“1984”, um recorte

"Ver o que está na frente do próprio nariz requer um esforço constante." (George Orwell)

“Ver o que está na frente do próprio nariz requer um esforço constante.” (George Orwell)

“Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado.”

Nada melhor para começar um texto sobre o famoso livro 1984, de Eric Blair (mais conhecido pelo pseudônimo George Orwell), do que citar um dos mais importantes slogans do Partido, a entidade que governa Oceânia (Oceania) e, consequentemente, Londres, onde vivem o protagonista Winston Smith e sua amante Júlia, ambos membros do Partido Externo (Outer Party), e o antagonista mais destacado, O’Brien, membro do Partido Interno (Inner Party), setor este que de fato dá as cartas no macroestado totalitário rival de outros dois macroestados totalitários chamados por Orwell de Eurásia (Eurasia) e Lestásia (Eastasia).

 

Confesso que, quando ouvi falar do livro do sr. Blair pela primeira vez, achei que se tratasse apenas de uma obra moralista que era usada por algumas pessoas mais velhas para criticar o Big Brother Brasil por causa das câmeras vigiando pessoas ininterruptamente (e porque, lógico, o brasileiro, em especial o moralista, adora usar textos de homens famosos como pretextos para regular a vida alheia ainda mais do que o necessário socialmente). Como um antimoralista mais do que convicto, pois, fiz questão de esquecer-me do livro e dessa interpretação idiota até que, anos depois, já como anticomunista convicto, chegou a meus ouvidos uma interpretação bem menos pobre intelectualmente, a de que o livro de Orwell seria, na verdade, uma crítica ao stalinismo e, indiretamente, ao próprio Socialismo em si.

Com a curiosidade aguçada por motivos ideológicos, resolvi fazer o que se deve para se chegar às próprias conclusões sobre o livro, isto é, esqueci de minha brasilidade por um longo período de tempo e, primeiro em Inglês e depois em Português, li com toda a minúcia que consegui a obra-prima daquele que o Observer chamaria de “o maior escrito do século XX”. O que segue, portanto, são minhas primeiras impressões momentâneas e sem respaldo acadêmico algum sobre o segundo melhor livro de Literatura que li até hoje.

Importa dizer, antes de tudo, que há diversas teorias sobre qual foi o resultado total da decepção de Orwell (e, posteriormente, de outros intelectuais importantes da época, entre eles o existencialista ateu Sartre) com o projeto de poder soviético. Uns dizem que, de socialista convicto, passou à moderada posição de social-democrata. Outros, por sua vez, sustentam que foi do socialismo a uma espécie de anarquismo desiludido. A hipótese mais forte, todavia, é que Orwell nunca deixou de fato de ser um socialista, mas que apenas escreveu 1984 para alertar ao mundo não apenas sobre as atrocidades cometidas por Stalin como também sobre o caminho sombrio a que aparentemente toda a política mundial da época rumava.

Obviamente, a questão da crença ideológica final de Orwell é controversa, mas o caso é que, mesmo se rejeitarmos a hipótese mais forte e teoria mais aceita e aceitarmos que as críticas de Orwell eram direcionadas também ao sistema socialista em si, isto ainda não o tornaria um intelectual de direita ou, mais ainda, 1984 uma apologia ao livre-mercado e/ou à preservação da moral e dos bons costumes. O detalhe, porém, é que, por incrível que pareça, as interpretações que partem de críticas a ideologias específicas não me parecem, nem de longe, as mais interessantes para o livro.

