Eu, Apolítico – Ensaio sobre a ortodoxia política

“Orthodoxy is unconsciousness.” (George Orwell, 1984)

Começo este texto com a culpa, leitor amigo, de quem tem uma confissão a fazer. Confesso que, ultimamente, fico irritado, além de cansado, quando tenho de debater com ortodoxos, com puristas de direita ou de esquerda que, em nome da ideologia e de valores de validade questionável, se recusam a enxergar o que já está praticamente na íris dos olhos de qualquer analista político, mesmo que mequetrefe, que não compartilhe de sua cegueira e, com isso, perdem não apenas votos como também a possibilidade de granjear mais simpatizantes até mesmo entre os desinteressados em política.

Óbvio que o fenômeno ao qual me reporto acontece bem mais à direita do que à esquerda, visto que esta percebeu, há pelo menos 40 anos, como funciona o jogo político, ou seja, que é necessário, muitas vezes, atualizar o discurso e torná-lo mais aberto a todos os grupos sociais e, principalmente, mais atraente para as massas, o que permite a quem as cative da melhor forma possível que tenha, no mínimo, maior respaldo para expor os itens de suas ideologia para o grande público e, com alguma habilidade retórica e muita propaganda, ir convencendo-o aos poucos até mesmo a mudar posicionamentos que eram tidos como imutáveis porque derivados  de uma moral social ou de uma ordem política previamente vigentes.

Como muitos poderiam observar, é claro que a conquista dos corações das massas não depende apenas dessa flexibilização e dessa propaganda incessante. Se os militantes da causa gay, apenas para citar um exemplo que vem gerando mais controvérsia Facebook afora, adotassem, para a defesa dos seus interesses de grupo, uma retórica itaguaíense (os machadianos e os fortes entenderão) ou tucana (ou ainda octaviana, amigo leitor), estariam certamente fadados ao fracasso eterno, já que os únicos sentimentos possíveis diante de formalismos desnecessários e prolixidades irritantes que pessoas normais podem ter são que ou se trata de um embusteiro (não tanto por contar mentiras, mas principalmente por não falar coisa com coisa) ou de um chato de galochas.

Outro fator importante é que, para a criação de uma retórica adequada, também é preciso estar bem informado sobre as ideias que estão em voga nos meios intelectuais e nos meios midiáticos e não agir como um irresponsável metralhando-as com frases desconexas e com argumentos no mínimo mal explicados. Foi esse o erro, por exemplo, do ex-presidenciável Levy Fidelix, um autodeclarado direitista no último pleito eleitoral, ao dizer que uma maioria heterossexual deveria combater “essa minoria” (no caso, os homossexuais): além de ter sugerido o seu desprezo (para dizer o mínimo) por uma minoria cada vez mais ativa politicamente no Brasil, ainda usou um tom que provavelmente levaria um “neutro” educado para a tolerância a ter nojo não só dessa fala de Fidelix como também de qualquer outra ideia que ele venha a defender. De maneira parecida, erram também os religiosos que, em um país cada vez menos fã de religiosidade tradicional, usam como argumentos sobre temas como o Aborto as palavras ditas por sua divindade em um livro que lhes, e apenas lhes, é sagrado.

É aí, então, que o ortodoxo começa a mostrar suas falhas. Enquanto o flexível, o heterodoxo, procurará até mesmo aprender algumas estratégias com seus opositores políticos, o ortodoxo, o purista inflexível e babaca, provavelmente se recusará a isto sob a desculpa de que seu senso elevadíssimo de moral jamais lhe permitiria fazê-lo, pois estará copiando os imorais, os errados. Enquanto o heterodoxo procurará, quando falar sobre homofobia (para ficar no mesmo exemplo), emplacar outro de seus discursos junto com o combate à homofobia, o ortodoxo, para combater a “histeria”, tentará convencer o grande público de todas as formas que o caso não é bem esse. Enquanto o ortodoxo vai apenas zombar do que diz uma candidata como Luciana Genro (que, inclusive, foi muito mais bem sucedida em número de votos no último pleito do que Fidelix mesmo sem ter sequer ido ao segundo turno), o heterodoxo procurará também entender como e porque ela pôde conquistar bem mais do que tinha de partida, e seguirá por um caminho parecido quando for se aventurar pelo complicado terreno da militância política.

Pode-se dizer, porém, que a culpa não é mais do indivíduo ortodoxo do que da natureza da ortodoxia em si. É a ortodoxia que, afinal, muitas vezes cega não só para o presente, como também para o futuro, e é a mesma ortodoxia que não permitira ao seu fanático perceber que, mais vezes ainda, a arte do possível, a política, acaba não sendo a arte do possível e do Belo, do Bom e do Moral. Ou, melhor ainda, citando Orwell na boca de Winston e O’Brien respectivamente:

“How can I help seeing what is in front of my eyes? Two and two are four”.

“Sometimes, Winston. Sometimes they are five. Sometimes they are three. Sometimes they are all of them at once. You must try harder. It is not easy to become sane”.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Acredita seriamente que enquanto houver ortodoxia, não vai haver poesia. Bloga também em Sociedade Alternativa de Letras.

Anúncios

3 comentários

  1. Octavius,

    Suas postagens me oferecem um grande divertimento nesse cotidiano de debate político pobre e aparentemente imutável. Tenho algumas perguntas sobre o seu perfil, apesar de só ter lido alguns livros de Machado De Assis(prefiro os contos) não deixei de notar uma semelhança e presença do estilo Machadiano no seu texto. Ele é de grande inspiração pra você? Eu particularmente amo a ironia presente nos textos Machadianos, mas você deve ter seus motivos.

    Obrigado pelo post e desculpe a inconveniência da pergunta.

    1. Miguel,

      Ainda lendo o meu blog? Surpreendente…
      Sim, adoro Machado também e me inspira muito, mas não tenho como imitar o mestre. Ele era um escritor literário, eu sou um mero escrevente. Mesmo querendo muito, só mesmo em um rompante extremo de genialidade chegaria perto de imitá-lo.
      E, não se preocupe, adoro as perguntas que meus leitores acham inconvenientes. Pode fazê-las à vontade aqui.

      Abraços,
      Octavius

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s