Eu, Apolítico – A Marcha do Fracasso – Da série “Eu avisei”

Ouviram do Ipiranga as margens plácidas / A Marcha do fracasso retumbante – Este blogueiro sobre os resultados do tema deste post.

Já deve ser mais do que fato notório para os amigos leitores que, de fato, a super-hiper-mega-ultra-blaster-conservadora Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo: O Retorno – e nunca é demais frisar, pela cinquentésima vez, que colocar “O Retorno” em um título de uma marcha dita séria já é, per se, um tiro no pé, visto que esta indicação não é adequada nem em filmes do Batman – foi, na verdade, em homenagem ao hino da pátria que estes ultraconservadores dizem defender, um fracasso retumbante (diga-se de passagem, retumbantíssimo).

Apesar do título, porém, não vim fazer este post apenas para dizer que eu, Gustavo Nogy, Francisco Razzo, Luciano Ayan, Arthur Rizzi Ribeiro, Olavo de Carvalho, Heitor de Paola (acusado, aliás, por uma das organizadoras do evento de ter sido comprado pelo comunismo para denegrir a Marcha) et cetera avisamos, desde que ouvimos os primeiros rumores, a todos, marchantes ou não, sobre o futuro e sonoro fracasso. Quero, na verdade, mostrar os resultados provisórios da tal Marcha. Bialmente falando, então, aos trabalhos.

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“Leio: Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo 2014
Penso: Só podem ser funkeiros.” – A reação de Francisco Razzo ao tomar conhecimento dos planos dos autointitulados representantes do conservadorismo brasileiro.

Ruído sem Silêncio – A sátira nas reportagens e nas charges da esquerda brasileira

Em seu livro Silêncio e ruído – A sátira em Denis Diderot, o professor de Filosofia da USP, Roberto Romano, explica-nos, para melhor compreensão da obra diderotiana O Sobrinho de Rameau, que seu escritor, o iluminista Denis Diderot, foi não só especialista como também teórico da arte da sátira, ou, nas palavras de Romano, a arte de fazer escárnio com o que já é, naturalmente, feio (ou, em linguagem de teoria literária e da arte, grotesco).

Lamentavelmente, porém, a nossa direita resolveu, aparentemente, restringir-se apenas à leitura de um artigo ou outro de Reinaldo Azevedo ou Olavo de Carvalho (quando muito, porque desconfio que nem estes eles, de fato, leram) e não se atentou ao fato de que, antes de qualquer movimentação política própria, a esquerda se especializou, justamente, em tornar o outro lado, para o público, o grotesco e, a partir disso, fazer todo tipo de piada medíocre para acostumar a plateia a não considerar esse mesmo lado digno de qualquer atenção ou de qualquer tratamento humano.

É no site Pragmatismo Político que vemos uma compilação de imagens contra essa Marcha, e uma compilação contra a qual nenhum ou quase nenhum apoiador da atual Marcha pode objetar, pois a causa principal, para muitos deles, é, justamente, fazer os militares voltarem ao poder. É, como diria Gustavo Nogy no artigo linkado parágrafos atrás, uma lição de lógica: Fechar o Congresso de maioria esquerdista (incluindo, aí, a tirada de poderes de antiesquerdistas como os membros da família Bolsonaro) para evitar que os esquerdistas fechem o Congresso. Ou seja, mal se pode dizer que a Marcha defendeu valores democráticos, pois, por mais que se acredite na ameaça comunista, não é possível, a não ser por um movimento novilinguístico indigno do pior dos cretinos, negar que, ao menos formalmente, o regime militar não foi democrático, mas ditatorial, e que, no fim, evitar um totalitarismo com um autoritarismo composto por pessoas que sequer são as mesmas de 1964 (ou seja, que podem ser, eles mesmos, da extremíssima-extrema esquerda) também não é lá uma grande opção, ao menos em termos de liberdade individual, que os marchantes diziam ser uma de suas bandeiras.

Também José Simão, famoso cronista “nem-de-direita-nem-de-esquerda” (isto, lógico, considerando o PSDB como a “extrema-direita” brasileira, id est, não entendendo porra nenhuma de política), fez sua sátira, o que será seguido, sem dúvida, por gente do mais alto calibre literário, entre eles Gregório Duvivier, Clarice Falcão, Fábio Porchat (o comediante mais sem graça da história deste país), Antônio Prata, Marcelo Rubens Paiva, Leonardo Sakamoto e mais um bando de esquerdistas que vemos pululando internet afora.  Obviamente, estes também farão a velha associação entre o regime militar, os novos militaristas e a “velha direita conservadora-cristã-patriarcalista-homofóbica-transfóbica-gordofóbica-ateofóbica-racista” e, por corolário, desmoralizarão ainda mais a atual direita brasileira.

O primeiro resultado dessa Marcha? Ei-lo. Mais grave, porém, para qualquer um que não compactue com as ideias da esquerda, é, foi e será o segundo.

O vitimismo esquerda-esquerda volver

É também no site Pragmatismo Político que vemos, já, o segundo resultado, desta vez ainda da divulgação da Marcha, mas que, obviamente, também será estendido à Marcha em si: O vitimismo da esquerda, seja em nome das minorias – que, curiosamente, não foram, até hoje, consultadas pela esquerda para saber se querem sua defesa ou se concordam com os valores esquerdistas -, seja contra os malvados direitistas opressores que só querem saber de ditadura e repressão a movimentos sociais (como se os gulags stalinianos fossem, certamente, um poço de democracia, mas sobre isso nem uma palavra).

