O automatismo revoltoso e burro da TV Revolta (Ou: Guia de como NÃO derrotar um governo nas urnas)

Recentemente, viralizou, facebook afora, a página TV Revolta, já tachada pelas esquerdas de, entre outras coisas, “ultradireitista”, “ultraconservadora”, “psdbista”, “fascista”, “desinformadora”, tudo isto apenas porque é mais uma entre as milhares de páginas antigovernistas (note-se, antigovernistas, não necessariamente antiesquerdistas ou antiestatistas) que pululam no ciberespaço facebookiano.

Acontece, que, desta vez, minha única discordância com a esquerda é com relação aos rótulos dados, mas não quanto ao não gostar dessa página. Digo isto porque, como o leitor já sabe, dá-me calafrios, no mínimo, toda vez que ouço falar que um brasileiro fez ativismo, protesto, revolta ou mesmo “revolução”, ou ainda quando fala sobre ou em nome de qualquer dessas palavras.

Entretanto, não é, ainda, isso que me faz desaprovar os métodos dessa página, mas sim a sua preferência em quase todas as ocasiões não pela via da militância política, mas pela do moralismo puro e simples. Decidi, então, pegar uma de suas imagens (abaixo) para mostrar para a direita, de uma vez por todas, o que ela NÃO deve fazer para acabar de vez com a hegemonia esquerdista e/ou mesmo para apenas ganhar uma eleição do PT.

Voto voto voto

Bialmente falando, então, aos trabalhos. Como transparece já nas duas primeiras linhas, a página deseja, supostamente, dar-nos uma visão diferente daquela que apregoa que todos os problemas do país se resumem aos políticos, eximindo de culpa, portanto, justamente o povo que os escolheu. O detalhe é que, para isso, bastaria linkar um ou dois vídeos de Luiz Carlos Prates, tão militarista de tão antipetista e tão antipetista de tão militarista, especialmente aqueles em que é menos moralista do que de costume.

Intelectualidade de segunda-feira

Entretanto, a página prefere, com a imagem, dizer que o problema é “você”, e “você”:

“Que não quer estudar”

“Que não lê”

Aqui, em princípio, concordo com os revoltosos. Entretanto, há um grave problema: Ler e estudar o quê? Muitos, por exemplo, dos que discordam da TV Revolta estudaram Hobsbawn, Marx, Marcuse, Lênin, Stalin, Trotski, Gramsci e uma caralhada de autores que pregam a supremacia do Estado sobre o indivíduo e o controle daquele sobre todos os aspectos da vida humana, desde a economia passando pela sexualidade e indo até ao controle das opiniões que são dadas. Imagino que, certamente, os revoltosos, tão bem informados e tão instruídos, devem saber muito bem o que aconteceria neste cenário em que predominasse apenas um tipo de conteúdo nas editoras e nas universidades, não é? Pois é, eis a situação atual de terra brasilis, ou melhor, dos “vocês” que “estudam e leem”.

O que vem em seguida, porém, é ainda pior:

“Que reclama de segunda-feira”

“Que não quer trabalhar”

“Que só pensa em feriado”

“Que tem preguiça de levantar cedo”

“Quer ser sustentado pelo Bolsa Família

Vemos aqui qual é a da página, além de inferir que seja humanamente possível ser sustentado pelo Bolsa Família em absolutamente todo lugar do Brasil. Segundo eles, por mais que a obrigação a trabalhar na segunda-feira seja inescapável independente de nossos quereres, que o brasileiro já seja um dos povos que mais trabalha no mundo e que mais de 41% da riqueza dos brasileiros fica concentrada nas mãos do Estado por meio de impostos, ou seja, por mais que o brasileiro trabalhe independentemente de estar em um cenário nada motivador para o trabalho, o problema do Brasil não é todo esse cenário, mas apenas que o brasileiro, ao lembrar-se de que precisará enfrentar duras rotinas de esforço físico e mental além do medo da demissão e das milhares de contas a serem pagas, não saia motivado para o trabalho nem adore levantar cedo (aliás, ter preguiça de algo e expressar este sentimento, do que eu saiba, ainda é um direito de todos, a não ser que os revoltosos acreditem no discurso anti-Sheherazade) mesmo quando não precise, como se, por isso, produzisse menos do muito que já produz. Até agora, então, apenas estou confirmando meu temor quanto às “revoltas” de brasileiros. E, pelo visto, continuarei a confirmar…

Sobre votos e falácias

Em seguida, mais dois chavões. Segundo os nossos Hobbes tupiniquins, o problema do Brasil é você que:

“Só fala de futebol”

“Só escuta música imoral”

Quanto à segunda afirmação, apenas peço provas de algo que, até hoje, só vi sendo provado pela falácia da petição de princípio, ou seja, que há alguma relação entre a música que se ouve, o padrão moral que se tem e o nível em que alguém irá se engajar politicamente. Obviamente, só há como provar isso por meio da única ciência que o brasileiro aparenta conhecer, que é a especulação, visto que gosto musical é, em primeira instância, uma questão estética e não ética e, como lembra Reinaldo Azevedo, “quando se une ética e estética, cai-se em uma relação fascistoide”.

