Esquizofrenia no País dos Petralhas 2 – O pior é que o inimigo não é apenas o mesmo

Não é difícil ao observador mais atento perceber que, de fato, nossa literatura, por mais que se seja pluralista, vai, em termos estéticos e conteudísticos, de mal a pior. Da diversidade de estilos de prosa sofisticados de Machado de Assis, José de Alencar, Manuel Antônio de Almeida, Aluísio Azevedo, Raul Pompéia et cetera – só para ficar no chamado período de transição entre Romantismo e Realismo, porque se formos ao Modernismo, por exemplo, a lista dos mais famosos se torna interminável – e da grande variedade de bons poetas brasileiros, indo desde Gregório de Matos a Vinícius de Morais, passando pelos monumentais Manuel Bandeira e pelos concretistas irmãos Campos, fomos a uma gama limitada de escritores com real talento, sendo mais famosos, na verdade, os embusteiros e/ou ideólogos de um mundo melhor como Marcelo Rubens Paiva, Gregório Duvivier e Luís Fernando Veríssimo ou os mais palhaços como José Simão (que, incrivelmente, bate os outros três de longe tanto em estilo quanto em conteúdo).

Qualquer pessoa normal, então, proporia, nesta situação, que uma volta aos clássicos é incontornável e inadiável, pois é com eles, e não apenas com os modismos mais recentes importados da Europa ou dos Estados Unidos, como bem pontua o ensaísta campinense Olavo de Carvalho em um seu antigo artigo sobre o assunto, que se aprende a escrever. Não foi sem ler os grandes literatos ingleses e franceses, além das tradicionais obras clássicas das literaturas grega e latina, que Machado de Assis escreveu O Alienista, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro, assim como também foram influenciados, em especial pela literatura francesa, até mesmo o reacionário Guimarães Rosa e os comuníssimos (e comunistoides, diga-se) Graciliano Ramos e Jorge Amado, isto para não alongar muito a lista.

Entretanto, é justamente quando espero que se proponha uma ideia digna de uma mente sã que, no Brasil, se propõe justamente o inverso. Segundo reportagem da Folha (e aqui sei que pode haver distorções, como já escrevi antes, mas não me parece o caso), a escritora Patrícia Secco, cuja obra não só desconheço completamente como também não é relevante para este tópico, propõe que, para facilitar a leitura de clássicos, é válido mudar algumas palavras “menos comuns”. Ao melhor estilo azevediano, farei um vermelho e preto (no caso do Tio Rei, é vermelho e azul, mas prefiro a cor preta porque deixa o texto menos berrante) com a reportagem, que começa assim:

Escritora muda obra de Machado de Assis para facilitar a leitura

“Entendo por que os jovens não gostam de Machado de Assis”, diz a escritora Patrícia Secco. “Os livros dele têm cinco ou seis palavras que não entendem por frase. As construções são muito longas. Eu simplifico isso.” Ela simplifica mesmo: Patrícia lançará em junho uma versão de “O Alienista”, obra de Machado lançada em 1882, em que as frases estão mais diretas e palavras são trocadas por sinônimos mais comuns (um “sagacidade” virou “esperteza”, por exemplo”.

Já no começo, mistura-se uma obviedade com um problema. É óbvio que o jovem, quando não entende algo, não vai gostar desse algo, pois isso não é uma característica exclusiva sua, mas também humana. O detalhe é que toda a graça de algo que não se entende é, justamente, superar os próprios limites (ou, como prefiram, os limites que se tinha anteriormente, o que me parece mais adequado para esta situação) para conseguir entender aquilo. Quem quer que já tenha resolvido uma equação de segundo grau aplicando Bhaskara pela primeira vez, considerando toda a metafísica que há nessa brilhante fórmula, sabe de que tipo de regozijo falo.

Ocorre, porém, que, para a nossa anti-ilustre (porque ilustre seria se fosse ao menos amplamente conhecida, o que não é) escritora, este tipo de desafio é muito para nossos jovens que, aparentemente, não podem empregar mais de dois neurônios do cérebro para tentarem compreender a sofisticada sintaxe machadiana nem caminhar até a biblioteca ou até o próprio quarto para pegar um dicionário e descobrirem, por exemplo, que uma sege é nada mais nada menos do que uma carruagem, ou que, para designar certa forma de esperteza aliada à perspicácia, diz-se “sagacidade”.

É, claramente, o culto da preguiça intelectual o que se está propondo. O problema, caros leitores, é que não para por aí. Segundo nossa Saussure do século XXI, ao invés de dedicarmos um tempo um tanto maior a estudo de vocabulário ou mesmo de sintaxe com os alunos, o melhor seria praticamente reescrever a obra clássica (porque, veremos, não é só Machado que está em jogo aqui), tornando suas frases mais diretas- id est, a não ser que Secco não saiba o que significa frase direta ou indireta, praticamente abolindo o uso de discurso indireto e discurso indireto livre – e trocando “palavras difíceis” por “sinônimos mais comuns”.

