(An)Alfabeto

Ah, como somos engraçados alguns universitários. Reclamamos da “opressão” e do “preconceito”, mas, além de não definirmos precisamente este, também não escondemos nem criticamos nossas próprias intolerâncias e, fora o fato de citarmos outras regras cujas razões de existência desconhecemos para lutar contra o “preconceito”, demonstramos, cada vez mais, quase completo desconhecimento das regras que, em nossas férteis imaginações, geram a tal “opressão”.

Aliás, voltando à intolerância, somos também nós que, em nome “do mundo melhor”, do “senso crítico” e da “diversidade” – o que quer que tudo isso signifique, pois, novamente, nada se define, tudo se cria e se transforma de acordo com o contexto social e histórico, como nos ensinaram os materialistas históricos -, endossamos,  com base em conhecimentos sociológicos e filosóficos indignos até mesmo da mesa de bar, todo tipo de ato contra a democracia e contra o que, em outro de nossos delírios, convencionamos chamar de “liberdade de opressão”, termo este que, convenhamos, só não consegue ser mais vago do que, pasmem, os já citados “preconceito” e “opressão”.

Sobre Filosofia, nada conhecemos. Como só lemos aquilo que nos toma menos do que duas horas e alguns neurônios, nada sabemos sobre Nietzsche, Marx, Kant, Descartes e tantos outros grandes nomes da Modernidade. Dos clássicos, então, só lemos Aristóteles, e ainda assim em um de seus livros mais curtos e menos densos, pois não curtimos “Política” e desconhecemos “Retórica”. Conhecemos, no máximo, os leitores dos leitores de Marx e Nietzsche – Kant e Descartes nem pensar, pois são “reaças” -, cujas ideias são expostas, como sempre, exclusivamente com base na pobreza materialista histórica e dialética, das quais toda a sorte de ideias também são vítimas.

Digo, porém, que nós é benéfico conhecer nada mais do que um pouco menos do que nada sobre todos esses grandes autores. Afinal, se lêssemos Nietzsche, teríamos de admitir que o antiteísta alemão, apesar de toda sua desagradável misoginia, conseguiu prever muito bem o quão falho é nosso discurso pós-moderno baseado em um igualitarismo fantástico e em uma democracia ainda mais patética do que a ateniense e o quão medíocres somos ao nos submeter a tudo o que prega a cartilha da universidade.

Já se lêssemos Marx, nos veríamos forçados a assumir que, mesmo rejeitando a pecha de “marxistas” – afinal, professor não pode se meter em política! (especialmente se for membro da extrema-direita-psdbista-fascista-homofóbica-machista-conservadora, diga-se de passagem) -, além de não nutrirmos qualquer simpatia por nem tolerarmos quem prega a parcimônia ante as mudanças nos costumes e/ou um alto de grau de autonomia do Mercado e do indivíduo perante o Estado, também nos é, apesar de todo nosso “raciocínio crítico e liberto do preconceito”, muito conveniente que nossas áreas sejam, talvez, as mais afetadas pela histeria materialista histórica e dialética, aquela que tudo reduz a contexto “social e histórico” e ao binômio “opressor x oprimido” (que, curiosamente, é muito parecido, conceitualmente, ao dualismo religioso entre “bem” e “mal”).

Kant, então, nem se fala. Já nas primeiras páginas, descobriríamos que estamos, apesar de pensarmos o contrário, muito longe do Esclarecimento. Com Descartes, então, descobriríamos que, de cientistas, temos um pouco menos do que nada, pois sequer nos apoiamos, para começo de conversa, em ideias claras e distintas. Já Aristóteles, com seus argumentos demolidores contra o relativismo cultural, nos forçaria, já de cara, ao famoso gemido grego, mas, como somos coletivistas, falaríamos, ao invés de “ai de mim! ai de mim!”, “ai de nós! ai de nós!”, em um gesto digno do mais frouxo dos coros.

Enfim, cansei de falar de nós com tantos detalhes. Se o leitor realmente quer saber, a piscina de nossos gurus está cheia de ratos – e nossas ideias só correspondem aos fatos que nós, com nossas incríveis habilidades de análise, interpretamos histórico-dialeticamente – e nossos inimigos estão sempre no poder, enquanto nossos heróis morrem só de velhice, não de overdose. Outro dado interessantíssimo é que nos pensamos Drummond, mas não conseguiríamos chegar sequer a Paulo Coelho, quanto mais ao que parafraseei neste parágrafo, que morreu um tanto longe da Praia do Leblon.

Quem somos nós? Pergunte ao neon, amigo leitor, pergunte ao neon enquanto posto, aqui embaixo, uma homenagem aos meus companheiros

HOMENAGEM: Uma imagem com 7 palavras vale mais do que 1000 palavras:

Tradução (da qual alguns de nós não necessitam): “Vocês todos são um bando de socialistas”

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Terá tanto orgulho do diploma quanto tem de ser sobrinho do tio do primo do irmão do brother da irmã da mãe da contraparente que nunca teve.

*Originalmente publicado em “O Homem e a Crítica” em 14/07/2013

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3 comentários

  1. Saudações!
    Comecei recentemente a ler seus pensamentos, e sempre acrescenta muito suas idéias e reflexões.
    Deixando agora a rasgação de seda, quero te perguntar qual a sua opinião sobre a carta aberta do Rodrigo Constantino para a conhecida atriz (que agora me foge o nome)? E sobre outros podicionamentos do Constantino?

    Desde já agradeço e Keep on rockin’

    1. Marco,

      Obrigado pelos elogios.

      Bom, não vi a tal carta do Consta, mas, sobre seu pensamento em geral (cultura, por exemplo), não acho muito especial não, cara. Apesar de ele acertar a mão muitas vezes, não é nada que eu já não tenha visto melhor em Olavo, Pondé, Reinaldo Azevedo ou mesmo, mais recentemente, Felipe Moura Brasil. Sobre o pensamento econômico dele, nada conheço, então não darei palpite.

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