Um teste científico-piruliano (e melhor do que o acadêmico-científico) para identificar religiões

Leitor, como você já deve estar cansado de saber, houve, recentemente, todo um imbróglio em torno de uma decisão tomada por um juiz (cujo nome não me recordo nem convém ao momento) e que pregava que, por não terem as “características essenciais” a uma religião, Candomblé e Umbanda não seriam religiões e, portanto, seus adeptos não poderiam se beneficiar da lei de liberdade religiosa atualmente vigente no país.

Confesso a vocês, antes de tudo, que toda a lenga-lenga religiosa e politicamente correta não me interessa, também porque o assunto já foi debatido ad nauseam e porque meu nobre amigo Pirula (pirem, olavettes) já fez um vídeo em que, apesar de um “portanto” muitíssimo inadequado para falar sobre como cristãos veem religião, aborda tudo e mais um pouco que eu aqui poderia abordar. Acontece, porém, que o mesmíssimo Pirula, sem saber, acabou nos presenteando com uma nova espécie de taxonomia quase “lineica” (biólogos e estudantes do Ensino Médio entenderão) para as religiões.

Tentarei analisar brevemente, então, uma série de crenças muito incutidas nas mentes de boa parte dos luminares da cultura brasileira (Safatles, Ghiraldellis, Chauís, Duvivieres, Porchats, Falcões, Sakamotos, Cynaras, Lolas et caterva) e veremos se é possível encaixar, em pelo menos uma das quatro séries de critérios apresentados por Pirula no vídeo (vejam-no antes de ler, a coisa começa a ficar interessante a partir de 03:10), tais crenças como religiões e seus crentes, por corolário, como religiosos. Cabe, portanto, apresentar, primeiro, as séries de critérios a serem usados.

Critérios

Série 1 (inspirada pelo tal juiz): Existência de um texto-base (e.g.: Bíblia), estrutura hierárquica e Deus a ser venerado.

Série 2 (inspirada pelo Dicionário Aurélio): Crença na existência de uma força ou de forças sobrenaturais e manifestação de tal crença por doutrina e rituais próprios. (Devoção e piedade não serão incluídos para fins de tornar a análise tão objetiva e científica quanto possível)

Série 3 (inspirada por Schleiermacher, Tiele e Glasenapp): Comportamento baseado em sensação de absoluta dependência para com uma transcendência atuante no mundo. Inclui emoções especiais (confiança, medo), conceitos (crença) e ações (culto e ética).

Série 4 (HUEkipedia-based): Conjunto de crenças, sistemas culturais e visões de mundo que estabelece símbolos por meio dos quais o homem se deve relacionar com o mundo. Apresentam narrativas, símbolos, tradições e histórias sagradas em prol de dar sentido à vida.

Religiões

Marxismo

Série 1: Inspirado por O Capital (ou, para a maioria esmagadora mais-vagal, O Manifesto do Partido Comunista), apresenta uma estrutura burocrática forte que deve regular a sociedade, fazendo-a louvar o Deus-Marx ou, mais vulgarmente, o Deus-Líder do momento.

Série 2: Acredita na metafísica força da política como um elemento de reforma psicológica e, pela repetição de mantras e por tentativas frequentes de revolução, manifesta essa crença.

Série 3: Baseia-se na dependência ante o Deus-Estado, misturando, com relação a este, confiança (se o Estado for marxista) e medo (se for capitalista), crendo, não obstante, “Nele” como redentor e tomando todas as atitudes necessárias para alcançar esse reino dos céus materialistas (ironia máxima).

Série 4: Prega que o proletário deva ser conscientizado da essência materialista-histórica-dialética do mundo e do movimento histórico representado por “primeiro como tragédia, depois como farsa”. Uma série de autores criaram uma forte tradição filosófico-cultural para consolidá-lo como um elemento que dá sentido à vida.

Resultado Final: Aprovado com louvor em todas as séries.

Conclusão: É religião.

Multiculturalismo

Série 1: Inspirado por Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman (entre outros), faz louvar o Deus-relativismo enquanto, ao mesmo tempo, coloca as crenças dominantes muitos degraus abaixo das minoritárias.

