O que seria dos protestos de 15/03 se não fosse a esquerda?

Os meus leitores de blog e de Facebook já devem estar mais do que carecas de saber e de ter percebido que, originalmente, não era o meu intento comentar o que quer que fosse sobre os protestos pró-impeachment de Dilma principalmente porque a política brasileira me parece cada vez menos digna de qualquer tipo de análise mais interessante do que as que já estamos acostumados a ver por parte de jornalistas xaropes que, quando nada mais têm para fazer, discutem em programas xaropes temas xaropes como “a relação entre o jovem e as redes sociais” ou alguma xaropice do tipo.

Ocorre, porém, que muito me chamou a atenção o título de um texto aparentemente divulgado pela página do PT quando as manifestações de hoje já estavam em seu crepúsculo em termos de participação popular. Segundo eles, números relativamente bons só teriam sido alcançados por causa de uma suposta divulgação extrema por parte da RGT, aquela mesma rede televisiva que é o coringa que todo tipo de totalitário megalonanico adora usar como exemplo de “mídia golpista”, ou de um financiamento externo por parte de alguns grupos que teriam o interesse de derrubar o governo petista, entre eles a CIA, o governo americano, o tucanismo bundão, o jornalista Olavo de Carvalho, a família Bolsonaro, os diretores e articulistas de VEJA, o “traidor” Joaquim Barbosa e, claro, qualquer outro indivíduo ou indivídua que ouse respirar mesmo que por um microssegundo fora do petismo mais fanático ou do esquerdismo mais extremo e, ao mesmo tempo, mais falsamente moderado que possa existir.

Para tristeza da esquerda brasileira, o caso é que, desta vez, temos como provar que o culpado é justamente aquele que menos está querendo ver. Ou seja, para bom entendedor, o “i” sem pingo já basta: a culpada é, justamente, a própria esquerda brasileira.

“Quem deve ser culpada pelas manifestações é a esquerda SIM!”

Uma das premissas mais básicas que devem ser aceitas por qualquer comandante de tropas em uma guerra antes de se engajar em uma guerra é que, quando uma estratégia não vem dando certo e ainda há a chance de vitória, é de uma ignorância criminosa não optar por outras táticas que poderiam levar à vitória naquele momento em específico. Quando a vitória, então, é o resultado praticamente certo de uma batalha, faz menos sentido ainda, a não ser que se seja masoquista, optar por ações que a tornariam mais difícil ou, pior ainda, que arriscariam o curso que com tanto esforço foi tornado favorável ao lado então vencedor.

Se aceitarmos, como alguns analistas, que política é guerra por outros meios, temos, por conseguinte, que o mesmo que se aplica a cada batalha bélica é aplicável, naturalmente, ao mundo da política: em um momento político em que o tema “racismo” se torna sensível para a maior parte da população, arriscará a vitória o lado que, cometendo ou não sincericídio, opte por aceitar em seus quadros um político explicitamente racista ou mesmo pareça endossar as palavras de um jornalista reconhecidamente racista. Da mesma maneira, um candidato a presidente que se declare ateu e que milite pelo ateísmo durante sua campanha em um país extremamente religioso está, obviamente, considerando a política partidária como mero jogar de dados e não como um conjunto de ações e discursos cujo fim é a chegada ao poder.

Quando temos, portanto, um discurso a que nos opomos politicamente sendo veiculado por um de nossos adversários, nos deparamos com duas escolhas: ou vamos ignorá-lo para não arriscar fazer qualquer tipo de propaganda para o inimigo, ou ridicularizaremos este discurso e, se possível, dele abusaremos na hora de desenhar, para os ainda neutros, a caricatura de nossos oponentes, colocando-os como os que devem ser combatidos e como os causadores do mal que vem afligindo a todos. O problema é que não é apenas uma variável que deve ser levada em conta na hora de decidir que curso nossas ações tomarão. Se um discurso oponente ferir, por exemplo, valores prezados pela maior parte do eleitorado ao qual nos dirigimos, a escolha fica um pouco mais fácil independente de quem seja o enunciador desse discurso, pois a ação lógica é, justamente, de usar esse discurso isolado para compor a caricatura política à qual nos referíamos anteriormente. Já quando somos nós querendo impor novos valores coerentes com nossas causas, a coisa muda um pouco de figura, pois, ao desafiar valores muito arraigados em uma sociedade, corremos o risco de criar, para os neutros mais resistentes à nossa pregação, alguns heróis a serem reverenciados por sua aderência incondicional aos valores mais antigos, o que, no Brasil, poderíamos traduzir por meio do fenômeno Bolsonaro especialmente na última década.

Há, porém, pelo menos uma terceira situação em que a escolha se torna radicalmente mais difícil, que foi justamente o que aconteceu no momento político que estamos vivendo, ou seja, no momento em que um inimigo, mesmo que ainda timidamente e desajeitadamente, passa a usar as mesmas estratégias que contra ele foram usadas. Sendo este inimigo um ilustre desconhecido, ou um bando de ilustres desconhecidos, a situação se torna ainda pior, pois, quando se trata de pessoas notórias, já sabemos que a possibilidade de atraírem um alto público para uma manifestação é grande no caso de nada fazermos, mas, quando se trata de anônimos ou de figuras com pouca audiência, divulgar seus intentos pode, inclusive, funcionar em sentido contrário: ao invés de destruirmos de vez a reputação inimiga, podemos, na verdade, acabar criando justamente aqueles que teremos de combater no futuro (a chamada “propaganda negativa” por alguns), ocasionando-nos problemas que não precisariam existir e complicando a vitória e, por conseguinte, o alcance de nossos objetivos políticos.

Não é difícil, pois, perceber por qual via a esquerda brasileira optou. Ao passar a ridicularizar incessantemente um movimento até então pouco expressivo que teria naturalmente arrefecido após mais alguns shows de propaganda de João Santana em horários eleitorais, a esquerda, ao invés de desmoralizar seus inimigos, acabou mostrando a outros insatisfeitos, mesmo que involuntariamente, uma alternativa justamente ao próprio projeto de esquerda. Se analisarmos, então, as contradições e as falácias presentes nos discursos de muitos que apoiaram ou teriam apoiado o impeachment de Collor – não, queridos, não é ilegal que se financie manifestações, nem é preciso pedir o impeachment de todos os políticos do Brasil para se começar a combater a corrupção, apenas para ficar em dois exemplos mais escancarados nos últimos dias -, a situação piora ainda mais, pois, ao se utilizar de meias verdades facilmente desmascaráveis para atacar a causa adversária, os esquerdistas tupiniquins colocaram ainda mais em risco uma vitória que, com menos falastronismo por parte do jornalismo progressista (ou, melhor ainda, com nada sendo dito por esses mesmos jornalistas, isto é, tratando o movimento como sequer minimamente importante), poderia até já ter sido conquistada.

Resta à esquerda brasileira e, principalmente, à atual chefe do Poder Executivo e a seu Partido, então, lidarem com o monstro que criaram, assim como, para este que termina este artigo, resta acompanhar, com a curiosidade mais aguçada do que sói, o desenrolar de toda esta altercação.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Não é hipócrita quando diz estar deveras curioso pelo resultado de mais esta disputa entre a esquerda nacionalista brega  e a direita nacionalista brega, apesar de nada mais o surpreender.

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