Crítica à religião que mais cresce no Brasil: o Olavismo

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(Aviso: Antes de vir fungar em minha carótida, caro amigo olavette, quero aqui deixar claros o meu respeito e a minha admiração pelo pensamento de Olavo de Carvalho, do qual divirjo em pontos periféricos e que não abordarei aqui, ao menos não em detalhes. Minha crítica, então, direciona-se única e exclusivamente a vós, e não ao maior filósofo do hemisfério. Se ainda quiserem, depois de isto ser esclarecido, falar que tenho a pretensão de “refutar Olavo”, favor ler os seguintes posts, entre os quais os dois primeiros foram divulgados, há algum tempo, pelo próprio Olavo, e o terceiro foi divulgado há mais ou menos um ano por Flávio Morgenstern, um aluno de Olavo (e, portanto, definitivamente alguém que não quer “humilhar o Olavo de Carvalho”:

Manifesto Jaaviano contra Olavo de Carvalho e outros arrogantes, inconsistentes, desonestos intelectuais e “fechados à diversidade da experiência humana e da realidade que nos constitui” / O Mínimo que Bernardo Lopes precisa saber para não ser um Idiota – O show de falácias de um Lanterna Verde / Eu, Apolítico – Ceticismo x Academia (Ou: Por que desconfiar de Renato Janine Ribeiro et caterva) /

E, caso queiram mais evidências disso, consultem a tag Olavo de Carvalho neste blog)

Há algum tempo, o nobre Arthur Rizzi Ribeiro, pedagogo e meu caro amigo, postou, em seu Tartaruga Democrática, uma crítica ao que chamou de Olavettismo (e que aqui chamarei de Olavismo porque eu quis), ou seja, à crença de que o brilhante filósofo campinense-richmondiano Olavo de Carvalho, tão foda de tão repudiado pela Academia e tão repudiado pela Academia de tão foda, está certo em absolutamente tudo o que diz, desde tópicos científicos, religiosos e filosóficos até como o preço das bananas chilenas pode influenciar na organização social do Panamá. Senti-me, então, deveras motivado a fazer minha própria crítica às olavettes, mas ainda não conseguia articular bem elementos que estivessem ausentes na detalhada crítica de meu amigo oakeshottiano, o que só consegui fazer bem recentemente. Hora, portanto, de escrever umas minhas mal traçadas sobre o tema. Bialmente falando, como sempre, aos trabalhos.

“O que o fanático nega aos demais seres humanos é o direito de definir-se nos seus próprios termos, de explicar-se segundo suas próprias categorias. Só valem os termos dele, as categorias do pensamento partidário. Para ele, em suma, você não existe como indivíduo real e independente. Só existe como tipo: “amigo” ou “inimigo”. Uma vez definido como “inimigo”, você se torna, para todos os fins, idêntico e indiscernível de todos os demais “inimigos”, por mais estranhos e repelentes que você próprio os julgue.”

Um dos pontos que Arthur, a meu ver, poderia ter abordado mas acabou por não tocar é a perversidade do fanatismo dos seguidores do Olavismo, contradizendo o próprio filósofo que dizem admirar, pois este já escreveu mais de um texto claríssimo sobre o que alguém com o mínimo de sanidade mental e de discernimento não deve fazer com outrem, ou seja, rotular aquele com quem  se debate de acordo com a própria visão, não permitindo ao outro sequer que se explique melhor, quanto mais que queira analisar a política, as instituições e a sociedade de um modo diferente do proposto pelo fanático.

Ora, qualquer um que já tenha acessado, no Facebook, páginas olavistas e tenha expressado, mesmo que educadamente, discordância quanto aos pontos de vista de Olavo ali expostos não raro deve ter sido achincalhado e chamado de “idiota útil” para baixo (e, no caso, “para baixo” inclui “comunista”, “progressista”, “marxista cultural”, “feminista”, etc.). O problema nesse caso é óbvio e foi bem explicado pelo próprio Olavo: esse recurso retórico, de crueldade extrema, encaixa o diferente não apenas com os que pensam o mesmo que este, mas também com pessoas pelas quais não tem qualquer apreço, se não tiver, por elas, o mais profundo desprezo e/ou a mais empedernida raiva.

