Beijinho no Ombro, de Valesca Popozuda – Os dodecassílabos inesperados e a permanência do dilema popozudo

Seguir-se-á, neste texto, em homenagem aos amigos conservadores, dentre eles os neocons André Assi Barreto e Antunes Fernandes (a quem dedico este post) uma análise literária do poema (depois musicado) Beijinho no Ombro, da funkeira Valesca dos Santos, mais conhecida pelo pseudônimo de Valesca Popozuda, ou, segundo um professor de Filosofia, uma “grande pensadora contemporânea”, visto que “transmite um conceito”.

A letra foi extraída do site musica.com.br (link do clipe) e, para fins meramente analíticos, será desconsiderado o verso “(Rala sua mandada)”. Supõe-se, também, que o leitor, ao me acompanhar por esta análise, tenha noções mínimas de rima, versificação, escansão (ou metrificação, como preferirem, para não entrarmos em tecnicismos excessivos ao menos neste momento) e de uma sorte de conceitos mais básicos utilizados para a análise, o comentário e a crítica de poesia.

Sem mais delongas, então, bialmente falando (e já inserindo, portanto, um poeta brasileiro contemporâneo nesta análise, “aos trabalhos”. Segue a letra:

Desejo a todas inimigas vida longa
Pra que elas vejam cada dia mais nossa vitória
Bateu de frente é só tiro, porrada e bomba
Aqui dois papos não se cria e nem faz históriaAcredito em Deus e faço ele de escudo
Late mais alto que daqui eu não te escuto
Do camarote quase não dá pra te ver
Tá rachando a cara, tá querendo aparecer

Não sou covarde, já tô pronta pro combate
Keep Calm e deixa de recalque
O meu sensor de periguete explodiu
Pega sua inveja e vai pra…

Beijinho no ombro pro recalque passar longe
Beijinho no ombro só pras invejosas de plantão
Beijinho no ombro só quem fecha com o bonde
Beijinho no ombro só quem tem disposição

