Novas reflexões de um heterônimo rabugento 2: de como a polêmica Boticário prova que os politicamente corretos da direita são os piores

“Em caminho de paca, tatu caminha dentro?” – É com essa pergunta dotada de cacofonia e com algumas risadinhas  que se encerra um dos comerciais a que vocês, brasileiros, tiveram de assistir nos últimos meses. O que isso tem a ver com o que escreverei? Obviamente nada, amigo leitor que já me conhece de outros carnavais e que sabe que este heterônimo adora começar seus artigos com uma piadinha ruim como quebra-gelo. Como creio, também, que meus leitores, ao contrário dos leitores do ortônimo, passam longe de ser mongoloides, sequer gastarei mais linhas explicando o caso que incitou a minha volta a este espaço.

Começo dizendo que não vi, não quero ver e, em alguns casos, tenho raiva de quem gastou mais do que 30 segundos de sua vida vendo e curtindo ou descurtindo um comercial de uma perfumaria. Como, todavia, a polêmica não demorou a chegar aos ouvidos do ortônimo, não me foi difícil obter uma ou duas pieces of information mais do que suficientes para chegar ao seguinte diagnóstico sobre o caso: a polêmica Boticário só prova, no fundo, o que já se vinha falando de outra maneira neste blog há muito tempo, ou seja, que os politicamente corretos da direita são os piores.

Explico: qualquer pessoa com mais de 10 anos de idade e com mais de dois neurônios ativos na cabeça já deve ter ouvido falar muito sobre como os politicamente corretos enganam a quase todos por algum tempo com suas falsas e irrealizáveis promessas de um mundo melhor e com sua mentalidade coletivizante. Comete-se, porém, o erro de sempre se esquecer de que entre os politicamente corretos da esquerda e os da direita há mais diferenças do que pressupõe qualquer vã filosofia política: enquanto aqueles, em nome de um projeto totalitário de sociedade, revestem-se com o manto da tolerância e da inclusão¹, estes, os da direita, tão limitados propagandisticamente de tão moralistas e tão moralistas de tão limitados propagandisticamente e em nome de um projeto no mínimo provavelmente autoritário em essência (porque, sim, desejar corrigir a sociedade moralmente apelando à intervenção estatal é autoritarismo, quando não o totalitarismo em si), insistem em dar aos da esquerda a oportunidade de cobrir-lhes,  quando falam perante o público, com o manto da intolerância, da exclusão e, mais preocupante ainda, da escrotidão.

O politicamente correto da direita é, então, tipicamente um tolo. Balizado na estúpida convicção de que não é a propaganda a alma do negócio “política”, ele crê piamente que, sem  precisar utilizar o próprio cérebro em prol da verdade, esta surgirá das cinzas e, algum dia, as pessoas perceberão que a esquerda estava errada e, finalmente, seguirão bovinamente os ensinamentos de uma direita iluminada sem, nunca, levantar um dedo que seja para a contestação. Na sua tentativa, então, de confiar em algo para além do humano, isto é, em algum tipo de ideal, esse setor mais reacionário da direita se esquece de que quem trabalha, em política, com o ideal não é o lado destro do espectro e que este lado, segundo sua própria propaganda, trabalha com o real, ou, em outras palavras, crê, corretamente, que “política é a arte do possível”, e não a arte do que “eu quero” porque “eu quero” ou porque “a moral da minha Igreja dita x e y, portanto só vou aceitar o mundo desse jeito”.

Não raro vemos esse tipo de pessoa levantar a mão e perguntar: “ah, mas não é direito das pessoas não gostarem de algo e se manifestarem contra?”. Evidente que sim. Tanto eu como o ortônimo seríamos dois dos primeiros a insurgirmo-nos contra qualquer tipo de censura. Como meu jovem e inexperiente amigo brasileiro explicou detalhadamente há alguns dias, no entanto, quando se confronta um sujeito militante que fala besteira, o caso não é de censura, também porque não se invoca o aparato repressor estatal nesses casos, mas de chamá-lo ao bom senso para evitar que, na ânsia de papagaiar suas ideias pelo mundo melhor, o supracitado acabe, na verdade, trazendo prejuízo à própria causa por não ter medido direito não só que ideias defender, mas que palavras usar.

Ou, traduzindo para o contexto da “polêmica”, todo grupo militante tem o direito de pedir a seus adeptos boicote contra o que quer que lhe venha na cabeça. Resta saber, ainda assim, o que os neutros pensarão sobre o caso. Os politicamente corretos da direita, por exemplo, certamente vêm fazendo, há muito tempo, boicote contra um produto chamado cérebro (recusam-se, afinal, a usá-lo). Sua iminente derrota em mais esse equívoco político nos mostra, sem dúvida, que os neutros certamente acharam esse boicote muito aceitável… só que não.

Ludovico Kasprov é jornalista e trabalha de heterônimo nas horas vagas. E não é que mais um de seus posts concorre ao prêmio Jean-Paul Sartre na categoria “coisinha mais feinha do pai”?

 ¹ Aos que vierem falar que esse manto colocado pelo politicamente correto de esquerda pode ser facilmente desnudado, concordo, só que o problema não é tanto que manto eles colocam sobre si mesmos, mas sim o que colocam sobre seus adversários.

PS (por Octavius): Acabei vendo o tal comercial da Boticário e, seriamente, senti o mesmo que Flávio Morgenstern sobre o caso todo.

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