Eu, Apolítico – Os conservadores, a Academia e a lição de Paulo

Amigos conservadores, sabem o que vocês devem fazer, inicialmente, para ganharem mais influência no meio acadêmico? É, na realidade, bem simples e pode ser feito até mesmo por gente que leva a sério frasistas que acusam Nietzsche de ter assassinado D’us.

Primeiro, e mais essencial, principalmente porque a maioria de vocês são religiosos, é se lembrarem da lição genial deixada por Paulo: “tudo eu posso, mas nem tudo me convém”. É lógico que, em um mundo democrático, até que se prove o contrário, tudo pode ser dito e discutido, mesmo com as consequências jurídicas. O problema é que, quando falamos em termos políticos, o mais sábio é justamente omitir as próprias opiniões quando estas já não têm tanta penetração no eleitorado e, especialmente, quando podem se voltar contra o emissor. Neste sentido, o primeiro passo seria, então, conservar (com e sem trocadilho) a boca fechada quando se tem uma opinião que divirja muito do já aceito.

Com isto, é óbvio que não digo que as pessoas devam MUDAR suas opiniões completamente só pela política, pois isto seria uma cretinice inaceitável. Por exemplo, todo evangélico fanático pode continuar, no âmago, evangélico fanático, e o mesmo vale para os vigias de útero alheio, para os vigias da bunda alheia, para os defensores da “consciência humana” no lugar da “consciência negra”, para os masculinistas e, até certo ponto, para os anti-Legalização das Drogas, para os defensores do livre-mercado e para os pró-Pena de Morte ou pró-Redução da Maioridade Penal. O que nenhuma dessas pessoas parece perceber é que, em política, o que importa de fato não é em que se acredita, mas o que e, principalmente, COMO se enuncia algo.

Ora, nem preciso ir muito além de Orwell: “a linguagem política destina-se a fazer com que a mentira soe como verdade e o crime seja respeitável”. Tanto Orwell está certo que foi essa uma das armas tanto para totalitaristas quanto para democratas convictos subirem ao (ou serem tirados do) poder. Isto não significa que não seja possível, no fazer político, ser honesto, mas que ser sincero em demasia e em todas as situações pode, muitas vezes, obter para o emissor de uma mensagem política o efeito oposto ao desejado, ou seja, a rejeição no lugar da adesão incondicional a certa linha de pensamento político ou a certa ideologia.

Exemplar, neste sentido, foi o caso recente de Levy Fidelix nas eleições presidenciais 2014, em que o leviano candidato (novamente com e sem trocadilho), ao misturar sinceridade com boçalidade, ganhou não só a execração pública pelos órgãos de mídia de esquerda como também a rejeição de mais uma parte do eleitorado – além das pessoas que, lógico, já rejeitavam o homem do aerotrem antes  de todo o ocorrido – que, se identificando com o discurso oposto, construído de forma menos aparentemente intolerante e com maior respaldo pela Academia, chamaram o dito candidato conservador de “aberração” para baixo.

Levy observando quantos trouxas o andam imitando. Surpreso, o ex-eterno presidenciável declarou: " essas pessoas devem estar sendo pagas pelo Foro de São Paulo para queimar o filme dos conservadores como eu."

Levy observando quantos trouxas o andam imitando. Surpreso, o ex-eterno presidenciável declarou: ” essas pessoas devem estar sendo pagas pelo Foro de São Paulo para queimar o filme dos conservadores como eu.”

Contra isto, muitos argumentariam que, além de Levy ter multiplicado seus votos habituais por dez, é com esse tipo de “coragem” que se deve combater a “ditadura gay” que vêm se instalando no Brasil. Não pensam, entretanto, que a candidata que opôs Levy nessa questão, Luciana Genro, também ganhou tantos votos que inclusive passou, na classificação do 1º turno, outro candidato amado pelos conservadores, o dito liberal-conservador Pr. Everaldo, e foi a única fora dos três candidatos principais a passar de 1% dos votos (tendo, inclusive, mais votos do que Everaldo e Levy somados) assim como não pensam que, para qualquer grupo combater efetivamente o que quer que seja e começar a ganhar espaço, é preciso não só dos radicais, mas também de moderados que repudiem estes radicais e apresentem propostas que, sendo mais moderadas, são também mais aceitáveis e direcionarão, ao longo do tempo, a opinião pública para o seu lado (a chamada “estratégia das tesouras”, em que a esquerda é especialista e a direita, nem sequer aprendiz).

