Eu, Apolítico – Ceticismo x Academia (Ou: Por que desconfiar de Renato Janine Ribeiro et caterva)

Olá, amigos leitores, e vamos a mais um post da série “Eu, Apolítico”.

Como alguns de vocês devem saber, no dia de ontem, um certo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética da USP, inventou de destilar toda sua sabedoria universitária em um detalhadíssimo e embasadíssimo comentário de Facebook sobre o novo livro de Olavo de Carvalho, O Mínimo que você precisa saber para não ser um idiota (sobre o qual talvez fale em breve). Ocorreu que, para desespero de seu alunado da USP e de seus fãs (se é que os tem), Olavo, como sempre, respondeu à altura e o desafiou publicamente para um debate sobre um tema qualquer a ser escolhido pelo mesmo Janine, que, até o momento, sequer se dignou a responder ao desafio.

Pasmado com tamanha falta de maturidade intelectual, resolvi, então, postar e explicar, de uma vez por todas, porque é dever de qualquer pessoa com mais de 10 anos de idade e de 2 neurônios ativos no cérebro assumir uma postura cética, ou seja, de desconfiança e de investigação própria perante o pregado pelos acadêmicos de terra brasilis (e de outros lugares também). Vamos, então, aos trabalhos.

Janine Ribeiro e a inexplicável Ética

Renato Janine no auge de suas ponderações sobre Ética…sqn

Como primeiro exemplo, usarei o próprio caso Janine. Apesar de ser professor de Ética da USP, parece que Janine, ao criticar Olavo, esqueceu-se de um dos princípios mais básicos para ser um intelectual de ética, que é o de criticar apenas o que conhece. Ao dizer, em sua crítica, apenas que o fato de Olavo de Carvalho ser bem vendido mostra o quanto o retardamento cresce com a tecnologia – e, ironicamente, o próprio Janine postou isso em uma rede social, talvez o mais representativo fruto da inovação tecnológica -, as únicas ideias que alguém pode ter do filósofo Renato Janine Ribeiro é que ou é um nome tão grande da Filosofia brasileira e mundial que pode desprezar todos os outros, ou simplesmente não leu a obra que está criticando.

O caso é que, ao ouvirmos sua mais recente entrevista ao programa Provocações (aqui, aqui e aqui), na qual ele nega peremptoriamente ser um dos grandes nomes da Filosofia, percebemos que, pelas próprias palavras de Janine, a primeira hipótese cai por terra e a segunda ganha ainda mais força.

Isto, porém, nem é o mais estranho. O mais peculiar é, ao longo de toda a entrevista, o professor de Ética simplesmente não só não conseguir chegar a uma definição mais ou menos razoável de seu objeto de estudo e ensino como também parecer mudá-la com as perguntas que lhe são feitas. Por exemplo, quando é perguntado sobre a Ética no jornalismo, o filósofo afirma categoricamente, mas sem definir antes o que seria esta ética, que um jornalista que segue a ideologia do patrão é, invariavelmente, antiético. O fato é que, se fosse um aluno em seu primeiro ano da iniciação “científica” (e entro nesta questão de o que é ciência mais tarde) tendo estas dificuldades e se contradizendo a cada segundo, teríamos, então, um desvio perdoável, exatamente porque tratamos com um iniciante. Para um pós-doutor e livre-docente, no entanto, a banda precisa tocar de um modo bem diferente, pois definitivamente não é viável pagar a alguém para estudar e ensinar conceitos sobre uma área que sequer sabe definir plausivelmente.

Mesmo com tudo isso, não posso dizer que o caso de Janine Ribeiro, o filósofo da Ética sem conceito e sem explicação, seja o pior dentro das universidades, nem que a dificuldade em definir um objeto de estudo seja, nas ditas Ciências Humanas, um problema crônico. O problema, aliás, é quando a área é definida até bem demais…

A “ciência” brasileira: Primeiro como farsa, depois como drama

Citei, em meu post sobre o Apelo à Autoridade, o seguinte exemplo dessa falácia:

“FALÁCIA II: “A ciência linguística já provou que não existem línguas simples ou complexas, mas sim línguas diferentes, logo o mesmo vale para variantes linguísticas e, portanto, é inadmissível dizer que tal fala é ‘inadequada'”. (destaque meu)” (SANTOS, O.H.C., 2013)

E destaquei, na ocasião, o apelo à ciência como única fonte possível da verdade e, portanto, como única fonte de respostas aceitáveis sobre qualquer assunto que seja. Isto, se fosse apenas “privilégio” de linguistas, sociolinguistas e crentes no Bagnismo em geral, não seria de muita ameaça, pois, apesar de acabar com qualquer crédito que essa área filosoficamente interessante e até mesmo bem fundamentada possa ter para um estudante mais ou menos sério, representaria um caso isolado e de forma alguma refletiria o estado atual das outras ciências. O problema é que, ao contrário do que parece, este tipo de cientificismo barato está se disseminando, já há muitos anos, como praga dentro de universidades.

Marcos Bagno em momento de profunda reflexão científica

Para poder ver isto mais claramente, basta prestar atenção aos dois discursos a seguir. O primeiro é do filósofo, sociólogo, antropólogo, sexólogo, biólogo, teólogo, filantropo e papa da sociolinguística, o já citado e criticado Marcos Bagno, e o segundo é o discurso mais comum contra o também já citado Olavo de Carvalho. Vejamos:

DISCURSO I: “Depois de muita discussão, pesquisa e reflexão sobre a necessidade ou não de ‘ensinar gramática’ na escola, os linguistas e educadores que propõem um ensino de língua mais sintonizado com as reais necessidades dos cidadãos concluíram que, definitivamente, não cabe mais desperdiçar o tempo e o espaço da escola com a tentativa infrutífera de inculcar nos aprendizes uma nomenclatura técnica interminável para ser aplicada em exercícios de análise sintática e/ou morfológica sem nenhum objetivo claro e definido. Com isso, podemos dizer, sem medo, que não é para ensinar gramática na escola” (BAGNO, 2011)

DISCURSO II: “Você lê Olavo de Carvalho? Mas que tolo, a Academia nunca levou esse cara a sério, ele sequer se formou em Filosofia“.