Digo que Secco é uma Saussure por ser a ciência de que este é pai, a Linguística, que nos fez perceber que, por ser um signo definido justamente por não ter exatamente a mesma definição de outro(s) – já que, nesse caso, não haveria a necessidade de existência de dois signos para o mesmo conceito -, a sinonímia perfeita não existe e, portanto, qualquer tentativa de trocar um termo por seu sinônimo resultará, inevitavelmente, em uma mudança semântica daquilo que se queria dizer, ou, no caso em questão, a completa descaracterização de uma obra literária, perdendo, justamente, suas raízes históricas e mesmo as intencionalidades que nela o autor quis imprimir.

Para Secco, porém:

A mudança não fere o estilo do escritor mais celebrado do Brasil, diz Patrícia. “A ideia não é mudar o que ele disse, só tornar mais fácil.”

Ora essa, se o estilo é composto, basicamente, pelos vocábulos usados e pela sintaxe que os organiza, como exatamente mudar ambos não interferirá no estilo de um escritor e, especialmente, no que ele disse? Se, por exemplo, anglicizarmos Machado de Assis, submetendo ao mesmo nível vocabular e à sintaxe inglesa, obviamente teremos, então, uma mudança de estilo, pois há vocábulos portugueses que não são reproduzíveis em inglês (e vice-versa) e a sintaxe do Português, também, é um tanto mais flexível que a inglesa.

O que Secco propõe, então, não passa, ao fim e ao cabo, de uma limitação do horizonte vocabular e sintático dos alunos, que, sem acesso a diferentes estilos (e não falo nem em hierarquia aqui, falo apenas em diferenças), se verão inevitavelmente prisioneiros do que já usam e terão, portanto, menos ferramentas para descrever o mundo ao seu redor.

A escritora, contudo, não parece ligar para isso:

E o plano inicial dela era descomplicar outros clássicos. A ideia nasceu em 2008, com aspirações maiores: “Montei um plano com um título de cada autor clássico para a gente tentar fazer uma versão.”

Amigos conservadores, liberais e comunistas de bom senso, imaginem que lindo será se seguirmos a utopia secca e retirarmos, de Vidas Secas, todo o uso de discurso indireto livre (afinal, a senhorita não gosta de “frases indiretas”!). Qual seria, também, o limite disso? Teríamos de reduzir todos os clássicos, dos mais diferentes estilos, ao estilo diderotiano do diálogo, como em O Sobrinho de Rameau, só que sem a sofisticação vocabular deste.

Como faríamos, outrossim, com o teatro? Afinal, como bem diz Junior Kyle, referindo-se a Shakespeare, em um dos mais geniais episódios de Eu, a Patroa e as Crianças, “não entendo esse monte de tu e vós”, o que, sem dúvida, é sentimento compartilhado, também, por muitos jovens brasileiros que por acaso tentassem ler qualquer peça de Gil Vicente, por exemplo.

Aliás, teríamos, também, de enfiar o bisturi no próprio hino nacional, que já começa invertendo a ordem entre objeto direto e objeto indireto com um “de um povo heroico o brado retumbante”. Algum corajoso para fazer isso, ou teremos que confiar em Secco e em “dois jornalistas amigos”

Infelizmente, porém, o Ministério da Cultura não agiu com sensatez e:

Seu projeto, que também previa versões de “O Cortiço” e de “Memórias de Um Sargento de Milícias”, foi liberado pelo Ministério da Cultura para captar dinheiro com lei de incentivo, mas Secco só conseguiu patrocínio para dois títulos: “O Alienista” e “A Pata da Gazela”, de José de Alencar, que sai junto.

A tiragem, de 600 mil exemplares, será distribuída de graça pelo Instituto Brasil Leitor. O lançamento será em junho, e terá direito a um túnel construído com 60 mil livros no vale do Anhangabaú, centro da cidade.

Poderiam, agora, objetar contra mim que, ao menos, dois grandes clássicos não foram conspurcados nem tornados “mais fáceis e mais diretos” – ou, melhor dizendo, lembro de novo, perdendo completamente sua originalidade e sua própria essência com as bisturizadas sintáticas e vocabulares de Secco e cia. Entretanto, considerando que “apenas” a obra mais foda de Machado (e adoraria ver Cubistas e Casmurristas me contestarem aqui) e o melhor escrito brasileiro sobre Loucura e Cientificismo dos últimos 100 ou 200 anos, se não de toda a nossa história literária já foi conspurcada, já temos um grave dano ao entendimento sobre o contexto em que essa obra foi escrita, pois é justamente o paradoxo entre a especificidade do contexto ali dado (a pequena Itaguaí, com seus problemas, intrigas e Bacamartes) e a universalidade do escrito, que pode se aplicar até mesmo aos dias atuais, fora a já citada perda de instrumentos linguísticos para descrever o mundo ao nosso redor.

