De como voltei ao esquerdismo graças ao Pragmatismo Político e ao Diário do Centro do Mundo

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Amigo leitor, deves ser tão bem memoriado de tão leitor e tão leitor de tão bem memoriado a ponto de se lembrar que, alguns posts atrás, te prometi contar sobre como se havia dado o meu processo de evasão das fileiras da esquerda, o que ocorreu há mais ou menos dois anos. Entretanto, de repente e não mais que de repente, depois de escrever conto de fadas antiesquerda, depois de ridicularizar figuras como Leonardo Sakamoto e Cynara Menezes, depois de até mesmo “recortar” livros de Lobão e Nelson Rodrigues, dois dos mais notáveis membros da direita hidrófoba deste país, devo confessar-lhes que fui arrebatado, religiosamente falando, após ler um dos posts mais recentes do Pragmatismo Político, extraído do Diário do Centro do Mundo, em que o brilhante Kiko Nogueira nos expõe toda a hipocrisia e a inépcia desses que se dizem “a nova direita brasileira”.

O que quero aqui, então,  é seguir os passos do companheiro Nogueira e dar 16 dicas absolutamente sisudas para que vocês possam finalmente seguir aquele que, certamente, é o único caminho possível para se conseguir “um mundo melhor”: a completa democratização dos meios de produção e a superação do modelo de família burguesa-ocidental-machista-racista-homofóbica-opressora.

Enfim, aos trabalhos.

1. Aprenda que, na Academia, o que vige não é, de forma alguma, o marxismo, mas o pós-estruturalismo (ou desconstrucionismo, como prefiram) e o pós-modernismo, correntes que, tão incontestáveis de tão absolutamente corretas e tão absolutamente corretas de tão incontestáveis, não abrem qualquer tipo de brecha para que o pesquisador, politicamente, se posicione como um marxista ferrenho, mesmo que entre os filósofos que serviram de paradigmas inspiradores para essas correntes haja marxistas como Derrida, Deleuze, Benjamin, Adorno, Horkheimer, Sartre, Ponty e Althusser, isso sem contar o também tão correto de tão incontestável e tão incontestável de tão correto Michel Foucault, que só não era marxista porque fora influenciado também por Nietzsche – o que, automaticamente, exclui Marxismo.

2. Esse negócio de que uns economistas e políticos são adeptos da Escola Austríaca, outros da Escola de Chicago, outros sociais-democratas e outros liberais é tudo balela da direita. Afinal, como assim não devemos definir como neoliberais e colocar no mesmo grupo canalhas como Mises, Hayek, Milton Friedman, David Friedman, Ronald Reagan, Margaret Thatcher, José Serra, Aécio Neves e Fernando Henrique Cardoso?

3. Falando em definir termos, também é mais do que um óbvio ululante (para citar o grande Nelson Rodrigues, que, apesar de ter escrito, como autobiografia, O Reacionário, claramente não foi entendido muito bem pela direita) que todos os que contestam a qualidade das reformas sociais dos governos Lula, Dilma, Chávez, Maduro, Evo Morales  e Fidel Castro só podem ser liberais fundamentalistas e conservadores de extrema-direita. Não se preocupe se alguém lhe pedir para explicar como pessoas tão aparentemente diferentes como Flávio Morgenstern, Aécio Neves, Álvaro Dias, Rodrigo Constantino, Reinaldo Azevedo e Olavo de Carvalho podem ser encaixadas no mesmo grupo. Ele (a) logo irá descobrir toda a verdade, que é o financiamento por parte do Banco Mundial por trás de todas essas figuras.

4. Cite constantemente os camaradas Lênin, Stálin, Trotsky, Gramsci, entre outros. Ah, não os leu? Não se preocupe, o mundo lá fora sempre irá depor contra os neoliberais da neodireita, pois debate é coisa de burguês e de opressor que não quer que as pessoas enxerguem os fatos fora do padrão imposto pela mídia conservadora.

5. Cite Reinaldo Azevedo, Rodrigo Constantino, Rachel Sheherazade e Olavo de Carvalho… como óbvios homofóbicos, racistas, machistas, ateofóbicos, transfóbicos e adeptos não só do ranço direitista como de teorias da conspiração malucas, que é só o que a direita sabe fazer.

6. Não mencione qualquer quantidade de vítimas para provar que o país é racista, machista e homofóbico. Afinal, só o fato de contestarem isso é prova de que nossa sociedade, por causa de seus preconceitos, não aceita sequer que negros, gays e mulheres possam ser mortos única e exclusivamente por serem negros, gays e mulheres.

