O São Paulo Fashion Week das Falácias – A moda progressista de Gregório Duvivier

Após ler a brilhante resposta do economista liberal Rodrigo Constantino a Gregório Duvivier sobre o novo espantalho deste contra os “reaças”, resolvi também posicionar-me e descer o cacete nisto que se convencionou chamar de artigo.

Antes, porém, cabe um breve histórico. Já falei de Gregório Duvivier, as far as I can remember, pelo menos duas vezes neste blog. Entretanto, não cheguei a dizer o que penso sobre isto que se convencionou chamar de, como se diz?, “humorista” ou “comediante”. Há algum tempo, venho desenvolvendo uma teoria de que descrever todos os esquerdistas atuais pura e simplesmente como “mulas” é de grande injustiça. Afinal, há, pelo que pude observar, ao menos dois tipos de esquerdistas: Os mulas lato sensu, ou seja, aqueles que, apesar de infectados por essa grave doença mental, ainda conseguem, com um resquício de inteligência (o que eles chamam de “pensamento crítico”, seja lá o que isto for), pelo menos criar novos parâmetros para servirem de guias ao segundo tipo de mulas, id est, os mulas stricto sensu, aqueles que ou são simplesmente militantes fanáticos ou apenas reproduzem as mesmas lorotas de sempre com, no máximo, uma roupagem aparentemente nova.

Não é difícil ao fiel leitor, então, perceber que é na segunda categoria (especialmente após ter levado sua segunda surra de Rodrigo ao falar “não concordo com Mises nem com o conceito de Estado Mínimo”) que Gregório deve ser encaixado, assim como seus colegas de ideologia Leonardo Sakamoto, Lola Aronovich, Cynara Menezes, Vladimir Safatle, Emir Sader, Gilberto Felisberto Vasconcelos et caterva. A única diferença é que, ao contrário destes, Gregório parece apenas ser um reprodutor de lorotas, e não um militante fanático. Ou será que não?

Inventando moda e assassinando a lógica

Nosso Plauto sem grife (e sem graça) começa seu artigo com uma interessante propaganda:

Aproveitando essa onda reaça que tá super-mega tendência, a gente está lançando toda uma coleção pra você, jovem reacionário, que quer gastar o dinheiro que herdou honestamente na sociedade meritocrática -apesar dos impostos, é claro.

Fora o fato de aparentemente ignorar que 40% de taxas não é algo razoável sob qualquer perspectiva normal que se queira (e isto, ao contrário do que aparenta pensar Gregório, vale tanto para os mais pobres quanto para os mais ricos), é estranho que, já no início, Gregório, ao invés de pegar um grupo inteiro para criticar, reduza todo o seu escopo apenas aos jovens reacionários herdeiros de algo. Imagino, porém, que não era esta a intenção do Sakamoto sem doutorado, e que a real intenção era passar ao leitor a impressão de que apenas pessoas com posses (ou seja, ricos ou de classe média-alta e, principalmente, filhinhos de papai) poderiam ser, em sã consciência, reacionários.

Isto, contudo, é fácil de desmentir ao nos perguntarmos quais seriam as  grandes posses de gente como Nelson Rodrigues, João Guimarães Rosa, Olavo de Carvalho, Reinaldo Azevedo, Flávio Morgenstern, Gustavo Nogy, Francisco Razzo ou mesmo do próprio Rodrigo Constantino.  E o argumento de Gregório, o Górgias inapto, fica ainda mais comprometido quando perguntamos quais eram as grandes posses de todos esses e muitos outros antes de entrarem para o mercado de trabalho (para Nelson, por exemplo, nem isso resolveu) e, principalmente, quantos anos de trabalho foram necessários para que conseguissem tais posses.

Flávio Morgenstern ao saber a opinião de Gregório Duvivier sobre sua conta bancária.

Gregório, não obstante, parece, além de não saber o que são espantalhos e argumentos “ad hominem”, também estar pouquíssimo preocupado com as leis da lógica e da coerência de um texto:

Pode guardar a camiseta fedida do Che Guevara e raspar essa barba de Fidel. A moda guerrilheira é muito 2002. Quem tá com tudo neste outono é o jovem reaça. A moda é cíclica, gatinhos!

Peraí… Se está se dirigindo ao jovem “reaça”, por que mencionar a camiseta Guevara? Será que, chestertonianamente falando, Gregório supôs que essas pessoas teriam primeiro passado por uma fase de comunismo para depois, após anos, aprenderem o óbvio, ou seja, que “toda ação implica uma reação”? Ou será que tanto humor o fez confundir as bolas?

Fascistas! Fascistas!

Vem, em seguida, mais uma sorte de truques já batidos do esquerdismo nacional. O primeiro deles, é óbvio, em referência a esta data, é associar “reaças” a militares:

Nesta estação, vamos aproveitar o aniversário da revolução democrática e tirar do armário a fardinha verde-oliva do vovô. E o melhor: não precisa nem limpar as manchas de sangue. Super orna.

