Viagem ao fim do tradicionalismo futebolístico – Primeira (e talvez única) coluna semanal sobre a Copa do Mundo

Tradicionalista futebolístico brasileiro ao ver Alemanha se classificando contra a Argélia: "Eu não disse que esse Argélia x Nigéria (no Maracanã) que vocês queriam não iria acontecer?"

Tradicionalista futebolístico brasileiro ao ver Alemanha se classificando contra a Argélia: “Eu não disse que esse Argélia x Nigéria (no Maracanã) que vocês queriam não iria acontecer?”

Estando jogadores como Ochoa (México), James Rodriguez (Colômbia), Slimani (Argélia), Ruiz (Costa Rica) e Campbell (Costa Rica), pouco conhecidos pelo público futebolístico comum, entre os destaques da atual Copa do Mundo FIFA, e tendo participado das oitavas de final seleções de pouca ou nenhuma tradição em Copas ou em outras competições de calibre parecido (seleções como Argélia, Nigéria e Costa Rica em especial) em detrimento de equipes mais tradicionais como Inglaterra, Espanha e Itália (três campeãs mundiais), efervesceu, web afora e adentro, um forte debate sobre se de fato essas seleções menores seriam dignas de sequer estarem em uma Copa do Mundo, quanto mais de irem adiante enquanto as maiores ficam para trás – afinal, como bem pontua meu amigo André Assi Barreto, o que são, por exemplo, as fortíssimas Coreia do Sul e Turquia após a Copa de 2002?

Sendo um antitradicionalista convicto em quase todas as áreas do humano (mesmo que por gosto e não por birra política como era o caso nos meus tempos de esquerda mais radical do que o PCO) e um corintiano e titeano, sinto-me no dever de contribuir para apimentar um pouco esse debate, colocando, na cabeça de meu leitor, algumas caraminholas mais para que este chegue às conclusões que bem preferir. Digo com isto, então, que minhas considerações têm o mesmo valor das de qualquer outro torcedor normal, servindo mais como palpitaria do que como a melhor e única forma possível de se enxergar a atual conjuntura futebolística.

Como corintiano e titeano, sou daqueles que, apesar dos ídolos armadores e atacantes da história corintiana (Neto, Marcelinho Carioca, Sócrates, Casagrande, Basílio, Ricardinho e uma porrada de outros), consideram o melhor ataque uma boa defesa e que, apesar de gostarem de assistir ao futebol-arte, têm como foco maior não necessariamente uma apresentação brilhante, mas o resultado necessário para o momento (daí, aliás, a “empatebilidade”), ao que os apreciadores do futebol-arte acima de tudo, inclusive do resultado, me fariam objeções dizendo que foi justamente esse espírito que acabou com o nosso futebol e o reduziu à preocupante situação de termos, entre os ídolos de muitos times, sujeitos que pecam em alguns dos chamados fundamentos  não só do futebol como um todo, mas também de suas posições especificamente.

O fato é que, mesmo lamentando essa degradação do futebol, como de fato lamento, não tenho como negar o que está mais do que evidente quando se defende a volta do futebol-arte, isto é, que o futebol deixou de ser predominantemente artístico e passou a ser predominantemente pragmático, focado em resultados, o que vem causando, ao longo dos anos, outro fenômeno, que pode ser descrito pela famosa citação que absolutamente todo comentarista já deve ter feito ao menos dez vezes ao longo de sua vida esportiva: “não existe mais bobo no futebol”.

Essa citação é deveras importante na medida em que nos faz compreender que é justamente o maior equilíbrio nos níveis dos times e das seleções que permite que a zebra corra solta gramados do Brasil e do mundo afora. Seria (e era) impensável há 30 anos, por exemplo, que o Brasil pudesse perder contra a Suíça (2012), mesmo na Suíça, em um jogo extremamente morno e em que fora os vermelhos, e não os verde-amarelos, que de fato dominaram a partida. Da mesma foram, seria impensável, 20 anos atrás, que uma seleção uruguaia, semifinalista da Copa do Mundo anterior, atual campeã da Copa América e com dois títulos de Copa do Mundo na história, poderia ser chamada para dançar pela todo-poderosa Costa Rica (!), cujo futebol, antes desta Copa, era tão famoso quanto a liga de críquete de Montenegro ou a Associação Finlandesa de fãs de Dragon Ball Z, ou ainda que a tradicionalíssima Holanda poderia ter grandes dificuldades para vencer, de virada, a ainda mais todo-poderosa Austrália, a mesma que havia tomado seis gols de uma seleção brasileira que, ela própria, agora apresenta um futebol padrão-China.

O detalhe é que, se formos analisar pelas lentes da tradição, cairíamos em uma espécie de parada no tempo e de autoengano futebolísticos, pois estaríamos querendo aplicar exatamente o mesmo julgamento que poderia ser feito há 20, 30 anos, isto é, o de que os times menores não sabem jogar futebol de forma alguma, quando vemos, em jogos como Argélia x Alemanha, exatamente o contrário: um time bem postado e organizado em campo enfrentando, de igual para igual, uma seleção com história bem maior dentro dos campos, o mesmo podendo ser visto em Nigéria x França ou Holanda x México, isto para pegar apenas os exemplos das oitavas de final e fazer cair por terra o argumento tradicionalista em matéria de futebol de que os times menores, na realidade, são especialistas apenas na “destruição” de jogadas e não na criação.

Obviamente, há muito a ser feito por parte desses times de menor tradição para que de fato comecem a angariar a simpatia permanente não só dos brasileiros que por eles torceram, mas também, muitas vezes, de seus próprios conterrâneos, sendo uma das medidas a tentativa de sempre estar entre os pretendentes reais a algum título de importância continental  ou mundial, a outra a procura constante pela melhoria de seu futebol, o que pode ser feito de diversas formas e que requererá um tempo deveras considerável a depender da competência dos que estejam dispostos a encarar essa tarefa.

O problema, porém, aparece quando se percebe não só que não são apenas os times menos tradicionais que precisam encontrar o caminho do melhor futebol, mas também que o real mérito dentro do universo futebolístico é alcançado, prioritariamente, não com o futebol-arte, mas com o pragmatismo de sempre buscar o melhor resultado pelo mais longo período de tempo possível, aproveitando, para isso, do que de melhor um time tem no aspecto tático e dos que demonstrarem maior garra e vontade de vencer nos treinamentos. Aos céticos, perguntem aos jogadores do Corinthians do período 2008-2013, do São Paulo de 2005 a 2008 e, por último mas não menos importante, da seleção espanhola (atual bicampeã europeia e campeã mundial) entre 2008 e 2014. Aos crédulos em demasia – pois é esses que quero distantes,  como podem confirmar com os comunas e com os olavettes -, perguntem-se se, de fato, este tipo de pensamento está valendo para vós, como torcedores e apreciadores do bom futebol, a pena. Aos leitores, o meu agradecimento. Aos vencedores, o caneco.


Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Vai curtir em demasia se estiver certo e a Holanda não passar da Costa Rica.

PS 1: Não estava certo, mas dane-se. Parabéns à Costa Rica pelo bom futebol apresentado.

PS2: Sim, ouvi falar do artigo de Ann Coulter, mas meu amigo Joel Pinheiro da Fonseca, antes do finado Ad Hominem e agora do Liberzone, já disse tudo o que eu diria aqui: http://liberzone.com.br/por-que-o-futebol-e-o-melhor-esporte-mundo/

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