Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade I

Continuando a série Dessacro – Os Ensaios Profanos, quero expor agora outro dos mitos cujos adeptos precisam ser urgentemente expostos como os duplipensadores mirins que de fato são: o demônio da imparcialidade.

Se nos submetermos a pelo menos dois anos de graduação em cursos como Letras, História, Filosofia ou Sociologia, que, para alguns, entre eles o autor destes ensaios, sequer deveriam ser invocados na mesa de jantar das famílias indecentes, quanto mais das decentes, sairemos pensando (corretamente, diga-se de passagem) que imparcialidade no discurso pertence à mesma categoria de “Branca de Neve” ou “Bela Adormecida”, ou seja, aos contos de fada.

Isto significa dizer que, por mais que tentemos neutralizar ao máximo nosso discurso para torná-lo menos utilizável por vigaristas de toda sorte, haverá sempre o resquício do humano, sendo justamente essa fagulha que inexoravelmente dará ao texto ou ao resultado de nossa produção os contornos que caracterizam seu autor e/ou os valores que este adota, sejam estes valores científicos, metodológicos, religiosos ou de qualquer outra estirpe.

Significa, outrossim, que a demanda por imparcialidade, principalmente quando o assunto é política, é, per se, um forte indício de vigarice intelectual.

O problema, todavia, é que, na era da cretinice e da imbecilidade, justamente essa é a vigarice que mais domina os grandes, os pequenos, os médios, enfim, todos os tamanhos de meios de comunicação.

Garanto, por exemplo, que o leitor “imparcial” destes ensaios certamente sentiu seu puritanismo de boteco chegar ao nível máximo quando, no ensaio anterior, citei o caso do suposto “sem ideologia” que seria, na verdade, um petista fanático. Pode ter perguntado para si mesmo, sem coragem de comentar publicamente: “mas que sujeitinho parcial! Por que não cita também os casos em que o cara é de direita ou liberal mas nega o fato até a morte?”.

Primeiro, acho engraçado os pregadores do relativismo total (explico isso em um ensaio posterior, prometo) virem me inquirir sobre fatos ou lógica. Segundo, a resposta, caros, está justamente no trecho anterior à pergunta: porque, e aí parte desses leitores “imparciais” estão certos, não existe discurso neutro, isto é, porque todos acabam sendo parciais para ou contra algum lado.

O problema real, então, não é ser parcial, mas querer que a única parcialidade aceita por meio legal seja a própria, não é, esquerda pós-moderna?

Quando me digo um apolítico, por exemplo, não o faço porque, no conflito direita x esquerda, sou um imparcial, mas exatamente porque rejeito o pensar doutrinário e massificante de ambos os lados, desde o stalinismo perverso e totalitário até o reacionarismo religioso antipolítico. Sou, sim, parcial contra os dois lados, mesmo admitindo que ambos precisam ter a permissão de existir pelo bem da liberdade.

Quando escrevo estes ensaios, pois, indigno-me seletivamente e, certamente, milito, a meu modo, por causa própria.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Quando vê gente “imparcial” na rua, atravessa do outro lado.

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