7. NUNCA, absolutamente NUNCA caia nessa conversa de que nossas crenças são religiosas, por mais que haja tabus, dogmas, líderes a serem seguidos e uma metafísica toda especial para explicar o mundo. Essas semelhanças são apenas aparentes e são usadas pela direita para esconder os seus próprios objetivos, que é o de manter o poder e o dinheiro concentrados nas mãos dos grandes corporativistas.

8. Duas palavras: Justiça social. O que é a justiça social? Para nossos propósitos, é uma maneira rápida de explicar por que as ideias políticas de que não gostamos só podem resultar em tragédia.

9. Quem quiser desafiá-lo a definir o que é “neoliberalismo” e “democratização da mídia” só pode ser, obviamente, um direitista dogmático.

10. Não estamos, de jeito nenhum, propondo revolução. O que o companheiro Paulo Henrique Amorim quer, por exemplo, é só concretizar, de uma vez por todas, as mudanças sociais promovidas pelo PT.

11. Reaças e miguxos (que também não precisam ser definidos) só podem falar bem do livre-mercado e do suposto não-neoliberalismo do Brasil se já estiverem milionários em Cingapura.

12. É muito óbvio que a esquerda sempre defendeu todas as minorias. Stalin, na verdade, só expurgou gays da URSS não porque lhe era conveniente e porque de progressista não tinha nada, como diz a direita, mas por ser, ele próprio, um reacionário dentro do armário. O mesmo vale para Mao, Pol Pot, Ceausescu e todos os outros que, obviamente, só representam mesmo o fascismo reacionário ou o extremismo totalitarista.

13. Toda repressão a movimentos sociais é parte do plano do governo para que o sistema e as injustiças sociais nunca sejam questionadas de fato.

14. Como a Venezuela, ao contrário do que diz a mídia conservadora de extrema-direita, passa pelo maior período de prosperidade social e econômica de sua história, além de ser o país mais democrático das Américas, está claro que o bolivarianismo funcionará. Devemos, então, lutar para integrar toda a América em um bloco unívoco e, assim, ficarmos mais próximos de alcançar o mundo melhor.

15. Jesus Cristo é, obviamente, socialista, pois pregava a distribuição do pão. Essa direita católica e protestante criada por Olavo de Carvalho e Reinaldo Azevedo, então, apenas mente ao dizer que o cristianismo não é, quando corretamente lido, um predecessor um tanto equivocado moralmente das ideias marxistas. E a interpretação da TL da Bíblia é, portanto, a única correta.

16. “Modernidade líquida”, “tempos de extremismos”, “derrotismo” e “complexo de vira-lata” são ótimas respostas para quando você estiver sem saco – porque, óbvio, alguém que leu tanto nunca está sem argumentos – para explicar ao reaça canalha porque ele está errado.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre.  Agradece, por este post,  a Pragmatismo Político, Diário do Centro do Mundo, Conversa Afiada e, principalmente, ao também recém-convertido companheiro Kim Kataguiri.

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15 comentários

    1. Cumpanhero Arthur,

      Sim, sou, pois, neste mundo ultrapós-moderno neodesconstrucionista, as velhas fórmulas estão todas fadadas ao fracasso e só o que aceita a diversidade pode sobreviver.

  1. Assistindo alguns episódios de Family guy em que eles gozavam de ícones dos Democratas (Michael Moore) e republicanos (Rush Limbaugh) me veio essa vontade de saber mais sobre a política dos EUA. Algum brazuka escreve sobre? Já li coisas do Augusto nunes, mas eu queria mais. O Seth Mcfarlane despertou me interesse apesar de ser esquerdista consegue zuar ambos os lados iguais.

  2. Graças ao pragmatismo estou curado, logo ao começar a ler aquela merda. Precisa de uma disfuncionalidade emocional e cognitiva muito grande para aquele remédio não fazer efeito.

  3. que besteirol da porra, só podia ser da área de letras. Que porra que se estuda de política, filosofia e teoria geral do conhecimento em letras??? Nada né!!! Deve ser viado também

    1. Bruna,

      Quem foi que disse que só é possível estudar filosofia, política e teoria geral do conhecimento em um curso que tenha essas disciplinas? Além disso, se eu fosse homossexual, o que definitivamente não é o caso, qual seria o problema? Não são vocês da esquerda que são contra a homofobia?

    1. Lásaro,

      Se você soubesse o básico das regras de pontuação da língua pátria, até que eu poderia pensar em seguir o teu conselho.
      Ah, não, não poderia, conselho de esquerdista não se segue nem se ouve.

      Passe bem e pare de passar vergonha nos blogs alheios.

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