Poderia até gastar mal traçadas escrevendo, aqui, que existem diversos tipos de reacionários e que nem todos são militaristas (alguns, por exemplo, são monarquistas; outros, como Reinaldo e Constantino, são liberais), mas prefiro entrar, ao menos por hora, no jogo de Duvivier. Afinal, se ele pode associar todos os que não concordem com o conjunto de falácias, posso associá-lo, por corolário, a antirreacionários, dentre eles Stálin, Lênin, Mao Zedong, Pol Pot, Slobodan Milosevic ou, para deixar a coisa um tantinho menos genocídica, os próprios irmãos Castro de Cuba. Resta, então, a indagação: Como será que Gregório, quando põe sua camiseta de Guevara, se sente ao ver que não tem como limpar os mais de 150 mil mortos pela ditadura castrista? Como dito, aliás, nem vou usar os mortos por limpeza étnica de Milosevic para não deixar a situação duvivieriana tão complicada, mas os que quiserem adicioná-los, também, sintam-se à vontade.

Em segundo lugar, mas não menos importante, vem um dos gritos primordiais dos comunistas: Fascistas! Fascistas!:

O último grito do outono fascistão é defender os valores tradicionais e ressuscitar velhos chavões: direitos humanos para humanos direitos, bandido bom é bandido morto, Deus não fez Adão e Ivo.

Mas gente, olha que crime! Pessoas que vivem em um país com mais de 50 mil estupros ao ano sentem que os estupradores, ao contrário da ladainha da esquerda, devem ser rigorosamente punidos. Mas que reacionarismo!  E imagine só, cidadãos que precisam se preocupar com 50 mil homicídios ao ano querendo que latrocidas, homicidas qualificados e abusadores de incapazes pereçam! Como assim eles não veem que, por causa da pobreza e da falta de oportunidades, esses criminosos não puderam apenas roubar e tiveram de matar com requintes de crueldade também? (Nardoni mandou um abraço, by the way)

Mais absurdo, ainda, é esse papo de que as pessoas devem ter a liberdade de expressarem suas crenças religiosas em público. Mas como vocês têm coragem de não admitir que deuses comprovadamente não existem (ateofóbicos!!!) e que o que existem, na verdade, são tantos gêneros quanto há pessoas no mundo (transfóbicos!!!)? Ah, pera, como é essa história aí de que, nos regimes comunistas, os homossexuais também sofreram? Mas quanta mentira reacionária!

Falando em mentira, aliás, o argumentum ad hitlerum perdura por mais alguns parágrafos:

Nossa coleção – que será lançada amanhã, no prédio do DOI-Codi- foi feita pensando em você, cidadão de bem, branco, católico, heterossexual, rico, com as pernas no lugar, funcionando direitinho. Você é o homem da minha coleção. Olha só esse soco inglês: é a sua cara. Vestiu bem, homem da minha coleção. Combina com sua correntinha.

O homem da minha coleção anda armado e se algum viado der em cima dele ele diz que atira na testa. O homem da minha coleção transa com travesti mas se arrepende logo em seguida e enche a bicha de porrada. O homem da minha coleção casou na igreja com a mulher da minha coleção num casamento celebrado pelo padre da minha coleção, homofóbico, racista e com um sotaque ininteligível apesar de nunca ter saído do Brasil.

Antes de qualquer comentário sobre esse tal homem, gostaria de apresentar, ao nosso amigo sofista de boteco, o reaça negro São Black.  Também gostaria de me apresentar, afinal, sou um reaça ateu. Por fim, adoraria apresentar o já citado Flávio Morgenstern, que, além de ateu, é o reaça que mais reclama de estar sem um tostão no bolso na face da terra. O recado, então, não nos é direcionado, Gregório? Ou precisamos nós dar-vos nossas certidões de nascimento e nossos extratos bancários?

Agora, sim, sobre o tal homem, o que posso dizer é que, obviamente (e Gregório sabe muito bem disso), a tal caricatura não corresponde, nem de longe, ao real. Caro Gregório, permita-me esclarecer-lhe: O “reaça”, como você diz”, e principalmente o “reaça” católico, conhece muito bem um princípio chamado dignidade humana, ou seja, não será ele que irá lá descer porrada em um homossexual que o cante nem será ele que irá procurar um travesti para um relacionamento (aliás, muito curiosamente, exemplos deste tipo de crime em específico são raríssimos. Estaria Gregório, então, falando para as paredes?). Quem poderia muito bem ir descer porrada em um homossexual seria, certamente, um stalinista ou maoista fanático, pois seus ídolos, pelo que me consta, não eram muito afeitos à homossexualidade, assim como o próprio Marx não o era. Caso encerrado, então?

Em seguida, Gregório apela ao feminino:

A mulher da minha coleção critica periguetes porque elas não se dão valor -chama isso de feminismo.

Olhem só outro absurdo! Mulheres criticando o comportamento de outras mulheres. Mas, espera, como é mesmo essa história de que as feministas também criticam as mulheres que resolvem ser donas de casa?

Saia curta, nem pensar. “Depois reclama quando é estuprada…” A mulher da minha coleção acha que mulher gorda devia evitar sair de casa. “Ninguém é obrigado a ver gente obesa.”

