Parem de indicar “O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota” e o “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia” como obras de iniciação à Filosofia!

O autor do "Guia Politicamente Incorreto da Filosofia - Ensaios de Ironia", ao saber que conservadores estão tomando sua obra como livro para iniciantes nos estudos filosóficos

O autor do “Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ensaios de Ironia”, ao saber que conservadores estão tomando sua obra como livro para iniciantes nos estudos filosóficos

Algumas pessoas da direita liberal e conservadora vêm, não com pouca frequência, indicando o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia – Ensaios de Ironia, do filósofo pernambucano Luiz Felipe Pondé, quando perguntadas sobre bons livros de Filosofia para iniciantes, id est, para leigos completos que, muito provavelmente, mal ouviram falar do assunto na escola ou mesmo não prestaram a devida atenção a qualquer aula de Filosofia a que tiveram acesso. Outros, mais olavétticos, aderiram, religiosamente, à ideia de que, para um estudante iniciante em Filosofia, seria bom ler um dos lançamentos mais recentes de Olavo de Carvalho, o famoso O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota. Ambos os livros, logicamente, trazem consigo a imagem da ousadia intelectual, pois representam, assim como obras como A Esquerda Caviar, de Rodrigo Constantino, e O País dos Petralhas I e II, de Reinaldo Azevedo, gritos contra a ordem esquerdista e politicamente correta que está cada vez mais em vigor no Brasil.

Entretanto, apesar de achar a iniciativa louvável, pois conscientiza o interlocutor sobre a existência de obras de maior galhardia do que qualquer outra que eu tenha lido na Academia, como leitor dessas duas obras e de outras duas do mesmo Luiz Felipe Pondé, Contra um Mundo Melhor e A Filosofia da Adúltera – esta última, aliás, que só inovou na incomensurável, visível e manifesta preguiça  intelectual de Pondé ao escrevê-la -, e de mais uma de Olavo, sua tradução da Dialética Erística do monumental Schopenhauer, só posso pedir: Parem de indicar o Guia e o Mínimo como obras para iniciantes em Filosofia!

Vejamos: uma obra para iniciantes em Filosofia teria de, necessariamente, abordar com certa profundidade cada um dos períodos filosóficos e, pelo menos, seus mais ilustres pensadores políticos, metafísicos, éticos e estéticos. Isto significa que, caso este que vos fala ou qualquer outro interessado no assunto quisesse, para informar pessoas sobre o assunto, escrever qualquer espécie de guia didático (ou não) para outros que aspirem a iniciar os estudos filosóficos, ter-se-ia, necessariamente, que abordar, com razoável precisão e rigor, pelo menos as obras de gente como os monistas, os pluralistas, os sofistas, os atomistas, os materialistas clássicos, Sócrates, Platão, Aristóteles, os cínicos, os estoicos, os neoplatonistas, os filósofos latinos (Sêneca, Marco Aurélio et cetera), Santo Agostinho e os patrísticos, São Tomás de Aquino e os escolásticos, Descartes, Maquiavel, os contratualistas, Spinoza, os iluministas franceses, os iluministas ingleses, Kant, Hegel, Schopenhauer, Nietzsche, os existencialistas cristãos, os existencialistas ateus, o absurdista Camus, Marx e os marxistas (Lênin, Stalin, Trotski et caterva), Derrida, Foucault, Lacan, Löwy, a escola de Frankfurt, a New Left americana, e a lista continua longamente, podendo incluir até mesmo literatos de grande expressão como Dostoiévski e Orwell, dadas as importâncias de seus escritos sobre problemas políticos e éticos que afligem a humanidade desde que esta deu por si.

Não é a isso, porém,  que se propõem tanto a obra de Pondé como a de Olavo. A proposta de ambos, antes de qualquer didatismo, é provocar o leitor acostumado com o modus operandi politicamente correto, que se entranha a cada dia mais na mente das pessoas mesmo com estas plenamente conscientes de que estão se tornando chatas de galocha e censoras de primeira, e fazer com que este leitor ao menos reflita, mesmo que por um instante, sobre aquilo em que crê e que anda defendendo com unhas e dentes. Por corolário, quando Pondé e Olavo põem os pingos nos “is”, respectivamente, sobre “o pessoal que frequenta jantares inteligentes” e sobre a lógica do debate atual sobre a questão do Aborto, não estão propriamente ensinando Filosofia, mas expondo ao leitor uma linha de pensamento acima de tudo divergente do atual bundamolismo acadêmico.

Ambos os livros, portanto, não seriam bons como instrumento de aprendizado para o leigo completo, mas para provocar, no já iniciado e no já profundo conhecedor de Filosofia, as reflexões que vêm, cada vez mais, se tornando imprescindíveis para ao menos manter a sanidade do debate público. Se essas obras, então, puderem servir como início de qualquer caminhada, devem servir não para uma entrada, mas para uma saída, ou seja, não para entrar na Filosofia, mas para começar a romper, provavelmente em definitivo, com o modo “politicamente correto” de pensar, de agir e, principalmente, de reprimir vozes que não estejam “a favor da justiça social e contra a opressão burgueso-fascista”.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e apreciador diletante da Filosofia. Imagina o que teria sido de si se não tivesse prestado o mínimo de atenção às suas aulas de Filosofia do Ensino Médio e se não tivesse referências razzianas em que se apoiar.

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10 comentários

  1. Comentaste uma vez que o Gabriel “the thinker” era um dos poucos tragáveis da esquerda(nacional) Quais são o outros na sua opinião?

  2. Você não acha que o Porchat não está merecendo uma atenção(texto)sua? Pois recentemente ele vem dando uma de Duvivier de maneira mais pública.

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