O óbvio ululante: Um recorte

"Envelheça, leitor, envelheça depressa, com urgência, envelheça!"

“Envelheça, leitor, envelheça depressa, com urgência, envelheça!”

“Não me interessa a expressão numérica da ‘festiva’. O que importa é sua capacidade de influir nos usos, costumes, ideias, sentimentos, valores do nosso tempo. Ela não briga, nem ameaça as instituições. Mas, em todas as áreas, as pessoas assumem as poses das esquerdas.”

Nenhuma máxima melhor do que esta para começar o recorte de O óbvio ululante: primeiras confissões, do reacionário autodeclarado e maior teatrólogo de todos os Brasis já existentes, Nelson Rodrigues. E foi justamente como reacionário, e não como teatrólogo, que Nelson, o obsessivo pelos amigos (e como o sabia Otto Lara Rezende), pela pobreza e pela morte, entre outras coisas – afinal, o próprio se dizia “uma flor de obsessão”-, nos legou não só um apanhado de frases geniais sobre as esquerdas brasileiras como também uma pletora de textos em que, como um dos melhores senão o melhor dos moralistas brasileiros, disseca com precisão cirúrgica e por meio dos dramas cotidianos a alma humana. Vejamos, então, o que há de melhor no Nelson dessa obra.

“O canalha, quando investido de liderança, faz, inventa, aglutina e dinamiza massas de canalhas”.

Em um dos melhores capítulos do livro, Assim é um líder, e também em outros capítulos anteriores e posteriores, Nelson comenta sobre alguns dos líderes mais proeminentes até então no século XX (seu artigo, informo, era de Janeiro de 1968), sendo eles o ditador comunista Stalin, o nazista Hitler, o presidente americano recém-assassinado John F. Kennedy e o czar russo Nicolau II, aquele que, em nome do projeto de poder comunista-bolchevique, foi assassinado junto com sua família, incluindo um garoto de 13 anos que sofria de hemofilia e de problemas mentais.

Para o reaça obsessivo, “o líder é um canalha”. E admitia que estava generalizando, como também generalizou aqui:

“Façam a seguinte experiência: – ponham um santo na primeira esquina. Trepado num caixote, ele fala ao povo. Mas não convencerá ninguém, e repito: – ninguém o seguirá. Invertam a experiência e coloquem na mesma esquina, e em cima do mesmo caixote, um pulha indubitável. Instantaneamente, outros pulhas, legiões de pulhas, sairão atrás do chefe abjeto.” (p. 90)

Em nossa época, naturalmente, o comentário rodriguiano seria tratado como a pior das heresias não apenas pelo latente reacionarismo – afinal, pode instigar, nas massas, o ódio, não é, Rachel Sheherazade? -, mas também por ter cometido, horror, uma generalização, e, mais horror ainda, tê-la assumido com a cara mais deslavada deste mundo. Ocorre que, após convocar qualquer idiota da objetividade (aqueles mesmo que Nelson detestava profundamente e com razão) para fazer uma pesquisa, os mesmos furiosos verão que a generalização está tão correta de tão embasada nos fatos e tão embasada nos fatos de tão correta, e provavelmente proclamarão que, na questão das generalizações, Nelson é “uma exceção à regra”, tudo isto com os ares mais científicos possíveis.

Acontece que, como escreveu no mesmo livro nosso anjo pornográfico, o problema da objetividade idiota é que, em sua esquizofrenia de tudo analisar fria e calculadamente, ela retira dos fatos as potencialidades que neles podem ser exploradas, e Nelson, definitivamente, era um dos que mais adorava explorar todas as potencialidades de um fato. Tanto é que, com esse argumento, o que se propõe a provar é justamente que o líder que não é canalha, id est, o homem normal ou mesmo o excessivamente vaidoso que não esteja disposto a tudo pelo poder, inclusive a “degradar toda uma época”, como haviam feito Hitler e Stalin, não é, de fato, líder, mas o anti-líder, aquele cujo destino ou é a morte prematura, como no caso de Kennedy – “restava tudo por fazer; o horizonte da reeleição abria-se diante dele.” -, ou a traição, como no caso do já citado Czar Nicolau II, um homem sem a firmeza necessária para governar um país em crise e repleto de traidores por todos os cantos – e não falo aqui de autoritarismo, antes que os babadores de gravata, rodriguianamente falando, venham fungar na minha carótida.

