Eu, Apolítico – De como doutrinação escolar NÃO é igual a abuso sexual

Em resposta a um meu comentário em seu blog em um post a favor da bobagem chamada “Escola Sem Partido”, o amigo Luciano Ayan, pouco conhecido (injustamente, em minha opinião) escritor de ideias políticas não novas, mas revolucionárias, diz que “doutrinação escolar é como abuso sexual. Devemos proteger as crianças”.

É óbvio para qualquer um que o acompanhe há algum tempo que, ao dizer isso, Luciano se baseia em uma declaração (e um frame genial, diga-se de passagem) do autor ateísta e biólogo britânico Richard Dawkins sobre a questão da doutrinação religiosa em escolas, alegando justamente que esse tipo de doutrinação é pior do que abuso sexual.

Não quero aqui entrar na questão da hipocrisia de Dawkins ao ser contrário à doutrinação religiosa enquanto certamente aprovaria uma doutrinação humanista secular, também porque acho inútil ficar apontando hipocrisias em inimigos políticos (principalmente porque, por incrível que pareça a alguns, não sou um militante político, ao menos não diretamente). Pretendo me ater ao mérito da questão em si e, sem mais delongas, explicar ao leitor por que motivos considero a analogia de Dawkins e de Ayan nada além de falsa.*

Quando Richard Dawkins chorou

Quando buscamos igualar dois fenômenos, quer políticos, quer de outra natureza, temos, primeiro, de examinar se não há qualquer diferença que os separe de tal maneira que seja justamente impossível ser feita a analogia.

Aparentemente, isto é, examinando apenas a superfície da questão, não é isso que acontece entre doutrinação escolar e abuso sexual, posto que, para a maioria dos indivíduos, ambas as práticas são imorais porque abjetas e abjetas porque são duas das piores formas de violência, uma psicológica e a outra física (o que não é a diferença relevante sobre a qual falei, também porque violência psicológica continua sendo violência), que se possa praticar contra indivíduos.

Entretanto, o caso é que, já na minha definição, há um problema: considerei como indivíduos veem esses atos, mas a questão é justamente que, em sua maioria, as pessoas não conseguem alcançar essa categoria, isto é, a maioria das pessoas são o que chamamos de homem-massa, ou seja, veem o mundo de modo muito parecido com os outros homens-massa porque sua psique funciona de modo totalmente diferente daquela do homem que consegue chegar ao status de indivíduo.

Explico melhor: em Psicologia das Massas e a Análise do Eu, Sigmund Freud, um dos pensadores mais influentes do século XX, esboça, em uma série de ensaios, sua teoria sobre o contraste entre a psicologia do humano enquanto indivíduo e a psicologia do humano enquanto ser pertencente às massas, isto é, a grupos, movimentos, partidos políticos, grupos religiosos organizados e grupos sociais em geral.

No livro, o criador da Psicanálise destrincha quais seriam, então, as diferenças essenciais entre o indivíduo e o homem massificado. Uma delas é que, enquanto membro de um grupo, a tendência de violência do homem-massa cresce muito, sendo um tipo ideal do qual algum safado totalitário pode se utilizar para chegar ao poder. Outra, um pouco mais importante, é que, normalmente, as massas tendem a ser mais imorais do que indivíduos, apesar de haver casos em que essa regra se torna exceção.

Porém, o problema se origina quando vemos a principal das diferenças, que é justamente a tendência do indivíduo de se rebelar enquanto que as massas tendem a se deixar guiar por políticos, gurus e toda sorte de pessoas que se prontifiquem a guiá-las. Para qualquer sistema, mesmo o democrático, que queira se manter intacto ou pelo menos receber o menor dano possível, é melhor, pois, que haja uma forma ou de minimizar os “danos” que os indivíduos possam causar ao sistema ou de minimizar a existência de indivíduos em si.

É aí, então, que reside a grande diferença, porque a doutrinação, não importa de que tipo, serve justamente para massificar o pensamento e evitar ou minimizar, com isso, qualquer tipo de rebelião que prejudique a coesão social e, contrariamente ao que mentem a maioria dos professores, a melhor forma de se evitar a rebelião é justamente dando mais educação escolar às pessoas, pois é justamente esse o tipo de educação, principalmente no Brasil atual, que mais é legitimado pelo discurso comum a todo tipo de militante e de canalha para que se construa “o mundo melhor”.

A diferença entre abuso sexual e doutrinação escolar fica, pois, óbvia, já que aquele ato é tão repulsivo, seja instintivamente, seja porque somos ensinados ou, melhor dizendo, doutrinados (!) a repudiá-lo desde cedo, que aceitá-lo como legítimo e normal dentro de um grupo social seria o mesmo que condenar esse mesmo grupo a uma espécie de suicídio coletivo, enquanto a doutrinação, por sua vez, principalmente se consideramos, como os pessimistas como eu e Luciano Ayan, que o homem não é bom por natureza, é justamente a forma mais eficiente e muitas vezes NECESSÁRIA de se criar coesão social e de se evitar, ao menos por um tempo, rachaduras dentro de um grupo.

Igualar doutrinação escolar e abuso sexual é, portanto, igualar quadrado a círculo, direitismo a inteligência política e comunismo a honestidade, ou seja, é um absurdo lógico.

