Eu, Apolítico – Relato de um certo povo nada conservador

Depois do título alemão, do vice argentino e do fiasco brasileiro na Copa do Mundo deste ano, sinto que é hora de retornar a blogar com maior frequência ou, pelo menos, com menor displicência. Para este fim, volto, de cara, a esculachar a direita brasileira, em especial a olavéttica. Hora de explicar, de uma vez por todas, por que raios o povo brasileiro, a priori, nada tem de conservador ou, pelo menos, por que é insensato proclamar aos quatro ventos, como fazem muitos direitistas, o caráter conservador do povo tupiniquim.

Cabe, antes de tudo, definir o que se entenderá, aqui, por “conservador” e por “povo”. Este, sem dúvida, é bem mais simples de definir, pois “povo”, a não ser para os oportunistas das esquerdas nacionais e internacionais, é o conjunto de pessoas que habita em determinado espaço durante certo período de tempo, o que significa que “povo brasileiro” é o conjunto dos brasileiros que habitam esta nação nos dias atuais, isto é, um conjunto de pelo menos 190 milhões de pessoas ocupando uma área gigante chamada Brasil.

O que pega, de fato, é definir o que é um conservador. Depois de ouvir tanta propaganda anti-conservadora nos mais diversos ambientes, fica difícil – frise-se: difícil, não impossível – para qualquer um não crer que, como repetem professores progressistas e seus papagaios, conservador é aquele que quer “conservar tudo o que está aí” e, portanto, conservar as injustiças, o sofrimento e a desigualdade social. Obviamente, pode ser possível, mesmo partindo de uma definição como esta, demonstrar tudo o que quero e ainda defender uma postura conservadora. Como, porém, não sou esquerdista fanático, sigo o conselho de Olavo de Carvalho, adorado entre conservadores, liberais e “simpatizantes”, e parto da definição que os próprios, remetendo-se à tradição que engloba autores como Edmund Burke e Russell Kirk, se dão. O conservador, assim, seria, entre outras coisas, aquele que age pela prudência, tomando decisões políticas apenas após séria reflexão sobre que consequências elas poderão ter para as outras pessoas e para o bem-estar da sociedade em que vive.

Primeiro, já disse em mais de um texto meu que, além de ser agnóstico (e ateu, mas o ateísmo não é pertinente para este tópico), tendo a usar este meu agnosticismo também como método para refletir politicamente, isto é, para analisar o que afirmam os diferentes lados do espectro político sobre uma questão  – além, é lógico, do que está sendo discutido em si – e, depois disso, decidir se vou me posicionar sobre o problema e, posicionando-me, de que lado estarei. Como agnóstico, tendo também a rejeitar afirmações que me pareçam excessivamente dogmáticas e/ou fundadas em certezas que, ao primeiro olhar cético, cairiam.

É com olhos de agnóstico, por exemplo, que desdenho mentalmente de muitos conservadores que usam dados como “número de pessoas contra o Aborto na pesquisa do órgão X” ou “porcentagem de votos válidos contra o desarmamentismo civil”. Qualquer um que tenha a mínima capacidade de pensar logicamente e com calma sobre esse tipo de questão percebe que só há uma coisa que pesquisas ao estilo IBOPE ou votações eleitorais (ou não), quando não fraudadas ou mal interpretadas, podem provar: que, do número X de pessoas que responderam as perguntas do recenseador ou do plebiscito, Y escolheram pela opção mais conservadora, o que significa muito pouco se considerarmos, como devemos considerar, o limitadíssimo número de eleitores perguntados e o geral equilíbrio que há nesse tipo de pesquisa.

Eis, então, que o juízo dos conservadores sobre o povo se torna não só equivocado como também apressado: tomando como regra geral pesquisas que foram feitas muitas vezes em apenas um bairro de uma cidade, alguns dos ditos prudentes usam, como argumento contra determinada causa, por exemplo,  o fato de que em certo jornal apareceu uma pesquisa em que 70% dos paulistanos se mostraram contra ela, esquecendo-se, em um movimento parecido com o das feministas quanto àquela velha pesquisa do IPEA sobre estupro, de que não só esses são apenas uma parcela ínfima dos paulistanos como também do próprio povo brasileiro, que nem sequer é necessariamente representado pelos paulistanos.

Só isto já seria suficiente, indubitavelmente, para se duvidar do conservadorismo do povo brasileiro, visto que a maioria dos que argumentam usam a prova acima, ou seja, estão sem provas concretas. Ainda assim, ainda cabe outro exercício mental, que provará por que razão é ingênuo proclamar o conservadorismo das massas.

Suponhamos que os conservadores estejam certos e que, de fato, pesquisas circunstanciais – sim, pois há também as incoerências entre votações mais progressistas e mais conservadoras por parte dos brasileiros – e restritas a certos grupos sejam, de fato, representantes da real opinião da maioria. Fora o já citado dado da falta de coerência entre algumas votações (afinal, o mesmo “povo brasileiro” que é contrário ao Aborto não se mostrou muito contrário à imprudente invasão do IPEA por parte de ativistas pró-direitos animais), há ainda um problema: quantos desses que escolheram a opção mais conservadora a escolheram por consciência ou por reflexão séria?

Isto pode parecer não muito relevante, mas o é quando pensamos que, se estes mesmos “conservadores” inconscientes fossem apresentados às ideias conservadoras, poderiam achar mais discordâncias do que afinidades com elas, isto se, lembremos também, não passaram a acreditar em ideias conservadoras por comodismo político – o que é bem possível, já que muitos declaradamente não só não gostam mas também tem nojo de política – ou por puro pensamento de rebanho. Neste sentido, o conservadorismo do povo brasileiro seria, em termos de propaganda, desastroso, pois apenas daria argumentos à esquerda para bradar, falsamente, que o povo só é conservador por ter sido alienado dos seus verdadeiros ideais como classe, por lhe faltar engajamento em alguma organização política comprometida com o bem de todos ou algum lero-lero do tipo. Não é preciso pensar muito, então, para chegar ao que, em muitos casos, já está acontecendo: a guinada à esquerda daqueles que querem “consciência crítica” e/ou “ficarem do pensamento massificado imposto pela mídia golpista e conservadora” (assim falavam as esquerdas).

Ou seja, quod erat demonstrandum, é no mínimo imprudente dizer que o povo é conservador quando, epistemologicamente, não se tem provas suficientemente satisfatórias disto e quando, propagandisticamente, dizê-lo pode ser um verdadeiro tiro no pé em termos de política cultural.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Lamenta profundamente por não poder ter conservado, neste texto, o formato que sempre dá a seus artigos. Promete aos leitores que será menos “progressista” doravante.

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