Eu, Apolítico – Ensaio sobre a não-resolução de problemas políticos (Ou: Por que sou Apolítico?)

Muitos dos meus leitores, senão todos, diversas vezes me questionam sobre o porquê de eu me declarar um Apolítico, baseando-se, em especial, no argumento de que ou a apolitização é impossível (pois qualquer ato seria político), ou é uma tolice sem tamanho, pois, platonicamente falando, isto forçaria o apolítico, por definição, a aceitar ser governado por qualquer mula, até mesmo por Sakamotos, Sáderes, Duvivieres e outras mulas stricto sensu.

Acontece que, como o leitor deve ter percebido, meu “apolitismo” não é um apolitismo comum, sendo, aliás, muitas vezes, confundido com direitismo (ou, para conservadores fanáticos, esquerdismo) puro e simples. Só explicarei o que entendo por “apolítico”, no entanto, quando do post derradeiro desta série. Nas mal traçadas a seguir, então, tentarei explicar de uma vez por todas por qual razão estou, pelo menos, tentando ser uma exceção dentro dessa dicotomia sem ter de apelar à estupidez centrista ou à inépcia ghiraldelliana. Peço, portanto, aos leitores mais céticos que façam o obséquio de esperar até o texto derradeiro para, aí sim, me contestarem (Estamos conversados, Luciano Ayan?), pois poderão ver, como se diria em Inglês, the bigger picture do que eu desejo, de fato, expressar.

Bialmente falando, então, “aos trabalhos”.

Direita x Esquerda – Um embate econômico

Qualquer um que venha a, olavianamente falando, “ler algum livro” – obviamente, livros sérios e, portanto, que tenham sido escritos, se por gente de esquerda, por teóricos sérios e não por filhos de um Emir Sader – sobre os dois lados dessa dicotomia perceberá que, em essência, direita e esquerda não são, como nossos conterrâneos adoram dizer, duas faces da mesma moeda nem dois lados de um Fla X Flu desnecessário e já arcaico, mas duas correntes que, entre si, apresentam uma série de contradições, de contestações e de ideias completamente divergentes. Exempli gratia, enquanto a esquerda tende, no campo social e cultural, a ter a chamada mentalidade revolucionária e a crer apenas no tribunal futuro – id est, a crer que todos os meios são justificáveis para concretizar o fim, a revolução (e, aliás, que nenhum desses mesmos meios podem sequer ser cogitados de serem usados pelos reacionários) e que apenas depois de feita a revolução é que seus atos poderão julgados, o que significa, na prática, que, se o stalinismo, por exemplo, tivesse vencido, o número de historiadores e filósofos stalinistas seriam ainda maior do que atualmente, pois Stalin seria encarado como herói, e não como o porco genocida que de fato foi -, a direita não tende a acreditar tanto assim na humanidade e, portanto, a considerar que nem todo ato é válido por melhor que seja a intenção declarada.

Outra diferença se dá no campo cultural-artístico, em que a direita conservadora ou liberal, agora com Roger Scruton e antes com gente do calibre de G.K. Chesterton e T.S. Eliot, procura, quase sempre, um padrão objetivo de julgamento artístico, diferenciando a chamada “alta cultura” (o melhor do legado de um povo) da “cultura” (todo o legado de um povo) pura e simples, enquanto a esquerda, especialmente a progressista, tende a assumir, na arte, um ponto de vista mais flexível (pluralista ao extremo ou subjetivista além dos limites do possível), e, na cultura, um ponto de vista multiculturalista, ou seja, o ponto de vista de que toda diferença de valor é aceitável – o que é, de um ponto de vista sociológico, muito questionável, visto que, azevedianamente falando, “se toda diferença de valor é aceitável, é aceitável, também, a diferença de valor de quem não aceita diferença de valor”, mas isto é outro papo.

Já no campo político e social, a principal diferença é, de fato, discursiva. Enquanto a esquerda tende a lutar pela “justiça social”, pela “igualdade de gêneros”, pela “inclusão” e por outras abstrações, a direita prefere, se liberal, lutar pela diminuição do tamanho do Estado (o que, obviamente, contradiz todas as lutas da esquerda, pois, para todas, seria preciso, inevitavelmente, inchar o Estado), e, se conservadora, lutar pela manutenção dos costumes que, inegavelmente, alicerçaram nossa sociedade mesmo tendo sido deturpados algumas vezes por determinados personagens.

