Das perguntas indecentes que ninguém deveria fazer – Capítulo 2: “Ain, é minha opinião, posso pensar diferente?” – Adendo a “Por que escrever?”

“Certamente defendo o teu direito de seres um quadrúpede, mas usarei até a morte o meu direito de ridicularizar-te” (Octavius)

Não é difícil para o leitor lembrar, posto que leu há pouco neste mesmo blog, que, em um dos parágrafos conclusivos de meu mais recente artigo, havia dito que “escrevo não só por minha liberdade, mas também pela  daqueles de cujas ideias discordo”. Isto significaria, para muitos, e principalmente para o homem massificado mais típico dos setores mais radicais de qualquer ideologia política, um fardo insuportável, posto que é a censura a via mais fácil, ou aparentemente mais fácil, para se deixar de lado os exames de consciência e se passar a fanatizar cegamente pelo que quer que seja sem a menor sombra de oposição.

Pode ser mais difícil, mas é possível que o leitor também lembre que, há alguns meses, iniciei uma espécie de série em que prometia falar sobre as perguntas indecentes que ninguém deveria fazer, sendo o primeiro (e único) texto disponível até este momento o que se encontra acessando este hiperlink. Pois bem. Conhecendo-me como de fato já me conhece há muito, deve ser bem mais fácil ao prezado interlocutor imaginar que, ao me deparar com posicionamentos que acho detestáveis ou com argumentos cujas bases me parecem frágeis e ao confrontar o emissor de tais ideias como sói, me replicam com uma das perguntas que é possível que o leitor já queira ter feito e para as quais “indecentes” chega até a ser elogio: “veja, não é que eu não te entenda, mas é que, ain, é minha opinião. Não posso pensar diferente?”.

É óbvio que, como alguém que não poderia concordar mais com Mises quando diz, em uma de suas seis lições sobre economia constantes no livro “As Seis Lições”, que ideias devem ser combatidas com ideias e não com censura, valorizo ao extremo o pensar divergente como também o desejo de em nada pensar. Digo isto porque apenas uma pessoa que em nada queira pensar sobre o que quer que seja pode achar a pergunta supracitada uma réplica razoável a qualquer crítica mais pesada que sofra, visto que o fato de se ser criticado não impede em nada que o sujeito continue a publicar o que lhe der nas ventas.

O que temos, então, é uma pessoa que, com medo do debate e de ser exposta ao ridículo como muitas vezes merece, rotula de “antidemocrático” um opositor que, até que peça a intervenção do Estado no caso, a censura apenas no sentido metafórico, ou seja, no sentido de que reprova suas ideias e de que as combate com firmeza. O problema para nossos amigos psicologicamente frágeis é, portanto, que, por mais que se possa reprovar o método de um sujeito ao lançar suas reprimendas contra outrem, não é possível falar em censura de modo literal, ou seja, perguntar “posso pensar diferente?” não só é canalhice como também não faz o menor sentido, já que ainda não foi provada como existente qualquer relação entre ser criticado e ser proibido de pensar de alguma maneira, por mais estúpida (como no caso dos defensores da intervenção militar nos dias atuais) e/ou canalha (como no caso da maioria dos argumentos progressistas) que venha a ser.

Nada, entretanto, supera o problema linguístico inerente à pergunta em si. É óbvio que, estando em uma democracia, a resposta à pergunta “posso pensar diferente?” será sim em todos os sentidos, como em “estou autorizado a pensar diferente?”, “tenho a capacidade de pensar diferente?” ou em “você me permite pensar diferente?”. O caso, então, é justamente que, para esse caso de pensamento diferente espúrio, simplista ou similares, a real pergunta é, de fato, “convém, neste momento político em que estamos, que eu expresse esse pensamento tão diferente?”.

Evidentemente que, dirão muitos, o que vale é o coração e que se deve, portanto, ser guiado pelo coração até mesmo em questões políticas. Nada mais falso e, principalmente, nada mais irresponsável, visto que nem sempre ou que, aliás, quase nunca aqueles que estarão do outro lado estarão apenas guiados por fanatismo ideológico, mas sim pela malandragem inerente a qualquer um que queira alcançar o poder. Cabe, portanto, justamente àqueles que têm antipatias similares e que têm maior bom senso ou que mais pensam estrategicamente exatamente mostrar a estupidez do que é dito por nossos amigos excessivamente centrados em suas próprias opiniões.

Quando critico de forma áspera, nunca passo, portanto, perto da censura. O problema da frase atribuída a Voltaire sobre o espírito democrático é, pois, a sua incompletude: ao invés de “posso não concordar com uma palavra do que dizes, mas defendo até a morte o teu direito de dizê-las”, modestamente digo que adoto o “certamente defendo teu direito de seres um quadrúpede, mas usarei até a morte o meu direito de ridicularizar-te”. Talvez por isso meu nome seja Octavius e não François Marie Arouet.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Até reprovaria aqueles que “xingam muito no Twitter”, mas sabe que essa é a única alternativa viável em alguns casos.

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