Contra a leitura

Não é raro vermos, não menos na internet do que fora dela, uma pletora de pessoas que, preocupadas com a falta do hábito de ler no habitante comum da pátria nem tão amada assim Brasil, promovem, com ou sem imagens, ideias que poderiam instar o brasileiro, por quaisquer motivos que melhor lhe conviessem, a debruçar-se sobre os mais variados gêneros de livros, indo desde comédias românticas à obra completa de Aristóteles, ou, para ficar com exemplos mais em voga em ambos os extremos, desde os livros de Rick Riordan até a Crítica da razão pura, de Immanuel Kant.

Obviamente, nobre leitor, que meu título me contradiz, pois, como licenciando em Letras e já professor, ser-me-ia temerário e contraditório declarar, em qualquer ambiente, mesmo que movido por razões schopenhauerianas (o que não é o caso), que a leitura pouco serve para o ser humano que se quer tornar um pensador, também porque não creio nisto e porque, que me perdoe o pessimista alemão, o enunciado me parece falso.

Correm, não obstante, o gosto pela polêmica e o detalhismo em minhas veias, além, é lógico, de certo grau de pessimismo, que são responsáveis por minha extrema ânsia de contestar visões que me pareçam excessivamente otimistas, majoritárias (pelo menos entre os interessados em um assunto) ou, para meu gosto, com detalhamento aquém do necessário. E, nos três quesitos, há poucas questões melhores do que a leitura.

Qual leitor ávido ou pesquisador da área, independente de suas crenças sobre o que é leitura de fato, contestaria a afirmação segundo a qual ler é um prazer? É, afinal, inegável o quão difícil é não sentir uma pontada que seja de regozijo quando se lê um artigo bem escrito, uma crônica machadiana ou as imortais peças do teatro clássico grego e romano. Da mesma forma, não é vermos com que alegre esmero leitores de poesia, de Baudelaire a Camilo Pessanha, se dedicam a desvendar os mistérios que cercam este tipo de escrito, como se quisessem passar a vida inteira (e, em alguns casos, passam mesmo) apenas a estudar esses autores e a cultivar, em outras pessoas, o gosto pela arte literária.

Poucos parecem se lembrar, todavia, de que para grandes prazeres não só podem haver como provavelmente existirão grandes ônus. Quanta labuta intelectual e até física é necessária, exempli gratia, apenas para terminar a leitura (nem falo de interpretar, pois aí o terreno é outro ainda mais pantanoso) de um livro como O Idiota, de Dostoiévski, em que um capítulo quase da extensão d’O Alienista machadiano é dedicado para uma mera carta lida antes de um suicídio que sequer viria a ser concretizado? Quantos, para voltar à poesia, teriam a paciência de ler Ode Marítima, uma das obras primas de ninguém menos do que o tão citado Fernando Pessoa (ou melhor, de seu heterônimo Álvaro de Campos)?

Não menos dispendiosa seria, por exemplo, a leitura um pouco mais atenta de qualquer obra de filósofo como Spinoza, que, com Ética, divide até hoje os especialistas sobre seu real posicionamento na questão Deus, ou Descartes, cujo filosofar influenciaria não apenas no desenvolvimento da ciência moderna, mas também “apenas” em tudo o que se convencionou chamar de modernidade filosófica, na qual estão incluídos outros pensadores de grande complexidade, mas de maior fama nas redes sociais, como Hobbes, Rousseau, Voltaire, Kant, Hegel, Schopenhauer e Marx, ou mesmo praticamente anônimos nesses ambientes, como Fichte, Schelling, Hume e Diderot. Como um leitor que disso tudo tem ciência ficaria, então, sem fazer ressalvas ao pouco esclarecimento sobre os custos do prazer de uma boa leitura, sendo que, para se chegar a este prazer, é muitas vezes necessário passar por situações torturantes do ponto de vista intelectual?

Certamente que não discordo, outrossim, das nobilíssimas intenções (e não ironizo aqui, leitor, esteja certo disto) de quem, com imagens que associam o ato de ler a um sentimento de felicidade tão metafísico quanto todos os sentimentos deveriam ser, comprova que a leitura estimula a imaginação. Sinto, porém, que não é ato de extrema crueldade lembrar aos amigos leitores que nem sempre esta imaginação leva a lugares muito agradáveis.

Tomando como exemplo o monumental George Orwell, quantos teriam como sonho viver nas mesmas condições do angustiado Winston Smith? Quantos não sentiriam medo ao pensar na possibilidade do surgimento de uma sociedade em que o indivíduo seja visto apenas como uma célula descartável de um organismo que, por meio do sacrifício destas células sobre as quais tem total controle, se quer manter vivo para sempre pisando sobre a face da humanidade? Ou ainda, sendo mais claro, quem não sentiria asco ao imaginar a tortura e a destruição completas de Winston nas salas do Ministério do Amor? Não poderia esta imaginação, na verdade, levar o leitor iniciante e inexperiente a nada mais querer ler pelo medo de que todas as experiências sejam tão chocantes?