O leitor, então, poderia me dizer que, se esse é o conflito, eu poderia muito bem me definir, pois já me posicionei, por meio de outros textos, no primeiro tópico como um “direitista”, no segundo como um híbrido entre as duas ideologias – pois acho que, apesar da necessidade de um julgamento objetivo, se pode flexibilizar um tanto o conceito de arte para não se cometer injustiças – e, no terceiro, como uma espécie de direitista liberal-conservador (apesar de minha favorabilidade, por exemplo, à legalização do aborto e às Cotas em universidades). Não haveria, portanto, qualquer dificuldade para alguém de me rotular como um direitista, ou, ao menos, como alguém de centro-direita ou de centro.

O problema é que, inegavelmente, existe ainda um conflito a ser analisado entre a esquerda e a direita, e, no fim, é este o conflito mais primordial para se definir se se é de direita ou de esquerda: Economia. Direita, tendências liberalizantes. Esquerda, tendências estatizantes. À direita, Smith, Mises, Hayek. À esquerda, Marx, os economistas soviéticos, Keynes. Eu, sem dúvida, também poderia me enquadrar em um desses campos… não fosse o fato de Economia não me interessar o mínimo e, portanto, de eu não entender nada sobre Economia (Há, ainda, outro fator, mas esse só vou comentar ao final da série). Não sei, por exemplo, em que consiste, exatamente, a teoria de F. A. Hayek ou a de J. Keynes, dois dos maiores rivais na história da economia e que, curiosamente, são, em geral, completamente achincalhado por miseanos E por marxistas com a mesma intensidade.

Tanto é por isso que, certamente terá o leitor notado, não houve, em qualquer das minhas críticas à esquerda neste blog, qualquer crítica por critério econômico, o mesmo valendo para as críticas à direita. Por mais, por corolário, que eu critique um dos lados, não seria prudente aderir ao outro sem entender, ironicamente, o mais básico dos alicerces de cada um dos lados.

Entretanto, existe ainda outro fator a ser discutido: Quantos, além de mim, aderiram (sim, fui de esquerda e contarei, em breve, minha história pelo lado vermelho da política) sem nada saber? Quantos, de fato, poderiam estar inseridos em uma discussão calcada nessa dicotomia econômica? Por fim: Será mesmo que uma postura única e eterna no trato da máquina estatal poderá resolver nossos problemas?

Bom, sobre essa resolução de problemas, falarei mais no final. Mudemos, brevemente, de tópico.

Esquerda x Direita – De boas intenções…

Recentemente, um dos ícones do anarcocapitalismo brasileiro, Luciano Takaki, deu uma perfeita descrição de mais um dos problemas de ambos os lados do espectro político. Segundo o anarcap nipo-brasileiro:

– desenvolvimentismo
– marxismo cultural
– moral e bons costumes
– justiça social
– bem comum
– exploração
– desigualdade

são muitas as boas intenções que justificam a tirania.

Ora, o amigo leitor deve conhecer tão bem quanto eu ou Takaki o que foi feito em nome da “justiça social” e do “bem comum” e contra a “exploração” e a “desigualdade”. Na China, uma Revolução Cultural. Na URSS, expurgos e gulags. No Camboja, massacre contra o equivalente a um quinto da população. Na K.O.reia da Morte, a ascensão de Kim Jong-un. Na antiga Iugoslávia, a limpeza étnica promovida por Slobodan Milosevic. E a lista prossegue por quantas linhas o leitor desejar.

O problema, entretanto, é que a direita, em especial a atual, apesar de bem menos letal, também não está com essa bola toda quando o quesito é ser anti-tirânica, vide as geniais ideias trevisanianas sobre reviver o Regime Militar – sim, leitor olavette que não teve a infelicidade de conhecê-la, você não ouviu errado, ela acha uma ditadura que ficou 21 anos fazendo cagadas no campo cultural desejável novamente – e a falta de medida de uma pletora de direitistas quando defendem, por exemplo, a Pena de Morte (já ouvi, por exemplo, direitista falando em morte para assaltante), deixando o calor do momento tomar conta e não se atendo ao fato de que, por mais que seja legítimo defender a Pena Capital para alguns crimes, não é prudente adotá-la para crimes não-hediondos, pois, aí sim, o risco de se cometer graves injustiças mais que triplica.

Não é difícil de perceber, portanto, que não sou o tipo de cara que trocaria uma tirania por outra, especialmente quando esta quer seguir o mesmo caminho da outra e se amparar na lei para impor, na marra, costumes e modos de vida. Tudo isto, porém, não pode ser entendido sem a premissa da qual, ao menos em tese, direita e esquerda partem, premissa esta que, apesar de estar contida nas duas, é muito anterior a elas. Voltemos, então, à resolução de problemas.