É por meio da tão hodiernamente odiada generalização que Nelson, então, demonstra e expressa, sem a objetividade idiota, um fato totalmente verificável, mas nunca verificado (isto porque, atualmente, canalhice “depende do ponto de vista”), por meios objetivos, enquanto, atualmente, professores tão chavistas de tão petistas e tão petistas de tão chavistas ficam tropeçando nos astros distraídos tentando colocar Mao “em contexto”. Seria tragicômico se já não fosse patético o suficiente.

“Dirá alguém que, com o tempo e o uso, todas as palavras se degradam. Por exemplo: – liberdade. Outrora nobilíssima, passou por todas as abjeções. Os regimes mais canalhas nascem e prosperam em nome da liberdade.”

Falando em marxistas tão fanáticos de tão hipócritas e tão hipócritas de tão fanáticos, outras das obsessões do reacionário eram, sem dúvida, as figuras de d. Hélder e Dr. Alceu, dois famosos membros da esquerda católica da época que pareciam, como um dos “grã-finos” que Nelson irritara durante uma reunião (ou, falando como Pondé, um “jantar inteligente”) ao dizer que “o marxismo é o ópio do povo”, achar não só que “Marx é tudo!” como também (e principalmente) que “o verdadeiro Cristo é Marx.”

Trata-se, obviamente, da completa esquerdização e, portanto, da “descristianização” não só da Igreja Católica, da qual ambos eram sedizentes membros, mas também de toda a fé cristã que, por lógica, não poderia ser marxista não só por admitir a transcendência – essa, diga-se de passagem, era a birra de Nelson contra Marx, que, segundo o flor de obsessão, teria lhe tirado “a imortalidade da alma” – como também por ter surgido em um momento histórico em que marxismo não era nem mesmo um projeto de espermatozoide filosófico (se é que assim pode ser chamado), o que, pelo visto, os luminares do atual esquerdismo facebookiano adoram fingir que não entendem.

Ocorre, porém, que, para Nelson, também havia outra desvirtuação tão grave quanto esta e que as esquerdas, sem dó nem piedade, estavam cometendo em sua época e continuam a fazê-lo: o significado de liberdade, palavra que, para ele (em A euforia do anjo), fora já tão desvirtuada que, em qualquer sociedade minimamente sã, não poderia mais entrar em casa de família. E a tal desvirtuação é fartamente demonstrada não só com o relato de atrocidades dos regimes de Stalin e Mao (erigidos, obviamente, em nome da “liberdade”) como também em Robinson Crusoé sem radinho de pilha, em que o anjo pornográfico detona um artigo em que Dr. Alceu, como qualquer esquerdista brasileiro da época e de hoje, iguala, no quesito liberdade, as totalitárias Rússia e China com os Estados Unidos da América, mostrando com que perfídia o ilustríssimo doutor iguala nações totalitárias com a até aquele momento nação mais livre do planeta, em uma óbvia tentativa de dizer que o totalitarismo russo e chinês não só não era tão grave como também era copiado pelo próprio rival do lado capitalista, isto tudo para alimentar, no brasileiro, o antiamericanismo – afinal, como escreveu o próprio Rodrigues, o ódio esquerdista aos Estados Unidos não era (e nem é) realmente um sentimento, mas apenas palavra de ordem – e embaralhar, como viriam a conseguir depois, as mentes que, presas fáceis de sua retórica vitimista, passariam a acreditar que, liberal-zoeiristicamente falando, “a liberdade é uma invenção da burguesia para vender opressão capitalista para o proletariado”.

“O pior cego é o marxista brasileiro. Ele nada vê e vê menos ainda o próprio Marx.”

Por fim, algo em que Nelson está tão certo quanto está errado. É em O pior cego, de longe a melhor das crônicas de O óbvio ululante, que o reacionário, embasando-se, obviamente não como um idiota da objetividade idiota, no fato de as cartas de Marx serem tão pouco lidas pela esquerda brasileira, enuncia com precisão que ainda não se viu, in terra brasilis, o verdadeiro Marx, “o racista, o imperialista, o colonialista e o genocida”. Concordo inteiramente. Pena, porém, que, depois de 40 e poucos anos de escrita essa crônica, teríamos de avisar a Nelson que, ao contrário do que acontecia em sua época, a esquerda já lera, sim, as cartas de Marx, mas as preferiu guardar dentro do armário, junto com os cadáveres de Stalin, a limpeza étnica de Milosevic, “a nossa moral e a deles” de Trotski e as taras de Mao.  O que, convenhamos, quase nada surpreenderia o nosso maior teatrólogo e invadido do Maracanã.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Só pode lamentar sinceramente, após ler O óbvio ululante, que Nelson tenha morrido tão antes da ascensão da dicotomia entre esquerda e direita se tornar a disputa para ver quem é mais de esquerda.

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