Notas Mensais – Março – Abril 2014

Umas palavras sobre ditaduras

Que me perdoem os amigos da direita (e aqui não quero ser polêmico, juro, apenas reflexivo), mas não sou daqueles que acreditam no esquerdismo inerente de toda ditadura. Sou dos que, aliás, frisam sempre que devemos nos lembrar de que, antes de o autoritarismo ou o totalitarismo serem ligados a doutrinas políticas específicas, ambos têm, em graus diferentes, o mesmo objetivo: A imposição de valores ideológicos, filosóficos, religiosos, enfim, de valores sociais, no sentido de que devem ser seguidos e aceitos pela maioria da população.

Neste sentido, apesar de os valores da esquerda serem quase impossíveis de serem completamente acatados sem um totalitarismo nojento (e é só ler o “Manifesto do Partido Comunista”, de Marx e Engels, para enxergar isso), isto não significa que o lado oposto, o da direita, esteja totalmente imune a qualquer tipo de totalitarismo ou, no mínimo, de autoritarismo.

É útil pensar, neste sentido, que, mesmo que o conservador adote a força estatal como a última alternativa a ser usada, esta ainda é uma alternativa, e que um fanático protestante ou católico, por exemplo, sob o pretexto de que os valores estão ruindo ou de que os valores aceitos por determinada sociedade são falsos ou estão deturpados, pode, sim, usar a força coercitiva do Estado a seu favor (e, em muitos casos, a seu bel-prazer) e, “pelos valores”, instaurar desde um autoritarismo leve até um totalitarismo nos moldes de 1984.

Esta, aliás, é uma das razões pelas quais não sou anarcap ou libertário: Não confio, sinceramente, que, sem a força do Estado como um obstáculo (por menor que seja), certos grupos religiosos, em nome desses valores e com o apoio de seus seguidores, não queiram e não consigam nos levar a um estágio semelhante ao feudalismo, no qual “liberdade de expressão”, com as diversas ameaças de invasão por bárbaros, não estava exatamente in voga.

De qualquer modo, é importante lembrar que, por menos totalitarista que tenda a ser, é muito difícil provar que a direita esteja completamente imune a isso. Afinal, uma ditadura, antes de qualquer coisa, não é, senão, uma forma de sobrepujar os valores de um lado oposto e impor novos ou velhos valores ao povão.


Patriotas e patriotadas

Patriotas, fazendo suas patriotadas,afirmam que, depois de postarem um vídeo sobre a grande e bem sucedida Marcha que reuniu, OH, 5 mil pessoas em uma cidade com mais de 10 milhões, verão “os que atacaram a Marcha morrendo de raiva”. Realmente, estou morrendo… de dar risada.


Segundas patriotadas

Militaristas (não só, mas principalmente), agora, estão argumentando que, ao invés de um sucesso ou um fracasso, a tal Marcha, “o Retorno”, é, na verdade, uma incógnita. Por mais que isto seja verdade para um resultado FINAL (afinal, toda a celeuma em torno do tema ainda não está completamente resolvida, o que quer que se entenda por resolução desse conflito), está claro, óbvio, evidente, clarividente, patente, visível e manifesto que, ao menos PARCIALMENTE, a Marcha que conseguiu, no limite, 5 mil pessoas de um conjunto de 11 milhões, e que foi responsável por uma das cenas mais ridículas já protagonizadas por um dito direitista em toda a história do Brasil, só pode ter sido um sucesso… do ponto de vista da esquerda.


Sobre o Marco Servil da Interweb

Para defender o Marco Civil da Internet, certo amigo cascaveliano argumenta que “cidadãos que se sentirem lesados por conteúdos postados na rede poderão acionar a justiça e, se provado crime, retirar o material da rede.” e que isto seria, em si, bom porque “Em casos de exposição sexual indevida, o indivíduo possuirá cobertura ainda maior do Marco Civil, que, mediante pedido da vítima, possibilitará a remoção imediata das fotos e/ou vídeos postados sem autorização. Chegou ao fim a sensação de impunidade que as “vinganças pornôs” causavam em pessoas mal-intencionadas”.

Parece que, para alguém que cursou História, pleiteou Filosofia e agora cursa jornalismo (sim, com “j” minúsculo, amigos jornalistas, e isto não é uma questão de correção gramatical, acreditem), este meu amigo não está sendo cético e investigativo o suficiente, ou, pratesianamente falando, para ser menos claro apenas que o sol do meio-dia, não pensou a questão direito.

Vejamos: Sentir-se lesado, a não ser em casos extremamente graves (como o da exposição sexual indevida bem citado pelo cascaveliano), tende a variar de pessoa para pessoa. Isto significa que temos gente, por exemplo, que é alvo de trocentas piadas e, ainda assim, consegue levar tudo na esportiva e ainda defende o direito dos outros de fazerem suas piadas. Outros, entretanto, ao primeiro sinal de um meme que seja com seu semblante, já começam a protagonizar escândalos indignos do maior dos barraqueiros (ou da maior das barraqueiras, como queiram).

Tudo isto, entretanto, quando permanece apenas na sociedade civil, não é grave, pois há como se negociar com o outro. O grave é quando passamos à política. Partidos. Totalitários ou não. Petistas, tucanos, peemedebistas, quaisquer que sejam. Temos, também, ano de eleição. Temos certos escândalos que, digamos, não “deveriam” ser lembrados. E temos, na nossa constituição, o precedente gigantesco para a censura chamado “crime de injúria”, para o qual, ao menos ao que me consta, não há a chamada “exceção da verdade”.

Para o leitor mais atento e para esse cascaveliano, então, espero que só reste somar 2 + 2.


In dubio pro reo

Não é incomum que muitas pessoas que se consideram imunes às ideologias compartilhem, de vez em sempre, mensagens e imagens em que, se não há um esquerdismo explícito, há ao menos um teor dos bons sentimentos que, desde 1917, vêm pavimentando a estrada para o inferno totalitário. Como parto da premissa de que essas pessoas não são mal-intencionadas, mas que, apenas, não prestaram a devida atenção a certos detalhes, proponho apenas que façam, para si mesmas e consigo mesmas, duas singelas reflexões: Será mesmo que toda mudança em nome do “mundo melhor”, dos “bons sentimentos” e/ou da “justiça social” é realmente um avanço ou mesmo é realmente viável? E, principalmente, será que todos os que dizem lutar por esses “avanços” estão realmente tão bem-intencionados quanto parecem?

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e, ocasionalmente, estuda Filosofia. Precisa lembrar-se de cobrar o dinheiro que o Partidão lhe deve pela propaganda antimilitarista e de lembrar ao leitor que nem tudo o que escreve deve ser tomado pela verdade absoluta.

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