Direita e Esquerda, Esquerda e Direita – Quando os opostos se atraem pelo erro

Desde a sua origem, mesmo quando ainda não provido de racionalidade, o ser humano, quando tinha um problema, procurava, naturalmente, resolvê-lo. Ocorre, porém, que, não se organizando politicamente, todos os seus problemas se restringiam apenas ao âmbito individual, ou seja, considerando as CNTP, dependeriam apenas de si para serem resolvidos de vez. Quando, então, decidiram se organizar em grupos, os homens criaram para si um novo tipo de problema, os problemas políticos, isto é, as aflições pertencentes não só a um indivíduo, mas a um conjunto de indivíduos, pequeno ou grande, que esteja agrupado de modo a formar uma comunidade ou mesmo uma sociedade.

Partiu-se, então, para a mesma solução óbvia: A busca pela resolução definitiva desse tipo de problema. Tivemos, por corolário, desde antes do maior gênio que a humanidade já teve, o estagirita discípulo de Platão, e principalmente depois dele uma série de sistemas que procuravam não só manter a coesão grupal, mas que também se arrogavam a responsabilidade de resolver todos os problemas da comunidade que comandavam.

Percebeu-se, ao longo do tempo, que, de fato, problemas apenas individuais deveriam ser resolvidos apenas pelos próprios indivíduos, mas, talvez pelo legado aristotélico, o que realmente não é nada óbvio: Que não se deve tentar, também, RESOLVER problemas políticos. Direita e Esquerda, então, como fiéis herdeiras do legado aristotélico e platônico, não poderiam deixar de seguir os grandes filósofos até nisso e, seja pela via estatal, seja pela via mercadológica, procuraram a fórmula mágica que, sendo aplicada em todos os contextos, seria incapaz de apresentar falhas e, por consequência, seria a panaceia universal.

Acontece que, como bem lembra o implicante Morgenstern, sistemas políticos reais são bem diferentes dos ideias. Em ideal, até mesmo o fascismo ou o nazismo, para os que deles se beneficiariam, seriam perfeitos. É a realidade, portanto, que nos faz perceber que, na imensa maioria das vezes, ao tentar resolver um problema político, e não apenas remediá-lo (o que é completamente possível e bem mais viável sob qualquer aspecto que se queira), todos esses sistemas, na verdade, não só criaram mais problemas para as sociedades como também trouxeram, para si, a desmoralização completa.

Quando nazismo e comunismo, por exemplo, decidiram criar vilões para combater e os colocaram em campos de concentração, não só melhoraram a imagem desses “vilões” perante o mundo como também deixaram com o pé atrás qualquer pessoa sensata que manje de história quando o assunto é fazer a revolução “em nome do mundo melhor”. Do mesmo modo, quando a ditadura militar positivista brasileira tentou limar a esquerda do país agindo mais ostensivamente contra as guerrilhas do que na guerra cultural, não só falhou miseravelmente como também fortaleceu a esquerda brasileira e trouxe, mesmo para militares que nada tinham a ver com a confusão de 1964, a mais absoluta chacota, além de terem dado à esquerda a oportunidade que tanto queria para se fazer de vítima e para assassinar, quase que de vez, a reputação da direita mesmo com uma ditadura antidireitista.

A direita, porém, não age com objetivos muito diferentes: Para evitar que o Estado imponha suas vontades sobre e que tenha como usar força contra os indivíduos, nossos amigos sugerem que se confie ao máximo na força do mercado e em sua capacidade de se autorregular como forma de manter a sociedade coesa, logo enfraquecendo o Estado o máximo possível. O que eles esquecem é que, por melhor que seja (ou, como coloca o já citado Morgenstern, que sejamos), o mercado não é invencível e, portanto, as crises naturalmente virão. Sem um Estado minimamente estável, então, a quem sobraria o papel de manter calmos os ânimos senão, provavelmente, a algum tipo de fundamentalismo religioso (principalmente porque, não, não seriam religiosos tolerantes que se sobressairiam nas crises, acreditem)? Seria isto realmente desejável em nome do descrédito ou do fim do Estado?

É aqui, então, que o título deste post se justifica com um recado tanto à direita quanto à esquerda: Parem, por obséquio, de querer resolver problemas. Garanto a vocês que, além de errarem menos, vão, no fim, acabar é resolvendo os problemas sem perceber. Ou serão a própria esquerda e a direita dois dos alicerces dos problemas? E, sim, a pergunta é meramente retórica.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e estudante diletante da Filosofia. Espera pelos gritos de “fascista!” do lado da esquerda, de “vendido aos comunistas!” pela nova direita e de “positivista!” pelos anarcocapitalistas. Em nome da polidez, só poderá mandá-los mesmo ir ver o filme do Pelé. Em nome da sanidade, porém, só pode reiterar o pedido de não-resolução de problemas.