O poema, apesar de não apresentar uma das formas fixas tradicionais, das quais a mais famosa é o soneto petrarquiano (duas quadras e duas trincas), tem, em todas as estrofes, os mesmos quatro versos. Quanto ao esquema de rimas, vemos, na primeira e na quarta estrofes, um esquema de rimas externas alternadas (ABAB e GHGH), enquanto nas duas estrofes do meio, há as chamadas rimas emparelhadas, de esquema CCDD e EEFF, considerando-se, lógico, que o final do 12º verso seja facilmente inferível para o leitor.
Já quanto à sonoridade, apesar do predomínio patente e manifesto de rimas soantes (como em vitória/ história e em escudo/escuto), existe, entre o nono e o décimo versos, uma rima toante, posto que é apenas no “e” final que se pode reconhecer similaridade sonora entre “combate” e “recalque”. (Há, aliás, outra coisa muito interessante nessas e em outras palavras, mas volto a isto mais para o final da análise). Dificilmente, porém, se poderia achar, internamente, algum tipo de rima (e eu, como um não-especialista em poesia, não vou forçar essa barra, amigo leitor). Mesmo assim, para uma música considerada de tão baixo nível, já é no mínimo especial que haja, entre rimas externas, tamanha sofisticação, posto que foram usados dois tipos de esquemas de rima diferentes com interpolação entre estrofes.
Terceiro, quanto à categoria gramatical, há um claro predomínio de rimas agudas ou masculinas, isto é, construídas com palavras oxítonas, como em ver/aparecer (sétimo e oitavo versos) e em explodiu/palavra subentendida no 12º verso, e de rimas graves ou femininas, as construídas com paroxítonas, como em longa/bomba (primeiro e terceiro versos) e em longe/bonde (13º e 15º versos). Entretanto, há, entre o segundo e o quarto versos, uma rima esdrúxula, ou seja, uma rima construída entre palavras proparoxítonas (rimas estas que permeiam, aliás, um dos poemas mais famosos do poetólogo comunistalha Chico Buarque, Construção), visto que “vitória” e “história” podem, a depender da separação silábica, serem tanto classificadas, ambas, como paroxítonas ou proparoxítonas – tanto que alguns, inclusive, classificam palavras desse tipo como “falsas proparoxítonas” apesar de poderem ser interpretadas como tal.
Percebe-se, então, que, apesar de sua aparente simplicidade, a poética valesquiana não pode ser, de forma alguma, subestimada. E o mesmo continua valendo quanto vamos, então, ao valor das rimas, em que, apesar do óbvio predomínio de rimas pobres (aquelas que são construídas com palavras da mesma classe gramatical, como em “ver” e “aparecer” acima citados), há rimas ricas (com palavras de classes gramaticais diferentes) entre o 5º e o 6º versos (substantivo “escudo”, forma verbal de primeira pessoa do presente “escuto”) e entre os já citados 13º e 15º versos, em um caso raro de rima entre substantivo (“bonde”) e um advérbio de lugar (“longe”), isto sem contar o “pariu” explícito no 12º verso, que pode ser tomado, quando usado como normalmente, não como verbo, mas como parte de uma interjeição, fazendo, assim, com que a rima entre o 11ºe o 12º versos também seja rica e seja entre um verbo e uma interjeição.
Já se impressionou, leitor? Pois espere até eu lhe provar que, apesar de apresentar um ritmo veloz (facilitado, aliás, pela série de elisões a serem mostradas abaixo) e de não ter uma métrica fixa (ou seja, do número de sílabas de cada verso ser diferente do outro, em um claro exemplo de versos livres), o poema valesquiano tem, de seus 16 versos, pelo menos oito dodecassílabos, ou seja, oito versos aparentados ao alexandrinos por dividirem, com estes, a característica de terem 12 sílabas poéticas.
Não acredita? Então comecemos com a demonstração, amigo leitor (em vermelho, as elisões):
Verso 1 – De/se/jo a/ to/das/ i/ni/mi/gas/ vi/da/ lon/ga (12 sílabas poéticas)
Verso 5 – A/cre/di/to em/ Deus/ e/  fa/ço/ e/le/ de es/cu/do (12 sílabas poéticas)
Verso 6 – La/te/ mais/ al/to/ que/ da/qui/ eu/ não/ te es/cu/to (12 sílabas poéticas)
Verso 7 – Do/ ca/ ma/ ro/ te/ qua/ se/  não/ dá/ pra/ te/ ver (12 sílabas poéticas)
Verso 9- Não/ sou/ co/ var/ de/, já/ tô/ pron/ ta/ pro/ com/ ba/ te (12 sílabas poéticas)
Verso 13 – Bei/ ji/ nho/ no om/ bro/ pro/ re/ cal/ que/ pa/ssar/ lon/ge (12 sílabas poéticas e, sim, escandir versos difere, um pouco, de separação silábica pura e simples)
Verso 15 – Bei/ ji/ nho/ no om/ bro/ só/ quem/ fe/ cha/ com/ o/ bon/de (12 sílabas poéticas)
Verso 16 – Bei/ ji/ nho/ no om/ bro/ só/ quem/ tem/ dis/ po/ si/ ção (12 sílabas poéticas)
Se fôssemos, então, mais a fundo na questão da “intriga” (e uso as aspas pois estou inadequada mas deliberadamente transferindo um conceito estruturalista de análise de narrativa para a análise de poema) do poema, veríamos que, muito coincidentemente, há um dodecassílabo em todo início de estrofe, representando, também, a mudança de foco do relato da funkeira, indo de seus desejos às rivais à sua galhardia perante os enfrentamentos, passando, também, por sua demonstração de crença em uma deidade, muito provavelmente a deidade cristã. Há, também, se assim se pode dizer, uma espécie de alternância entre o número de dodecassílabos em cada estrofe, visto que há, na primeira e na terceira estrofes, apenas um dodecassílabo (o verso inicial), enquanto, nas outras duas estrofes, há três dodecassílabos cada.
Finalizando, volto, agora, ao que acontece não só em “combate” e em “recalque”, mas também ao longo de toda a música. Caso o leitor ouça, novamente, a música, verá que, como é comum ao menos no Sudeste, o “e” e o “o” são pronunciados, respectivamente, como “i” (combati, recalqui) e como “u” (ombru, exempli gratia), o que os foneticistas chamam, salvo engano, de “alçamento vocálico”, que ocorre quando, em determinado contexto fonológico, a pronúncia de uma vogal se iguala à de uma semivogal (não entrarei em detalhes, pois como foneticista sou um ótimo jogador de futebol, e, como jogador de futebol, um ótimo biólogo). Nem isto, porém, afeta a sonoridade das rimas, que acabam se adaptando automaticamente quando necessário.
Enfim, como amador em análises poéticas, este o máximo que posso fazer. Aliás, minto, posso fazer, também, uma pergunta final: E aí, amigo roqueiro e/ou conserva, o que falava sobre o baixo nível poético do funk mesmo?
Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Continua achando que a zoeira, meus amigos, ela não tem limites.
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