Sinto-me autorizado a alertar as olavettes, caso não se lembrem, que chamar alguém de “progressista” conhecendo-lhe apenas um ou dois pontos de vista é juntá-lo à “alta intelectualidade” brasileira, composta por gentes como Leonardo Sakamoto, Cynara Menezes, Paulo Henrique Amorim, Marxilena Shallwe, Luís Nassif, João Pedro Stédile, Marcos Bagno, Paulo Ghiraldelli Jr. et caterva. Com isto, arriscam-se não só a jogar de vez cada vez mais gente para o lado dos progressistas (que, em termos de acolhida  e de solidariedade mútua, ainda estão imbatíveis) como também a sofrerem do mesmo mal quando, ao se pegarem refletindo sobre uma tese de Olavo que os tenha incomodado, forem acusados de “detratores do Olavo de Carvalho” para baixo (e este “para baixo” também inclui o que estava no anterior). São estes, que sequer conseguem tratar de modo digno o minimamente divergente, que estão defendendo a liberdade de pensamento ou entendi errado? (PS: Espero sinceramente que a resposta não seja a segunda).

“Meu filho, volta pra escola, vai aprender.”

Outro fator que Arthur não abordou, ou ao menos não abordou do jeito que abordarei, é o puxa-saquismo olavista. No caso, salvo engano, Arthur apenas descreveu o que acontece. Cabe a mim, então, modificá-lo trazer os exemplos.

Entrando no perfil do Facebook desse ilustre ensaísta, não é raro ver, poucos minutos após Olavo postar o que quer que seja, o referido post com centenas de curtidas e de compartilhamentos. Obviamente que há, no grupo dos curtidores e compartilhadores, leitores e alunos de Olavo que são conhecidos internet afora por respeitar o princípio conservador da prudência e não só refletir sobre o que se está compartilhando (e destaco, aqui, caros amigos meus como Ariel Barja, Vitor Vieira e o carrasco da Anarcopombuxos, Ítalo Lorenzon) como também apenas compartilhar minitextos que poderão defender, por bibliografia ou por retórica, até mais do que satisfatoriamente.

Lamentavelmente, porém, há, também, os olavistas recentes, que mal assistiram a dois ou três programas True Outspeak e, quando muito, leram um ou dois artigos de Olavo (o que Arthur descreve perfeitamente em sua crítica) e já se tornaram suas tietes (no caso, olavettes). Esses, então, não tendo o mesmo conhecimento que tem os alunos e leitores mais antigos e mais dedicados do articulista campinense, acabam por ter como única alternativa, quando contestados, o espernear e o xingar, quando não o desfazer amizade e o bloquear, demonstrando pouquíssima maturidade intelectual, o que, para qualquer um que já tenha lido ao menos um livro de Olavo, é inadmissível para alguém que se quer o baluarte do conservadorismo e o maior defensor das ideias do grande filósofo.

Ainda assim, se fosse apenas esse o problema, não haveria porque não incluí-lo na crítica anterior, pois os riscos em que incorreriam os fanáticos seriam os mesmos. Avizinha-se nesses casos, entretanto, uma tormenta pior ainda. Qualquer um que me lê (ou não) sabe que a melhor forma de tornar um vídeo popular redes sociais afora é ou dar-lhe títulos como “A VERDADE SOBRE X” (e o caps lock não é mero arroubo retórico meu) ou, entre outros, “MENINO/ MENINA/ ARTISTA FAMOSO ACABA COM Y”. Considerando, então, a já demonstrada imaturidade dos fanáticos olavistas e o hábito (louvável, diga-se de passagem) de Olavo de Carvalho de propagar tudo o que soe anticomunista e antiprogressista, não é difícil de imaginar o que se segue: Olavo compartilha um vídeo ou um post ainda sem a fatídica descrição e suas tietes, sem sequer investigar melhor, compartilham também,  só que colocando essas descrições ao melhor estilo attwhore.

O risco, por conseguinte, é ainda menos difícil de imaginar, pois, assim como se pode dar audiência a analistas sensatos como André Assi Barreto, Francisco Razzo, Flávio Morgenstern, Gustavo Nogy e Luciano Ayan, é possível fazer crescer o IBOPE de mulas como Isabella Trevisani, autodeclarada patrona da nova “Marcha da Família com Deus pela Liberdade contra o Comunismo 2.0 : O retorno”, em que se presenciou uma cena ridícula de fanatismo pela figura de Olavo de Carvalho e pela Bíblia olavista (mais conhecida como O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota) – e friso novamente, como feito nos meus textos sobre o assunto, que “o retorno” não serve nem para filmes do Batman -, que, pouco tempo depois, no auge de seus 17 anos e de sua absoluta inépcia em termos políticos, romperia relações com Olavo apesar de este não ter deixado de elogiar (mesmo não declarando explicitamente apoio) sua mobilização em nenhum momento.

Pelo visto, então, parafraseando o filósofo, esses olavistas deverão voltar para a escola para aprender. Logicamente, refiro-me à escola do conservadorismo, aquela que prega a prudência acima de tudo, aquela mesma prudência que evita que, com nossos préstimos, façamos aumentar o IBOPE de adolescentes semiletrados que, para evitar que a esquerda feche o Congresso e declare a ditadura (não exatamente nesta ordem), apoiam um golpe que, como ocorreu há 50 anos, pode acabar por fechar o Congresso e declarar uma ditadura. Nogyanamente falando, “waaaal”.

