Eu, Apolítico: De quando a direita brasileira deveria ter lido Camus

Camus lendo os argumentos da direita conservadora brasileira para justificar seu reacionarismo tosco.

Camus lendo os argumentos da direita conservadora brasileira para justificar seu reacionarismo tosco.

“Já não dizemos, como nos tempos ingênuos: ‘Eu penso assim. Quais são suas objeções?’. Tornamo-nos lúcidos. Substituímos o diálogo pelo comunicado. ‘Esta é a verdade’, dizemos. ‘Podem até discuti-la, isso não nos interessa. Mas, dentro de alguns anos, lá estará a polícia para lhes mostrar que tem razão’.” (CAMUS, A.; A Queda)

Em seu divertidíssimo mas pouquíssimo divulgado romance “A Queda”, o filósofo e romancista francês Albert Camus, por meio do hipócrita juiz-penitente, lega-nos pelo menos uma lição que deve ser entendida tanto por adoradores quanto por detratores da política: a de que, ao fim e ao cabo, trocamos o diálogo pelo comunicado, ou seja, o debate livre de ideias pelo seu simulacro, pela falsa aparência de diversidade de opiniões em um ambiente em que, na realidade, o que se procura é a obtenção da ditadura da opinião única.

Como, porém, há sempre um ou mais grupos que, por ignorância ou por ignorância mesmo, nada conseguem entender sobre assuntos que demandam a saída de suas confortáveis zonas de moralismos baratos e retrógrados, vejo-me inexoravelmente obrigado a tocar novamente em pontos que já deveriam ser pacíficos para os sedizentes oposicionistas conservadores brasileiros.

É óbvio, caríssimos amigos, que Camus também mencionou o fato de a polícia ser invocada para uma solução final para qualquer polêmica política, mas devemos nos lembrar de que o francês escrevia justamente após o sensível período de ocupação nazista na França, isto é, em um tempo em que se via a força da lei e a da própria polícia como  a única e perfeita solução para se resolver todo problema político e, por consequência, para se silenciar qualquer oposição, mesmo as sensatas.

Como se isto não fosse suficiente, também é preciso lembrá-los de que, em qualquer obra literária, uma simples frase pode significar muito mais do que seu autor havia previsto ou planejado. Quem disse, por exemplo, que só de cassetete vive a patrulha, quem dirá que é o cassetete o meio punitivo e propagandístico mais eficiente entre todos?

Com tudo isso em mente, apenas quero que me respondam ou mesmo que se limitem à reflexão: em tempos em que é ideológica e não armada a patrulha mais eficiente, e em um país onde sofre desconstrução constante a imagem do homem que se levanta em armas ou mesmo que gosta delas, por que propagar tão imprudentemente a intenção de resolver o conflito ideológico pelas armas? Para os adeptos das tesouras, porém, a pergunta é outra: quando irão cortar esses impulsivos, imprudentes e impudicos protótipos de militantes?

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que Camus não se tenha revirado no túmulo ao ser invocado neste texto.

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