A crucificação e a militância GLBT, LGBT “or something along those lines”: explicando aos cristãos brasileiros que só se colhe o que se planta

Antes de ler este texto, o leitor deve ter em mente que o autor é um ateu do tipo que não liga a mínima para dogmas religiosos e que, ao mesmo tempo, seria o primeiro a defender liberdade religiosa em certos casos. Ou seja, vir dizendo “você só diz isso porque é ateu” ou “materialista imbecil!” (mesmo eu nunca tendo me declarado um ateu materialista) ou alguma outra baboseira do gênero tem o mesmo efeito que nada e é considerado, por este que digita, prova da inépcia mental de certos setores da cristandade brasileira.

Houve, recentemente, mais uma das famosas paradas LGBT e, logo após a polêmica Boticário comentada por meu heterônimo, o resultado não poderia ser outro: mais uma polêmica em menos de uma semana envolvendo cristãos conservadores (principalmente, apesar de não só) contra militantes esquerdistas em geral, quer militantes da causa LGBT, quer não. Desta vez, o que gerou a celeuma foi a imagem de um (ou uma, segundo alguns) dos militantes sendo crucificado pelo preconceito, em uma clara alusão ao profeta amado justamente pelo grupo que, no Brasil, mais vem se opondo a esse tipo de militante, que são justamente os cristãos conservadores – e muitas vezes olavettes, porque nada é tão bom que não possa melhorar, só que não – e que, agora, tendo o deputado Marco Feliciano como porta-voz principal, acusam os militantes de cristofobia (ou seja, de perseguição sistemática contra e de ódio aos cristãos) e tentam expor a hipocrisia da parte esquerdista dos LGBT que, simultaneamente, pede respeito enquanto desrespeita símbolos culturais e religiosos sagrados a boa parte da população brasileira.

Primeiro, é óbvio para o leitor que me conhece um pouco melhor que meu desinteresse por qual seria a simbologia da crucificação de Cristo e por qual seria a desconstrução e subsequente reconstrução de paradigma empreendida pelos ativistas gays de esquerda chega a níveis tão alarmantes que considerarei desnecessário gastar mais do que estas linhas para citar que essa é uma das discussões que ganhou a internet após o início da polêmica.

Isto significa, então, que não entrarei em maiores detalhes sobre o assunto também porque, por incrível que pareça a alguns ingênuos cristãos, muitos inclusive algumas das melhores pessoas em termos de caráter com quem já travei contato na internet, se ater a essa discussão é fugir do foco, da questão principal norteadora do pensamento do cristão desejoso pelo menos de encontrar para ela uma resposta e, com isso, talvez começar a marcar gols politicamente contra a esquerda: por que foi tão fácil à esquerda jogar nos conservadores o rótulo de intolerantes no caso Boticário e a mesma facilidade não é encontrada pelos conservadores ao tentarem colar o mesmo rótulo sobre os esquerdistas?

Ide e não peques mais… politicamente I

Para quem me é leitor há algum tempo e sabe como autores como o ainda pouco conhecido Luciano Ayan, o recentemente publicado Flávio Morgenstern e o já calejado Olavo de Carvalho exercem sobre mim influência considerável quando o assunto é pensar sobre política, não será difícil imaginar que tentarei responder a essa questão sob o signo da guerra política ou, como fiz com o texto de meu amigo Marcos Lannes de certa forma, sob o espectro da desconstrução e da reconstrução.

Antes de tudo, é necessário ter em mente que, por uma série de motivos, não considero muito efetivo ficar chamando esquerdistas de hipócritas quando defendem tolerância na teoria enquanto, na prática, o que fazem é justamente não tolerar. Porém, parto dessa posição não por achar que a hipocrisia acaba sendo um dos pilares da política, mas por tomar por base justamente uma das premissas fundadoras da nova narrativa conservadora para o momento político brasileiro atual.

Explico: segundo os conservadores, o Brasil do PT estaria passando, similarmente à Venezuela, à Argentina e a outros vizinhos sul americanos, por um processo de transição entre um regime democrático, ainda que com as chagas de um populismo culturalmente arraigado desde os coronéis, e um totalitarismo cruel que em nada deveria para os totalitarismos do século XX. Não quero aqui julgar se essa narrativa está ou não adequada à realidade, mas a aceitarei momentaneamente apenas para manter a linha de raciocínio e dialogar sem maiores problemas com o leitor mais conservador.

Se aquilo em que o Brasil se transforma é de fato um totalitarismo, a consequência lógica é que, assim como em qualquer mudança política, deve haver sintomas de que essa mudança está em processo. Segundo Hannah Arendt em seu As Origens do Totalitarismo, uma das características marcantes tanto da Alemanha sendo engolida pela mentalidade nazista hitleriana quanto da Rússia sofrendo o mesmo pelas mãos do comunismo stalinista era justamente, quase no fim do processo, a relativização quase total dos valores, sendo considerados importantes apenas os valores úteis à causa ou, para nos utilizarmos de uma linguagem típica dos autores que versam sobre o tema totalitarismo, ao Partido. Arendt relata inclusive que, nesses momentos finais, a militância se encarregava de relativizar a própria noção de assassinato, tornando-a simultaneamente uma virtude quando em favor do Partido e uma abominação quando contra os interesses partidários – algo que, segundo alguns analistas, acontece muito com os intelectuais brasileiros, apesar de, pelo visto, 87% de pessoas querendo a redução da maioridade penal ser uma boa evidência de que talvez isso ainda não seja totalmente sentido pela população.

Aqueles que estudam constantemente sobre política sabem, porém, que, mesmo se os valores centrais de uma sociedade ainda não estiverem “relativizados”, já é possível ao grupo ambicioso pelo poder causar muitos estragos se os valores aparentemente periféricos já passaram por esse processo.

