O automatismo revoltoso dos conservadores brasileiros: Um dilema popozudo

Sim, caros amigos, vim aqui para comentar o caso recente do professor de Filosofia do Distrito Federal que colocou, em uma prova aplicada em escola pública, uma questão sobre a vida e obra de Valesca Popozuda, funkeira carioca. Como já era esperado por qualquer um que tenha o mínimo de convivência com os setores conservadores e olavéticos da internet, os que aderem a este grupo, mesmo antes de verem o professor confirmando que a questão era esperada pelos alunos e explicando o porquê de ela estar lá, já reagiram como se isto fosse o final dos tempos e o crepúsculo definitivo da educação brasileira.

Conhecendo-me, então, como me conhece, o leitor já deve saber o que pretendo fazer aqui, apesar de não saber em que ordem o farei. Enfim, bialmente falando, “aos trabalhos”.

Os pensadores, a cultura e o problema da metonímia

Em retórica e em teoria literária, quando um poeta, narrador ou dramaturgo (ou mesmo o homem comum) se utiliza de recursos linguísticos para tomar o todo pela parte ou a parte pelo todo – exempli gratia, falar que leu “Machado de Assis” ao invés de dizer que leu alguma obra de Machado de Assis, tomando o escritor como se fosse, ele próprio, sua obra, ou mesmo falar “Hollywood” para discursar sobre toda a produção americana de cinema -, diz-se que, no texto, há a chamada metonímia, uma figura de linguagem extremamente usada tanto nos grandes clássicos quanto no cotidiano.

Explico este conceito porque, quando nos deparamos com esse tipo de acontecimento (a inserção de um gênero musical ou de um elemento cultural da chamada “cultura popular” nos meios acadêmicos e/ou nos bancos escolares), a primeira questão que aparece é que “x ou y não é cultura, pois nem se compara ao que de melhor foi produzido no mundo” ou que “x não é um pensador, pois não desenvolveu um sistema complexo de ideias”, duas assertivas que, em verdade, são falsas em essência.

Vejamos: Como bem explica Flávio Morgenstern em um seu artigo sobre a polêmica de quando a revista Época argumentou que o sertanejo Michel Teló traduz o que vem a ser a “cultura brasileira”, cultura é nada mais nada menos do que tudo que um povo deixa para seus descendentes e para outros povos, id est, a cultura de um povo é, em essência, o legado de um povo, o que significa que, no caso brasileiro, nossa cultura vai desde os escritos abolicionistas de Joaquim Nabuco até o funk ostentação, desde a genial prosa realista machadiana (diferente, frise-se, da prosa realista pura e simples por uma série de razões) até o sertanejo universitário de Teló e outros e, finalmente, desde a genial dramaturgia rodriguiana aos proibidões de Mr. Catra e Valesca Popozuda.

Qualquer um concluiria disto, então, que não haveria como discutir: Valesca é, de fato, parte da cultura brasileira. Eis, então, que aparece o problema: Quando um conservador fala em “cultura”, fala como se estivesse se referindo à chamada “alta cultura” (esta, sim, o que de MELHOR e mais elevado há no legado de um povo). O problema, porém, é que o termo “cultura”, por si só, é muito amplo e pode suscitar um monte de outras definições que, na verdade, podem ser completamente diferentes de igualá-lo a “alta cultura”. Usar a metonímia é, portanto, neste caso, não clarificar, mas perpetuar a confusão mental sobre o que viria a ser “cultura”, além de dar oportunidade à esquerda progressista de dizer que, no fundo, o conservador é apenas um rancoroso, um preconceituoso, alguém contra as minorias, entre outras bobagens.