Já quanto à primeira, ocorre que, na verdade, essa é justamente uma das virtudes do brasileiro. Afinal, quando se fala sobre o que não se entende, especialmente sobre o que demanda estudo – o que o brasileiro, de fato, não faz nem pretende fazer, pois está ainda na época da diplomolatria -, corre-se o risco de espalhar, aos quatro ventos, uma série de mentiras ou mesmo de meros equívocos que, no fim, não ajudam muito. O problema, aliás, é também que, na grande maioria das vezes, até mesmo quem estuda tem problemas para falar de política ou de qualquer outro assunto, pois muitas vezes há parcas informações, parca fortuna crítica ou mesmo parca vontade daquele com quem se discute de promover uma conversa honesta.

Já no auge da indignação, os revoltosos terminam sua argumentação com o maior clichê de todos (se é que isto é possível), de que o problema é “você” “que não sabe votar”. Quanto a isso, apenas pergunto: que tal discutirmos, primeiro, a validade de OBRIGAR alguém a comparecer às urnas ou ao recinto onde possa justificar o óbvio, ou seja, que não vai votar por que não quer votar?

Confesso que, para concluir este artigo, não tenho muito a dizer para os revoltosos, a não ser que Diogo Mainardi está cada vez mais atual, pois, aparentemente, “na internet só tem otário”, inclusive otário para gastar tempo explicando o óbvio a quem, pelo visto, não está querendo qualquer explicação.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Apenas espera os gritos revoltosos (literalmente) de “petista vagabundo” contra um antipetista declarado.

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5 comentários

  1. Só quero corrigir alguns erros que vc cometeu.
    Primeiro, Eric Hobsbown não prega em suas obras “a supremacia do Estado sobre o indivíduo e o controle daquele sobre todos os aspectos da vida humana, desde a economia passando pela sexualidade e indo até ao controle das opiniões que são dadas.”, mais sim que o estado atenda as necessidades do indivíduo e que esse não deva ter controle sobre os aspectos ligados as liberdades individuais. Então cuidado ao citar os autores.

    Segundo não são “mais de 41% da riqueza dos brasileiros fica concentrada nas mãos do Estado por meio de impostos,” nossa carga tributária é 5% menor que isso ficando na casa dos 36%, o que nos coloca, em Segundo lugar na América Latina e é a 14 dentre as 50 maiores economias do mundo e colocando todas as cargas tributarias do mundo a nossa fica por volta da posição 30 (Não sei o numero exato). Alem disso é bom lembrar que desses 36% em torno de 17% volta para o setor financeiro privado, se é para dar números, busque fontes melhores.

    Até.

    1. “Primeiro, Eric Hobsbown não prega em suas obras “a supremacia do Estado sobre o indivíduo e o controle daquele sobre todos os aspectos da vida humana, desde a economia passando pela sexualidade e indo até ao controle das opiniões que são dadas.”, mais sim que o estado atenda as necessidades do indivíduo e que esse não deva ter controle sobre os aspectos ligados as liberdades individuais. Então cuidado ao citar os autores.”

      Ah não? Então como a utopia comunista vai se realizar?

      ” Alem disso é bom lembrar que desses 36% em torno de 17% volta para o setor financeiro privado, se é para dar números, busque fontes melhores.”

      Mas gente, olha só, 17% voltam para o setor privado!! Só por isso acho que precisamos mesmo aumentar a oneração dos ricos para 99%!!!

      Porra, Antonio, faz melhor, cara. Aliás, cadê as tais fontes?

      1. “Ah não? Então como a utopia comunista vai se realizar?”
        Cara não vem com essa por favor. Vc sabe que existem diversas discussões teóricas na esquerda sobre isso e que existem grandes grupos (Incluindo o que o Hobsbawn simpatizou boa parte da vida) que tinham uma teorização diferente dessa dada de “supremacia do Estado sobre o indivíduo e o controle daquele sobre todos os aspectos da vida humana”, ou seja vc deu a sua opinião sobre o assunto falando que era de outro, por isso a critica e a não resposta a essa pergunta.

        “Mas gente, olha só, 17% voltam para o setor privado!! Só por isso acho que precisamos mesmo aumentar a oneração dos ricos para 99%!!!”
        Não por esse motivo, mais acho que se precisa de uma reforma tributária no país que modifique a porcentagem de impostos tornando ela realmente progressiva no país pois não sei você mais acho absurdo que um cara que ganha. 4.463,82 por mês tenha que comprometer os mesmos 27,5% com IR do que uma pessoa com renda mensal 10X superior a ele por exemplo!

        “Porra, Antonio, faz melhor, cara. Aliás, cadê as tais fontes?”
        To no celular e não consigo copiar os links. Porem pesquise o Orçamento Nacional e ver ver que aproximadamente 47% vai para pagamento de juros da divida e de títulos público o que pode ser considerado como uma volta do dinheiro para entes privados. Os números dos impostos vem do ultimo relatório da OCDE, ambos são extremamente fáceis de achar.

      2. “Cara não vem com essa por favor. Vc sabe que existem diversas discussões teóricas na esquerda sobre isso”

        E ler o “Manifesto”, já leram?

        “Não por esse motivo, mais acho que se precisa de uma reforma tributária no país que modifique a porcentagem de impostos tornando ela realmente progressiva no país pois não sei você mais acho absurdo que um cara que ganha. 4.463,82 por mês tenha que comprometer os mesmos 27,5% com IR do que uma pessoa com renda mensal 10X superior a ele por exemplo!”

        Ah é, e que tal todo mundo pagar MENOS imposto? Pensou nessa já?

      3. “Ah é, e que tal todo mundo pagar MENOS imposto? Pensou nessa já?”
        Já, porem isso não retira o que eu disse, que os ricos devem pagar mais que os pobres e que o imposto deve ser principalmente sobre a renda e não sobre os produtos.

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