Sobre a má aventurança

Mal aventurados os que, em nome de ideias retrógradas  e de um ranço injustificável em todas as faixas etárias possíveis, consideram possível a verdade apenas ser dita pelos que porventura e por ventura tenham mais idade. Tolos, ignorantes, hipócritas e incultos, como vós reagiríeis ao saber que, dentre os maiores gênios chineses de todos os tempos, há nada menos do que um garoto cuja vida expirou antes de completar treze  já mais do que promissoras primaveras? Reduzi-lo-íeis à condição de mero molecote arrogante, mesmo quando até seu pai, reconhecidamente um dos maiores generais de seu tempo, já o considerava mais inteligente e tão valoroso quanto a maioria de seus servos e até do que ele próprio?

Mais mal aventurados, porém, os que, em nome da inovação irresponsável e da rebeldia fingidamente altruísta, clamam por “todo poder ao povo” enquanto o que querem é, na verdade, “todo poder a nós mesmos”. Demagogos e calhordas, sois vós tão cegos a ponto de não perceberem que, se vosso desejo se tornar realidade, vossas causas é que podem naufragar de vez? Ou sereis vós tão gananciosos como penso que vos faltará o escrúpulo necessário para que não coloqueis em risco inclusive vossos próprios familiares em nome de uma antiutopia amaldiçoada em sua origem?

Finalmente, ainda mais mal aventurados os que querem se chamar de “povo” enquanto sequer cogitam observar esta entidade com mais proximidade e com mais sinceridade. Cretinos e irresponsáveis, como conciliareis voluntariedade com filhadaputagem? Como defendeis o menor Estado sem pregar, também, o fim do coronelado? É vossa irresponsabilidade tão grande que vos deixa tão cegos quanto os outros mal aventurados?

A vós, que não julgais pela reta justiça nem pela clareza dos fatos, só haverá um reino reservado: vosso é o reino do esquecimento.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Pergunta-se quantos leitores reclamaram de tantos “vós” antes do fim do texto.

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2 comentários

  1. Caro Octávio,

    Já que mencionou chineses, pergunto: e o “conselho de anciãos” da antiguidade oriental? Não seria o preconceito a melhor maneira de calar a oposição? Não ouvir jovens, nem mulheres, nem analfabetos, etc., especialmente quando o argumento deles é lógico, inteligente e superior, enfim?
    Quanto à distribuição de poder, quanto ao “poder ao povo”, a “democracia”: não sei se alguma vez, algum grego antigo chegou a acreditar nisso! A coisa mudou foi à força de guilhotina, no século XVIII – e ainda assim, a mudança não foi grande!

    1. Nicolas,

      Pois é, cara. Essa do “conselho de anciãos” era mesmo ruim, mas o Cao Cao, que citei no texto, parecia ligar mais para a valorosidade de um general do que para suas características pessoais. Neste sentido, foi um dos maiores mesmo com seus outros equívocos.

      Quanto ao preconceito e à distribuição de poder, nada a acrescer.

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