O mesmo acontece com “pensador”. Ora, em sentido amplo, de fato, qualquer um que se dedica à atividade de pensar o mundo é, de fato, um pensador, mesmo que, como certo barbudo com furúnculos, seus pensamentos sejam fecais. É por isso, também, que sempre se procura distinguir um mero pensador de um grande pensador, separando, assim, o joio do trigo, os Sakamotos dos Morgensterns, os Duviviers dos Razzos, os Sáderes dos Schopenhauers, et cetera. Dizer, portanto, que alguém não é pensador apenas porque seus pensamentos não são altamente sofisticados é incorrer no mesmo erro da questão da cultura pelo mesmo motivo: Por uma metonímia não mal construída, mas da qual o leitor pode tirar um milhão de interpretações diferentes da que se espera que ele tenha. (Talvez seja por isso que os cursos de Letras em geral, apesar de todas as vicissitudes que se pode apontar neles, entre elas a de tomarem, atualmente, quase qualquer idiota como um ídolo e um exemplo a ser seguido, acertam em cheio quando reiteram, diversas vezes, aos discentes e futuros profissionais da área que devem ser claros quando desejam transmitir uma mensagem, seja na escrita, seja na fala.)

O professor sem senso das proporções, os conservadores imprudentes

Tudo isto, porém, não apaga que, ao qualificar Valesca como “grande pensadora” (título, aliás, que a própria, em um recado razoavelmente bem humorado divulgado Facebook afora, rejeitou categoricamente), o tal professor, independente das razões que o levaram a isso, cometeu um erro conceitual gravíssimo para um professor de Filosofia, primeiro porque, apesar de transmitir conceitos, Valesca não aparenta a intenção primordial de refletir, com razoável frequência, sobre problemas sociais e existenciais humanos, mas de levar entretenimento acessível a todos, segundo porque, de qualquer modo, um grande pensador só pode ser considerado como tal quando, mesmo discordando de suas reflexões, podemos perceber nelas um sério esforço intelectual e cognitivo, como qualquer um que leia livros como “O Discurso do Método” e “Ética”, entre outros, poderá ratificar.

A incapacidade do professor, não obstante, só pôde ser desnudada depois de sua explicação sobre o porquê de ter colocado aquela questão na prova. Antes disso, poder-se-ia formular uma dezena de hipóteses para o porquê de aquela questão estar ali: Poderia ser uma pegadinha para os alunos desatentos, poderia ser uma espécie de combinado entre o professor e os alunos (afinal, quem nunca teve algum professor com o qual a sala se relacionava tão bem que poderia ter chegado ao ponto de fazer uma brincadeira dessas na prova, obviamente sem acrescentar nada à nota dos alunos?), poderia até ser uma questão que não devesse ser respondida, e mais uma pletora de possibilidades possíveis dentro do ambiente escolar.

O problema é que,  de qualquer forma, não se poderia bater qualquer martelo sobre a inteligência deste professor antes de deixá-lo se explicar – o que significa que, obviamente, depois da péssima explicação, pode-se descer a lenha no cara à vontade, pois ele, de fato, merece. Nossos setores conservadores do Facebook, entretanto, preferiram, antes mesmo de qualquer explicação, soltar o verbo contra o que chamam até corretamente (isto, lógico, depois de todo o imbróglio esclarecido) de relativismo da condição de pensador. Fora os tradicionais “isto é o marxismo cultural !!111!!!” e “fora pt!!!”, vejo, na timeline do amigo André Assi Barreto, dono d’O bico do tentilhão, a seguinte reclamação:

Para o professor de Filosofia que colocou Waleska Popozuda na prova, ela é, de fato, uma “pensadora moderna”. Se esse cara fosse meu empregado, a primeira coisa que eu faria seria demiti-lo. Se dá pra pensar com a Waleska, pra que assistir a aula dele?

Apesar de, em termos de propaganda, uma afirmação dessas ser ótima, vamos ser francos, André, que dava para fazer um tanto melhor, não acha? Ora, como um professor de Filosofia (que, aliás, deveria saber, tão bem ou até melhor do que eu, como é ter certa cumplicidade com uma turma ou mesmo com um pequeno grupo de alunos), deve saber melhor do que este que vos escreve que não existe, necessariamente, relação entre pensar com Valesca e não pensar na escola, principalmente porque são dois tipos de pensamentos completamente diferentes  e que, por incrível que pareça, têm, ambos, suas relevâncias em contextos diferentes, apesar de o pensamento escolar, ao menos em tese, ter um direcionamento maior para a capacitação para entender, também, o pensamento valesquiano, enquanto o contrário não ocorre.

