Dessacro – Os Ensaios Profanos – O demônio da imparcialidade II – Indignando-me seletivamente e militando por causa própria

Ainda no assunto imparcialidade, é rotineiro ver, em discussões políticas, toda sorte de desonestos intelectuais reclamando que, ao não mencionar os casos x, y, z e delta, os interlocutores do outro lado da moeda ou estariam se indignando seletivamente ou militando por causa própria, sendo ambas as opções consideradas o cúmulo da cretinice intelectual.

Só é cretino intelectual mesmo, porém, aquele que, diante de uma plateia incauta, apela para esse expediente político vigarista de quinta, e isto por motivos bem simples.

Partindo do pressuposto existencialista da inevitabilidade do ato de escolher entre seres humanos, não é difícil perceber que, gostemos ou não, a vida é feita de escolhas, inclusive quando optamos por apenas cumprir ordens ou um destino escrito em um “grande rolo”, como brincaria o personagem fatalista (ou autodeclarado fatalista, como prefiram) de Diderot.

Isto posto, se escolho viver em Pernambuco e não em qualquer outro estado brasileiro, ou mesmo se nada tento para mudar de região, aceito como consequência que, na maior parte das vezes, os problemas com que mais me preocuparei não serão outros que não os que me afetem imediatamente, isto é, procurarei notícias pernambucanas e não cariocas, paulistas, baianas ou capixabas.

Sabem qual é o nome desse conceito que acabei de descrever com um experimento mental simples? É, pasmem, indignação seletiva (!).

Além disso, um dos problemas essenciais da política é que, para ser eficiente, é muitas vezes preciso dar prioridade, ou seja, se indignar seletivamente, mesmo que por poucos momentos, aos problemas que pareçam mais urgentes no momento político em que se vive para se ter alguma esperança de resolvê-los – se é que “resolver” problemas políticos é realmente possível.

A tal Revolução de 13 é exemplar para demonstrar o que defendo, pois foi justamente quando os manifestantes passaram de uma certa indignação seletiva quanto ao reajuste de 20 centavos na passagem do ônibus para toda aquela patacoada uma luta ampla demais que o movimento foi enfraquecendo até só sobrar dele a cretinice sistemática dos black blocs e da esquerda imbecil brasileira.

O problema, pois, não é se indignar seletivamente, mas se indignar seletivamente com o que é momentaneamente menos ou nada relevante.

Dica para o grupo que pensou em reclamar de minha parcialidade no primeiro ensaio: na dúvida, mesmo que os dois atos sejam igualmente errados, é mais preocupante que quem tem o maior poder de polícia e o poder de repassar verbas aos estados tenha o nome envolvido em esquemas de corrupção ou de pura má administração do que quando um governador desses estados tem seu nome envolvido no mesmo tipo de problema.

Para entender esse raciocínio (e milito por causa própria em outra ocasião ensaística, prometo), é só perceber que, se houver desgoverno ou atos arbitrários em um estado, é à União que podemos recorrer; se houver desgoverno ou atos arbitrários na União, só podemos recorrer, se tivermos tempo, à até hoje anódina ONU. Isto, lógico, se não ferir a soberania nacional, ou alguma baboseira desse gênero.

Octavius é professor, graduando em Letras, antiolavette e polemista medíocre. Espera que o leitor mais esperto já saiba qual será o tema do próximo ensaio, ou então sua tentativa de fazer uma série à Nigel Warburton estará seriamente comprometida.

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