Eu, Apolítico – A eleição, seus nulos e (para variar) mais um erro da direita vitimista

Com o fim das eleições presidenciais de 2014 e mais um fracasso eleitoreiro do Partido Só De Bundões (PSDB), talvez o fenômeno político mais curioso já observado em terras tupiniquins nos últimos anos tenha sido justamente a reação em cadeia de alguns dos eleitores do então candidato presidenciável Aécio Neves, do PSDB, à confirmação da vitória da agora presidenta reeleita Dilma Rousseff, do PT.

Não, amigo idiota de esquerda, não tenho em mente os xingamentos vergonhosos contra o povo nordestino. Isto, afinal, não é novidade alguma e, aliás, neste sentido, a novidade  é que estes mesmos alguns eleitores, muitos destes mais eleitores por antipetismo do que por simpatia a Aécio, finalmente perceberam que mais ataques a tão digno povo só resultará em mais e mais anos de PT e em menos e menos créditos para a oposição com o passar desses anos. O caso é que falo dos novos eleitores de direita de Aécio (e, não, não acredito na narrativa esquerdista de análise do espectro político, portanto não acho que todo tucano é o auge do reacionarismo, muito menos do conservadorismo, por padrão), ou seja, de pessoas que, de tão desacostumadas a militar, trocam os pés pelas mãos com frequência muito maior do que acertam. E foi o que fizeram desta vez ao escolherem os que votaram nulo ou se abstiveram (ou ainda que militaram por uma destas opções) como os novos bodes expiatórios para o próprio insucesso nestas eleições.

Antes que me perguntem, ora, é claro que este é um texto de autodefesa. Fui, afinal, não só um nulo como também um nulo militante, confesso que mais por desinteresse geral do que por convicções, já que fiz, por muito tempo, a defesa de que o eleitor sempre optasse preferencialmente por escolher entre os candidatos de um pleito, como qualquer leitor mais antigo meu pode atestar. O fato é que, de qualquer maneira, me recuso, como já expliquei várias vezes em meu perfil no Facebook, a votar em quem não quis fazer o que precisava nos últimos 12 anos, assim como me recuso a unir-me a patriotas  de qualquer espécie (incluindo patriotas petistas) e com pessoas que insistem em defender, principalmente sem o uso de bons frames, discursos cujos futuros se tornaram incertos nos últimos anos (ou ainda com gente que se esforça ao máximo para defender um guru espiritual e filosófico, mas que, quando lhe dizem para militar por algo útil, chama o interlocutor de esquerdista e diz que sua militância é estudar).

Enfim, o fato é que, tendo perdido nestas eleições por uma diferença pequena no número e na porcentagem de votos, a direita cravou que teriam sido os nulos e os abstinentes que decidiram a eleição e que, por não terem optado por um ou sequer terem ido às urnas, seriam cúmplices caso mais quatro anos de PT trouxessem grandes prejuízos ao Brasil ou se o Partido há 12 anos no poder  utilizasse as benesses do novo mandato para solapar as instituições democráticas e instaurar, a seu modo, uma ditadura. O problema, porém, é que, além de o número de votos nulos ser apenas ligeiramente maior do que a diferença final entre Aécio e Dilma e de não haver qualquer garantia de que os abstinentes necessariamente se sentiam mais convencidos por Aécio do que por Dilma (ou seja, não haveria como prever o resultado dessas eleições com esses votos), há uma evidente contradição entre essa postura e o pensamento direitista atual: sendo eles próprios os maiores opositores ao vitimismo, por que culpar quem deveria ser convencido e não quem deveria convencer? Por que culpar quem respeitou ao máximo o princípio de liberdade de consciência ao exercê-la como achou que deveria, ao invés de responsabilizar quem não foi capaz de convencer suficientes eleitores nos últimos 12 anos? Mais ainda: como jogar a responsabilidade em cima de um percentual de eleitores que já vem se mantendo há algumas eleições, mas que também reclamava de falta de representação durante este ínterim?

E há ainda outro fator: a possibilidade de que, no máximo, os militantes partidários já tinham voto decidido antes do começo das eleições, o que significa, chutando baixo, que pelo menos 70% do eleitorado, até as propagandas se iniciarem, acabaria votando nulo de qualquer forma exatamente porque, caso nossos incautos amigos não saibam, o estado natural da maioria dos votos antes da eleição é, justamente, a ausência de um candidato em quem se votar. Por que não culpar, então, quem não foi competente nos últimos 12 anos para construir uma narrativa que motivasse menos abstenções e menos anulações enquanto quem apenas deu opiniões e exerceu também um direito por quaisquer razões é transformado em bode expiatório?

Ah, mas a resposta, já me esquecia, é bem simples: vitimismo, teu nome é direita. Melhor: é tucanos de outubro.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Perdeu a conta de quantas vezes foi chamado de esquerdista quando o título mais cabível seria, na verdade, sofista. Bloga também em Sociedade Alternativa de Letras (ou nem tanto).

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