A mulher da coleção duvivieriana, assim como o homem, é, antes de reaça, uma boçal. Também não preciso dizer, aliás, que no paraíso que Gregório nos planeja o tema “estupro” não era muito debatido, certo? E que, da mesma forma, não é muito fácil determinar quantas das mulheres pensam realmente assim, não é? (E, sim, “merecer” tem muitos sentidos).

A mulher da minha coleção finge que não sabe que é traída pelo homem da minha coleção e se vinga estourando o limite do cartão de crédito do homem da minha coleção que por sua vez finge que não sabe e se vinga saindo com outras mulheres da minha coleção.

Essa mulher, então, além de trouxa, é canalha e indigna, pois esta é a única definição plausível em qualquer vocabulário para uma mulher que se submeta a uma situação dessas (e, não, ela não parece passar grandes apuros financeiros se pode se dar ao luxo de estourar o cartão de crédito do marido).

Muito curiosamente, aliás, é a coleção de Gregórios, Clarices e Porchats que, recentemente, vem fazendo fortes campanhas em prol dos chamados “relacionamentos abertos”, que, na prática, são nada mais do que a legitimação da traição e da vida poligâmica. Mais curiosamente ainda, o homem e a mulher da coleção de Gregório não parecem estar dispostos a esta prática. Estranho, não?

Felizmente, tanto para o leitor quanto para mim, a propaganda duvivieriana finda-se, infelizmente (ou felizmente, quem sabe?) com mais besteiras:

Nosso it boy, claro, é o coronel Paulo Malhães, torturador chiquerésimo que deu depoimento à Comissão da Verdade usando um puta óculos escuros Prada de aro dourado, onde assumiu ter perdido a conta de quantos cadáveres ocultou. Divo. Viva a revolução -democrática.

Além da reclamação sakamotiana sobre os óculos do coronel (que, presumo, assim como para Gregório como para Sakamoto, está ostentando em excesso), salta aos olhos o fato de que, ironicamente, Gregório se utiliza de uma afirmação do coronel para mostrar como foi sanguinária uma ditadura que, no total, matou, no limite, 500 pessoas contra 200 de seus adversários. Não seria difícil, então, para o general perder a conta, especialmente se foi incumbido de mais de uma dezena de cadáveres e de todas as outras obrigações que um militar naturalmente tem. Imagino, então, quantos generais da época de Lênin e Stálin, caso ainda estivessem vivos, teriam falado sobre perder a conta do número de cadáveres que lhes foram delegados. E viva a revolução… bolchevique.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Considera que, como publicitário, Gregório Duvivier é um ótimo comediante e, como comediante, deve ser um ótimo professor de educação física.

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5 comentários

  1. Não sei o que foi mais engraçado o texto acido do Duvivier, ou vc caindo no mesmo erro ridículo do Constantino, ao não saber escrever de forma bem humorada a um texto com um base cômica.
    Alem disso esperava algo mais nesse dia vindo de vc visto que hoje é a data do acontecimento mais importante da história do Campi universitário que vc estuda.

    1. Antonio,

      Se o texto me tivesse feito rir, teria respondido com piadas e não com ironias.
      Sobre o Ibilce “democrata”, respondo com uma paródia de Drummond: “Mundo, mundo, mundo, mesmo que me chamasse Raimundo, preferiria viver no Brasil e não no Cubão. Mundo, mundo, mundo, mais imundo é só do comunismo o passadão.”

      1. Cara o que eu quis dizer é que hoje faz 50 anos da invasão da FAFI em que a polícia em horário de aula invadiu as salas da faculdade e prenderam mais de 50 professores, hoje também morreu o maior historiador vivo no mundo “Jaques Le Goff” que mudou a visão do mundo sobre história e sobre a Idade Media e vc me fala de um texto fraco do Duvivier! PQP.

      2. “Cara o que eu quis dizer é que hoje faz 50 anos da invasão da FAFI em que a polícia em horário de aula invadiu as salas da faculdade e prenderam mais de 50 professores”

        Nossa, cara, quanta relevância para o contexto atual! Olha só, fico abismado com tanta relevância.

        “que mudou a visão do mundo sobre história e sobre a Idade Media”

        Foi ele que quebrou o mito da Idade das Trevas? Se foi, lamento. Se não foi, foda-se.

      3. “Nossa, cara, quanta relevância para o contexto atual! Olha só, fico abismado com tanta relevância”
        Eu fico abismado que você não se preocupe com a história do seu cotidiano, ou seja da cidade aonde mora, da faculdade que estuda, um fato como esse revela bem mais do que aparenta sobre o contexto atual, seja da universidade seja da cidade, realmente vc precisa ler sobre historiografia!

        “Foi ele que quebrou o mito da Idade das Trevas? Se foi, lamento. Se não foi, foda-se.”
        Bem basicamente ele for um dos formuladores de uma das teorias históricas mais influentes na atualidade e demonstrou que a Idade Média é uma época bem mais profunda do que imaginamos! Le Goff era uma das figuras vivas mais importantes que tinha-mos.

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