Das perguntas indecentes que ninguém deveria fazer – Capítulo 1: “Professor, para que vou usar isso na minha vida?”

Começando hoje, postarei sobre uma série de perguntas que, pelos mais diversos motivos, julgo que não deveriam ser feitas por qualquer pessoa que apresente mais de dois neurônios ativos no cérebro. Uma delas é a famosa pergunta que até mesmo professores universitários de Pedagogia e afins incentivariam que os alunos dos níveis fundamental e médio fizessem constantemente: “Professor, para que vou usar isso na minha vida?”

Antes de tudo, mas não muito importante, quero deixar claro que, como alguém que preza a liberdade alheia, não proponho de forma alguma que essas perguntas sejam proibidas por algum tipo de lei exatamente porque não confio na força repressiva do Estado e no delírio legalista para que  ideias que considero erradas não sejam mais propagadas (além, é lógico, de sempre agir como agnóstico quanto às minhas próprias ideias). Muito pelo contrário, aliás, pois o único método que acho seguro para que uma ideia passe a ser desacreditada com o mínimo de manobras estatais possíveis é por sua constante refutação com argumentos sérios perante o público. Falo, então, apenas de “dever” no sentido de “obrigação moral”, ou, no caso, de “restrição moral” (o “não-dever”) para alguma coisa.

Isto posto, aos trabalhos. Primeiro, de um ponto de vista estritamente ético, por mais que pareça virtuosa e bem intencionada, a pergunta sobre a utilidade de determinado conteúdo na vida do aluno pode, se feita com determinadas entonações de voz e em determinados contextos, ser apenas uma mostra de desrespeito não apenas ao professor ou à instituição em que o aluno se encontra, mas principalmente a um homem ou a uma mulher que, perante um número expressivo ou não de alunos, tem como missão proporcionar aos alunos o contato com algo que não conheciam. Ou seja, não se está desrespeitando um profissional apenas enquanto profissional, mas também enquanto alguém que quer apenas cumprir um dever que, de errado, nada tem até que se prove o contrário.

Já de um ponto de vista, digamos, “metafísico”, a indagação traz consigo pelo menos alguns problemas de definição difíceis de resolver. Afinal, se dissemos que algo diferente é “útil para mim”, teremos de definir, antes de tudo, o que o torna útil em detrimento dos conteúdos já existentes, por quanto tempo durará esta utilidade (isto é, se é uma utilidade passageira ou se será para sempre útil), para que “eu” de fato será útil (para o “eu” enquanto indivíduo ou para o “eu” enquanto membro de uma comunidade, por exemplo?), para quantos indivíduos será útil (pois indivíduos diferentes em contextos diferentes têm necessidades e desejos diferentes) e, principalmente, por que absolutamente tudo tem que estar vinculado a uma noção de utilidade para que valha a pena ser examinado – se assim o fosse, quem “perderia tempo” para ler um bom romance ou apreciar uma paisagem esteticamente agradável?

É justamente para responder a essas perguntas, aliás, que a chamada “pedagogia tradicional” decide expor o aluno ao que é considerado o melhor que já produzido pela humanidade em termos culturais, morais, estéticos e políticos e, igualmente, aos instrumentos que permitirão ao aluno entender essa grandeza e, ao mesmo tempo, ser capaz de pensar logicamente e chegar, no caso das ciência exatas, a entender, justamente, qual foi a utilidade da contribuição dos cientistas do passado para o nível de conhecimento que alcançamos hoje. Outras pedagogias (e aqui não julgo méritos ou deméritos de cada uma, pois não convém à ocasião), por sua vez, focam-se cada uma em uma ou mais capacidades humanas diferentes, com muitas tendo como foco a socialização do aluno, de modo a torná-lo apto a viver em sociedade ou, no caso das pedagogias progressistas, transformá-la, mas sem deixar de tentar ordenar os estudos deste aluno de modo que, se ele não puder ser exposto a tudo, possa pelo menos conhecer uma parte e ter a capacidade de, por si próprio, perseguir os objetivos, intelectuais ou não, que bem prefira.

Trocando em miúdos, por mais estranho e inútil que um conteúdo pareça (e lembremos, como diz a sabedoria popular, que as aparências enganam), questionar um profissional da educação sobre a utilidade do que está sendo ministrado é, além de desrespeito a um ser humano em determinados contextos, demonstração não só de completo desconhecimento sobre a necessidade inerente a qualquer pedagogia de escolher alguns conteúdos em detrimento de outros, mas também de falta de vontade de testar os próprios limites intelectuais, o que leva, inevitavelmente, à mediocridade pessoal em termos de conhecimento e de curiosidade intelectual. Afinal, se o saudoso Rubem Alves estiver certo e a memória de fato não guardar peso inútil, e se o discente ainda poderá ter pelo menos quatro anos de faculdade ou dois de curso técnico para se dedicar exclusivamente ao que prefere, por que não permitir que possa escolher com a maior naturalidade possível entre um bom número de áreas diferentes e que possa testar a própria capacidade de entender sobre muitas coisas mesmo com pouca idade? Que me desculpem os utopistas, mas não vejo outra explicação que não a de um amor quase bandido pela mediocridade.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Agradece à página “Bode Gaiato” pela postagem quase divina de tão providencial. Só espera, porém, que não entrem muitos de gaiato no navio de sua argumentação.

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