No primeiro discurso, de um dito cientista da linguagem cuja fidelidade ao método científico, como se verá, é de dar inveja a Allan Kardec, podemos perceber que não só é invocada a autoridade anônima de linguistas e educadores (ou seja, dos “cientistas”, os únicos que podem saber a verdade sobre determinado assunto), como de pessoas que querem atender às reais necessidades do cidadão. Muito curiosamente, não se mostra nem como esses linguistas chegaram a essa conclusão, nem como se definiu quais são as “necessidades dos cidadãos”, quanto mais como se fez para definir o que são “cidadãos” – se são tomados, no caso, como indivíduos ou como massa amorfa útil para a teologia progressista (e, sim, isto faz total diferença).

Fico muito curioso, então, em saber qual seria a reação de Karl Popper ao ver tudo o que disse sobre a necessidade da Falseabilidade em ciência ser jogado, sem dó nem piedade, no lixo. Imagino que seria algo parecido com isto:

“Você desprezou minhas filosofias da ciência… PARA ISSO?”

Mas, enfim, indo agora ao segundo discurso, vemos, desta vez, a estratégia toda mais claramente, certo? Afinal, mesmo sendo o maior dos reacionários, se Olavo de Carvalho passasse pela Academia, ele seria aceito por muitos, não é mesmo?

A isto, amigo leitor, respondo: Errado. E explico o porquê.

A miséria da filosofia e das ciências e a ascensão da ideologia

“O povo é sempre opressor. Marx e Rousseau são dois mentirosos”

Vendo o exemplo de Olavo de Carvalho, poderia parecer que, fosse ele formado, mestrado e doutorado, não haveria nenhuma rejeição a seu trabalho e ele seria, como se intitula, considerado, por todos, um filósofo. Acredita-se nisto, porém, até se saber que o cidadão acima, o filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, não só tem doutorado como pós-doutorado e, mesmo assim, é achincalhado e tem seu trabalho filosófico reduzido a nada pelos seus adversários políticos. Mas, afinal, sendo ele, de fato, formado filósofo, qual seria a razão para não lhe dar, segundo a lógica do segundo discurso, este título?

O detalhe, amigo leitor, é que, no fundo (e no raso, sejamos francos), não interessa, tanto aos acadêmicos quanto aos intelectuais progressistas brasileiros em geral, quais os conceitos utilizados e qual a formação (ou não) de Pondé e Carvalho. O que interessa é se o que eles dizem, não importando se em obras teóricas ou em informais programas de televisão e internet, desafia ou não os dogmas defendidos, com unhas e dentes, pelos teólogos do Progressismo, talvez a degeneração mais pobre do já intelectualmente paupérrimo Marxismo.

Isto, para quem conhece o progressismo, significa, na prática, que só se poderá fazer filosofia ou ciência “respeitada e pautada pela Academia” se dermos vários saltos de fé e aceitarmos, sem maiores questionamentos, premissas como “O homem é bom, mas a sociedade capitalista o corrompe” (e aqui Rousseau fica entre o choro e o riso), “a sociedade se divide entre opressores e oprimidos” (Paulo Freire e seu séquito marxista de seguidores vão ao delírio), entre outros.

O real problema, no entanto, não é se estas premissas estão corretas ou não, mas sim a limitação que se impõe à criatividade e ao processo de aquisição de conhecimento pelo qual o cientista, antes de sê-lo de fato, deve passar, pois, para sequer se questionar (ou sequer querer se questionar) sobre esses dogmas, poderá ler apenas autores que corroborem, de antemão, com as conclusões a que quer chegar, o que vai na contramão de todas as considerações razoáveis já formuladas sobre o modus operandi das ciências.

Como não ser minimamente cético, então, perante uma instituição que aplaude de pé e dá título de filósofo a pessoas que incitam o ódio entre as classes (se é que estas existem) e de cientista político a quem reduz todo o problema da violência à desigualdade social enquanto despreza aqueles que, em sua visão, são meros “reacionários”, mas que, de fato, apenas representam uma visão diferente?

Encerro os trabalhos por aqui e deixo esta pergunta e um trecho de “A Ordem do Discurso”, obra de um dos ídolos-mores da esquerda, Michel Foucault, para o leitor poder ver que, como se diz no popular, “o buraco é mais embaixo”

“Daí ele disse: só acredito na ciência, huehuehuehuehue”

“A disciplina é um princípio de controle da produção do discurso […]Geralmente, se vê na fecundidade de um autor, na multiplicidade dos comentários, no desenvolvimento de uma disciplina, como que recursos infinitos para a criação de discursos. Pode ser, mas não deixam de ser princípios de coerção; e é provável que não se possa explicar seu papel positivo e multiplicador, se não se levar em consideração sua função restritiva e coercitiva” (FOUCAULT, 2012)

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e estuda “marroumenos” a filosofia. Garante que a esquerda seria ao menos mais inteligente se realmente lesse os seus ditos ídolos.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 14/09/2013

Obras Consultadas:

BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico: o que é, como se faz. 54. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2011.

FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. 22. ed. São Paulo: Edições Loyola, 2012.

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