Eu, Apolítico – O post dos posts (Ou: Como um texto de Felipe Moura Brasil pode ajudar a, finalmente, explicar minha atitude em relação à direita e à esquerda)

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Recentemente,  o ilustre olavette Felipe Moura Brasil compilou, em seu sempre digno de boa nota blog no site de VEJA, três curtos posts seus no Facebook que, pelo visto, causaram um sério alvoroço entre os que o seguem e até entre os que não o seguem – afinal, quem nunca recebeu comentários de um ilustríssimo e importantíssimo desconhecido que, magicamente, aparenta conhecer todo o resto de seu trabalho e delega a si próprio o título de controlador do que você deve postar, não é?

Tendo acompanhado um pouco da confusão envolvendo o segundo dos posts, sobre Márquez, confesso que passei batido pelo texto, pois nada especial me pareceu. Ocorre, porém, que, minutos depois, tive um estalo em minha mente e descobri, em seu primeiro minitexto, uma forma de tornar claro, vez por todas, meu posicionamento quanto ao eixo esquerda-direita (ou progressismo-conservadorismo, como prefiram).

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Bialmente falando, então, aos trabalhos. Na supracitada anedota, FMB diz o seguinte:

Há um prato com arroz, feijão, carne, mandioca, farofa, torresmo, laranja, couve e… cocô.

O esquerdista diz: é feijoada!

O conservador diz: é feijoada com cocô!

O esquerdista diz: feijoafóbico!

O conservador diz: analfabeto!

E o idiota útil na plateia: não sei não, é um assunto muito polêmico…

Antes de tudo, cabe esclarecer, para os que certamente foram reclamar com o olavette-mor da VEJA (e não uso o título pejorativamente, FMB, caso venha a ler isto) baseados na existência de assuntos que realmente são polêmicos (sim, leitor, sempre há ao menos dez para fazê-lo, e os mesmos dez sempre levam uma sova ou de quem postou ou de algum dos outros comentadores), que Felipe provavelmente não desconsidera o fato de que há assuntos que realmente são difíceis de tratar, seja pelo alto grau de polêmica que envolvem, seja pelas poucas informações que se têm sobre o tema em questão. É, por exemplo, melhor dizer que se considera o Aborto um assunto polêmico demais do que usar o tradicional e infundado argumento feminista de quem morrem 200 mil mulheres de Aborto por ano no Brasil para defender sua legalização.

Entretanto, como podem perceber os dez (ou mais, frisemos), trata-se, obviamente, de um caso totalmente esdrúxulo e, portanto, não de uma crítica a posicionamentos específicos, mas a posicionamentos padrão. O idiota útil seria, então, aquele que, mesmo quando o assunto poderá afetá-lo diretamente no presente ou no futuro, prefere pura e simplesmente omitir-se, covardemente, do debate político.

Eis, aí, o primeiro grupo de que me separo, pois sou, apesar de apolítico, aquele que não evita se posicionar, a não ser que realmente não tenha nervos para manter uma discussão mais ou menos educada (e o leitor me conhece, sabe como tendo a explodir fácil em debates) e/ou de fato não me sinta suficientemente informado para poder acrescentar um, dois ou vinte centavos ao debate. Não me posiciono, então, quando o tema é Economia ou Microbiologia Aplicada, mas não fujo do debate quando o que está em jogo é, exempli gratia, a relevância da Filosofia para o homem ou a periculosidade de grupos como as feministas, os militantes LGBT e os neo-ateus, entre outros.

E aqui é que entra, amigo leitor, minha diferença para esquerdistas e direitistas. Veja: Ambas as correntes têm, incontornavelmente, o dogmatismo como característica quando escolhem uma posição a defender sobre um tema, sendo que a direita defenderá, inevitavelmente, ou o que diminua o Estado, ou o que certamente ajudará na manutenção da ética de uma sociedade, enquanto a esquerda sairá em defesa de absolutamente tudo o que lhe pareça revolucionário ou “libertador” (ok, esquerdistas, eu finjo que acredito e vocês fingem que continuam defendendo causas “libertárias”).

Este tipo de dogmatismo, no entanto, não me atrai. Prefiro ver a política não como algo perene, mas como um conjunto de circunstâncias a partir das quais o homem lutará pela sobrevivência e pela coesão social ainda que mínima. Não poderia, portanto, aderir permanentemente a um conjunto de ideias políticas, mas apenas momentaneamente, observando atentamente as circunstâncias e, de acordo com elas, decidir qual caminho devo seguir e quais ideias defender.

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O leitor, ainda mais cético, poderia, mesmo assim, objetar dizendo que ataco substancialmente mais a esquerda do que a direita, e que, portanto, eu seria, na verdade, nada mais que um direitista. Ora, amigo leitor, como bem lembra o conservador Olavo de Carvalho, não é porque rejeito uma hipótese científica que devo, necessariamente, abraçar a outra. Não é por negar algum dos pressupostos do evolucionismo que se abraça, inexoravelmente, o criacionismo, assim como não é por se aceitar a física einsteniana para o espaço que se deverá, necessariamente, jogar no lixo todas as contribuições de Newton no que se refere à Terra.

Aplico, modestamente, o mesmo princípio à política. Não é por discordar dos esquerdistas em quase tudo que procurarei abrigo nas ideias da direita, assim como, se discordasse da direita, o inverso também seria falso. Da mesma forma, mesmo que discordasse dos dois, nem por isso abraçaria o centro ou a terceira via, ideias que acho igualmente desprovidas de sensatez quando transformadas em dogma.

O que percebo, porém, é que não só as pessoas se viciam em entrar nessa dicotomia como também em definir outrem (ou outrens, como prefiram) segundo esses padrões. É por isso, então, que busco não eliminar direita e esquerda, mas desmoralizar a ambas até que se chegue a um ponto em que, apesar de ainda respeitáveis, não serão estas as correntes que irão pautar o debate público – e falo de não pautar mesmo, não falo das mentiras sinceras (aliás, perdão aos cazuzistas, mentiras insinceras mesmo) que circulam aqui em terra brasilis sobre essa dicotomia.

Dirá o leitor cético político que estou sendo ingênuo. Não, leitor. Podes definir-me como utópico, mau-caráter ou mesmo tolo, mas nunca como ingênuo. Ingênuo eu seria se acreditasse que é possível fazer isso sem desmoralizar totalmente a esquerda antes da direita.  Eis, portanto, porque escrevo tanto.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Espera francamente, leitor, que compreendas que a grande semelhança entre este blog e o clássico machadiano Memórias Póstumas de Brás Cubas (e, por corolário, sua radical diferença para o Pentateuco) é justamente o não preocupar-se com a tua integridade moral.

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