PS: Em tempo: Ainda bem que a tiragem será distribuída de graça, porque fazer alguém pagar por um clássico mais violado do que naturalmente (visto que mesmo as mudanças ortográficas já violariam, de certa forma, o clássico, mas isso é um tanto inevitável, pois ocorre também em traduções) seria sacanagem ao extremo.

Parece, entretanto, que ainda há pessoas sensatas se opondo a tal ideia, como o professor da USP, Alcides Villaça, cuja ideologia não me interessa no momento e com cujo posicionamento concordo inteiramente, também por não poder ser mais claro quanto à boçalidade dessa ideia de Secco:

“É absurdo imaginar que a função da escola seja facilitar qualquer coisa, em vez de levar a trabalhar com as dificuldades da vida, da crítica e do conhecimento”, comenta o professor da USP Alcides Villaça. Ele se diz indignado: “Apresentar como sendo de Machado de Assis uma mutilação bisonha de seu texto não devia dar cadeia?”.

Pena não só que (e PS 2: Sim, professor, lesa-inteligência ainda é crime pelo que me consta) Outros seis mestres da USP e três da Unicamp foram procurados para dar seu parecer sobre o projeto. Nenhum quis comentar. , como também que, por incrível que pareça, não são Villaças (e, aos Cubistas mais fanáticos, não, não é o pai de Eugênia) mas Seccos, e não Déboras, mas Patrícias, que vêm dominando cada vez mais a cena intelectual brasileira.

“Moral da História” (Ou, azevedianamente falando, “Voltei”)

São Seccos que, para não correrem o risco de criar uma geração de racistas, censuram (ou tentam censurar, pelo menos) Monteiro Lobato – contrariando, aliás, um princípio quase inviolável para a crítica literária em peso, enunciado por Antônio Cândido em A literatura e a formação do homem, de que não é a literatura quem edifica ou corrompe, mas o próprio indivíduo que lê. São Seccos, igualmente, que, ao confundirem intencionalmente (afinal, é melhor sempre procurar “sinônimos mais comuns” para explicar uma tese ou mesmo mera opinião) “compreensível” e “aceitável” e ao confundirem lutas políticas contra o comunismo com preconceito contra nordestinos, criam campanhas de censura contra jornalistas e humoristas. São Seccos, do mesmo modo, que lutam contra a opressão machista sem sequer definir direito o que é esta ou mesmo a que se presta seu contrário, o feminismo. E, principalmente, são Seccos os que espalham por aí a lorota de que tudo se deve desconstruir pois todo discurso está eivado de ideologias, mas que, ao primeiro sinal de desconstrução de seus próprios discursos, gritam “obscurantistas!”, “fascistas!”, “classe média conservadora!”.

Pois é, meus amigos, parece que a Esquizofrenia no País dos Petralhas continua. Pena, porém, que o inimigo não é apenas o mesmo.

Sobre o Autor:  Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Espera, sinceramente, que a literatura brasileira contemporânea não fique mais Secca do que já parece estar.

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4 comentários

    1. Heitor,

      Eu, por acaso, trabalhei em uma espécie de iniciação científica com “O Alienista” e, já ao ler a primeira página dessa nova versão, tive a impressão de ver algumas diferenças no vocabulário, que é o que o texto da matéria aponta.

      Como, porém, não estou com a versão que trabalhei em mãos (se quiser, posso postar uns trechos dessa versão amanhã), tive de pesquisar na internet por alguma versão anterior do livro e achei essas duas aqui em uma pesquisa rápida. Peço que compare apenas as páginas 5 e 6 de sua versão com a página 1 da primeira e as páginas 1 e 2 da segunda e me diga se não houve alteração vocabular:

      http://www.protexto.com.br/classico/alienista.pdf
      http://www3.universia.com.br/conteudo/literatura/O_alienista_de_machado_de_assis.pdf

      Caso queira, antes de mim, checar a versão com que trabalhei, era da Ática de 1992 (salvo engano) da série Bom Livro (ótima série, aliás, apesar de “O cortiço” ter uma pontuação que não nos deixa muito seguros). Falemos depois disso.

  1. Bem tirando que acho ridícula qualquer coisa com petralha no nome (sério isso é ruim, acho que vc é muito mais criativo do que o colunista medíocre da Veja), concordo com vc.

    AH, e só um pequeno adendo, acho melhor vc estudar um pouco como são os editais do MiC, pois eles tem um puta problema legal pra trabalhar analise de conteúdo, em geral só são impedidos de capitar recursos com abatimentos fiscais quem erra feio no pedido. (Alem de que liberar captação de recursos é uma coisa, conseguir eles é outra). Abraço.

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