Enfim, o caso é que não haverá futuro para os conservadores, principalmente dentro das universidades, enquanto não exercerem a prudência e procurarem perceber não só quando mas também se poderão de fato papagaiar de forma tão explícita os ideais que defendem.  Inicialmente, então, o que alguns dos discípulos de Burke devem fazer é, por incrível que pareça (especialmente por ser eu, um debatedor nato, falando isto), absterem-se de debater em público no ambiente universitário principalmente se não são oradores excelentes e se não aguentam a pressão necessária, pois, sendo maus debatedores, só colocarão a credibilidade de suas ideias à mercê de um público cuja confiabilidade em termos de honestidade intelectual e de busca pela autonomia na questão do pensamento (ou seja, da fuga da tutela) é quase nula.

Estes indivíduos devem, portanto, focar-se em estudar e em conseguir cargos nas universidades, de modo a, como doutores dignos de crédito apenas por ostentarem títulos (o que, espero, só aconteça mesmo no Brasil), poderem influenciar toda uma geração de futuros pensadores brasileiros e, progressivamente, e com a paciência necessária, irem reequilibrando a balança do já sob risco debate político público brasileiro, seguindo os mesmos passos da esquerda desde praticamente a vinda dos primeiros professores da USP ao Brasil, aqueles mesmos que formariam, entre outros, Antonio Cândido (para citar um exemplo que me é mais próximo), orientador, por sua vez, de Roberto Schwarz (e de muitos outros), um dos dois intérpretes, junto com Alfredo Bosi, mais tidos como fonte crível quando o assunto é Machado de Assis, ou seja, quando o assunto é só o maior escritor que já pisou nestas terras.

O primeiro passo, então, é uma questão de unir o silêncio dos sensatos à sutileza dos bons políticos. Todavia, este passo nada é sem um segundo igualmente importante. Pergunto: como é possível  influenciar pessoas com novas ideias (ou, pelo menos, com velhas ideias construídas linguisticamente de modo novo) sem que haja uma narrativa, um discurso que possa ser alvo de reinterpretação pelas mais diferentes áreas do conhecimento? Todo e qualquer universitário de Letras sabe, por exemplo, que não só há na Análise do Discurso uma aceitação muito forte de premissas esquerdistas de análise de ideias (quem nunca ouviu falar, por exemplo, em “discurso neoliberalista” sem sequer saber o que exatamente é neoliberal?), como também na Linguística Aplicada, na Psicolinguística, na Sociolinguística e em todas as outras áreas há, de certa forma, uma guinada à esquerda.

Na crítica literária, o já citado Antonio Cândido e seus orientandos. Na LA, Kanavilili Rajagopalan e muitos outros. Na Sociolinguística, nem se fala. Se formos para áreas como Sociologia, Psicologia, Jornalismo e Filosofia, então, aí é que a diferença fica gritante. Em nome de qual narrativa, então, os conservadores querem reverter esse quadro? Será mesmo, outrossim, que o desmascarar constante de professores marxistas convém ser feito justamente por quem está na Academia, e não por quem já passou por ela e não tem pretensões de lá voltar? Aliás, de que adianta, em termos de debate público, os desmascaramentos sem uma nova narrativa na qual as pessoas possam crer? Não será necessário, então, que, enquanto alguns penetram na Academia, outros, com a ajuda inclusive destes futuros doutores, criem o discurso a partir do qual e em prol do qual se deve trabalhar?

É nessas horas, confesso, que penso que a melhor coisa que os conservadores podem fazer por si mesmos, no momento, é conservar a própria sanidade mental enquanto conservam, dentro do ambiente universitário, a boca fechada e a cara nos livros.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera, sinceramente, que agora as olavettes tenham entendido o que o luminoso-mestre lhes disse por anos. De nada pela explicação.

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10 comentários

  1. Com esse esquerdismo exacerbado existente nas universidades latino-americanas é praticamente impossível que o conservadorismo seja impulsionado no mundo acadêmico.

      1. Já pensou um conservador como agente secreto?

        “Ei, soviéticos, somos britânicos, estamos entrando agora nas suas instalações nucleares ultra-secretas disfarçados de cientistas e vamos copiar todos os seus projetos e depois sabotá-los, ok? Fiquem tranquilos isto será só semana que vem, não precisam se preparar para isto”

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