Para situá-los melhor, no dia de ontem, um certo Marcos Sacramento publicou, no supracitado site, uma carta aos “marchantes” desafiando-os a, ao invés de fazerem Marcha contra o que acham errado – achar, aliás, qualquer coisa que a esquerda faz errada, pelo visto, parece ser um pecado mortal e, futuramente, um crime inafiançável -, marcharem por Cláudia Ferreira da Silva, mulher negra brutalmente assassinada em um tiroteio no Rio de Janeiro e mal socorrida pela PM.

Não entrarei, aqui, no mérito das falácias de Sacramento, entre elas a de associar, como a esquerda em peso, todo crime praticado contra negros a racismo (um negro rico, ao ser assaltado, sofreu, então, necessariamente, racismo?) e todo crime praticado contra mulheres a machismo ou misoginia (uma policial morta em um tiroteio por meliantes seria, também, uma vítima de machismo?) mesmo sem examinar direito o caso, e a de desconsiderar completamente a ideia de um partido declaradamente comunista querer implantar uma ditadura comunista, isto apesar das atas do Foro de São Paulo e das tentativas diuturnas dos petistas de controlar a transmissão de informações. Também não entrarei no mérito de ele ter citado outros casos contra os quais seria pertinente lutar, pois, muito curiosamente, não se vê a própria esquerda, que diz lutar contra essas injustiças, organizar uma Marcha com objetivos tão claramente definidos quanto os dos novos militaristas da direita.

Acontece que, apesar dos erros óbvios de Sacramento, o erro maior, em termos de estratégia, foi da direita ao ter preferido a apelação a um grupo que já perdeu a maior parte de sua força no Brasil à guerra cultural, esta que, apesar de mais demorada, traria, efetivamente, mais resultados. Com isso, o máximo que fizeram foi dar ao Pragmatismo Político, ao PCO (aquele partido que considera o PSOL da direita e que, mais uma vez, acusou o “imperialismo americano” de tudo), a Marcos Bagno (que, aposto e ganho, escreverá, na próxima edição da Caros Amigos, alguma coisa sobre língua e “imperialismo cultural” para atacar os marchantes da “extrema-direita hidrófoba”), a Leonardo Sakamoto (que também escreverá, além de uma de suas sátiras vagabundas, um texto vitimista), à Socialista Morena, a Emirados Sáderes, a Vladimir Safatle e ao resto do bando esquerdista nada mais nada menos do que munição contra qualquer um menos esquerdista do que o PT (ou seja, qualquer um que não seja da extremíssima-extrema esquerda) para os próximos dez anos.

Ah é, mas eu também devo ter sido pago pelos comunistas para desmoralizar os 50 (sim, vocês não entenderam errado, foram só 50 indivíduos mesmo) da Marcha de BH, não é? Peço mil perdões, mas, parafraseando o Jacques de Diderot, certamente estava escrito lá em cima, pelo criador do grande rolo, que isto aconteceria entre nós e que vós seríeis os que me acusariam de trair um movimento e que eu vos lembraria que paranoia tem limites.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e, vez ou outra, aprofunda-se na Filosofia. Não precisou ter acesso “ao grande rolo” para saber, pelo criador deste, o resultado fecal da Marcha.

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11 comentários

  1. Não precisava ser um gênio pra prever o fracasso da Marcha , na questão quantitativa, os números nas redes sociais apontavam ,eu sempre fui um critico do conservadorismo, mas sinceramente eles merecem meus parabéns , apoio qualquer mobilização anti esquerda , aprendam liberais.

      1. Acredito que qualitivamente eles cumpriram com o seu papel, imagina um protesto com uma média (fraquíssima ) de 2000 pessoas no centro de São Paulo, o retorno midiático foi até razoável , só uma pesquisa básica no google ajudar a tirar as duvidas, não houveram feridos ou qualquer problema mais grave com a policia, o estresse como de costume ficou no lado da esquerda com a “pacifica e democrática” Marcha Anti-fascista…esses sim conseguiram se nivelar por baixo, bem baixo mesmo , tentando confrontar a reedição desastrada rsrsrsrs.

      2. Thiago Brum,

        Depende do que você chama de cumprir papel, cara. Se foi o papel de dar argumento para a esquerda ridicularizar e demonizar a direita (como demonstrei no texto) pelo resto do ano (e, quiçá, da década), aí cumpriram mesmo.

  2. A esquerda demonizar alguém kkkkk , rapaz você está bem por fora dos acontecimentos do ano , quanto a ridicularizar até concordo, mas é preciso ser seletivo (negativamente) para obter informações através da imprensa , poderá ler algo risível na carta capital , brasil 247 ou até mesmo no pragmatismo politico.

    Sugiro que assista esse vídeo

      1. Realmente essa dissociação ajudou muito a enfraquecer a esquerda , hoje correm como baratas tontas, antigos apoiadores , transformaram-se traidores , partidos socialistas mais ponderados se tornaram extrema-direita , essa dificuldade de compreender o conceito direita e esquerda me preocupa, acredito q eles precisam se reciclar pois parece q pararam no tempo , talvez no ano de 1960 e Paulo Freire continua vivo e seja um promissor visionário na educação.

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