Eu, Apolítico – De por que motivos espezinho as pessoas por causa da legalização do Aborto e outras histórias

Lamento pelos amigos conservadores que dizem que ando pagando muito de filósofo ou de clássico, mas confesso sobremaneira envergonhado que não consigo frear meus dedos em certos casos. Por exemplo, toda vez que vejo um amigo dizendo que o Bolsa Família ou programas do gênero são essencialmente ruins por poderem ser armas para a eleição de maus governos, penso que essas pessoas não pensam que é justamente por alguns iluminados da oposição não conseguirem fechar a boca e falarem merda contra quem é beneficiário desses programas que os maus governos acabam sendo eleitos e, em muitos casos, mais do que apenas reeleitos.

O problema é que, pelo menos no Brasil, as pessoas infelizmente ainda não conseguiram perceber que, em política, é muitas vezes vital, especialmente quando não se domina a cultura, separar crenças ideológicas de ações políticas e, principalmente, de enunciados políticos. Simplificando, o que digo é que os indivíduos (e as indivíduas, é claro) de direita, de esquerda, de centro ou de qualquer outro tipo de espectro ideológico ou religioso que prefiram precisam desesperadamente parar de confundir o que falam com o que pensam, ou, mais ainda, de falarem tudo o que pensam mesmo na hora e no lugar não tão adequados assim.

Quando espezinho os amigos conservadores por causa de temas como a legalização do Aborto, a institucionalização de Cotas Raciais ou a questão do preconceito linguístico, apenas para ficar com exemplos mais frequentes de implicância conservadora em temas sobre os quais não chegamos a qualquer consenso, muitos desses bons amigos pensam que o faço por pura implicância, por antiolavismo ou por ter chegado às raias da mais triste esquizofrenia mesmo. Ora, o caso é que todos que me conhecem sabem bem que, quando o assunto é política, venho cada vez menos me importando com o “em que as pessoas acreditam”. Não sou, afinal, um progressista raivoso que considera que as ideias erradas não podem ser defendidas por serem formas de manutenção do capitalismo ultraconservador selvagem ou, talvez pior ainda, um conservador vitimista que considera a criminalização de todas as ideias de esquerda ou a esta corrente aparentadas para que eles finalmente consigam o crédito dentro dos meios culturais pelo qual em geral não se esforçaram o mínimo nas últimas décadas.

O meu problema, então, não é, como dito acima, “em que” alguém acredita (isto, aliás, me desinteressa mortalmente), mas “para que” alguém, principalmente os que afirmam estar – e que, na maioria das vezes, estão certos neste aspecto – em desvantagem em termos culturais e midiáticos, está colocando determinado assunto em pauta em determinado momento político. Para exemplificar isto de modo bem claro, utilizo o caso da legalização do Aborto: para que será útil para pessoas que querem tirar o PT do poder, por exemplo, desperdiçar um tempo que poderia ser usado em prol de uma militância mais organizada contra pontos centrais do projeto petista vociferando sobre um tema pelo qual a imensa maioria das pessoas pouco se interessa? Por que não utilizar este tempo, por exemplo, para denunciar o outro lado em temas em que é inconteste o apoio da maioria da população às ideias antipetistas, como a maioridade penal ou a pena de morte? Em que pregar incansavelmente contra uma legalização que só pode ocorrer com manobras constitucionais excessivamente sofisticadas (e que, convenhamos, inevitavelmente denunciariam um golpe ou seriam impedidas pelos aliados da numerosa bancada evangélica) ajudaria na queda do Partidão? Por que, então, utilizar munição excessiva em uma batalha que de forma alguma é a mais urgente ou a mais prioritária?

Diriam-me os mais moralistas, ao ouvirem isso, que estou pregando que, muitas vezes, são a hipocrisia e a falta de sinceridade as chaves para resolver o enigma da política. Não poderiam, aliás, estar mais certos, pois já disse isso, de outra forma, há algum tempo em meu texto sobre os conservadores e a academia. Di-lo-ei desta vez, contudo, de forma mais clara. Vejam, ingênuos conservadores, como é simples a coisa: quando temos uma amiga ou uma namorada que tenha enfrentado problemas de saúde em decorrência do excesso de peso e que esteja tentando, sem sucesso, alcançar o peso ideal, dizemos a ela, com toda a sinceridade e a grosseira possíveis, que está fracassando, ou tentamos incentivá-la a continuar lutando por seu objetivo? Quando temos um amigo que recentemente perdeu um dos pais, dizemos algo como “morreu? antes ele do que eu!” ou tentamos consolá-lo da melhor forma possível (ou, ainda, evitamos tocar no assunto caso não tenhamos tanta proximidade)?

É óbvio que, para qualquer pessoa normal e com um mínimo de sentimento de empatia ou de sensibilidade aos problemas alheios, a resposta tenderá a ser a última, pois sabemos que, em vida social, até podemos dizer tudo, mas não devemos fazê-lo sob pena de sermos excluídos do convívio social ou, mais importante, de magoarmos as pessoas. Agora, respondam-me: se na vida em sociedade não devemos dizer tudo o que queremos ou tudo o que nos vem à mente em qualquer circunstância, por que em política seria diferente?

Eis o mistério da lição de Paulo sobre a qual dissertei uns textos atrás. Espero, então, não ter de recorrer às gravuras.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não se surpreenderá se alguns cretinos da direita o acusarem de “cerceador da liberdade de expressão”. Mandá-los-á, então, procurar umas aulas de interpretação de texto.

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