Eu, Apolítico – Sobre palavrões, moralismo e irracionalidade

Sim, cari amici, a Copa começou e, com ela, pulularam polêmicas Brasil afora, duas ganhando, até o final deste segundo dia, os maiores holofotes: os xingamentos à presidente da República, Dilma Rousseff, enquanto esta assistia ao jogo de abertura entre Brasil (hexa, já disse) e Croácia, e o garoto (por corolário, menor de idade) black bloc cujo pai o queria fora de uma manifestação anti-Copa em São Paulo. Com o segundo episódio, trabalho em outro texto. Vamos, então, aos trabalhos com o primeiro fato.

Quem me conhece sabe que meu desgosto, depois da “Revolução de 13”, com a total incapacidade para o fazer político por parte do brasileiro  chegou à estratosfera e me tornou praticamente um “niilista político”, se é possível sê-lo. Não sou, portanto, daqueles que ficam demasiadamente animados quando veem que uma parcela ínfima da população fisicamente presente no estádio tenha xingado a chefe do Poder Executivo especialmente porque, apesar de saber que muita gente vendo o jogo também a xingava mentalmente, não sei até que ponto essas pessoas de fato agiram de modo deliberado, isto é, se não seguiram a marcha irracional de uma massa que começou o xingamento, assim como só terei como saber após as eleições deste ano quantos dos eleitores brasileiros partilham dos mesmos sentimentos e do mesmo furor antipetista dos “xingantes” (e chamo-os assim “porque eu quis”, parafraseando o famoso Capitão Bruno).

Por incrível que pareça, então, não seria eu um dos comentadores deste episódio, não fosse pela entrada de dois elementos nesta história, sendo eles o moralismo e a irracionalidade da esquerda brasileira, que, ao tentar defender uma das suas contra as vaias da malvada elite “tucana conservadora de extrema-direita”, assume um tom de “iluminada” deveras irritante, além de se esquecer que, há pouco tempo, era a própria esquerda que desacreditava Dilma por ser uma “brizolista” dentro do PT e por não ter atuado diretamente na militância dos partidos a que foi filiada.

Vemos o moralismo quando a esquerda, cujo cuidado com e apreço pelas instituições do Estado Democrático de Direito brasileiro se torna visível quando deliberadamente incitam o ódio contra um ministro do Supremo que, até que se prove o contrário, apenas exerceu seu papel no caso Mensalão (AP 471), contradiz tudo o que prega rotineiramente e se mostra mortalmente ofendida quando alguns ousam não ter, pela presidenta da República, o respeito protocolar, como se fosse um grave crime quebrar protocolos  no país em que o que mais se faz, de festas de formatura de Ensino Médio ao cantar do hino nacional na abertura de uma Copa do Mundo FIFA, é justamente quebrar protocolos.

Este mesmo moralismo também transparece quando progressistas, e portanto inimigos declarados do “preconceito linguístico”,  demonstram sua perplexidade ao ouvirem, por parte da “elite raivosa”, palavrões (como se estes, como bem lembra Flávio Morgenstern, não pudessem ser uma poderosa ferramenta de expressão) dentro de um estádio, o que demonstra, novamente, grave desrespeito ao que está estabelecido, como se fosse, novamente, a esquerda uma grande defensora do respeito às instituições. Até mesmo uma amiga (e veterana de curso de Letras) não esquerdista deste que vos escreve caiu nesse truque e, sem muitas delongas, soltou o verbo:

Estar insatisfeito com o atual governo: ok. Manifestar a indignação: ok. Mas sem usar esse palavreado chulo, por favor. Bela forma de demonstrar que aparentemente somos um país ciente da condição precária que vivemos e que resolvemos tudo no desrespeito e na porrada (vide as manifestações sem fundamento que estavam acontecendo na hora do jogo).

Ora, cara veterana, ambos sabemos que, nesta era de hipersensíveis que não toleram sequer a existência do divergente enquanto se julgam os únicos tolerantes, não existe nada melhor para alguém que queira ter a certeza de ser ouvido do que soltar o bom e velho palavrão. Além disso, devemos nos lembrar também de uma das lições mais básicas de nosso velho conhecido Ferdinand de Saussure ao tentarmos ler a mente daqueles que nos observarão, pois há diversos pontos de vista possíveis, não apenas esse, para criar esse objeto, no caso, a opinião dos gringos sobre nós.

Não é, por exemplo, porque houve um atentando terrorista por parte de um sujeito autoproclamado de direita na Noruega que, necessariamente, o rótulo de “terrorista” ficará na direita mundial ou mesmo na direita norueguesa simplesmente, pois de lá recebemos a notícia de ser uma terra pacífica e em que a discussão política é feita, normalmente, com a devida sanidade mental e com o equilíbrio necessário. Outrossim, não serão xingamentos contra um(a) chefe do Executivo que adicionarão, ao conhecido “povo feliz e hospitaleiro”, a pecha de “porradeiro”, pois lá não se recebe notícias de um Brasil, por pior que esteja, envolto por guerras contra aqueles contra os quais se desentende, mas sim de um Brasil extremamente diplomático até com quem não necessariamente deveria ser (isto, lógico, sem entrar no mérito de que temos um governo para quem é melhor ser amigo do xiita Irã do que do democrático EUA).