Explico. Uma das maiores angústias do sempre angustiado Winston Smith antes de sua conversão incondicional à doutrina do Grande Irmão era que só o próprio sr. Smith parecia não apenas se preocupar com a doutrina totalitária do Partido – para ficar apenas entre os protagonistas, Júlia só se preocupava com as partes que interferiam contra sua sexualidade aflorada, sendo chamada por Winston, por isso, de “rebelde apenas da cintura para baixo” -, mas também a saber e se lembrar de algumas mentiras descaradas do Partido. Bem no início do livro, por exemplo, acompanhamos o profundo desgosto do protagonista (sempre internalizado, pois externar sensações antipartidárias era praticamente assinar o próprio atestado de óbito) ao perceber que até mesmo o intelectual Syme havia se esquecido, apenas um dia após o ocorrido e por causa de sua ortodoxia inquestionável, da redução da ração de chocolate de 30 para 20 gramas semanais, aceitando, sem maiores questionamentos, a versão do Partido de que teria, na verdade, ocorrido um aumento dessa ração para os já citados 20 gramas.

O sr. Smith não fica menos estupefato quando, na Semana do Ódio (Hate Week), evento que ocorre pouco antes da prisão de Winston e Júlia, o Partido anuncia repentinamente que sempre esteve em guerra com a Lestásia e aliado à Eurásia, quando até o momento o inimigo eterno do Partido era justamente a Eurásia, e, com uma encenação por parte de seus membros digna do Oscar, convence aos “proletas” e até mesmo aos próprios encenadores – isto graças ao duplipensamento (doublethink), isto é, ao processo consciente e inconsciente de mudança do passado e de defesa de duas ideias contraditórias entre si – não só que a guerra foi sempre contra a Lestásia, mas também que os cartazes e as imagens anti-Eurasianas espalhadas por todos os cantos tinham sido obras de Goldstein e da Confraria (Brotherhood), as duas oposições, ao menos segundo os rumores, existentes na Oceânia.

Ao final da leitura, sabemos tanto “como” quanto “porque” (esta, aliás, uma das dúvidas mais frequentes de Winston: “Eu entendo como, só não entendo porque“) o Partido agia como descrito por Orwell: os seguidores do Grande Irmão, em nome do Poder pelo Poder, alteravam o passado, caluniavam os membros que “traíam” o movimento, forjavam falsas oposições, demonizavam esses espantalhos com atitudes e ideias que todos, já dançando conforme a música do Partido, rejeitavam veementemente e, não menos importante, vigiavam não tanto as ações e as palavras, mas principalmente as ideias dos proletas e de seus próprios membros a fim de evitar, como diz Syme, que exista crimepensamento (thoughtcrime) onde quer que seja, ou seja, que exista a menor oposição à doutrina Socing (INGSOC) em qualquer canto do planeta.

Tudo isto, no entanto, só pode ser entendido quanto compreendemos que, para o Partido, a realidade (e, por consequência, aquele mesmo passado que o Partido busca controlar) não é um dado concreto, objetivo e palpável, mas, como diz O’Brien para Winston em uma das sessões de tortura a que este é submetido, algo que está na mente dos homens e que pode, portanto, ser alterado ao bel prazer de qualquer entidade coletiva que tenha suficiente poder para tal feito. Daí, então, a afirmação de O’Brien de que poder é poder sobre o homem, sobre a mente humana, e daí a necessidade do Partido, para se manter no poder, de criar um estado de vigilância total.

Em tempos, então, em que “X é meramente um constructo social opressivo” se tornou um argumento para invalidar o que quisermos, e que poderia ser usado até mesmo para invalidar os melhores princípios sociais que temos (afinal, como bem lembra certo vlogueiro de esquerda, “não matarás” também é um constructo social), será sempre válido lembrar que, mesmo sem tê-lo enunciado, Orwell, com sua segunda distopia, nos legou com inigualável graça uma lição à moda de Dostoiévski com uma máxima que poderia, um dia, lhe ser atribuída de maneira apócrifa. Afinal, “se a Realidade não existe, tudo é permitido”. Inclusive a legitimação da mais triste e desumana das distopias.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Assina, ocasionalmente, uma coluna homônima a este blog em “Sociedade Alternativa de Letras”. Já perdeu a conta de quantos O’Brien conheceu na vida. Só espera, então, não ser o seu Winston.

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