Resenhas Literárias – O Vilão, de Jean Pereira Lourenço – Entre a perfídia e a inocência

"O Vilão" e "O (mó) Viadão", hueheueheuheuehueheuheuheuhue

“O Vilão” e “O (mó) Viadão”, hueheueheuheuehueheuheuheuhue

Li, recentemente, a primeira obra “publicada” (pois ainda não houve editora esperta o suficiente para contratá-lo e de fato publicar a obra) por meu ilustre amigo tradutor Jean Pereira Lourenço, O Vilão, e decidi escrever, neste post, uma curta resenha (e não um recorte, pois o leitor bem sabe que meus recortes são e serão extensos e, necessariamente, serão mais analíticos do que propriamente expositivos) sobre o livro.

Bialmente falando, então, “aos trabalhos”.  Basicamente, no livro de Lourenço, nos é apresentada a história, que se passa em 2008, de três personagens principais: Augusto Cândido, um vendedor de sapatos que não só esconde dentro de si um grande drama, mas também é aparentemente frustrado e não tem sucesso com as mulheres, incluindo a mulher que deseja, Ângela; Cíntia Amaral, uma policial feminina (e quase uma feminista de IPEA, diga-se de passagem) que convive diariamente com colegas negligentes e boçais (vide a forma como Paulo, um dos policiais, trata não só Cíntia como todas as mulheres que encontra) e que, também por isso, terá não só sua vocação para policial como sua própria sexualidade posta em dúvida com a aproximação de Bárbara, outra colega policial do mesmo Distrito; e Gabriel Assunção, um homicida condenado à prisão perpétua vindo de um futuro quase orwelliano – pois Jean, infelizmente, nos fornece poucos detalhes sobre esse futuro, o que, ao fim e ao cabo, não interfere muito, por incrível que pareça, no grau de entretenimento que se pode ter com O Vilão – em que, ao invés de fazerem com que criminosos paguem por seus crimes, os governos, agora totalmente interconectados, estão tentando usar os próprios criminosos para, numa volta ao passado, alterarem eventos que foram significativos na construção de suas personalidades e, assim, evitar os crimes que viriam a cometer.

Cada um desses personagens nos apresenta seus dramas e seus conflitos pessoais narrando, cada um, mais ou menos o mesmo número de capítulos ao longo do livro, sendo que é o título do capítulo quem determina o narrador deste, indo de Augusto (narrado pelo próprio) a Justiça (narrado por Jean, o “narrador-autor”, se assim posso classificá-lo) e passando, entre outros, por Confusão (narrado por Cíntia) e Golpe (narrado por Gabriel), tendo todos os capítulos títulos com apenas uma palavra e sendo, obviamente, a primeira letra da palavra que define. Falando nisso, é este, aliás, o primeiro ponto interessante: Ao contrário da maioria das narrativas, O Vilão tem, de fato, quatro narradores, sendo eles os três personagens e o próprio autor, em um procedimento que, se não o tornará digno do cânone literário ao menos pelos próximos 300 anos, o tornará bom objeto de estudo e, aliás, de refutação definitiva do Estruturalismo que grassa, com raras exceções, na crítica literária universitária brasileira.

Não nos interessa tanto como leitores, entretanto, apenas saber dos procedimentos narrativos utilizados por um autor em sua obra, mas também o que a torna, de fato, literária, ou, chklovskianamente falando, o que a singulariza perante o uso comum da linguagem, ou seja, qual é o grande conflito entre os personagens, seja como indivíduos, seja como representações de alguma classe ou de algum grupo. No caso, o que realmente faz da obra de Jean um objeto de desejo para o grande público é não só a recorrência de descrições dignas de cinema das cenas do livro como também o conflito que se instaura, dentro de todos os personagens principais e de alguns dos secundários, entre a perfídia tipicamente humana e a inocência, as boas intenções que, na realidade, muitas vezes apenas pavimentam o caminho para um inferno pessoal e/ou, para quem nele crê, literal.

Quanto às descrições, falo que são dignas de cinema com base no que se vê no primeiro de todos os capítulos, Augusto. É lá que conhecemos o personagem homônimo – sobre o qual, aliás, posso me deter mais nos comentários caso o leitor queira, pois, apesar de seu próprio criador o descrever como um psicopata, tenho lá minhas dúvidas quanto à sua condição neuropsicológica – vendo-o matar, a sangue frio e literalmente de modo calculado (não darei mais spoiler quanto a isso, pois só lendo o livro para entender direito), um motoboy que, ao passar com sua moto sobre uma poça de água, o molhou, e um tatuador que trabalhava clandestinamente e que, na hora da morte, estava prestes a fazer seu serviço para o motoboy e para sua namorada, que o acompanhava e que, segundo o próprio Augusto, teria “uma probabilidade de setenta e sete por cento, de acordo com os dados até então perceptíveis, aidética” (p. 17, 2014).

