amigos de ambos os lados, vamos deixar tudo as claras: O que vocês fazem, com esse tipo de afirmação, não é provar que lutam “a favor do povo” – e, sim, a direita também anda parecendo muito confiante na redenção terrena para meu gosto existencialista-pessimista-pondeano-cético -, mas sim confirmar a seus opositores que, antes mesmo de pensar em liberdade do pensamento, essencial para desenvolver novas ideias, estas sim possivelmente essenciais para melhorar um pouco o mundo (frise-se: o mundo, não a humanidade), o que pensam é em pretextos para censurar as ideias opostas.

Afinal, se não é o indivíduo, ainda que adulto e, portanto, já capaz de discernir o certo do errado e o correto do incorreto, quem decide, por si mesmo, em que acreditará (pois em vosso mundo, a possibilidade de acessar fontes divergentes e de recusar padrões parece inexistir em absoluto), quem seguirá, o que consumirá, em quem votará e qual ideologia defenderá, mas “a mídia”, “a escola” ou “a universidade”, o que é um atentado contra a autonomia do indivíduo, por que não censurar ou controlar cada um desses órgãos? O que impediria a direita, em nome da luta contra uma cada vez mais obscura “doutrinação marxista”, de fazer como a esquerda atual e, após ocupar quase totalmente a grande mídia e as próprias escolas, barrar o acesso de qualquer um que julgue “de esquerda” aos meios de divulgação de ideias? O que impede, do mesmo  modo, a dita “esquerda libertária”, se é que isto existe de fato,  de contradizer sua própria denominação e, na verdade, puramente apoiar medidas da esquerda autoritária e da esquerda totalitária para controlar o pensamento, ou, melhor, para “emancipar o proletariado das amarras da mídia corporativo-imperialista burguesa”?

Não quero dizer, com isto, que a direita seja, ao menos no sentido da liberdade de pensamento, tão totalitária quanto a esquerda, nem poderia fazê-lo. O que digo é que é no mínimo estranho que pessoas tão declaradamente comprometidas com a liberdade de expressão e de pensamento não tenham percebido o fundo no mínimo autoritário, se não totalitário, que existe na propagação da luta contra a “doutrinação”.

Do mesmo modo, também concordo com o que dizem sobre como a esquerda tende ao totalitarismo. Só acho que devemos lembrar, no entanto, que o totalitarismo, antes de ser doutrina política, é uma tentação. E é uma tentação, principalmente, porque sempre é, dentro de sua própria lógica, auto-probante.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e, de vez em quando, banca o filósofo e o analista político. Irá, aliás, fazê-lo enquanto for, e para que continue a ser, possível. Pelo visto, porém, caso dependa da direita facebookiana, será levado ao paredón sob a acusação de incentivar a doutrinação marxista.

¹Quem quiser negar isto, por favor, peço que me envie uma crítica de próprio punho sobre qualquer das obras de ao menos metade dos seguintes pensadores: Thomas Sowell,  Ludwig von Mises, Friedrich A. Hayek, Eric Voegelin, Thomas Mann, Edmund Burke, Roger Scruton, Isaiah Berlin, David Horowitz, Michael Oakeshott, Ortega y Gasset, Mário Ferreira dos Santos, José Guilherme Merquior, Miguel Reale, Joaquim Nabuco, Olavo de Carvalho ou mesmo, para deixar muito mais simples, Luiz Felipe Pondé. Aguardo respostas.

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6 comentários

  1. Octávio, eu estou mudando de apartamento. Há 3 semanas estou lidando com obras, colocação de piso, eletricista, pintor. Depois comecei a lidar com carreto, transporte de cama, geladeira. Depois arrumar o apartamento novo. Tudo isso no horário em que não estou trabalhando (acho que talvez vc não saiba: algumas pessoas trabalham). No prédio novo não tem armário da GVT nem da NET. Não consegui colocar internet lá de nenhum tipo. Nem meu celular (Vivo) funciona no meu apartamento (logo não posso usar a internet do celular). Estou brigando com a construtora, com a GVT e com a Vivo. Não fosse suficiente, chegou o carnaval e Salvador parou desde terça feira passada. E você fica aí, sentadinho, julgando pessoas que você nem conhece. Eu pensei em ignorar seu comentário e aproveitar e ignorar você também. Afinal, você foi o único que ficou contra o meu trabalho (que, sim, é feito na medida da minha possibilidade). Não tenho interesse algum em seus afagos. Nem precisava me explicar. Mas eu tenho uma mania incorrigível de dar consideração maior do que as pessoas merecem. No mais, se você está incomodado com as postagens dessa página imbecil é porque você as lê. O que explica muita coisa. Abraço e obrigado por me desejar sorte.