Por último, mas não menos importante nem menos inegável, é o argumento de que a leitura é um ótimo meio para educar a si mesmo e aos outros. Resta, porém, um problema: sendo a escrita, especialmente a literária, uma arte por excelência, até que ponto seria proveitoso recomendar a alguém que lesse apenas por motivos utilitários (no caso, puramente educacionais)? Aliás, ressus-citando (e, sim, leitor, o “typo” é intencional) o escritor irlandês Oscar Wilde, haveria realmente a arte de ter qualquer função moral, política ou de qualquer outra natureza? Não poderia ser a arte mais virtuosa, justamente, quando sua única “função” é a de permitir ao homem contemplar o que e como normalmente não contemplaria?

 Sei, óbvio, que a alma do negócio da propaganda, assim como a da militância, é tentar mostrar ao máximo ao público-alvo o que, no objeto ou na ideia a serem vendidos, é o mais agradável. Deve ser por isso, então, que eu sempre me imaginei um péssimo publicitário. E também militante.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Acha que esse post vai dar uma treta lascada. Só resta saber se será com quem pensa…

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11 comentários

  1. Olá Octávio!
    Dediquei um tempinho a sua crônica justamente pela propaganda no Facebook (é estratégia dizer-se “péssimo publicitário”). Já tinha lido texto seu antes, aqui mesmo, mas perdera o endereço! Gastar um tempinho com um texto assim grande, num dia de preguiça como hoje, é só porque você escreve bem mesmo! Divaga e divaga, fico me perguntando “para onde estou sendo levado” – logo vi que o título foi um embuste (“Contra a Leitura”… outra estratégia publicitária?) –, depois vi que não tem muito objetivo mesmo (putaqueopariu), mesmo assim gostei…

    1. Nicolas,

      Antes de tudo, valeu pela audiência, cara.

      Então, o que tentei fazer, e não sei se fui bem sucedido, foi apenas mostrar aos nossos defensores da leitura que, muitas vezes, seus argumentos podem ser combatidos com uma facilidade atroz. Óbvio, como disse no texto, que acho a causa nobre, mas, como também disse, meu espírito detalhista me faz adorar questionar o que não é muito bem explicado.

      E, sim, definitivamente, o título foi puro marketing, rs

      Abraços,
      Octavius

  2. Octavius, quais leituras te inspiram? E quais os teus autores favoritos entre os grandes clássicos?

    (Já aviso: é uma pergunta, não é ironia nem provocação).

    Abraço. E parabéns pelo novo blog que está muito bom e reflexivo.

    Lucas Pipi.

    1. “Octavius, quais leituras te inspiram? E quais os teus autores favoritos entre os grandes clássicos?”

      Aquelas que você ainda não fez e, espero, não fará, pois até o fato de você ler certos autores já é um insulto à memória deles. Já disse em outro tópico, direi de novo aqui: vá pastar e pare de encher o meu saco, moleque.

      1. Bá, cara. Qual o teu problema? Sei lá o que eu te fiz, mas estou numa boa. Larguemos os conflitos do passado de lado, oras.

  3. Cara, moleque é tu que brigou nos Duelos Retóricos por causa de “curtidas” em comentários opostos ao teu. E mais moleque ainda é tu que nunca comeu uma mulher na vida e foi falar da própria masculinidade.

    Na boa, eu não tenho nada contra ti. Mas tu é um moleque MESMO, definitivamente. Bem que o Alonso, Chico, Caril e outros caras da DR tem razão quando te detonam.
    Abraço.

    1. Se você se pauta por Alonso e Chico, você, além de moleque, é mau caráter. Além de ser um rematado analfabeto, como o próprio Caril, o Roger e “outros caras da DR” provaram milhares de vezes. Se você se pauta por essas opiniões, azar o teu, moleque.

      1. Moleque é tu, virgem de ameba. O dia que tu comer uma mulher e parar de choramingar por like no Facebook a gente conversa, seu noob. Loser.

      2. Moleque é quem vem no blog alheio postar comentários de bosta fingindo que tem cérebro. Vá pastar de uma vez, esqueça deste blog e me deixe em paz, palhaço. E cresce, moleque.

  4. Se não tivesse cérebro, certamente nem estaria falando contigo! UIHEUIHAUIHEUIAHUIEHAUIEHAUIEAEUIAE, energúmeno!

    Não esquecerei, sempre postarei aqui pq tem uns textos legais.

    E pare de choramingar likes, bebezão.

    1. “Se não tivesse cérebro, certamente nem estaria falando contigo! UIHEUIHAUIHEUIAHUIEHAUIEHAUIEAEUIAE, energúmeno!”

      É porque você pensa com o intestino, rapaz.

      E choramingador de likes é você, seu bosta. Cai fora daqui de uma vez. Para ter um leitor como você, é melhor apanhar de gangue na rua diariamente.

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