“Mas que palhaçada é esta, meu filho? Ah, porra.”

Por fim, cabe a mim também exemplificar o que Arthur descreveu como a aderência irrestrita a qualquer posicionamento que Olavo expresse. O episódio mais recente, e o melhor para descrever isto, é a polêmica que envolveu dois dos pilares do atual “movimento conservador brasileiro” (se é que é possível havê-lo), sendo um o próprio Olavo, o outro o humorista conhecido internet afora por suas notícias tão falsas de tão aparentemente verdadeiras e tão aparentemente verdadeiras de tão falsas, Joselito Müller.

O caso foi o seguinte: após compartilhar uma “notícia” de Joselito e perceber que se tratava de uma farsa, Olavo disse, com todas as letras (e mais algumas), que pessoas que fazem como Joselito e, em tempos de governos do PT, produzem intencionalmente notícias falsas, ainda que para fins humorísticos, deveriam ter sua atividade criminalizada segundo o Código Penal pois estariam contribuindo para o descrédito da internet. Fora o ridículo de se propor que a voz de alguém se feche por este alguém o ter enganado (e olha que o site de Joselito faz-nos de cara pensar que se trata de farsas, não de fatos), parece-me óbvio que, ao contrário do que costuma fazer, Olavo não pensou que estava propondo uma lei que, de tão vaga (afinal, o que é produzir “intencionalmente” uma notícia falsa, independente do fim a que se destina?), acarretaria, provavelmente, em algo que ele, por diversas vezes, já repudiou com brilhantismo, que é justamente a censura em nome de um objetivo maior, bastando, para alcançar esta censura, apenas dizer que certos sites antipáticos ao grupo X ou Y produzem notícias falsas com a intenção de desacreditar a democratização que a internet proporciona, ou qualquer besteira facilmente crível neste sentido.

Qualquer um, por conseguinte, que tivesse o mínimo de bom senso e de raciocínio lógico deveria, se não alertar o mais depressa possível o bom filósofo sobre a possível e nefasta consequência de sua ideia – afinal, segundo um grande amigo, não se pode contestar Olavo nem em pontos em que está sendo obviamente contraditório consigo mesmo sem ter estudado o tanto que ele estudou, pois se tratará de contestação de um “feto intelectual” a um grande pensador, como se o fato de ser grande pensador tornasse um homem infalível – , não passar de fã a inimigo de Joselito apenas porque “o mestre falou”, desconsiderando todos os bons préstimos de Joselito ao antipetismo, como suas provocações constantes à ex-ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, que chegou, inclusive, a processá-lo e pedir não só a retirada do conteúdo que a atacava como o fechamento do próprio blog de Joselito, o que é uma forte prova do quão democrático (sqn) é o petismo.

O que aconteceu,  então,  no caso Olavo x Joselito? Bom, digamos apenas que bem aventurados os que não são fanáticos olavistas, pois deles será o reino do bom senso. E, quiçá, da sanidade mental.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Está cada vez mais certo de que Descartes estava errado ao falar sobre a distribuição do bom senso entre os homens.

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7 comentários

  1. O problema é a raiva latente, você passa sua vida inteira, seja na escola, na faculdade e até nas escolas dominicais da igreja sendo doutrinado, você vê a realidade se apresentando de uma forma e uma outra lhe sendo apresentada de modo completamente diverso, o mundo que se deve ver, o mundo perfeito que se deve buscar da ideologia, e quanto mais se busca isto, mais o mundo piora, e vc é aconselhado de todos os lados de que deve buscar sempre mais do mesmo que o mundo irá melhorar, e você continua sem entender merda nenhuma e tudo o que você diz contra é rebatido ou é motivo de chacota, vc acaba baixando a cabeça, num belo momento você dá de cara com o Olavo, e aí o mundo entra nos eixos, e o choque é violento porque descobre que por tempo demais foi enganado e por tempo demais foi motivo de chacota… é aí que começa a admiração muitas vezes desmedida ao prof. Olavo, acho que caberia uma melhor avaliação deste choque de realidade que o professor causa que não é fácil.

  2. Vc tem o link que mostra isso que o Olavaum falou do Joselito? Já o vi compartilhando várias notícias de lá, e de outros sites do tipo, como o National Report.

    1. Não o tenho em mãos no momento, mas certamente você achará na página de ninguém menos do que o próprio Olavón ou em Março de 2014 ou em Abril de 2014.

      A propósito, pqp, você só chegou a este post agora ou é um olavette tentando insinuar que isso de fato não aconteceu?

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