Mais da crítica à religião que mais cresce no Brasil – As ondas do Olavismo

(WARNING: Nenhum olavista foi machucado durante a escritura deste texto.)

Em face dos acontecimentos mais recentes envolvendo a figura do filósofo  (e luminoso mestre) Olavo de Carvalho – que, pelo visto, ainda não entende  que é possível ser marcado em uma publicação e esta não aparecer em sua timeline – e Francisco Razzo (quem me deu o impulso final para ler Olavo mais seriamente), decidi aprofundar minhas investigações e minhas críticas à religião que mais cresce no Brasil, o Olavismo, e cheguei a uma conclusão: ao que parece, assim como todas as outras religiões políticas, incluídos aí feminismo e marxismo, a crença na infalibilidade do velho Olavo passa, a cada período de tempo, pelas chamadas “ondas”, ou seja, pela mudança, se não do todo, ao menos do centro do discurso em que se baseia toda sua propaganda.

Obviamente, os dados abaixo expostos não refletem o comportamento dos bons alunos e dos admiradores sensatos de Olavo, mas apenas o daqueles que acreditam em coisas como “desdém passivo-agressivo” (algo como cristão ateu ou comunista honesto, id est, inexistente e ilógico) ou que conseguem encontrar plágio da obra de Olavo em entrevistas de pessoas que só tiveram o primeiro contato com esta há três anos e pouco, tendo passado pelo menos outros 15 anos estudando Filosofia sem sequer saber quem era ou deixava de ser o supracitado. É importante lembrar, também, que, muitas vezes, esses discursos ainda aparecem simultaneamente, pois há sempre a imperiosa necessidade de convencer os hereges não só da genialidade de Olavo, mas também da impossibilidade completa de se chegar ao pensamento liberal-conservador por outros meios que não envolvam diretamente o luminoso mestre.

Enfim, seguem, então, as grandes ondas do Olavismo e os períodos de tempo em que foram observadas por este cientista metodologicamente incorreto:

Paralaxismo cognitivo (meados de 2011 – meados de 2012)

Os adeptos dessa corrente tinham por hábito analisar tudo e todos, de Descartes a Chauí, de Kant a Safatle, de Maquiavel a Luan Santana e, last but not least, de Nietzsche a Pirula (um dos alvos prediletos das olavettes na época e também hoje), com base no conceito olaviano de paralaxe cognitiva, ou seja, “o deslocamento, às vezes radical, entre o eixo da construção teórica de um pensador e o eixo da sua experiência humana real, tal como ele mesmo a relata ou tal como a conhecemos por outras fontes fidedignas”, tendo como maior exemplo Karl Marx, cuja produção intelectual, segundo Olavo – corretamente, diga-se de passagem -, seria inerentemente contraditória pois, enquanto afirma ser o proletário o único capaz de entender como funciona a história, ele próprio, um não-proletário, teria sido o primeiro a conhecer este funcionamento.

O caso, entretanto, é que, por Olavo ainda não ter desenvolvido (e, se não agora, muito menos há dois anos) este conceito interessante mais profundamente em algum livro e por ser um deveras complexo, os apologistas do olavismo, ainda sensatos na época, resolveram, em sua imensa maioria, decidir esperar por maiores desenvolvimentos (assim como este que digita também espera) do conceito para não correrem o risco de, como ocorreu com a corrente subsequente, terem suas análises frustradas por ninguém menos do que o próprio Olavo de Carvalho.

Marxismo cultural (começo de 2012 – começo de 2014)

Com o recuo temporário do que convencionei chamar de “Paralaxismo cognitivo” e até a publicação do excelente O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota, fortaleceu-se imensamente, nos meios olavettes, o grupo (e, consequentemente, o discurso) anti-marxista cultural, consistindo o marxismo cultural, segundo eles, na estratégia esquerdista de perverter os valores tradicionais ocidentais para instaurar, depois de algum tempo, uma espécie de governo totalitário à moda INGSOC.