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7 comentários

  1. 2 Pontos.

    1 – A esquerda e a direita diferem entre si no campo político e social, no que tange a sua relação para com a ideia de igualdade. Ou seja quanto mais a ideia de igualdade for forte mais a esquerda é a pessoa, tanto que durante o início do século XIX quando surgiu essa denominação de direita e esquerda, o liberalismo era tido com uma corrente de esquerda por pregar a igualdade legal, por exemplo.

    2 – Não sou um economista mais pelo que leio colocar Keynes como esquerda é um erro, pois ele surge como uma especie de meio termo entre a economia liberal e a economia socialista. Ou seja seria algo como um centro que dependo do analisador pende mais para um canto do que para um outro em determinados períodos.

    1. Antonio,

      Nossa discussão aqui será, pelo visto, de divergência de interpretação e nada mais, pois não uso o critério “liberdade” x “igualdade” para definir os dois lados do espectro. Aliás, mesmo que o usasse (e não o uso porque, apesar de não gostar de nenhum dos dois lados, acho esse critério de definição simplista), ainda ficaria difícil de me posicionar nesse espectro.

      Quanto ao Keynes, vale o mesmo: Como alguém que acredita em “igualdade” x “liberdade” como parâmetro, você tenderá a vê-lo mais à direita. Como alguém que adota o critério do “intervencionismo e coletivismo máximo” x “intervencionismo e coletivismo mínimo”, só posso ver Keynes mais à esquerda. É mera questão de divergência de critérios mesmo.

  2. Essa é então uma diferença brutal, pois para min “liberdade” x “igualdade” são assuntos independentes, Liberdade é um eixo e se refere as liberdades individuais básicas, como Ir e Vir e live associação, já igualde refere-se ao eixo de até que nível a igualde é aceita dentro da sociedade e nesse é que se desloca a direita e a esquerda e a questão economia entra nesse eixo de igualdade ao ponto de qual limitado é o acesso aos meios de produção.

    Exemplos: O Stalinismo = Os homens era iguais legalmente e tinha discurso de socialização dos meios de produção no inicio do séculos XX (Esquerda), era uma ditadura personalista e de grande repressão politica (Autoritário)

    O Nazismo = Pregava a superioridade racial ou seja os homens não era iguais legalmente, na economia pregava a proteção a uma pequena elite econômica (Direita) era um governo que feria todos os tipos de ideia de liberdade legal (Autoritário).

    E.U.A. da década de 80 = Pregava que todos os homens era iguais legalmente e o estado não deveria intervir na economia (Direita), Tinha leis que protegiam a liberdade individual (Liberal)

    Chile no governo Allende = Prega va socialização dos meios de produção e todos eram iguais perante a lei (Esquerda) , defendia e tinham leis que protegiam as liberdades básicas (Liberal).

    Anarquismo Socialista = Prega que todos os homens são iguais e detem os direitos de produção socializados diretamente (Esquerda) A liberdade é um direito que seria respeito mesmo sem a presença de um estado (Liberal)

    E por assim vai cada um com seus tons, de liberdade e igualde

    Nessa por exemplo um Keynes é usando tanto por direita quanto por esquerda.

    1. Antonio,

      Só pontuo que o problema tanto de Stalinismo quanto de Nazismo não era serem autoritários. Autoritária até a nossa ditamole foi. O problema foi o totalitarismo, o controle do pensamento e da linguagem para que não houvesse capacidade de contestar esses regimes.

      Quanto ao “liberdade” x “igualdade”, acho difícil que um Estado muito interventor não vá, hora ou outra, querer intervir em outros aspectos da vida em sociedade além da Economia. Aliás, já no aspecto econômico é foda.

      1. Coloquei autoritário em contraponto a Liberal vc entendeu bem o que quis falar.

        Bem Octávio um estado grande pode interferir na vida em sociedade, o problema é se ele barrar as liberdades individuais, as grandes empresas tem interferência na vida em sociedade e isso não é um problema desde que elas não de apoio ao fim das liberdades básicas, alem de que pegando por exemplo a Inglaterra, o governo que mais interviu na sociedade de 1900 pra cá foi o que pregava a diminuição do estado (Maggie Thatcher) ou seja esse assunto é bem mais complicado e portanto acho besteira colocar “Liberdade” X “Igualdade” como já disse antes, simplifica de mais o espectro político.

      2. Quanto ao problema do Estado, concordo. Quanto à Inglaterra, tenho minhas ressalvas, pois a Inglaterra não tem, mesmo, uma tradição intervencionista, então não seria difícil o governo da Thatcher ser o mais intervencionista (o que preciso conferir antes de bater o martelo).

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