Algumas razões pelas quais abandonei o ateísmo militante

Motivado pelo amigo Pirula em seus dois vídeos recentes sobre a questão da Cristofobia, que é mais uma derivada dos recentes embates entre militantes cristãos e militantes LGBT, decidi compartilhar com o leitor alguns pensamentos sobre por que motivos abandonei o ateísmo militante que caracterizou alguns dos meus escritos nos primórdios (ou nem tanto) de meu antigo blog, agora vivo novamente, O Homem e a Crítica.

Vendo alguns dos comentários, selecionei alguns pontos do pensamento ateísta militante para destrinchar neste texto. Vamos a eles.

Da tirania do livre-pensamento

Um ponto estranhíssimo do atual ateísmo militante é expresso em um dos comentários:

“O Brasil por ser um país bastante atrasado e manipulado pela crenças cristã, poderá levar vários séculos até a maioria se tornar livre pensadores.” (sic)

Dou enfoque à última expressão. Desconfio que, ao escrever seu comentário, o indivíduo não percebeu o real peso da expressão “livre pensador”, que pode ter dois significados, pelo menos, diferentes: ou se trata de um pensamento realmente livre e independente, ou se trata de pensamento antiteísta puro e simples. Neste caso, usa-se um hífen e se nomeia o sujeito adepto desta corrente como livre-pensador.

Dado o nível de conhecimentos sobre a língua pátria por parte do comentador, considerarei a expressão como ambígua e a interpretarei de duas formas.

Se o caso for o primeiro, o comentador em questão (e não é nem de longe o único de sua espécie, como é possível ver em quase todos os posts de páginas como a ATEA) está simplesmente iludido ou está sendo deliberadamente desonesto, posto que qualquer um que conheça o mínimo sobre psicologia das massas* sabe que uma das características mais marcantes das massas (ou, como diria nosso sociólogo de bar, da “maioria”) é justamente a do pensamento massificado, automatizado e, mais ainda, manipulado (!) por uma série de pilantras aos quais confiaram, quando não seu voto, sua mente e sua vida. Sempre haverá, pois, crenças que manipulam países, mesmo que essas crenças não tenham qualquer fundo religioso.

Assim sendo, falar em “maioria” e “pensamento independente” ao mesmo tempo é, se não ingenuidade ou desprezo à lógica, recorrer ao que Orwell descreve em seu fantástico “1984” como “duplipensamento”, isto é, defender duas crenças contraditórias ao mesmo tempo para ganhar, com ambas, poder político.

Livre pensamento por parte da maioria é, pois, uma ilusão, seja em sentido freudiano (ou seja, algo que se deseja mesmo sem saber se é possível ou verdadeiro ou não), seja em sentido orwelliano.

Se o caso for de antiteísmo, a análise fica ainda mais simples, pois o que temos é só um esboço da tirania mental de uma minoria de ateus militantes contra uma maioria que, por diversos motivos, entre eles a própria tendência das massas à barbárie quando deixadas sem guia, PRECISA de religião em sua vida.

Nada diferente, portanto, do que os setores religiosos mais extremistas propõem. Só mais utópico ou, como desconfio, mais desonesto.

A confusão entre Estado e sociedade: os laicistas contra-atacam

Também é perturbador o número de ateístas militantes que vêm apelando sem dó nem piedade (e, mais ainda, sem vergonha) ao argumento de que, como o Estado é laico, o papel das religiões, principalmente das majoritárias, na política deveria ser minimizado ou mesmo tornado completamente nulo e inexistente.

Esses mesmos sedizentes guardiões da racionalidade, porém, estão apenas brigando contra os fatos, pois, em uma sociedade moldada por dogmas religiosos cristãos e, em menor extensão, por dogmas de outras religiões, é simplesmente impossível que a religião nunca influencie na política.

É uma questão axiológica: é claro que tomamos nossas decisões e agimos baseados nos valores que carregamos conosco, e isso, no caso, não só inclui como também faz se destacarem valores religiosos ou antirreligiosos. Se consideramos também política como inerente ao homem enquanto ser social, ou seja, que todo ato é um ato político, é só juntar dois mais dois e somar quatro ou, melhor dizendo, perceber que, mesmo muito indiretamente, a influência religiosa em todo tipo de decisão política é inescapável.

Outros preferem propor uma falsa questão, que é a de que há uma bancada cristã, mas não uma bancada de outras religiões. Ora, além de não estar proibido que alguém se candidate em nome de uma comunidade religiosa específica** e de qualquer lei que privilegie descaradamente uma religião poder ser dada como inconstitucional, a real questão é: por que as outras religiões ainda não se organizaram nesse sentido?

É claro que, em tese, um deputado deveria representar todos. O problema, porém, é que quem quer representar todos, em política, acaba representando nenhum. É mera questão de prioridade. Ou, sei lá, de saber cobrar os próprios direitos sem criminalizar estratégias políticas que não sejam ilegais.

Mitofobia

Por fim, outro traço que percebi no ateísmo militante é o desprezo pelo aspecto mitológico das religiões, tratando mitologias como meros conjunto de fábulas que os pais contam aos filhos antes de dormir para forçá-los à obediência.

Também segundo essas pessoas, seria justamente o apego ao pensamento baseado no mito, e mais especificamente nos mitos de origem abraâmica (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), que teria  deixado o país à margem quando o assunto é desenvolvimento social.

Economicamente falando, nada é mais simplista e mais batido do que atribuir a um aspecto ideológico isolado as falhas de um sistema político todo, sendo que esse “argumento” simplesmente desconsidera que a maior economia mundial e um dos países mais desenvolvidos do mundo até hoje é justamente o extremamente puritano (ou seja, extremamente apegado à mitologia cristã) Estados Unidos da América, além da anglicana Inglaterra, das católicas Espanha e França e, historicamente, do império romano pagão e do império persa zoroastrista, entre outros.

Por outro lado, filosoficamente falando, já se incorre em um erro ao se desprezar o conceito de mitologia. Mitologia, na verdade, não é “conjunto de contos de fada para contar ao seu filho antes de dormir para mantê-lo obediente” ou “mentiras para manipular o povo”, mas um conjunto de narrativas de valor moral que servem de guia para a conduta dos indivíduos de determinada sociedade em que, antes, tudo o que havia era o abismo para o qual, se olharmos em excesso, nos absorverá de modo inescapável e terrível, o que não é benéfico para qualquer sociedade que queiramos examinar.

Aliar-se a quem divulga as três falácias aqui citadas só pode, portanto, servir como atestado de desonestidade intelectual.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Há uma grande chance de passar a ser chamado de “ateofóbico”  ou de “cristão” pela esquerda ateísta imbecil depois desse texto. Como ateu, só pode agradecer pelos elogios.

*Recomendo o livro de Freud, “A psicologia das massas e a Análise do Eu”, para quem quiser se aprofundar um pouco mais sobre o assunto. Posteriormente, “As Origens do Totalitarismo”, de Hannah Arendt, é não só recomendável como fundamental.

** Poucos sabem ou parecem saber, mas o conceito de Estado laico se refere a decisões administrativas e legislativas a serem tomadas, e não à mera participação política em si. O indivíduo religioso tem, pois, pleno direito à participação política. Ou a esquerda “democrática” quer tornar inelegível 90% da população?

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