Série 2: Acredita na metafísica força da política como um elemento de reforma psicológica e, pela repetição de mantras e por tentativas frequentes de mudanças nas culturas dominantes, manifesta essa crença.

Série 3: Baseia-se na dependência ante o Deus-Estado, misturando, com relação a este, confiança (se o Estado for “nem de esquerda nem de direita”, só uma terceira via social-democrática) e medo (se for capitalista racista-machista-homofóbico-cristão), crendo, não obstante, “Nele” como redentor e tomando todas as atitudes necessárias para alcançar esse reino dos céus multiculturalista e igualitário.

Série 4: Prega que o homem deva ser conscientizado da sua importância como indivíduo tolerante para que as diversas culturas, mesmo aquelas que não aceitam diferenças culturais. Uma série de autores dão-lhe respaldo teórico a fim de que, antes que “coma a si mesmo” (ver minutos 30 a 31 para entender), democraticamente – não se enganem, essa história de que pensamento único é coisa de totalitário é coisa da extrema-direita ultraconservadora, meus amigos -, dê sentido à vida de absolutamente todos.

Resultado Final: Aprovado com louvor em todas as séries.

Conclusão: É religião.

Ambientalismo

Série 1: Inspirado no documentário An Inconvenient Truth, de Al Gore, coloca tartarugas marinhas acima dos seres humanos e faz venerar a Mãe-Natureza.

Série 2: Acredita na metafísica força da política como um elemento de reforma psicológica e na crença na Natureza como um medidor de moral e bons costumes e, pela repetição de mantras e por tentativas frequentes de convencimento da população por alarmismos manifestamente mentirosos, manifesta essas crenças.

Série 3: Baseia-se na dependência ante o Deus-Estado, misturando, com relação a este, confiança (se o Estado for ambientalista fanático) e medo (se for capitalista selvagem e ruralista), crendo, não obstante, “Nele” como redentor e tomando todas as atitudes necessárias para alcançar esse reino mais-verde-que-o-time-do-Palmeiras dos céus.

Série 4: Prega que o humano deve se conscientizar de que é uma praga para o planeta e de que, apesar de acabar sendo extinto tão naturalmente quanto 99% das espécies que já existiram, aquele deve, mesmo assim, se virar nos 30 para diminuir seu consumo.

Resultado Final: Aprovado com louvor em todas as séries.

Conclusão: É religião.

Por fim:

Bagnismo (mas pode chamar de “Crença no preconceito linguístico que é, na verdade, preconceito social“)

Série 1: Inspirado em Preconceito Linguístico: O que é, como se faz, de Marcos Bagno, coloca qualquer conhecedor da doutrina automaticamente acima dos “reles mortais” e louva, entre outros, o Deus-Educaçãopúblicagratuitaedequalidade.

Série 2: Acredita na metafísica força da política como um elemento de reforma psicológica e na disponibilidade para o “estudo científico da língua” como medidor moral e político (afinal, “como diz Aristóteles, o homem é um animal político”) e manifesta essas crenças pela repetição de mantras e pela publicação insistente de obras acadêmicas sobre esse mesmo tópico.

Série 3: Baseia-se na dependência ante o Deus-Estado, misturando, com relação a este, confiança (se o Estado for marxista, social-democrata ou anti-“retrógrado-conservador-fascista”) e medo (se for capitalista preconceituoso linguístico), crendo, não obstante, “Nele” como redentor e tomando todas as atitudes necessárias para alcançar esse reino divino da tolerância linguística.

Série 4: Prega que só há sentido em se ensinar línguas se, em uma aula de 50 minutos, nos atentarmos a absolutamente todas as variedades linguísticas existentes e não incorrermos, mesmo que ligeiramente, em qualquer atitude preconceituosa.

Resultado Final: Aprovado com louvor em todas as séries.

Conclusão: É religião.

Considerações Finais

Quod erat demonstrandum, esquerdismo é mesmo uma religião. E, se esquerdistas aceitam que religião é coisa de manipulados – ou, trocando para linguagem de gente normal, imbecis -, então (e eis aqui mais uma inspiração morgensterniana) esquerdismo é coisa de imbecil. Convivam com isso.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Agradece ao bom amigo Pirula por lhe ajudar a provar o que já deveria ser óbvio.

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