Ainda assim, persiste, ao menos para mim, que procuro cada vez mais me distanciar da figura do homem massificado**, um grave problema: há alguma forma de se minimizar os maus efeitos da doutrinação e de torná-la pelo menos menos abjeta?

Contra um mundo melhor, porque o único mundo possível é aquele em que vivemos

A resposta óbvia para a pergunta é sim. Neste sentido, podemos desconstruir parte da citação de Dawkins para em seguida reconstruí-la. Com isso, digo que não apenas a doutrinação escolar religiosa, mas também a doutrinação escolar humanista e a doutrinação escolar político-ideológico são tão abjetas quanto abuso sexual.

O principal problema, porém, não está no fato de serem doutrinações, mas de todas essas doutrinações partirem de uma premissa errada: a de que, ao reformarmos a psicologia das crianças para formarmos os adultos que desejamos no futuro, temos alguma chance de melhorar o mundo.

Não, caríssimos. Melhorar o mundo, principalmente baseado na ideia equivocada de que há outros mundos possíveis, não é possível. O único mundo possível é justamente aquele em que já vivemos, e, se conseguirmos não piorá-lo, já teremos feito até demais.

No máximo, o que podemos fazer é torná-lo um pouco menos pior e, se é de fato necessário educarmos as crianças moralmente na escola – o que acaba acontecendo de qualquer modo, já que muitas vezes o professor é um dos exemplos mais marcantes em nossa vida em todos os aspectos -, que as eduquemos não a favor de um mundo melhor, pois esta é uma carga pesadíssima por se tratar de uma missão impossível, mas para um mundo um pouco menos pior. Que as eduquemos não necessariamente para os valores mais certos, mas para os menos errados.

Que as eduquemos, enfim, talvez não para o pessimismo, mas para o realismo. Afinal, se esse tipo de educação der errado ou muito errado, o máximo que teremos serão alguns pessimistas desiludidos, e geralmente pessimistas não fazem mal a ninguém a não ser a si mesmos. Se der certo, ao menos nenhuma tragédia grande acontecerá. Por fim, se, por algum Sobrenatural de Almeida educacional, der muito certo, talvez até mesmo o mundo acabe melhorando sem que percebamos.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Só não é pessimista porque até os pessimistas parecem otimistas perto dele.

*Mesmo assim, ainda considero que o frame, se se mostrar eficiente, o que duvido muito no caso da “doutrinação escolar esquerdista”, pode ser usado. Qualquer leitor sabe que eu seria o último a tentar dissuadir um político ou um militante de usar-se de uma falácia também porque a política inteira é, de certa forma, baseada em falácias. Meu texto é direcionado, pois, àqueles que querem pensar sobre o assunto sem as amarras da militância. (Além do mais, duvide-o-dó que qualquer militante de esquerda queira usar um texto de alguém que eles próprios não consideram relevante ou digno de crédito contra a direita)

**Pode parecer estranho a alguns, mas sou dos que acreditam, conhecendo a psicologia do brasileiro-massa, que este não só não rejeitaria a doutrinação a priori como também a consideraria a melhor forma de evitar que “nossas crianças sejam corrompidas por x, y ou z”. Quem quiser exemplos disso pode perguntar ao brasileiro comum o número de tópicos em que quer regulação estatal, ou mesmo se este brasileiro deseja que a escola  (ou seja, um órgão estatal destinado justamente a massificar pensamento) de seu filho ensine valores religiosos e morais desde cedo.

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4 comentários

  1. Gostei do texto, e lembrei de varias citações como a de Oscar Wilde : “Há três tipos de déspotas: O que tiraniza o corpo: O Príncipe;O que tiraniza a alma: O Papa;E o que tiraniza o corpo e a alma: O Povo. ” O abuso sexual seria uma forma de escravizar o corpo do outro, e doutrinação escolar , a alma das pessoas, e neste sentido é como Cu de bêbado que não tem dono, quem manda ser tonto, tomou todas e liberou geral agora arca. Desculpa a brincadeira mas é pra exemplificar o que vc disse.
    A questão tb é se amamos ou odiamos o homem massa,alguns o odeiam , outros usam para conseguir o que querem, amar o homem massa mesmo é pra poucos, é um caminhar direto para cruz.
    Vejo que vc gosta do Nelson,pois há citações em alguns do seus textos – Então gostaria de cita-lo: “a virtude é magra, seca e raquítica” Sendo o amor a virtude mais dura e pesada para se carregar.
    Há de se pensar tb se é que não somos o homem massa, ou se não é preferível ser um. Pois tenho certeza que não sou este niilista ativo , o Ubermensh. Não posso dizer que não teria jogado pedra na cruz.
    Sou mais um Cowboy fora da lei.
    Desculpa minha citações religiosas, me considero muito mais religioso que politico.

    1. Rapaz, este blog não é de um neoateu, portanto faça as citações religiosas que preferir, mas, porra, poderia comentar algo com um pouco mais de sentido, não? Sinceramente, eu não consegui sequer entender qual foi o sentido da tua réplica e de ela ter vindo parar neste blog e neste texto.

      De qualquer maneira, agradeço pela audiência.

      Abraços,
      Octavius

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