Foi mais ou menos neste tempo que, influenciado por uma série de amigos conservadores e olavettes, tive o primeiro contato com os escritos de Olavo sobre esse tema, tendo, inclusive, gravado um podcast relativamente longo sobre o tema para esclarecer as coisas para os não-olavettes. Não sabia eu, no entanto, que Olavo, no começo deste ano, viria a esclarecer, para mim e, principalmente, para os mais fanáticos dessa corrente, que, na verdade, apesar de sua ideia estar em essência correta, o termo “marxismo cultural” não servia para este propósito, pois transmitia de forma errada a ideia em si por esta ser um tanto mais complexa do que “marxismo” puro e simples. Era mais uma corrente sendo enfraquecida, desta vez não por prudência, mas por falta dela.

A Bíblia olavista: O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota (desde meados de 2013)

Nossos incansáveis amigos, porém, não se abalaram e criaram, então, outra corrente, que se baseia na adoração ilimitada a uma das obras mais recentes de Olavo, O Mínimo que você precisa saber para não ser um Idiota, citando-a como excelente obra introdutória à Filosofia e até mesmo empunhando-a como se fosse uma Bíblia para pregar aos infiéis esquerdistas e antimilitaristas, em um episódio que, como descreveu meu amigo Roger André, se queimou a imagem de Olavo muito mais do que qualquer dos seus detratores teria conseguido mesmo falando para os já anti-Olavo.

Esta corrente, até o momento, não sofreu nenhum baque considerável, tendo apenas sido atacada uma vez por Bernardo Lopes, repelido por este que digita.

Ukralhismo e punhetazzismo (desde meados de 2014)

De repente, e não mais do que de repente, todavia, surge, há poucos dias, após o episódio Razzo e simultaneamente a ele, uma corrente ainda mais forte, composta por olavettes que, imbuídos de algum conhecimento sobrenatural só mesmo acessível aos mais puxa-sacos do luminoso mestre fiéis discípulos de Olavo, começaram a propagar por aí a versão olaviana do português de Portugal, representada pela interjeição “ukralh!”, enquanto, para zoar Razzo e Punheteu (o irrelevante vlogger Poeta e Ateu), uniam o nome dos dois em uma mistura foneticamente bizarra e ideologicamente mais bizarra ainda, visto que Razzo sequer ouvira falar de semelhante figura.

Para completar o pacote, esta corrente parece ser composta por aqueles que se cansaram de usar a lógica e, seguindo o luminoso mestre, despirocaram de vez, levando tudo para a escatologia dos palavrões e associando todos os que têm qualquer relação com Razzo ou qualquer outros dos novos “detratores” de Olavo a marxismo, petismo e outras histórias, esquecendo-se de que foram vítimas exatamente disso quando Marilena Chauí, aquela da qual nada se espera e de quem nada vem mesmo, associou todos os que se encaixam na classe média (isto é, qualquer um que tenha mais de dois neurônios ativos no cérebro e que, portanto, rejeite o progressismo) ao fascismo.

Creio não precisar dizer, entretanto, que, de fato, há mais fascistas nessa história do que se pensa.

Sobre o Autor: Octavius é professor, graduando em Letras, polemista medíocre e revisor da entrevista de Francisco Razzo a O Camponês, a mesma em que, segundo Olavo, Razzo, sem citá-lo uma única vez, o teria maldito. Ao filósofo, a admiração. Ao indivíduo, a desconfiança. Aos fanáticos, o escárnio. Ao vencedor…

PS: Sim, não me esqueci de agradecer ao luminoso mestre Olavo por poder usar o Facebook para postar minhas análises políticas, mesmo tendo sido comunista antes de ler Olavo. Sou influenciado, claro, mas não sou cego.

Anúncios

2 comentários

  1. Seu herege! Tu não podes criticar Ele, o mestre dos mestres. Aquele cujo nome não pode ser mencionado em páginas imundas e marxistas culturais como esta. rçrçrç

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s