Percebe-se, portanto, o quão danoso é este moralismo até mesmo para quem sequer se declara um analista político, quanto mais para quem o é ou quer ser. Entretanto, há o segundo elemento ainda mais venal, a irracionalidade, que não apenas aparece como também transparece quando vemos a reação automática em cadeia de colunistas e personalidades tanto notoriamente progressistas (Pichonelli, Florestan Fernandes Jr. e até mesmo o beberrão Lula) quanto os nem tão notórios e progressistas assim (e digo isso por desconhecer a biografia de Josias de Souza, jornalista da Folha de São Paulo).

Segundo eles, de modo unívoco, aqueles que xingaram, vistos sempre como um grupo homogêneo – pois a esquerda, ao que parece e é, não tem a menor capacidade para analisar fora das “classes” e da dicotomia “opressor” x “oprimido”- e nunca como indivíduos com desejos, aspirações e necessidades tão específicas de tão individuais e tão individuais de tão específicas, são, necessariamente, todos membros da elite raivosa tucana que não quer ver pobres em aviões nem quer que as pessoas tenham o que comer. Esquecem-se os ingênuos (para não falar outra coisa um tanto mais ofensiva) de que, além de haver a possibilidade de quase ninguém ali presente querer votar ou votar de fato em Aécio (agradeço, aliás, se não o fizerem, apesar de perder uma piada e tanto no início de 2015), é bem possível que sejam justamente as tentativas de tentar solucionar os problemas por meio do inchaço estatal, proposta genuinamente petralha e tucana, que estejam, ironicamente, perpetuando esses problemas e, pior, até os agravando em última instância.

Para estas pessoas, então, não é apenas que os outros, “eles”, aqueles que xingaram, tenham uma visão de mundo diferente. A ótica é mais perversa: os outros são mais do que adversários ou mesmo rivais, são inimigos que devem, a qualquer custo, ser desmoralizados até que ninguém mais lhes dê qualquer crédito ou mesmo, em último caso, mandados para o Gulag, parao “paredón” ou, no caso brasileiro, para um comício de cinco horas de Eduardo Suplicy, seguido por mais 70 páginas de um voto de Lewandowski no Supremo. E ainda são aqueles que, na hora do voto, segundo Josias, não serão capazes de usar o indicador, pois “o gesto é simples. Mas a pata de um pitbull não é capaz de executá-lo.”

Atribui-se, então, não só a perfídia como também a irracionalidade a qualquer um que não siga o protocolo linguisticamente intolerante (apesar de eu duvidar muito que toda essa reclamação surgiria caso o alvo fosse alguém de qualquer outro partido um pouco menos à esquerda da extrema-esquerda) e preconceituoso das esquerdas brasileiras. Sim, preconceituoso, pois é perpetuando a crendice  brasileira no palavrão como sinal de incapacidade de pensar profundamente que as esquerdas vão, em marcha moralista e irracional, não só mostrando que não devem ser levadas a sério por qualquer um com mais de dois neurônios ativos no cérebro como também demonstrando que, como diz um de seus ícones, o já citado Pichonelli, “autômato não vê fato nem vê argumento: apenas xinga quando sensibilizado, principalmente quando se sente confortável ao lado de tantos autômatos”. Trocando “xingar” pelo “relinchar” tão usado nos artigos pela esquerda para criticar os “xingantes”, teremos tanto a imagem perfeita do progressismo quanto a prova de que quebrar protocolos pode ser, muitas vezes, a única forma de recuperar a racionalidade ou, até mais relevante e prioritário, a sanidade mental.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras e polemista medíocre. Não fosse o Marco Civil, teria, certamente, feito coro com a torcida no Facebook. Mais certo, ainda, é que nunca teve dinheiro para frequentar a ala VIP de um estádio de futebol e que, desde marxista, nunca nutriu simpatia pelo ParTidão.

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3 comentários

  1. Só tenho algo a dizer com relação ao ocorrido, o de que ele demonstrou a total ignorância política do país, pois a grande maioria das pessoas ali (Que sim são a elite financeira do país) não tem a menor ideia do que é uma federação com tripartição de poderes, algo que é uma herança das nossas 2 ditaduras do século passado.

      1. E uma federação com tripartição de poderes é algo ruim por algum acaso?

        Cara não eu disse somente que as pessoas que xingaram a Dilma demonstraram uma ignorância absurda sobre o sistema político Brasileiro e que essa ignorância é uma herança das duas ditaduras do século passado, que deram a ideia de centralismo e de executivo como um super poder.

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