    1. Pérsio,

      Primeiro, não sei porque veio comentar sobre este assunto neste post, sendo que o tema nem é sua página – também porque, aliás, não teria porque fazer toda uma postagem para atacar sua página sendo que gosto, ou melhor, gostava (pois sua página agora é finada) de seu trabalho.

      Segundo, compreendo perfeitamente que você tenha problemas a resolver, mas, como eu lhe disse, a minha crítica foi única e exclusivamente pelo fato de vocês fazerem petição online (de utilidade zero nesse e em qualquer outro caso, como ambos sabemos) para verem se recuperam a página, o que, em minha opinião, como deixei bem claro naquele post, é coisa de choramingas (Acho um milhão de vezes mais eficaz, por exemplo, fazer como Olavo fez e procurar contatos que possam ajudar na recuperação da página).

      Terceiro, não estou contra o seu trabalho. Estou, aliás, é muito a favor. O que oponho é única e exclusivamente a petição online. De resto, apesar de uma discordância aqui e outra ali, sempre considerei a “Meu Professor de História mentiu pra mim” importante na divulgação de material e de ideias anti-esquerdistas.

      Quarto, citei-lhe a “Meu Professor de História” exatamente porque, sem a sua página, eles ficaram com praticamente todo o monopólio da palavra sobre o tema das falsificações históricas, o que ambos sabemos ser ruim em se tratando de uma página claramente esquerdista.

      Quinto, não ouse tentar leitura mental contra mim. O fato de eu ler as postagens daquela página escrotíssima que parodia vocês não explica, a priori, nada, também porque eu, inclusive, fui banido de lá há um bom tempo.

      Sexto, sim, você deveria ter deixado o assunto morrer. De minha parte, pelo menos, já morreu. De qualquer forma, volto a lhe desejar boa sorte na recuperação da página, assim como desejo que, mesmo que não a recupere, tente uma nova investida e continue produzindo conteúdo em seu blog (que aprecio igualmente).

      Até mais,
      Octávio

  2. Sobre os nomes do final e conheço poucos, pelo simples motivo de poucos estudarem meus assuntos de interesse nos últimos anos, porem dos poucos que li. (Mises, Hayek, Voegelin, Burke, Scruton e Olavo de Carvalho), o único que gostei é o que to lendo no momento que é Burke, o que achei pior foi o Scruton (O Olavo não conta), o cara é muito radical e sinceramente, ele é raso de mais nas suas analises principalmente quando trata da modernidade (Li o que ele escreve sobre arte, arquitetura e sociedade).

    A não vou esquecer de te mandar uma carta quando conseguir ler mais desse caras que vc citou e tiver tempo de escrever algo decente sobre eles.

    1. Antonio,

      A minha pergunta, ao citar esses autores, foi simples: Quantos estudantes universitários brasileiros, especialmente de Humanas, apenas com o que aprendem na universidade, sequer sabem da existência desses autores, quanto mais de sobre como estes autores argumentam?

      Pegue, ao contrário, gente como Sartre, Foucault, Deleuze, Lacan, Chomsky, Bagno, Hobsbawn… A diferença no número dos que conhecem este e dos que conhecem aqueles é muito grande, não?

      Quanto à carta, espero a sua… e a de outros esquerdistas. Aliás, pode mandar e-mail mesmo, rsrsrsrs

      Octávio

      1. Cara eu acho que depende muito do curso e da pegada desse curso.
        Os de história não é dominados pelos Marxistas a um bom tempo, porem é impossível estudar isso e não ver o “Hobsbawn”, “E. P. Thompson” e até o próprio “Karl”, pois eles fizeram versões super influentes e interessantes de certos assuntos.
        Assim como mesmo a mais Keynesiano dos cursos de economia se estuda Mises e Hayek.
        Eu por exemplo vejo poucos autores não Marxistas pois em geral, eles não gostam muito de estudar arquitetura e urbanismo, apesar de ver muito a ação pratica de não marxistas nos processos de construção seja de edifícios como de cidades.

        E sobre os que vc citou de esquerda só li Sartre por vontade própria e trechos de Hobsbawn e Foucault na faculdade! 🙂 Os outros só conheço de nome.

      2. Antonio,

        Mas é exatamente isso: Quantos universitários sequer conhecem os autores da direita de nome que seja? Em Letras, te garanto, quase nenhum. Agora, os da esquerda são praticamente onipresentes lá.

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