Igualmente, também não faz muito sentido demitir um professor por ter colocado Popozuda como pensadora (ou melhor, para evitar a metonímia polissêmica, “grande pensadora”) ANTES de ouvir sua explicação sobre o que o levou a fazer. Óbvio, seria normal e justo demiti-lo por, ao usar uma prova para uma brincadeira, ter sido indecoroso com a instituição em que trabalha, mas, para demiti-lo pelo motivo apontado por André, não há como não ouvi-lo antes, isto se se quiser ser justo.

Obviamente, a reclamação posterior de André faz total sentido (principalmente porque a jumentice do sujeito acabou sendo desmascarada de qualquer forma), mas o problema de sua primeira reclamação ainda persiste, pois foi escrita antes de qualquer palavra ser dita pelo que, inesperadamente, acabou ocupando o banco dos réus. Apelar, então, a radicalismos imprudentes em nome da conservação ainda que mínima da alta cultura brasileira, além de paradoxal em relação ao princípio mais essencial do conservadorismo, não parece ser o melhor plano para conquistar adeptos, apenas para pregar aos já convertidos, o que, na prática, significa, em termos políticos, apenas falar para o nada, que é algo de que o movimento conservador brasileiro (se isto, em si, também não for paradoxal), ao menos segundo seus autointitulados líderes, definitivamente não precisa.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Considera que, em casos de zoeira, é até perdoável certo relativismo intelectual.

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4 comentários

  1. Seus dois últimos textos tão bem menos radicais, não sei se vc concorda comigo mais pelo testo parece que em partes sim erro dos conservadores que ouço hoje em dia é não entender a separação entre cultura e arte.
    Cultura é uma coisa ampla em constante batalha de interesses (Porem parto da ideia que essa batalha vem do fato que a cultura se estabelece em uma sociedade por meio de uma série de confrontos não pre determinados provindos da contradição provenientes dos contatos entre diferentes grupos ou esferas de um grupo de absorção e dominação) e que essa não é de possível juízo de valor.
    Já a arte é uma das componentes das culturas, porem como essa é um trabalho humano intencional (Coletivo ou individual) ela é sim dentro de padrões eternamente discutíveis (Principalmente com as mudanças da cultura geral) capaz de receber um julgamento de ordem estética.

    1. Antonio,

      Porra, se você acha que meu texto “rodriguiano” não está radical, só se você perdeu o parâmetro antigo que tinha de “radicalidade”. Foi um dos textos, aliás, em que me achei mais radical até.

      Sobre a cultura, talvez o juízo de valor ESTÉTICO não seja possível, mas o juízo de valor MORAL não só é desejável como necessário. Afinal, se toda diferença de valor é aceitável, também teria de ser aceitável a diferença de quem não aceita diferença de valor, o que significa que teríamos, em nossa cultura, o germe de nossa própria destruição.

      1. Ai parece que vc não entendeu que Moral, junto com arte, justiça e etc… são componentes culturais e esses sim podem ser julgados! Porem não a cultura em geral. Alem disso culturas não “Se destroem” pois durante a historia só ouve 2 destinos, a modificação de uma cultura base ou a sua “extinção”, nunca uma cultura até hoje “Se destruiu” pois é impossível para a própria definição de cultura que utilizo.

        Por radical quis dizer em relação a ligação com uma ideologia politica! Isso vem de uma analise mais apropriada por vc da situação.

      2. “Ai parece que vc não entendeu que Moral, junto com arte, justiça e etc… são componentes culturais e esses sim podem ser julgados! Porem não a cultura em geral.”

        Ou seja, a “cultura” nazista não pode ser dada, as a whole, como muito pior do que a nossa por não se julgar culturas. Jegnial.

        “Por radical quis dizer em relação a ligação com uma ideologia politica! Isso vem de uma analise mais apropriada por vc da situação.”

        Não corresponde ao texto rodriguiano anyway.

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