A cena não seria nada demais para um livro caso ambas as mortes fossem, por exemplo, causadas por puxadas de gatilho, mas já seria um tanto digna de cinema se os dois fossem executados a facadas ou mesmo a pauladas. Acontece, porém, que nosso amigo Lourenço quis esculachar e deu a Augusto o poder de matar um homem gordo e um homem musculoso (respectivamente, o motoboy playboy e o tatuador) com o mesmo cateter, além de, depois disso, ainda dar conselhos à namorada do finado, poupada para ser “pegada à força”, o que só não ocorreu pois Augusto ainda precisava entrar no trabalho e porque, segundo o próprio, “não tinha preservativos comigo para transar com uma aidética.” (p. 19).  É válido destacar, também, que o mesmo tipo de cena se repete, com igual maestria na descrição, também no penúltimo e no último capítulo, quando todo o conflito se resolve de vez (ou não, como o futuro leitor poderá confirmar por si mesmo).

Já quanto à tensão entre inocência e perfídia, é curioso, ainda falando de Augusto, que, apesar de demonstrar (e de descrever a cena com) total sangue frio na hora de matar os dois “babacas”, como ele os descreve, se mostra não só preocupado com a sua condição como tenta, com um ato arriscado, livrar-se dela de uma vez por todas. Gabriel, por sua vez, apesar de ser um assassino e um mulherengo assumido (assassinou o chefe porque ele não o promovera e, salvo engano, depois o demitiu), demonstra, ao recobrar a consciência de si e do que vinha fazer no passado, a sincera intenção de mudar seu futuro, também porque, por uma série de fatores, viria a se apaixonar por Cíntia e descobrir, ironicamente, que, ao contrário do que pensava até então, valorizar o amor teria valido a pena e poderia tê-lo salvado de um futuro tão catastrófico. Até mesmo a irmã de Cíntia, Estela (que, na humilde opinião deste resenhista, poderia ter participado mais da história dada sua estonteante beleza), demonstra ter um conflito entre a inocência de seus sonhos de vestibulanda e a malícia – não propriamente uma perfídia, mas algo que a poderia ter levado a essa condição – de seu desejo, causado pela carência, por um desconhecido (no caso, Augusto), o que a leva mesmo a brigar com a irmã, que já suspeitava de Augusto tanto no caso do assassinato quanto no outro, que seria, na realidade, o gatilho para todo o desenrolar posterior da história.

Cíntia, por sua vez, é um tanto mais complexa. Apesar de seu legítimo desejo de prender tanto o assassino quanto o criminoso do outro caso e entregá-los, ambos, à justiça, fazendo como manda o figurino e respeitando, assim, as instituições, a mulher já em dúvida de sua heterossexualidade demonstra, ao longo do livro, não só o desejo de fazer justiça com as próprias mãos (e, no caso, com a própria arma, que seria roubada por Augusto já no encontro no local de trabalho de Estela) como também o ímpeto de prender Augusto como culpado por ambos os crimes mesmo sem tê-los esclarecido e apurado adequadamente e apenas com base em uma desconfiança que tinha por causa da aparência deste. Da mesma forma, Cíntia, como se vê em sua primeira participação, também em capítulo homônimo, não tem o menor pudor em usar seu instrumento de trabalho para ameaçar homens que, de dentro de um bar, flertavam com ela desrespeitosamente.

Enfim, O Vilão é daqueles livros em que se vê de tudo, indo de sexualidade humana a ficção científica, passando por corporativismo, abuso de autoridade e psicopatologias, e mais um pouco, seja no aspecto dos temas abordados, seja no aspecto dos procedimentos literários (ou, no caso de Jean, “literário-cinematográficos”). Se me perguntassem se o livro é digno do cânone, responderia com um “não!” prontamente, pois não há, no livro, apesar dos procedimentos interessantes, um nível de linguagem que seja tão culto ou tão chulo que traria ao livro algo de especial no sentido linguístico puro e simples. Entretanto, assim como não é todo livro do cânone que empolga o leitor, não é todo livro fora dele que não o excitará (vide os exemplos recentes das sagas Harry Potter e Eragon, que estão bem longe de qualquer cânone) e não o fará querer lê-lo mais uma, mais duas, mais dez vezes seguidas.

O Vilão, como fica claro desde o primeiro instante, definitivamente não é uma obra moralista, seja no sentido conservador, seja no sentido revolucionário do termo. E é por isso, justamente, que causa no leitor, desde o início, o estranhamento e o mantém, até o fim, empolgado e curioso com o desenrolar dos fatos. Se isto não puder ser considerado Literatura, ora bolas, que seja considerado Cinema. E que seja considerado transformar o livro em cinema da melhor qualidade.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Tentou deixar os estruturalismos na universidade, mas, pelo visto, old habits die hard. Augusto que o diria, se soubesse falar inglês.

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