Tal é o caso do combate à hipocrisia. Ora, é crença comum a muitos (inclusive a este blogueiro) que, queiramos ou não, gostemos ou não, acabamos sendo hipócrita ao menos uma, duas ou 425 vezes ao dia e que, justamente por isso, quem constantemente acusa a hipocrisia alheia pode ser, na verdade, justamente um hipócrita que tenta escapar ao julgamento social jogando o seu fardo nas costas alheias.

Outrossim, não podemos nos esquecer de um detalhe, isto é, da incrível sagacidade política de uma esquerda que, por mais combalida que esteja intelectualmente, ainda consegue, sem muito esforço, dar de dez a zero em uma direita que ainda surge no cenário nacional com a promessa de novas propostas. Não adianta muito chamá-los de hipócritas perante a plateia, então, porque é muito provável que ou a plateia já está anestesiada como no totalitarismo descrito por Arendt (ou seja, se todos são hipócritas, o que custa acreditar no hipócrita que eu já conheço e que muitas vezes admiro secretamente pacas?) ou o próprio militante conseguirá fazer o feitiço voltar contra o feiticeiro “demonstrando” (o que, na linguagem de gente normal, significa colar um milhão de links de sites ideologicamente suspeitíssimos) por “a” e “b” que o real e perigoso hipócrita é, na verdade, o oponente de direita.

Ide e não peques mais politicamente… II

Dito isto, vamos finalmente ao cerne do problema. Como já enfatizei em diversos momentos, apoiado principalmente nos ombros de Luciano Ayan, de Flávio Morgenstern e, indiretamente, de outros autores que versam sobre o assunto “guerra cultural”, é claro que, se a esquerda tem alguma qualidade em política, é justamente o fato de não se furtar ao combate ideológico e, mais ainda, de incentivá-lo, ainda que atraia para si o risco de ver surgir novas personalidades que desejam, justamente, a queda esquerdista.

Dos gays esquerdistas, então, nem se fala, e melhor exemplo não há do que o psolista Jean Wyllys. A questão, no entanto, fica justamente com seus oponentes: e os conservadores, ou, neste caso, os cristãos?

Podemos ver o que os conservadores cristãos andaram fazendo nesse aspecto nos últimos anos justamente em duas “respostas” dadas por eles aos acontecimentos da última parada gay, sendo a primeira do site Aleteia e a segunda do site Terça Livre, já aqui citado em minha altercação com o amigo Italo Lorenzon quando da primeira polêmica envolvendo Marco Antônio Villa, Reinaldo Azevedo e a direita.

Primeiro, vemos, em “Democracia é quando eu mando em você. Ditadura é quando você manda em mim.” uma série de erros crassos, que começam com o tom do texto em si, isto é, um tom condescendente, um tom de piedade piegas e carola que, usado contra inimigos políticos, só pode ser motivo de risadas, enquanto que, perante os neutros, irrita justamente pelo tom de ainda tentar, contra alguém que lhe está achincalhando de todas as maneiras possíveis, a “salvação” por meio de uma retórica pouco convincente, a não ser justamente para quem já é convertido e já entende de que fundamentos o site parte quando propõe a sua visão de Cristianismo.

Pregar para convertidos, então, é o segundo erro, sendo o terceiro, justamente, também adotar, enquanto se defende uma ideia, o tom do “deixa disso” justamente para evitar ser mal interpretado enquanto, do outro lado, a mesma concessão NUNCA é feita, a não ser justamente pelas pessoas que são gays e que não têm interesse em política ou em esquerda. Por derradeiro, é sempre bom lembrar o erro de acusar a hipocrisia alheia em uma sociedade em que isso já deixou de ser motivos para limbo político para esquerdistas.

No segundo artigo (na verdade, um editorial), Crucificando os fatos, escancara-se o pior dos erros mais recentes dos conservadores cristãos, que é, nessas situações, apelar justamente para a carta Constituição, a Proibida achando que com isso irão despertar a ira legalista do povo que talvez seja, em todos os sentidos, o mais anti-legalista do planeta. Se muito, conseguiram, no máximo, provar a este articulista a cretinice e a falta de clareza inerentes ao artigo 208 da CF, este regulando a liberdade religiosa no Brasil.

Sem descer a minudências e sem analisar todos os aspectos possíveis, é muito bonito, por exemplo, proibir pessoas de “impedir ou perturbar cerimônia ou prática de culto religioso” quando este culto religioso se resume a orações silenciosas ou liturgias e louvores e não envolve atos que nos parecem absurdos ou mesmo bárbaros. Em suma, é muito lindo aplicar esta lei quando falamos de Cristianismo e de muitas outras religiões que seguem modelo parecido, mas o que se deve fazer, então, quando parte essencial do culto for justamente uma afronta clara a qualquer lei civilizada? Em alguns cultos, há, por exemplo, o sacrifício humano. A lei de liberdade religiosa, então, sobrepõe-se ao valor da vida humana?

Percebe-se, então, o que os conservadores andaram fazendo: junto com o espírito anti-Política do positivismo milico, o que nossos amigos conservadores cristãos acabaram fazendo foi, pois, tornar um povo já sem tradição de debate político anódino, ingênuo e irritantemente condescendente (quando isso NÃO é “the best course of action”) quando precisa envolver-se, mesmo que minimamente, em qualquer debate. Neste sentido, só plantam o que colhem. O problema, porém, é saber se ainda há tempo para um novo plantio…

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Ganhou a exata quantia de 0 reais para esclarecer o óbvio. Será que rola um Patreon?

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